Práticas de Microbiologia (2ª edição)
Riscos envolvidos com a biossegurança
Riscos físicos
Os agentes físicos são as diversas formas de energia a que podemos estar expostos: radiações, campos elétricos, equipamentos que geram calor e frio, ruídos, vibrações, equipamentos que operam sob pressão. Existem diversos tipos de riscos físicos em um laboratório, e eles podem ser identificados em um mapa de riscos pela cor verde.
▶ Ruídos
O limite de tolerância do ser humano a ruídos é de 115 decibéis (dB) durante 7 minutos, sendo que o recomendado é que a exposição não ultrapasse 70 dB. Equipamentos e máquinas que gerem ruídos por tempo indeterminado podem causar sérios problemas à saúde, por exemplo, fadiga nervosa, perda de memória, irritabilidade, dificuldade em coordenar ideias, hipertensão, modificação do ritmo cardíaco, modificação do calibre dos vasos sanguíneos e do ritmo respiratório, perturbações gastrintestinais, diminuição da visão noturna, entre outros. Ademais, o ruído prejudica o aparelho auditivo, levando a perda temporária ou definitiva da audição. Para se evitarem esses danos, várias medidas podem ser tomadas: isolamento do equipamento que gera o ruído, uso de equipamento de proteção individual (EPI) com proteção auricular, acompanhamento médico controlado com exames audiométricos e revezamento de turnos de trabalho.
▶ Vibrações
Podem estar presentes em máquinas, equipamentos ou ferramentas que produzam vibração, e ser localizadas – quando atingem só uma parte do corpo (ferramentas manuais ou elétricas) – ou generalizadas – quando atingem o corpo inteiro, no caso de operadores de grandes máquinas como tratores. As consequências podem ser problemas articulares ou neurovasculares, lesões na coluna vertebral e dores lombares. Para se evitarem esses problemas, recomenda-se diminuir o tempo de exposição a tais fatores.
▶ Radiações
As radiações, ionizantes ou não, são formas de energia transmitidas por ondas eletromagnéticas. Medidas de proteção devem sempre ser tomadas, como uso de EPI, de aventais, luvas e óculos de proteção para radiação, entre outros. Recomendam-se ainda medidas educacionais e treinamentos dos trabalhadores envolvidos nas atividades relacionadas aos materiais radioativos e exames periódicos. São importantes também a blindagem do espaço físico de materiais que absorvem a radiação e a sinalização no acesso e nas áreas que realizem atividades. Os símbolos relacionados à
radiação se encontram na Figura 8.2A e B.
Figura 8.2 Símbolos relacionados a risco físico. A. Substância radioativa ionizante. B. Substância radioativa não ionizante. C. Eletrocussão.
■ Radiações ionizantes
Consistem em ondas eletromagnéticas com energia suficiente para fazer com que os elétrons se desprendam de átomos e moléculas, alterando sua estrutura em um processo denominado ionização. Exemplos são os raios X, usados em equipamentos radiológicos para fins médicos em diagnóstico e tratamento, e as radiações alfa (α), beta (β) e gama (γ). A radiação gama, usada para esterilizar equipamentos médicos e alimentos, é muito perigosa, pois tem alto poder de penetração, podendo causar queimaduras na pele e dentro do corpo. Dependendo da quantidade e da intensidade da dose, causam mutações genéticas e danos irreversíveis às células. É recomendável blindar o espaço físico dos materiais que absorvem a radiação e sinalizar o acesso às áreas que realizem atividades com a presença de radiação. Um bom treinamento dos trabalhadores envolvidos nas atividades relacionadas aos materiais radioativos e utilização de EPI são medidas necessárias.
