Práticas de Microbiologia (2ª edição)

Alane Beatriz Vermelho · Capítulo 51 de 56

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Práticas de Microbiologia (2ª edição)

Equipamentos de proteção individual e coletiva

Figura 8.11 Mapa de riscos do laboratório de preparo de material de microbiologia do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da UFRJ. Elaborado pela equipe da coordenação biossegurança do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFRJ.

 

O mapa de riscos tem como objetivo reunir as informações necessárias para estabelecer o diagnóstico da situação de segurança e saúde no trabalho da empresa ou instituição, e possibilitar, durante a sua elaboração, a troca e a divulgação de informações entre as pessoas que usam e trabalham no local, além de estimular sua participação nas atividades de prevenção. A

Figura 8.11 representa o mapa de riscos do laboratório de preparo de material de microbiologia do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Equipamentos de proteção individual e coletiva

Para proteção no trabalho e manuseio com substâncias e situações em ambientes perigosos, que oferecem risco físico, químico, biológico, ergonômico ou risco de acidentes e doenças ocupacionais, os trabalhadores devem utilizar equipamentos de proteção individual (EPI) ou de proteção coletiva (EPC). O uso do EPI é regido pela norma regulamentadora da legislação trabalhista NR-1, que determina que é função do empregador cumprir e fazer cumprir todas as normas regulamentadoras. Além dos equipamentos, é essencial o treinamento nas normas de segurança. A NR-1 estabelece as disposições gerais relativas à segurança e à medicina do trabalho para todos os trabalhadores e empresas regidos pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) e dispõe os principais pontos para que seja possível assegurar a proteção dos trabalhadores nas empresas privadas e públicas. Por isso, o treinamento é essencial para a conscientização e a promoção da saúde e segurança do trabalho. A seguir, estão descritos alguns exemplos de EPI e EPC.

 

Equipamentos de proteção individual

 

Os equipamentos de proteção individual (EPI) garantem a saúde e a proteção do trabalhador durante o exercício de uma determinada atividade, evitando consequências negativas em casos de acidentes de trabalho.

▶ Jaleco. Trata-se de um EPI básico de uso obrigatório para os que trabalham em ambiente de laboratório de microbiologia, de análises clínicas, manejo de animais, lavagem de material, esterilização e manipulação de produtos químicos. Para fins de proteção, deve ser de algodão, com mangas compridas cobrindo os braços, e deve cobrir o dorso, as costas e a parte superior das pernas. Adicionalmente, além do jaleco, é necessário usar calças compridas de material resistente.

▶ Calçados de segurança. São sapatos fechados, de couro ou material similar, para proteção dos pés dos usuários contra objetos cortantes, contundentes, abrasivos, produtos químicos, agentes térmicos (frio e calor), compressões, escorregões, para uso em locais úmidos, para proteção contra a oleosidade, ataque de animais peçonhentos e proteção para o trabalho com microrganismos patogênicos.

▶ Luvas de proteção. A proteção das mãos, feita por meio de luvas, é muito importante. Há no mercado diversos tipos delas, feitas de diferentes materiais, de acordo com os objetivos e funções: trabalho com microrganismos patogênicos, proteção para produtos químicos e calor, material cortante e outros.

■ Luvas de nitrila. São luvas descartáveis feitas de borracha nitrílica, sintética; apesar de serem menos elásticas que as de látex, oferecem uma excelente resistência ao desgaste e aos produtos corrosivos, sendo mais resistentes a rasgos quando tracionadas. São extremamente resilientes e também empregadas para manuseios de óleos, graxas e outros derivados de petróleo. Devido à sua alta resistência, são usadas em atendimentos pré-hospitalares por médicos e enfermeiros. Profissionais da saúde alérgicos ao

látex costumam usá-las (Figura 8.12).

■ Luvas de neoprene. São feitas de neoprene, que também é uma borracha sintética. Têm ótima resistência a altas e baixas temperaturas, são impermeáveis e, quando molhadas, secam rapidamente. Têm leveza, são maleáveis, antiderrapantes e facilitam o manuseio de diversos materiais. A luva de neoprene é utilizada especialmente para contato com químicas. Devido à alta resistência química do neoprene, é usada também em indústrias automotivas, de limpeza e alimentícia.

■ Luvas de PVC. Muito utilizadas, são feitas de policloreto de vinila (PVC). Têm muita resistência a diversos produtos químicos e apresentam também boa resistência a cortes e abrasão, por isso são usadas em diversos setores como na indústria farmacêutica, tintas e vernizes, adesivos, cosméticos e petroquímicos. São ideais para lavagem de peças em corrosivos, manuseio de ácidos, óleos e graxas (gorduras).

