Práticas de Microbiologia (2ª edição)
Manobras assépticas
Figura 2.7 Liofilizador – aparelho utilizado para preservar microrganismos. A água presente no microrganismo congelado (mantido dentro das ampolas de vidro) passa ao estado gasoso sob alto vácuo, e nessas condições não há ruptura das estruturas celulares, que permanecem na forma de um pó seco.
Lâminas e lamínulas para microscopia, balanças para pesagem, algodão, papel, pinças e espátulas, entre outros, também são comumente encontrados
em um laboratório de microbiologia (Figura 2.8). O algodão utilizado para a confecção de tampas para tubos, Erlenmeyers e balões geralmente é do tipo cardado, um algodão cru, não purificado, de cor bege. Este é hidrofóbico, ao contrário do algodão purificado, hidrofílico. A hidrofobicidade desse algodão é essencial durante o processo de autoclavação, pois não irá absorver água, o que poderia levar a uma futura contaminação.
Manobras assépticas
As manobras assépticas são técnicas que impedem a entrada de microrganismos onde estes não são desejados, ou seja, garantem boa assepsia. Desse modo, essas manobras impossibilitam que os microrganismos presentes no ar, ou depositados sobre as várias superfícies junto com a poeira, contaminem materiais estéreis do laboratório, como meios de cultura, soluções e equipamentos ou, ainda, culturas puras de microrganismos. Ademais, impedem também que os microrganismos com os quais se trabalham contaminem as pessoas ou o ambiente.
Figura 2.8 Outros materiais comuns em um laboratório de microbiologia. A. Lâminas e lamínulas para observações microscópicas. B. Pinças e espátulas. C. Algodão cardado.
As manobras assépticas referentes à manipulação de culturas (Quadro
2.2) envolvem basicamente o uso de um bico de Bunsen e a realização de toda a manipulação dentro da chamada “zona de segurança”, que nada mais é que a região ao redor da chama, a mais próxima possível sem que haja perigo de superaquecimento ou queimaduras. Envolve também o uso de alças ou agulhas esterilizadas na chama do próprio bico (aquecimento ao
rubro, ver Capítulo 3, Métodos Físicos e Químicos de Controle do Crescimento Microbiano), ou, se for o caso, o uso de pipetas estéreis que serão abertas apenas no momento do uso. Todos os recipientes estéreis, ao serem abertos, deverão ter suas bocas flambadas rapidamente, para garantir a manutenção da esterilidade. Essa flambagem consiste em passar a boca de tubos e frascos, ou mesmo a superfície das pipetas, rapidamente na chama do bico de Bunsen, o que, além de eliminar os microrganismos eventualmente presentes na superfície do material, cria, no caso dos tubos e frascos, uma corrente de ar do interior para o ambiente, dificultando a entrada de contaminantes do ar no recipiente. É importante ressaltar que a flambagem rápida, aqui referida, difere da flambagem ao rubro, utilizada na esterilização de alças e agulhas metálicas de inoculação, conforme será
visto no Capítulo 3.
Quadro 2.2 Algumas das principais técnicas de manobras assépticas.
■ Trabalhar em áreas submetidas previamente a limpeza e desinfecção, para reduzir o número
de potenciais microrganismos contaminantes.
■ Trabalhar dentro da “zona de segurança” do bico de Bunsen, ou seja, os recipientes (tubos de
ensaio, placas de Petri etc.) com meio de cultura devem ser abertos próximos à chama do bico.
■ Flambar ao rubro alça ou agulha, antes e após cada inoculação.
■ Deixar esfriar o instrumento antes de obter o inóculo, dentro da “zona de segurança”,
preferencialmente na parte interna do recipiente com meio de cultura.
■ Flambar rapidamente a boca dos tubos contendo microrganismos ou meio estéril,
imediatamente após abri-los ou antes de fechá-los. A tampa nunca deve ser colocada sobre a
bancada, sendo retirada e mantida segura pelo dedo mínimo da mão durante a inoculação.
■ Desembrulhar a pipeta estéril dentro da “zona de segurança”, ambá-la rapidamente e
mantê-la nessa zona durante o trabalho.
O sucesso na manutenção da pureza de microrganismos cultivados só ocorrerá se técnicas assépticas forem seguidas. Isso inclui o preparo de meio de cultura estéril, a esterilização de todo o material que entrará em contato com o meio de cultura e a manipulação de culturas utilizando-se as
manobras assépticas. Na Figura 2.9 é possível observar uma sequência de manobras assépticas realizadas na transferência de uma cultura microbiana contida em tubo de ágar inclinado para outro tubo.
As manobras assépticas não se restringem ao trabalho microbiológico em laboratório. Elas têm um sentido muito mais amplo, sendo aplicadas também em hospitais. Neste caso, um exemplo típico se refere às manipulações realizadas não só no preparo como também na própria execução de uma cirurgia. Nesta, todos os instrumentos e materiais cirúrgicos utilizados são esterilizados, e o cirurgião, os médicos assistentes, os instrumentadores, os enfermeiros e o próprio paciente necessitam utilizar indumentárias estéreis, além de toucas, sapatilhas e máscaras. Apesar de as equipes cirúrgicas terem as mãos protegidas com luvas, elas realizam previamente um criterioso processo de lavagem, escovação (degermação) e antissepsia da pele das mãos. A sala de cirurgia também deve passar por um processo de limpeza e desinfecção, bem como o próprio ambiente, que pode ser previamente submetido à esterilização sob a ação de lâmpada germicida ultravioleta. Por fim, a pele do paciente, correspondente à área do campo cirúrgico, deve ser cuidadosamente preparada e submetida à antissepsia, que, dependendo do grau de risco da cirurgia, pode ser complementada com o uso de modernos e inovadores campos plásticos adesivos, alguns deles impregnados com antissépticos (iodóforos) que recobrem a área da pele do paciente na qual será feita a incisão cirúrgica. Com isso, em cirurgias demoradas, as luvas dos cirurgiões, apesar da antissepsia prévia, ficam protegidas de microrganismos que existam eventualmente na pele do paciente.