■ Radiações não ionizantes
A radiação UV é não ionizante, mas não por isso é menos perigosa que a radiação ionizante, já que, além de atuar em nível atômico, também o faz em nível molecular. A radiação UV interage com a molécula de DNA (ácido desoxirribonucleico), portadora da informação genética na célula. O DNA absorve principalmente os menores comprimentos de UVC e parte da UVB. Essa absorção pode provocar quebra de suas cadeias, implicando alterações. Essa radiação está presente nas lâmpadas germicidas (comprimento de onda entre 270 e 230 nm) das câmaras de fluxo laminar. Esse equipamento é bastante usado no trabalho dos microbiologistas para passagem e repiques de microrganismos. Outros tipos de radiação não ionizante são a radiação infravermelha, proveniente de operação em fornos e solda oxiacetilênica. O impacto dessas radiações pode causar problemas oculares como conjuntivites, cataratas e até mesmo queimaduras e lesões oculares e na pele.
▶ Temperaturas extremas
■ Calor
O calor é bastante usado em laboratórios de ensino, pesquisa e serviço de saúde. O calor intenso pode estar presente em várias situações e equipamentos, e é bastante usado em operações de limpeza, desinfecção e esterilização de vários materiais e áreas, por exemplo, autoclaves, estufas e bico de Bunsen. Cuidados no uso devem ser explicados por métodos educacionais e treinamento para evitar queimaduras e risco de incêndio. Deve-se também adotar medidas preventivas e de controle, com áreas de ventilação, exaustão de vapores de água e uso de EPI, como luvas antitérmicas, para lidar com autoclaves e estufas.
■ Frio e umidade
Atividades ou operações executadas em locais alagados ou encharcados, com umidade excessiva, podem causar danos à saúde e são consideradas insalubres; por exemplo, o trabalho em frigoríficos e em câmaras frias, entre outros. A faixa de conforto para o ser humano é a que corresponde à temperatura de 22 a 28º C e à umidade relativa do ar entre 45 e 50%.
▶ Eletricidade
O uso da eletricidade exige a aplicação de algumas precauções em virtude do risco que representa. Os acidentes com eletricidade em laboratórios e unidades de pesquisa e saúde ocorrem com certa frequência, por isso há normas de segurança que estabelecem que as pessoas devem ser informadas sobre os riscos a que se expõem, assim como conhecer seus efeitos e as medidas de segurança aplicáveis. Os acidentes podem ser desde choques elétricos até incêndios devido à sobrecarga de quadros de força – por exemplo, quando há muitos equipamentos ligados em filtros de linha e extensões, quando não há manutenção de equipamentos e aparelhos de ar condicionado que às vezes precisam ficar ligados em modo contínuo e quando as instalações são inadequadas. Para ligar equipamentos na rede elétrica, é necessário que haja aterramento, o que, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), significa colocar instalações e equipamentos no mesmo potencial, de modo que a diferença de potencial entre a terra e o equipamento seja o menor possível. O fio terra é o conector com diferença de potencial igual a zero. O sistema de aterramento consiste em uma viga cravada na terra que é conectada a um fio, geralmente de cores verde e amarela, o qual percorre o laboratório e/ou equipamentos específicos, com o objetivo de diminuir a variação de tensão de uma rede elétrica, eliminar as fugas de energia e proteger os usuários de um possível choque elétrico.
Como medida preventiva, a voltagem da rede local de eletricidade deve estar evidenciada, assim como a de cada equipamento, em local de fácil visualização. O número de tomadas deve ser previsto de acordo com a capacidade total dos aparelhos do setor onde estão instalados, evitando-se a sobrecarga no uso das delas, o que pode provocar curtos-circuitos e dar origem a incêndio. Os equipamentos devem sempre ser instalados com uso de fio terra para descarga elétrica excessiva.
Todas as unidades laboratoriais e seus setores devem ter extintores adequados. No caso de equipamentos elétricos que possam causar incêndios classe C, os extintores devem ser de CO2. Para incêndios classe B, líquidos inflamáveis, também pode ser usado o pó químico, mas nunca extintores que usem água ou espuma. O símbolo que indica risco de eletrocussão está
indicado na Figura 8.2 C.
