Pedra Bonita

José Lins do Rego · Capítulo 22 de 33

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Pedra Bonita

Capítulo 6

 

Aí se deu o tiroteio dos lajedos do Araçá. A volante comandada pelo Sargento Venâncio ia de rota batida para a fazenda do Coronel Zé Gomes, quando caíra na emboscada, numa garganta da serra. O tiroteio durou pouco. Com umas duas horas tudo estava acabado. O sargento e dez praças estendidos. Encontraram os corpos mutilados. A cabeça do comandante espatifada com os miolos em cima da terra. A notícia correu pela Pedra com pavor. No Araticum vieram a saber um dia depois.

Domício chamou Bento.

— A gente vai sofrer, Bentinho. O melhor é tu deixar o Araticum e ir pra o Açu. Eu me dano no mundo. Só com os velhos eles não fazem nada de mais. A volante nova vem por aí e vai ser uma desgraça.

Bento não acreditava. Eles nada tinham que ver com aquilo.

— Tu vai ver, Bentinho.

A velha ficou aflita. Não teria acontecido nada a Aparício? Não tinha morrido cangaceiro nenhum no encontro.

E começaram a correr as notícias de uma volante que vinha surrando, botando tudo para correr. Apareceram os aguardenteiros para o pouso debaixo das oiticicas. E disseram que era o Tenente Maurício que vinha com podêres para agir em todo o sertão. Ele mandava em tudo, não respeitava chefe político, não havia juiz, delegado, nada que tivesse força para se opor ao Tenente Maurício. A tropa que ele comandava tinha entrado na fazenda dos Jardins de Garanhuns e prendido um criminoso sem dar satisfações.

— Menino, disse o aguardenteiro, Aparício está metido nisso. Eu se fosse vocês, caía no mato. O Tenente Maurício vem por aí como o batalhão do 14, do quebra-quilo, arrasando tudo.

Domício e Bento voltaram para casa assustados.

— Eu não te dizia, Bentinho, só há mesmo um jeito: é a gente ir para o mato. Com os velhos não é possível que a volante faça nada. Vamos subir para a serra. Eu sei de um lugar que não há rastejador que descubra.

E se prepararam para a viagem. Domício tomou todas as providências. Arranjou um bode para muitos dias, enchendo os alforjes com carne-sêca e farinha. E Bento foi falar com a mãe. A velha deu para chorar. A sina deles agora era aquela. Não teriam mais descanso. Tinham que pagar por Aparício. Com pouco Domício estava com tudo preparado. Falou com Bentão, que achou boa a retirada. A volante devia vir com o diabo dentro para vingar os soldados mortos. E de tarde saíram. Foram mesmo a pé. Domício achava perigoso. Seria mais fácil para os rastejadores pisada de animal. E saíram. Domício com os alforjes nas costas, a viola, e Bento com os cobertores enrolados, como faziam os soldados.

— Bentinho, foi dizendo Domício, eu bem que te dizia outro dia. A vida da gente agora nesse Araticum vai ser nesse rojão. Tu não sabe o que Tenente Lucena fez com o pessoal do Zé do Vale do Pão de Açúcar. Cercou a casa. Lá dentro estava o homem criminoso. Pai, mãe, irmão, tudo ficou de papo pro ar. Matou a raça toda. Este Tenente Maurício é do mesmo calibre. Quando um homem deste sai com o fim de acabar cangaceiros, sai assim matando, dando, sem escolher.

Já era de noite quando atingiram a Serra do Araticum.

— Vamos lá para as bandas das furnas, disse Domício. Eu sei de uma loca que ninguém adivinha onde é.

Subiram para um lado e depois foram descendo. Lá para meia-noite Domício parou.

— Vamos nos agasalhar aqui mesmo.

Estenderam as redes no chão. A gritaria dos bichos da noite era enorme. Era o zumbido de tudo que era grilo ou coisa parecida. Bento não pôde dormir. Domício se mexia.

— Isso é assim no primeiro dia. Depois a gente tem que se acostumar.

De madrugada a mata foi recebendo o sol, como um hóspede muito esperado. Havia árvores cobertas de flores, outras pingando orvalho. E o sol foi chegando devagar, beijando uma, cobrindo outra. Por fim era dono de tudo. Domício fez fogo por debaixo de um pé de cedro e preparou café para beber com rapadura. Estava triste.

