Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 20 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 4

 

DOMÍCIO andava triste desde a viagem à Pedra Bonita. Bento começou a se importunar com a tristeza do irmão. O outro era mais velho oito anos. Sabia mais coisas da vida do que ele , e no entanto andava assim, como se uma desgraça qualquer o perseguisse. Por mais de uma vez Bento fora a ele . Não era nada, era só cisma de sertanejo, dizia-lhe Domício. E Bentão de rede passava os dias com o bode a seus pés. Esperava a chuva ali de seu canto. O céu vinha escurecendo há dias e nada de chuva certa. O bode velho se deitava na calçada do copiar. Cada vez mais o velho implicava com o filho mais moço. Vinha até falando à mulher, coisa que pouco fazia. Melhor que o menino se fosse. No Araticum não cabia mais ninguém. Mas a velha se arreliou. Pela primeira vez em sua vida deu para contrariar o marido. Não tivera medo de se colocar ao lado do seu Bentinho.

— Mulher, dizia Bentão, este menino vai dar desgosto a nós todos.

— Cala a tua boca, Bentão. Deixa o menino viver. Vai para a tua rede. Tu não pode falar de cisma de ninguém. Tu mesmo só vive cismando. Bentinho qualquer dia destes vai-se embora. O Padre Amâncio não tarda a chegar no Açu.

O velho replicava:

— Este menino não presta, Josefina.

A mulher se calava, virava as costas para Bentão, mudava de conversa. O velho vinha com milho na mão para o bode comer. Alisava o couro do bicho e falava com ele como se fosse com gente. Quem estivesse de fora, sem ver, pensava que fosse conversa de gente. Era Bentão na intimidade, nos agrados com o animal. A mulher se danava com aquela mania. Falava até com os filhos. Aparício dizia que era caduquice. Mas o velho sempre fora daquele jeito. Quando não era com o bode, se pegava com outro bicho qualquer. Já fora de uma cutia que criara desde pequena. Alisava a bicha, vivia com ela dentro da rede até que ela morrera. E Bentão fechou mais a cara dias inteiros, sem dar uma palavra à mulher. Que homem! Nunca pegara num filho pequeno, nunca dera de comer a um filho pequeno, e andava com aquela cutia de rede e agora com aquele bode com agrados de toda espécie, quando não ficava horas inteiras no curral, alisando as vacas leiteiras. Foi por esse tempo que se deu o crime de Aparício. Naquele dia Domício andava por fora tirando rama para o gado. Bentão deitado na rede do copiar, e Sinhá Josefina lavando rede na beira do rio. E Bento para a banda das oiticicas. Aparício chegou de cavalo afrontado. Chamou o velho e foi dizendo:

— Deu-se uma desgraça na feira de Dores. Eu estava na conversa com um sujeito aqui da Pedra, quando apareceu um vaqueiro do Coronel Zé Gomes. Se ele vinha bêbado, eu não sabia. Só sei que o cabra me desfeiteou. Até nem queria brigar. O homem voltou com uma coisa. Foi ali que começou a briga. Dei uma bofetada no bicho, que ele caiu no chão de papo pra o ar. Quando vi, vinha mais gente. Mais três sujeitos e um praça. Me fiz na garrucha e derrubei o primeiro. Foi o praça. Caíram em cima de mim, e eu no punhal. Furei muita gente. Corri de rua afora até a cachoeira do Neco, e só tive tempo de selar o cavalo e cair no campo.

O velho Bentão ouviu o filho sem dar uma palavra. Bento veio chegando. Só depois de algum tempo o velho perguntou a Aparício:

— Tu não vai te entregar?

— Eu? Só se estivesse leso. O praça ficou estendido no chão. Se eles me pegam, me cortam em pedaços.

Aparício estava calmo, sem nenhum sinal de emoção forte.

— Bento, tu conta isto a Domício. Mãe onde está?

Aparício saiu com o irmão para a beira do rio. A velha ficou espantada com a chegada dos dois filhos.

Caiu no desespero. Quis agradar o filho mais velho, e as lágrimas lhe pulavam dos olhos:

— Meu filho, meu filhinho!

— Não precisa de visagem, mãe! A coisa se deu, está dada. Vim pra me despedir. O velho falou em me entregar. O velho só sabe mesmo tratar de bode. Já estou de rota batida pra o bando de Deodato.

— Menino, não faça isto, disse a velha. Menino, não se desgrace. Tu não deve ir para o cangaço. O teu avô morreu nesta vida.

Mas Aparício não permitia alvoroço:

— Mãe, eu só vim dizer adeus.

