Pedra Bonita
Da confissão ao romance lírico
sonhado. Já tinha o meu carneiro Jasmim..." {5} Esse animal—que leva o pequeno Carlos de Melo pelos caminhos do engenho do avô, que o acostuma a cismas e devaneios, e que, no momento em que o sacrificam, lhe causa o primeiro grande desgosto da vida—é o mesmo, sem tirar nem pôr, sem sequer mudar de nome, que o menino José Lins ganhara, por sua vez. Ele como que simboliza a opção definitiva do escritor pelo caminho que o seu mestre e amigo lhe apontara. Faltava apenas acertar a perspectiva, criar o distanciamento entre autor e personagem para
que surgisse o O. Henry {6} brasileiro—e muito mais que um 0. Henry.
Da confissão ao romance lírico
Menino de Engenho chocou e empolgou os leitores precisamente com seu impacto de experiência direta, de confissão pessoal. "É a vida,
tal como ela é" {7}—exclamou João Ribeiro, como devem ter exclamado tantos outros. Ainda que o escritor não tivesse publicado anos após as suas memórias de infância, em Meus Verdes Anos —que provocam um confronto permanente com o romance—, sentir-se-ia neste último a palpitação de realidade vivida. É uma sucessão de episódios presenciados ou vividos por um menino criado em cidade—e, que, por efeito de um drama familiar (a morte da mãe, assassinada pelo pai), fora levado para o engenho do avô, onde os fatos diários da existência rural seriam, para ele , outras tantas descobertas milagrosas. Vemo-lo colher frutas, tomar leite ao pé da vaca, banhar-se no rio, lavar os cavalos com os moleques, escutar as conversas das lavadeiras e dos mestres de ofício, participar na matança das aves de arribação, pegar e criar passarinhos, assistir aos trabalhos da limpa e da moagem, fazer visitas à antiga senzala, correr o engenho de ponta a ponta montado em seu carneiro. É uma sequência de atos de rotina ancestral, interrompida por acontecimentos espetaculares que se gravam indelèvelmente na memória do menino: uma invasão de cangaceiros, uma enchente do Paraíba, um fogo no canavial, o casamento de uma tia. É, ainda, o desenrolar de uma educação às avessas: os adultos da família limitam-se a não impedir as vontades do órfão doentio, cujos verdadeiros professores, muito mais que uns mestres bisonhos recrutados ao acaso, serão os moleques endiabrados, as negras sensuais e até os próprios bichos do engenho, seus iniciadores nos mistérios do sexo. A que gênero atribuir, com que rótulo designar esses flagrantes de tão grande poder de evocação, mas que não chegam a se organizar em enredo? O embaraço dos críticos é manifesto. "Não se queira sujeitar às regras habituais da construção do romance e da composição das
figuras uma obra nascida diretamente da vida e que, visivelmente, o Sr. Lins do Rego não tem, mais do que nós, o poder de alterar." {8} Se há
um rótulo que lhe convenha, será o de "livro de memória com a matéria retida pela engrenagem que a natureza me deu" {9} (frase que no entanto era destinada a definir outro volume, o das reminiscências indisfarçadas). Memorial, seja—mas, ao mesmo tempo, depósito de motivos que hão de ganhar corpo nos demais volumes do "Ciclo", cada vez mais próximos da definição do romance: a imponente figura do avô, o velho Coronel José Paulino; o caráter frouxo e vacilante de Carlos de Melo; o engenho condenado à decadência fatal com a transformação do mundo ambiente e o desaparecimento da geração identificada com o seu código de valores, seus costumes, seu ritmo; algumas silhuetas apenas entrevistas, como o moleque Ricardo, o tio Joca, o Coronel Lula de Holanda, que hão de tomar corpo quando passarem para o primeiro plano de outros livros.
Ainda mais que pelo conteúdo, o livro inovava pela forma. O estilo parecia puramente oral, de inteira naturalidade, sem o menor rebuscamento de enfeites literários—a tal ponto que o leitor julgava ouvir a melopéia algo arrastada do falar nordestino, a entoação daquelas frases curtas, justapostas, pontilhadas dos gerúndios da linguagem coloquial, avessa à subordinação. Admirava-se nele "o jeito admirável de
falar em nome de todas as personagens", {10} como o possuía a velha Totônia, contadora de histórias, pessoa real, que, tal como o carneiro Jasmim e tantas outras personagens de José Lins do Rego, transpôs o limite entre realidade e ficção conservando o seu nome e os seus predicados verdadeiros. Todo o tom da narrativa era um achado. Aquela série de episódios revivida anos após os acontecimentos, na voz do próprio protagonista, cuja personalidade de adulto permanecia, porém, indeterminada; suas interferências discretas limitavam-se a esclarecer, pelas leis da psicologia, atitudes desencontradas dele menino, e que, na época, não pudera entender. Acessòriamente julgava em nome da moral aceita os atos da criança que fora—mas sentimo-lo empenhado sobretudo em reconstituir com toda a exatidão e fidelidade possíveis as suas sensações e reações de criança.
Em Doidinho a vida do engenho há de passar para o segundo plano, sendo o primeiro ocupado por Carlos de Melo, que continua ao mesmo tempo protagonista e narrador. Conta o seu primeiro ano de estudos, longe do engenho e dos parentes, num internato de Itabaiana, o que teve importância decisiva na sua formação (ou deformação). À excessiva liberdade de que gozava na propriedade do avô sucede, aqui, uma vida de limitações e de rigor desarrazoados, um regime de arbitrariedade. Despido de todos os privilégios que lhe pareciam tão naturais, tem de reaprender o mundo entre parceiros de direitos iguais, que o hostilizam. Ainda desta vez a educação mais forte que recebe é a indireta: longe dos seus, concebe os limites do poder do avô, a importância relativa do engenho, as injustiças da sociedade patriarcal, a fome e a pobreza dos pobres, a incapacidade e a inércia dos ricos. Chega a ver os seus através da visão dos outros. Destarte o engenho, embora sirva de cenário apenas a umas férias que interrompem o período letivo, funciona, na aferição dos valores, por comparação e oposição. As férias, que voltam a mergulhar Carlinhos na licenciosidade paradisíaca do Santa Rosa, neutralizam o que o regime escolar do velho Maciel, apesar de obsoleto e de atrasado, lhe poderia ter inculcado de disciplina. Daí a pouco vê-lo-emos fugir da instituição, revoltado com a primeira grande humilhação que lhe é infligida.
É durante esse período de alguns meses que ele armazena as inibições e os recalques que lhe agravarão os traumas infantis: o medo da doença, o temor da loucura hereditária, a fome de afeto, as oscilações de humor, as crises de arrependimento, o sentimento de culpa.
Estudo caracterológico da cristalização de um temperamento doentio e nervoso, Doidinho possui também valor documentário, pela imagem que oferece das aberrações do sistema educativo praticado no interior do Brasil há meio século. Tem-se aproximado o livro, nesse ponto de vista, de O Ate ne u, de Raul Pompéia (citado aliás na última página de Me nino de Enge nho), com o qual efetivamente oferece semelhanças estruturais: nem por isso o substrato pessoal de experiência direta deixa de ser evidente.