— Tu não dormiste nada, Bentinho. Eu também não. Fiquei pensando nos velhos, imaginando que o tenente é bem capaz de fazer uma desgraça neles. O infeliz vem seco em cima da gente. Não encontra e mete o cipó-de-boi nos pobres pra descobrir. Não sei não. Mas até fico pensando que Deus não protege a gente não. Sangue de Judas, Bentinho.

— Qual nada, Domício! Tudo isso passa, e a gente volta para o Araticum. O tenente deve ser um homem como os outros.

No entanto Bento sabia que a coisa devia ser como o irmão estava pensando. Ele bem que se lembrava do Tenente Maurício naquela fazenda onde ele estivera com o Padre Amâncio. O homem não respeitou ninguém. Mandou dar no vaqueiro e até nas negras da cozinha. Mas nada podiam fazer. Tinha que ser como fosse. E o dia correu assim mesmo. Domício e Bento andando pela mata, escutando, espreitando ansiosos para saber do que haveria lá por baixo. Entraram na noite. E dormiram com a mesma ansiedade, sem um sono pesado que os acalmasse. Bento começou a pensar na vida. Teriam que levar dias seguidos assim, sem saber de nada, fugindo do mundo como dois criminosos, dois perigos, dois monstros? O que teria acontecido com os velhos? A serra era aquilo que se via. Domício trepando para ver se encontrava araticum maduro. Uma tarde ouviram rumor de vozes como se fosse de gente próxima.

— Não é aqui por perto não, disse Domício. Isso é gente que vai passando lá pelo alto. É capaz de ser a volante à procura de nós. Mas não há rastejador que pegue a gente. Os bichos são danados na caatinga. Aqui por cima não dão pra nada.

Depois sumiram-se os rumores do mundo. Tudo que havia no mundo por ali eram aquelas vozes que passaram de longe. Três dias já estavam naquela vida. Domício se lembrou que podiam fazer um reconhecimento. Foram andando mais para o lado da propriedade do pai. Era de noite. Tudo escuro. Foram andando. Tinham já perdido o medo.

— Bentinho, vamos sair bem em cima da casa. A gente está descendo por onde nunca ninguém andou.

De fato a mataria rasteira era grande. Não havia vereda nenhuma.

— A gente vai cair em cima das vertentes.

E com pouco o Araticum estava pertinho. A madrugada clareava. Chegaram-se mais para perto e não havia sinal de gente na casa. As portas abertas, as janelas abertas. Que negócio era aquele? Domício falou para Bentinho, espantado:

— Terá gente lá dentro?

Foram se chegando. Bento e Domício já estavam dentro da casa. Tudo quebrado, tudo virado de papo para o ar. O que havia lá dentro estava em pedaços. Os cortiços no chão, cortados de foice, com as abelhas zunindo sem saber para onde ir. Tudo arrebentado.

— Sabe o que foi isso, Bentinho? Foi a volante. Eles levaram os velhos pra a cadeia de Dores ou pra a cadeia do Açu. Deram nos velhos, quebraram eles de pau e estão com os pobres na cadeia. Tu está vendo a coisa como é. Não puderam pegar a gente e se vingaram nas coisas.

No silêncio da madrugada o Araticum era aquilo que se via. Domício acendeu uma lamparina. E foram, de canto em canto, vendo o estrago. Na casa de farinha o machado caíra em cima das peças, o forno espatifado, o cocho de espremer massa reduzido a pedaços. Uma desgraça completa.

— Vamos deixar clarear, Bentinho. A gente se agasalha ali na caatinga por debaixo de um imbuzeiro qualquer. De manhãzinha a gente volta pra ver direito. Vida de sertanejo é esta que tu está vendo. Quando não é cangaceiro, é a volante fazendo essa desgraça que tu está vendo.

E ficaram pensando nos velhos. Domício imaginou a caminhada dos dois pobres pela caatinga. Teriam andado léguas a pé com os soldados castigando. De manhã a impressão que tiveram do Araticum foi ainda pior. O curral das vacas com as manjedouras, com o cocho dos animais beber água destruídos. E as vacas soltas pela caatinga. Ouviram o berreiro dos animais. Vinham de longe, de pescoço caído. Teriam andado sem rumo atrás de qualquer coisa que lhes faltava.