A velha caiu para um lado. Baixou a cabeça em cima dum lajedo do rio e começou a soluçar alto. Bento ficou com ela, consolando. Não precisava chorar tanto. Mas ela sabia a desgraça que viria sobre eles. Com um filho entrando no cangaço. A família do Araticum com mais esta nas costas. E ficou chorando. Depois saiu com Bento para casa. Bentão estava na rede com o bode junto. Era quase de tardinha. Ouvia-se o aboio de Domício na caatinga. E o Araticum parado, com o céu escuro, tudo suspenso. Um silêncio tremendo. A velha soluçava no quarto e Bento se sentiu só, inteiramente só. Àquela hora no Açu saía ele da casa do padre, subia a torre, pegava na corda do sino e tocava, tocava as ave-marias. D. Fausta dava gritos. D. Fausta queria que ele estivesse em cima dela com todo o peso do seu corpo, machucando as suas coisas. O povo da tamarineira tirava o chapéu. Rezavam no Açu quando ele puxava a corda do sina E o som furava a rua, se perdia até longe. Agora ali no Araticum via o dia morrer no silêncio. Se não fosse o aboio distante de Domício e o soluço da velha por causa de Aparício, nada se ouviria ali que dissesse que havia gente no mundo. O pai era um bicho. Então foi para o quarto e pegou na viola de Domício. Começou a mexer, a dar com os dedos no instrumento. Animou-se mais, quis cantar, fazer qualquer coisa que estivesse mais perto de sua alma. Ninguém ouviria o que ele cantasse. Ninguém estaria vendo Bento experimentando o seu coração.

No outro dia de noite ouviram barulho em redor da casa. E um grito de fora, um grito de raiva.

— Abram a porta!

Domício falou para Bento.

— É a tropa de Dores atrás de Aparício.

— Abram a porta!

E uma pancada de coice de arma estrondou na casa. O velho Bentão levantou-se de ceroula e camisa. E a velha tremendo chegou-se para junto dos filhos. O sargento já estava dentro da casa com as praças da diligência.

— Velho safado, foi dizendo o homem. Nós estamos aqui atrás do bandido do seu filho, que matou um soldado na feira. Você tem que dar conta dele ou o pau vai roncar aqui dentro.

— Seu Sargento, disse Bentão, com a fala arrastada, meu filho esteve aqui ontem e ontem mesmo foi-se embora. Mandei até que ele se apresentasse.

— Deixa de mentira, cachorro velho.

Sinhá Josefina caiu nos pés da autoridade. Bento e Domício já estavam presos para um lado.

— Onde está o bandido? gritava o sargento.

A resposta era uma só.

— Pois eu sei um jeitinho de fazer vocês todos falarem. Cabo Faustino, amarre este velho aí no alpendre!

Pegaram Bentão.

— Com cinco cipoadas ele descobre.

O couro cantou no corpo do velho. O menino tinha ido embora, ele não sabia para onde. Aí Domício gritou para o sargento:

— Bandido! Dá num velho porque não puderam com Aparício.

— Pega ele , Faustino, dá um ensino nesse safado.

E o couro cantou pela cara, pelas costas, pelas pernas de Domício.

— Fiquem sabendo o que é força do governo, filhos de uma égua. Pega o frangote, que ele descobre.

Bento estava mais morto do que vivo.

— Com ele não, disse a velha se atravessando na frente. Nele não, nele não.

A primeira cipoada cobriu a mãe e o filho. A velha arriou no chão. E o cipó-de-boi cortou o couro fino de Bento.

— Aperta o velho.

Bentão parecia sem sentidos. Domício rosnava.

— Então, disse afinal de contas o sargento, vamos levar para Dores o valentão (e apontou para Domício). Lá ele fala direitinho.