Figura 8.12 Luvas de nitrila.

 

 

■ Luva de látex. São luvas que usam a borracha natural, o látex, material de preferência para a fabricação de luvas usadas nas atividades dos serviços de saúde. Oferecem excelente barreira de proteção, principalmente por sua habilidade de auto-oclusão de pequenos orifícios. No mercado atual existem luvas de látex descartáveis com ou sem pó (talco). Também podem ser encontradas esterilizadas ou não. Para lavagem de material, podem ser

usadas luvas de látex grossas (Figura 8.13).

■ Luvas de vinil. Produzidas com vinil, um polímero sintético, são econômicas e mais fortes que luvas do látex. Podem ser utilizadas em microbiologia por serem eficazes contra a propagação de bactérias, vírus e outros microrganismos. Descartáveis são usadas também na indústria de alimentos, tanto na preparação como na manipulação em geral, por darem mais sensibilidade à mão enluvada, e na indústria de limpeza, onde seu uso é muito difundido. Raramente o vinil causa alergia, o que é uma vantagem considerando que as luvas de látex podem causar desde urticária até

anafilaxia, que é uma reação grave e sistêmica (Figura 8.14). Figura 8.14 Luvas de vinil.

■ Luvas de proteção ao calor. Podem ser feitas de diversos materiais e também existem diversos tipos, de acordo com o objetivo. São usadas em cozinhas industriais, laboratórios e hospitais, no manuseio de autoclaves e estufas, na proteção do calor geral por atrito, bem como no manuseio de corda de rapel. Podem ser de algodão, couro, malha de

aramida tipo grafatex e outros tecidos, alguns patenteados (Figura 8.15).

 

Figura 8.13 Luvas de látex.

 

▶ Máscaras de proteção. Máscaras são equipamentos de proteção respiratória que visam à proteção do usuário contra a inalação de contaminantes, sejam sólidos, gases ou vapores. Elas podem ser de vários tipos. A proteção respiratória é uma das medidas universais de segurança; o objetivo é formar uma barreira de proteção, a fim de reduzir a exposição da pele e das membranas mucosas contra agentes de risco de qualquer natureza.

 

Figura 8.15 Luvas de algodão tipo lona.

 

As máscaras descartáveis de tecido não tecido (TNT) não usam filtros. Elas são produzidas com fibras desorientadas, aglomeradas e fixadas, que não passam pelos processos têxteis comuns. São uma barreira de uso individual, que cobrem nariz e boca, indicadas para proteger o usuário da inalação de gotículas transmitidas a curta distância e pela projeção de sangue ou outros fluidos corpóreos que possam atingir as vias respiratórias. Também minimizam a contaminação do ambiente com secreções respiratórias geradas pelo trabalhador e, desse modo, protegem o produto manipulado por ele em áreas industriais, gastronômicas, alimentícias, estéticas, de saúde, entre outras. Além disso, são muito utilizadas em

práticas simples microbiológicas e procedimentos similares (Figura 8.16). É importante lembrar que essas máscaras não são consideradas equipamentos de proteção respiratória, por isso não estão sujeitas ao certificado de aprovação (CA) do Ministério do Trabalho (NR-6). Afinal, por não terem capacidade de filtração e por vedarem o rosto de maneira precária, elas não protegem adequadamente o usuário de patologias transmitidas por aerossóis, poeiras, névoas e fumos, incluindo metálicos e radionuclídeos.

Por sua vez, as máscaras que usam filtros mecânicos, filtros químicos ou ambos podem ser consideradas equipamentos de proteção respiratória. Para melhor compreensão delas, é importante definir alguns conceitos:

 

Figura 8.16 Máscara descartável de TNT.

 

■ Névoas e neblinas são constituídas por particulados líquidos na forma

de gotículas em suspensão na atmosfera. As névoas são geradas por

processo mecânico, como ruptura física de um líquido durante

processos de pulverização, nebulização ou borbulhamento, e as neblinas

são produto da condensação na atmosfera de pequenas partículas

líquidas provenientes de um líquido previamente volatilizado por

processo térmico

■ Fumos ocorrem quando um metal ou plástico é fundido (aquecido),

vaporizado e se resfria rapidamente, criando partículas muito finas que

ficam suspensas no ar. Assim como as poeiras, os fumos são

particulados originados a partir de materiais sólidos, metálicos ou

plásticos, aquecidos até sua fusão. Por meio desse processamento

térmico, os sólidos fundidos são volatilizados e condensados na

atmosfera devido a diferenças bruscas de temperatura. Nesse processo

são geradas partículas menores que 1 μm de diâmetro médio mássico

aerodinâmico

■ Gases são substâncias que, à temperatura ambiente, estão no estado

gasoso e são geralmente invisíveis. Definem-se como gases as

substâncias químicas que se apresentam no estado gasoso quando em

condições normais de temperatura e pressão (CNTP), isto é, sob

temperatura e pressão ambientes. São exemplos: oxigênio, nitrogênio,

monóxido e dióxido de carbono, óxido de etileno, argônio, hidrogênio,

amônia, cloro, dióxido de enxofre, sulfeto de hidrogênio, metano,

propano, butano, óxido nitroso e ozônio

■ Vapores são substâncias que evaporam de um líquido ou sólido, da

mesma maneira que a água é transformada em vapor d’água.