— Bentinho, a gente não pode mais ficar por aqui. É capaz de haver vigia tomando conta da estrada.

Nisto ouviram um grito de cargueiro. Era uma tropa de aguardenteiros que vinham para as oiticicas. Eles deviam saber de qualquer coisa. Era o velho Zé Joaquim, conhecido de Bentão. Foram falar com ele . E o velho espantou-se de vê-los ali.

— Meninos, vocês estão por aqui? A volante passou por aí afora como pé-de-vento, levando tudo de rojão. Soube que Bentão e a mulher estiveram na cadeia do Açu. O governo está dizendo que cangaceiro tem que acabar. E o tenente não respeita nem mesmo Nosso Senhor, se aparecesse por aí como coiteiro. Aparício está no bando de Deodato, não é verdade? Pois não vai haver mais descanso neste Araticum. É cortar até o fim. Domício conversou com os homens e chamou Bento. — Tu ouviste o que o velho disse? É assim mesmo. Eu vou vaquejar o gadinho do velho, ajuntar o que resta dele e entregar na fazenda do Capitão Hilário. Pai não gosta dele, mas é o jeito. Isto assim como está é que não pode ficar. Os cavalos a volante levou.

Domício saiu e Bento ficou só no Araticum. Viu o irmão se sumir na estrada e os aguardenteiros levantaram acampamento para viagens de dias. Teve vontade de ir com eles. Queria se perder nos lugares muito distantes. Tudo aquilo, aquelas noites na mata, o medo da volante, a desgraça dos pais, lhe deram um desejo de ser de outra terra, de outra raça, de outros campos. Domício... Lembrou-se do irmão. Como ele era diferente de toda aquela gente! Diferente do Padre Amâncio, da negra Maximina, da mãe, de tudo que ele Bento amava. A velha só queria que ele fosse outro, bem diferente dos irmãos e do pai, um ser à parte da família, acima dos seus. Domício era aquilo que ele via. Um grande em tudo. E no entanto, padecendo, corrido, um ente perigoso para a volante que queria o pobre para meter-lhe o cipó-de-boi, levá-lo para a cadeia, misturá-lo com a gente de lá, com os ladrões de cavalo, com os criminosos de morte. O Araticum estava só. E Bento foi olhando e lá de cima da vertente ele viu um vulto escuro, como se fosse um homem assentado. Olhou mais atentamente e viu o bicho andando. Vinha andando, descendo, se chegando para perto. Era o bode de Bentão. O bode velho que se chegava para o alpendre, onde o velho lhe dava de comer, desde pequeno. Já teria vindo mais de uma vez e estaria surpreso em não encontrar a mão que lhe dava o milho, lhe dava a água para beber. E berrou no silêncio do Araticum. Foi triste para Bento ouvir aquilo. Era o amor de seu pai. Todo o encanto do velho. Aproximou-se do bode. E o bicho fugiu arisco. Bento foi ver se encontrava uma espiga de milho. Trouxe-a e debulhou. No começo ele repugnou. Vinha comendo desde cabrito nas mãos de Bentão. Mas a fome era maior que o hábito. E ele comeu o milho. Bento trouxe água no caco, e ele bebeu. Depois saiu, olhou as coisas e foi devagar deitar-se ali no alpendre, onde o velho ficava na rede, alisando-o, fazendo as suas carícias de pai bondoso. Olhando aquilo, Bento ainda mais se entristeceu. O Araticum estava no fim. Os Vieiras no fim. A raça perdida. As terras dos pais eram boas, tinha ali nascentes que só secavam nos anos de seca grande. A terra dava tudo. Todo o mundo invejava a riqueza do Araticum, e estavam assim como o chefe da família deitado na rede, pensando em coisas, que ninguém sabia o que eram, alisando um bode, com um filho no cangaço, o outro filho perseguido, obrigado a ganhar o mundo. O Araticum estava no fim. O silêncio era enorme. Só os pássaros cantavam. Bento reparou nas oiticicas grandes, de galhos gigantes, dando sombra aos cargueiros. Reparou em tudo que para ele se acabava de uma vez para sempre. Os velhos não resistiriam por mais tempo e as volantes não deixariam Domício tomar pé na vida. Aparício em breve entregaria a alma para o diabo. Tudo se acabava no Araticum. Ali, das oiticicas, Bento via a casa que fora dos antigos. A família estava reduzida a cinco pessoas. Nem um empregado, nem um vaqueiro os Vieiras podiam ter. Eram eles sozinhos no Araticum. E por fim tudo se acabaria, tudo se findaria. Daquela casa saíra um Vieira há quase cem anos para trair o santo da Pedra Bonita. Acreditar naquilo era uma tolice sem nome. Teria que ser assim pela vontade de Deus. Soprava um vento bom no Araticum. O sol ardia. Debaixo das oiticicas, na fresca boa, tinha vontade de espichar o corpo. E deitou-se uns minutos. Depois começou a ouvir o berro do bode. Levantou-se para ver. O bicho rodava pelo alpendre, como se estivesse atrás de alguma coisa. Faltava-lhe qualquer coisa. Era uma saudade de gente que fazia aquele animal reclamar daquele jeito. Bento ficou mais triste ainda. Que era de Domício que não chegava? E ele estava com medo de ficar só ali, naquele isolamento. Entrava e saía na igreja do Açu sem medo. Poucas vezes tivera pavor ou medo de se sentir só no meio dos santos, com aquele caixão de defunto no meio da sacristia. Mas agora sentia medo. O berro do bode era um lamento, uma tristeza de gente infeliz. O sol tinia lá fora. Depois Domício veio chegando. E era o mundo que entrava no Araticum. A existência do mundo que dava sinal. Domício falou-lhe:

— O Capitão Hilário vai ficar com o gado. A volante também passou por lá. E o Tenente Maurício disse que havia de acabar com a raça de Aparício. Levaram os velhos pra o Açu. Lá, Bentinho, tu tem conhecido. Tu pode tirar os pobres da cadeia. Eu vou ficar por aí. O Capitão me emprestou este animal. Tu vai nele pra o Açu e espera um dia de feira e manda trazer. O Capitão Hilário foi homem de coração comigo. O velho não gostava dele. Também o velho não gosta de ninguém. O Capitão fica com o gado e na volta dos velhos entrega tudo. Tu deve seguir para o Açu amanhã de madrugada. Eu vou ver se conserto os troços do velho e depois tomo destino.

Bento não queria aquela solução. Queria era ficar com ele .

— A gente não faz tudo que quer, Bentinho. O jeito é ir como o destino quer. Nós somos do sangue de Judas.

A palavra de Domício era de cortar o coração. Bento fez força para não chorar. Nisso o bode deu para berrar outra vez.

— Está chamando o velho, disse Domício, compungido.

E Bento começou a soluçar. Domício saiu para um canto. Era de tarde. Tudo acabado no Araticum. Domício sabia que não havia mais jeito.

A noite veio e os irmãos muito conversaram.

— Bentinho, tu deve fazer os gostos de mãe. Fica por lá mesmo. Deixa isto por aqui. Amanhã, daqui a tempo, quando as coisas mudarem, eu volto e ajudo os velhos. Mas tem esse negócio da Pedra. Bentinho, a gente está é desgraçado.

O irmão mais moço entrou a consolar. Não acreditava nisso não. Deus não havia de fazer isso assim. Que culpa tinham eles pelos erros dos antigos? O negócio da Pedra fora uma desgraça igual a outras. Depois quem poderia afirmar que o velho Zé Pedro não estava mentindo?

— Não é mentira não, Bentinho, é verdade. Eu sinto isso mesmo. Aparício sentia. Tanto sentiu, que foi pro cangaço.

O bode estava andando pelo copiar, batendo com os cascos na calçada. Era a última noite que os irmãos passavam juntos no Araticum. E não puderam dormir.

De madrugada, Bento sairia para o Açu. Lá estavam os pais na cadeia ouvindo a tosse do menino doente, ouvindo as histórias dos inocentes, dos amarelos. Bentão com aquela cara, aquele olhar desconfiado, e a velha Josefina encolhida, reduzida a pele e ossos. Mãe de cangaceiro, teria que pagar, que sofrer pelos crimes do filho. A casa que fora deles estava naquele estado de destruição. De madrugada Domício levantou-se da rede:

— Bentinho, está na hora.