Os soldados se riam. Era já madrugada. As candeias de azeite davam uma luz de quarto de defunto. No chão, deitada, a velha Josefina chorava como um menino apanhado. O velho Bentão, para um canto, meio desfalecido. E Domício amarrado para ser levado para Dores. O Araticum escangalhado. Depois fizeram a velha se levantar para fazer café para as praças. E com o dia raiando saíram. Domício na frente com os braços amarrados para trás. As alpercatas tiniam no barro duro. Bento nem sabia onde estava. O sangue corria-lhe da cara e doía o lombo que nem podia se mexer. A raça dos Vieiras estava pagando, pagando a traição. Ficou ele assim no alpendre olhando as coisas. O Araticum se enchia de vida com a manhã bonita. Lá estavam as oiticicas de galho balançando e os pássaros cantando. E o gado no curral esperando por Domício. Viu Bentão se arrastando sair para o curral. Foi com ele . Tinha que fazer o que Domício fazia. O velho tirava o leite devagar, e ele curava as bicheiras. Eram umas vinte cabeças de gado. Toda a riqueza dos Vieiras do Araticum. O leite cantava na tigela. O cercado, onde Domício mandava, o gado que conhecia as suas mãos. Bento teve pena do irmão. A primeira grande pena de sua vida. Maior que a que sentira com a partida de Dioclécio. Um inocente pagando pelos outros. Aparício solto com os cangaceiros, e lá ia Domício de caatinga afora, ele que nunca pensara em matar ninguém, que tocava viola, que cantava com a voz tão doce, tão boa. Viu Bentão com a cara dura tirando leite, com o lombo sangrando por debaixo da camisa. Quis chorar, e teve vergonha. O velho duro nem parecia que apanhara tanto há poucas horas. O sol estava alto e o gado devia sair para o pasto. Teria que fazer os trabalhos de Domício. E foi para o pasto de cima, que estava verde. E à tarde, quando voltou, Bentão estava na rede com o bode aos pés. Nem se virou quando ele passou por perto. O gado estava no curral. O velho se levantou devagar, descadeirado, e foi tratar dos pobres. Domício já devia ter chegado em Dores, estar com os presos, cheirando aquela fedentina infeliz. O velho Bentão cuidava das vacas, e a tarde caía de manso por sobre as coisas do Araticum. Dentro de casa a mãe Josefina ainda chorava. Mal ela viu Bentinho, foi logo indagando pelas feridas das costas. E trouxe jucá para banhar as marcas do cipó-de-boi.

— Coitado de Domício, disse ela. Tu não pode calcular a bondade daquele menino. Nem parece irmão de Aparício. Não sei não. Mas vai tudo virando para a gente. Deus queira, Bentinho, que o Padre Amâncio já volte pro Açu pra tu te ires embora desta terra.

Bento consolou a mãe. Domício voltaria logo. Aquilo era só para fazer medo.

De noite sentiu-se ele mais só ainda. Ali estavam as coisas do irmão, a viola, a rede, a roupa de couro. Domício tinha mais do que ele oito anos, e no entanto nunca lhe falara de mulher. Nunca lhe dissera nada com relação às mulheres. Era cantador e nada cantava como Dioclécio, da vida. O mundo dele era ali nos campos, na caatinga, por baixo dos imbuzeiros, atrás do gado, ouvindo os passarinhos, cheirando os matos. De mulher Domício só lhe falara da cabocla da furna. Esta vivia na cabeça do irmão. Levara-o para ver a furna, o buraco na terra, onde dormia a cabocla nua que cantava para os sertanejos, fazendo tentação, chamando os homens para o fundo da terra. Só a cabocla da furna, a mãe-dágua, vivia na mente de Domício. Uma noite ele se lembrava bem. Estavam dormindo. Era numa noite de lua. E tinha vindo para a rede bem tarde. Domício andara cantando, tocando viola. Por fim, pegaram no sono. E quando foi tarde da noite, ele ouviu o irmão batendo na rede dele, tremendo com uma coisa esquisita:

— Estás ouvindo, Bentinho?

— Ouvindo o quê, Domício?

— Acerta o ouvido e vê se tu não escuta.

O silêncio da noite era imenso. Somente os sapos davam sinal de vida lá embaixo no rio.

— Não escuto nada não, Domício.

— Pois, Bentinho, ainda não pude pregar olhos. Só faço ouvir o cantar da cabocla. Não escutaste não?

Domício tremia e Bento procurara acalmá-lo. Que canto, que nada! Aquilo era somente impressão dele.

— É nada, Bentinho! Não é a primeira vez que ela canta pra mim. Tu não sabe o que é sofrer como eu sofro. Fico aqui nesta rede com uma agonia no coração, um frio infeliz no peito. E quando é assim noite de lua, a bicha começa a cantar como se fosse um aboio pra rês perdida. Tu não sabe o que é. O coração bate numa carreira doida, os pés da gente esfriam e vem uma vontade de correr, selar o cavalo, e correr pra a serra, encontrar a cabocla e ir com ela para as profundezas.

Ele se espantava com o irmão, que lhe parecia fora de si com aquela cara estranha, aquele falar quente. Vira aquela cara assim em D. Fausta naquela tarde horrível. Sim, era o mesmo jeito da boca, o mesmo tremer de lábios. Coitado de Domício. Sofria, se agoniava, dava para ouvir o canto do que não existia. Os seus ouvidos tinham se habituado com aquela impressão. Ele lhe falara do vaqueiro que dera o tiro na cabocla, que se desgraçara, perdera o juízo por causa dela. E sonhava com a visagem. A mãe-d'água de corpo de mulher, com todas as partes de mulher. Diziam que quando ela ficava nua em cima da pedra, cheiravam os campos como se todo pé de mato fosse um pé de imburana de cheiro. Agora estaria ele no meio dos criminosos, o pobre Domício ouvindo aquelas histórias de desgraça no meio daquela gente amarela, restos de gente, de cadeia.