Geralmente são caracterizados pelos odores (um vapor não pode ser

visto, mas seu cheiro pode ser sentido). São exemplos de vapores:

álcool etílico, metanol, acetona, ácido acético, acetato de etila, vapor de

mercúrio, gasolina, diesel, benzeno, tolueno, xileno, formaldeído

(formol), glutaraldeído, halotano, éteres, cicloexano, clorofórmio,

tetracloreto de carbono, di-isocianato de tolueno (TDI), nafta (destilados

de petróleo)

As máscaras podem ser semifaciais ou faciais inteiras. As do primeiro tipo cobrem boca e nariz e as do segundo cobrem boca, nariz e olhos. Nas semifaciais, o material utilizado geralmente é uma combinação de duas ou mais camadas de manta de polipropileno. Essas camadas filtrantes posteriormente recebem uma carga eletrostática para melhorar a eficiência da filtragem. As máscaras faciais inteiras têm um visor que pode ser acrílico, policarbonato ou vidro triplex. Podem apresentar uma peça interna denominada mascarilha, que impede o embaçamento do visor, e uma membrana acústica que permite falar e ser ouvido. Os filtros desse tipo de máscara são do tipo rosqueados mecânicos, químicos ou combinados.

■ Máscaras com filtros mecânicos. Os filtros mecânicos são destinados à retenção física de partículas de aerodispersoides em suspensão no ar. São feitos de microfibras sintéticas, que em alguns casos, dependendo do fabricante, são tratadas eletrostaticamente, e rosqueados ou encaixados diretamente nas peças faciais.

De acordo com recomendações do Programa de Proteção Respiratória (PPR) da Fundacentro, instituição do Ministério do Trabalho, os filtros mecânicos classificam-se em P1, P2 ou P3. As letras S ou SL podem agregar-se de acordo com sua capacidade de proteção contra partículas sólidas ou sólidas e líquidas, respectivamente. Também se classificam em PFF1, PFF2 ou PFF3. PFF significa peça facial filtrante, pois o próprio respirador é um meio filtrante. O ar entra através do material filtrante e passa diretamente para o nariz ou boca do usuário. Os filtros P1, P2 ou P3 são utilizados em máscaras com manutenção, e os PFF1, PFF2 e PFF3 em máscaras sem manutenção (descartáveis). Os filtros da classe P1 são indicados somente para partículas sólidas. Os de classe P2 e P3 são subdivididos de acordo com sua capacidade de remover partículas sólidas e líquidas (SL, aprovados nos ensaios com aerossol de cloreto de sódio e de óleo de parafina) ou somente sólidas (S, aprovados no ensaio com aerossol de cloreto de sódio). Essas máscaras têm restrições em relação à concentração do oxigênio no ar, que deve ser inferior a 18% vol., ou seja, a concentração das partículas aerodispersoides não deve superar aquela para a qual o filtro foi indicado:

 

■ PFF1/P1: poeiras e/ou névoas (aerossóis mecanicamente gerados)

■ PFF2/P2: fumos (aerossóis termicamente gerados) e/ou agentes

biológicos (Figura 8.17)

■ PFF3/P3: particulados altamente tóxicos (LT < 0,05 mg/m³) e/ou de

toxicidade desconhecida e radionuclídeos.

■ Máscaras com filtros químicos. Para que ocorra retenção de gases ou vapores contidos no ar em um filtro químico, é necessário que esse filtro seja produzido com um meio de retenção apropriado. O carvão é o meio de remoção dos gases e vapores que se utiliza na fabricação dos filtros

químicos devido a sua propriedade absorvente (Figura 8.18).

 

Figura 8.17 Máscara de proteção filtrante PFF2.

Figura 8.18 Máscara de proteção contra vapores orgânicos.

 

■ Máscaras com filtros combinados. Nessas máscaras são usados filtros químicos e mecânicos. Ao penetrar, primeiro o ar entra em contato com o filtro mecânico e depois com o filtro químico. A máscara pode agregar um filtro mecânico das classes P2 e P3, rosqueado ou encaixado diretamente nas peças faciais, semifaciais ou inteiras.