E foi selar o cavalo.

— Bentinho, tu vai soltar os velhos. Pede ao padre. Ele já deve estar lá de volta.

Fazia frio. Bento estava que não podia se manter de pé. Uma dor funda o prendia ao Araticum. Domício fingia calma.

— Depois que eu arrumar isto por aqui, vou andar. Mas eu volto. A gente pega amor ao lugar. Eu tenho que voltar. Só vou pro cangaço no último recurso. Vai-te embora, Bentinho.

Bento abraçou o irmão, montou o cavalo e saiu chorando para o Açu.

Domício viu o irmão se sumir, desaparecer na estrada. Olhou para os cantos. O Araticum reduzido a bagaço. Tinha mesmo que dar ordem às coisas. Os pais voltariam e encontrariam tudo nos seus lugares. A casa vazia, deserta. E a manhã surgia para mais autenticar a desgraça da casa velha, do cercado, do curral. Domício ouvia a passarada que ele vinha ouvindo a vida inteira. Eram os mesmos pássaros que cantavam as mesmas cantatas de sempre, Tinha que debulhar milho para o bode velho. Lá se fora Bentinho, a maior alegria de sua vida. Estava só. Só de tudo. Aparício no cangaço, vingando as desfeitas ao seu pai e à sua mãe. Viera o Tenente Maurício para vingar o Sargento Venâncio. Era o sertão. Ele teria que viver dias e dias perdido na serra, escondido, comendo araticum, dormindo aqui e acolá, até que eles se esquecessem, até que outro tiroteio desviasse a tropa para outras famílias e outro pai e outra mãe de cangaceiros entrassem a pagar pelos crimes dos filhos. Até lá a sua vida só poderia ser aquela. Não tinha vontade de entrar para o cangaço. Muitos tinham ido para lá sem querer, levados pela perseguição. Mas ele não iria. Só iria no fim de tudo. A viola estava dependurada. Era o seu consolo. Há quase uma semana que não pegava nela. E tirou-a do saco de algodãozinho e começou a pinicar na companheira. Estava só. Ninguém ouviria o que ele cantasse. Então Domício começou a falar de Aparício. A contar a história do cerco do Araçá. O pai e a mãe tinham apanhado de cipó-de-boi. O irmão tivera a cara cortada de chicote. Ele tinha ido para a cadeia de Dores, e Aparício no rifle, solto na caatinga. E Aparício no bando, de rosário no pescoço, chorando a desgraça do pai e da mãe. Aí o cangaceiro pensou em se vingar. E foi o tiroteio do lajedo. Morreu tudo que foi praça. A terra ficou molhada de sangue. Duas horas lutaram, os cabras atrás das pedras e os soldados no raso. A viola gemia, Domício gemia. Morreu tudo. Aparício se vingara da desgraça da sua gente.

E sem querer o poeta tinha improvisado uma cantata completa. Parou de tocar. O bode estava berrando com pena do velho Bentão, que estava no Açu, nas grades. Meteu o seu instrumento no saco e olhou o tempo, vendo a beleza da manhã no velho Araticum dos antigos Vieiras. E de repente lhe chegou a idéia da Pedra, a história do velho Zé Pedro. Havia mesmo caveira de burro por ali. Um Judas correra daquelas terras e fora trazer os soldados, os inimigos para matar o Filho de Deus e os devotos dele. E agora eles estavam pagando, curtindo a ruindade do outro. Com este pensamento triste começou Domício o serviço de reparação. Reparou tudo que era possível. Fincou estacas no curral, trouxe pedras para o cercado, botou ordem na casa de farinha. E depois de tudo feito, fechou a porta, trancou as janelas. O Araticum podia esperar pelos velhos. Agora era cair no mundo, viver como bicho pelas grutas, pelas furnas. O cangaço seria o último recurso. Não queria matar ninguém. Não gostava de armas de fogo como Aparício. O irmão mais moço se fora. Aquele sabia ouvir a viola dele, entender os gemidos dele. E agora, quando a cabocla cantasse, de corpo nu, com as partes aparecendo, quem o

 

seguraria para não correr atrás da sedução?