No outro dia de manhã Bentão amanheceu se preparando para ir a Dores. Bebeu leite com farinha, e às seis horas saiu todo encourado, para saber notícias do filho. A mulher fez recomendações. Procurasse o Capitão Antônio. Ele mandava em tudo. Bentão calado saiu no seu cavalo em busca dos homens de Dores para contar a sua história. Atravessou a caatinga com aquilo no pensamento. O filho na cadeia, inocente, ele e a família apanhados por uma força do governo. Fora a primeira vez que sucedera aquilo. Uma ocasião, quando ele era menino, bateu uma tropa no Araticum atrás do pai dele, o velho Aparício. Pegaram o vaqueiro e saíram dando no homem de facão. Lembrava-se bem dos gritos. Ficara em casa, sozinho, com dez anos. Agora tinham entrado em sua propriedade e metido o cipó-de-boi na família inteira. Josefina estava de cara cortada e o outro perdera muito sangue. Tudo por causa de Aparício. Já fora filho de cangaceiro. Agora era pai. Perseguição da polícia não pararia mais no Araticum. Tudo que era tropa teria que tirar a sua diferença na gente do Araticum porque Aparício matara um praça e era do grupo de cangaceiros. Ali, naquele raso de caatinga, por onde ele ia passando, comia gado. Via o ferro. Era o G grande do Coronel Zé Gomes. Bem que ele podia se valer do Coronel Zé Gomes do Araçá. Mas não ia. Já estava de rota batida para Dores. Lá ele encontraria um que lhe desse razão. O velame entupia de verde a lagoa seca. E Bentão cheirando a caatinga. Cheirava tudo com a primeira floração do ano. O manacá, o velame, as imburanas. Naquele momento não havia flor do sertão que não cheirasse de aborrecer. Com o sol queimando, parou debaixo de uma caraibeira, que parecia um pau d'arco de serra. O bicho estava todo coberto de flor amarela. O chão amarelo. Bentão afrouxou os arreios do animal, tirou os alforjes e começou a comer a sua carne-de-sol com farinha. Domício era um menino bom, e Deodato o mais caprichoso de todos. Aparício era o avô cagado e cuspido. E havia aquele mais moço, aquele não era deles. Viera de fora. A mãe dera ao povo do Açu para criar. Não era filho dele. Não se parecia com a gente do Araticum. Podia ter morrido na retirada de quatro. O velho se estendeu na sombra da árvore e aspirou forte o ar da caatinga abrasada. O sol estava forte. As primeiras pancadas d'água serviram somente para enverdecer o pasto, encher de flor, de ramos os matos. O gado comia, enchia a barriga. Tudo muito bem, se não fosse a desgraça de Aparício. Pai de cangaceiro não parava mais de sofrer. Preparou outra vez o cavalo, acendeu o cigarro e saiu de caatinga afora. Encontraria em Dores um cristão que ouvisse a sua história. E em Dores procurou o Capitão Antônio, o escrivão do lugar. Contou a história do filho. O menino viera preso e era inocente, tão inocente quanto ele . Que culpa tinha a família com a morte que Aparício fizera? O Capitão ouviu tudo calado. Depois falou:

— Seu Bento, o seu menino é inocente, eu acredito. Mas o sargento foi fazer uma diligência, foi com vontade de agarrar o assassino do soldado melhor que ele tinha aqui. E só podia chegar na sua casa como chegou. Não tendo encontrado o criminoso, se enfureceu. E o senhor bem sabe o que é uma praça com raiva. O seu filho chegou aqui, ontem, não foi? Agora, Seu Bento, o que o senhor precisa é se alistar. Botar esses meninos no alistamento. Se o senhor fosse meu eleitor, não sucedia uma coisa dessas. Logo que eu soubesse que o sargento ia fazer essa diligência, dizia logo ao homem: "Tenham cuidado, tenho lá na Pedra gente boa". É verdade que as suas terras ficam no município de Açu. Mas isso não quer dizer nada não, e o senhor deve se alistar com os seus meninos aqui comigo.

Bentão ouviu o homem como se fosse um rei falando.

— O senhor voltará com ele . Gente minha não sofre em Dores. Vou agora mesmo falar com o sargento e tudo se acaba. Gente que vota comigo não sofre. Veja se o senhor pode mandar um recado para o seu filho Aparício, eu arranjo tudo no júri. É para isto que servem os amigos.