▶ Toucas. As toucas são uma barreira de proteção contra microrganismos do cabelo e do couro cabeludo, por isso seu tamanho deve ser adequado para a cobertura total do cabelo. As toucas cirúrgicas são um dos acessórios indispensáveis no bloco operatório. É comum em

microbiologia o uso de toucas descartáveis (Figura 8.19).

▶ Capacetes e gorros. Os gorros proporcionam uma barreira efetiva para o profissional, sua equipe e paciente. Protegem contra gotículas de saliva, aerossóis e sangue contaminados.

▶ Protetores oculares. Os protetores oculares protegem a mucosa ocular de contaminações e em acidentes ocupacionais. Os mais indicados possuem vedação periférica e melhor adaptação ao rosto, proteção que os

óculos comuns não oferecem (Figura 8.20).

▶ Protetores auditivos. Têm como principal objetivo proteger o usuário de ruídos que podem danificar o sistema auditivo. Os protetores auditivos estão disponíveis em ampla variedade, oferecendo diferentes

níveis de proteção (Figura 8.21).

 

Figura 8.19 Touca descartável usada em procedimentos microbiológicos.

 

Figura 8.20 Máscara de proteção para os olhos.

Figura 8.21 Protetor auditivo contra ruídos.

 

 

Equipamentos de proteção coletiva

 

Os equipamentos de proteção coletiva (EPC) têm a função de proteger o ambiente e a saúde dos usuários e de preservar a integridade dos ambientes e dos laboratoristas, além disso, podem ser acionados em caso de emergências e acidentes.

▶ Câmaras de segurança biológicas. De uso obrigatório para manejo com microrganismos, seus tipos estão descritos no tópico Tipos de câmaras de segurança biológica, deste capítulo.

▶ Capelas de exaustão química. É um EPC que deve estar presente todos os laboratórios que manipulem produtos químicos, tóxicos, vapores agressivos, partículas ou líquidos em quantidades e concentrações perigosas, prejudiciais à saúde. É obrigatório que toda a manipulação que possa ocasionar uma reação perigosa seja feita dentro de uma capela. Possui um sistema de exaustão e filtros que eliminam gases tóxicos do laboratório. Existem vários modelos no mercado, com diferentes graus de complexidade

(Figura 8.22).

▶ Extintores de incêndio. Os extintores de incêndio são utilizados para combater incêndios pequenos, em sua fase inicial. Os tipos de incêndios e extintores que devem ser usados para combatê-los estão descritos adiante.

■ Incêndios de classe A. São os incêndios que, além de queimarem, deixam resíduos (tais como madeiras, papel, borrachas etc.). Para esses casos, são indicados os extintores com carga e recarga de água ou espuma.

■ Incêndios de classe B. São os incêndios que ardem em superfícies, no entanto não deixam resíduos (álcool, gasolina). Para esses casos, a carga do extintor é feita de dióxido de carbono, espuma ou pó químico (pó BC), e a recarga de extintor é feita com o mesmo produto.

■ Incêndios de classe C. São incêndios em que a eletricidade é um elemento presente, o composto químico do extintor de incêndio não pode ser condutor de energia. Para esses casos, o extintor tem uma carga de pó e gás carbônico.

■ Incêndios de classe D. Esse tipo de incêndio exige extintores com agentes especialmente produzidos para combatê-los, pois é um incêndio que ocorre em matérias pirofosfóricas (titânio, zinco, lítio, magnésio, sódio, fósforo branco). Pode ser utilizado o extintor de pó químico, que age por abafamento e quebra da reação em cadeia.

▶ Chuveiro de emergência. Trata-se de um EPC presente em laboratórios e corredores institucionais. É um equipamento obrigatório para a segurança dos que trabalham com produtos inflamáveis ou nocivos para a saúde, para técnicos, pesquisadores e outros profissionais da área. Seu uso é fiscalizado pelos órgãos reguladores e, em caso de número insuficiente de chuveiros de emergência nos laboratórios instalados no prédio, a empresa

pode ser multada (Figura 8.23).

▶ Lava-olhos. Esse EPC é formado por dois pequenos chuveiros de média pressão, acoplados a uma bacia de aço inox, que permitem o

direcionamento correto do jato de água na face e nos olhos (Figura 8.24). Existe também o lava-olhos portátil, que é prático e eficiente.

▶ Vaso de areia. Também chamado de balde de areia, é utilizado sobre derramamento de álcalis, para neutralizá-lo.

 

Figura 8.22 Capela de exaustão. (Foto: Dr. Antônio Ferreira Pereira.)

Figura 8.23 Chuveiro de emergência de parede.