Riscos químicos
A manipulação de produtos químicos exige conhecimento das medidas de segurança, a fim de se evitarem danos físicos que incluem irritação na pele e nos olhos e queimaduras leves ou graves causadas por incêndio ou explosão. Problemas de saúde podem se dar pela exposição de curta ou longa duração a produtos químicos tóxicos, pelo contato com a pele, com os olhos e pela inalação de vapores, o que pode causar doenças respiratórias crônicas, doenças do sistema nervoso, nos rins, no fígado e alguns tipos de câncer. Por isso os produtos químicos devem ser armazenados em almoxarifados ou armários, com o cuidado de se analisarem as propriedades físicas e químicas e compatibilidades de cada um deles. Áreas separadas de estocagem devem ser providenciadas para produtos químicos incompatíveis, que são aqueles que podem reagir com outros, significando
perigo (Quadro 8.1). Outros produtos exigem faixas de temperaturas específicas, já que têm uma temperatura mínima para ocorrer combustão, independentemente da fonte de calor. Os produtos químicos só podem ser armazenados tendo à mostra o símbolo ou pictograma que dizem qual risco representam. Substâncias oxidantes, ácidos e inflamáveis devem ser mantidos sempre no armário corta-fogo para cada categoria, sejam corrosivos ou inflamáveis.
A rotulagem dos produtos químicos traz as informações importantes, como o tipo de substâncias químicas que os produtos contêm, perigos associados a esse produto e o modo de utilização dele em segurança. Para atender a essa demanda, criou-se o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos, referido pela sigla GHS (do inglês Globally Harmonized System of Classification and Labeling of Chemicals), conforme estabelecido na Convenção 170 da Organização Internacional do Trabalho, assinada em 25 de junho de 1990, em Genebra, na Suíça, com o Brasil signatário da convenção. Trata-se de uma abordagem técnica desenvolvida para definir os perigos específicos de cada produto químico, que estabelece critérios harmonizados para classificar substâncias e compostos com relação aos perigos físicos, para a saúde e para o meio ambiente. Nele se incluem elementos para informar sobre os perigos, com os requisitos sobre a rotulagem, pictogramas e fichas de informações de segurança para produtos químicos (FISPQ). O Brasil, baseado nessa convenção, criou o Decreto Legislativo no 67/1995 e promulgou sua plena vigência em 3 de julho de 1998, por meio do Decreto no 2.627, que determina a segurança na utilização de produtos. Em 2011, o Ministério do Trabalho e Emprego inseriu a obrigatoriedade da adoção do GHS, porém não estipulou as regras para essas alterações nem datas-limite para seu cumprimento. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) criou um grupo de trabalho, elegendo a ABTN para estabelecer todo o escopo em Normas Brasileiras de Regulamentação. Nesse contexto foi elaborada a NBR 14.725, subdividida em quatro partes (terminologia, classificação de perigo, rotulagem e ficha de informações de segurança):
Quadro 8.1 Incompatibilidade química entre as principais substâncias utilizadas pelos geradores de resíduos de serviços de saúde.
Substância Incompatibilidade química*
Acetileno Cloro, bromo, úor, cobre, prata, mercúrio
Ácido acético Ácido crômico, ácido perclórico, peróxidos
Acetona Permanganatos, ácido nítrico, etilenoglicol, misturas de
ácidos sulfúrico e nítrico concentrados, peróxido de
hidrogênio
Ácido crômico Ácido acético, naftaleno, cânfora, glicerol, terebintina,
álcool, outros líquidos in amáveis
Ácido hidrociânico Ácido nítrico, álcalis
Ácido uorídrico anidro, uoreto de Amônia (aquosa ou anidra)
hidrogênio
Ácido nítrico concentrado Ácido cianídrico, anilinas, óxidos de cromo VI, sulfeto de
hidrogênio, líquidos e gases combustíveis, ácido
acético, ácido crômico
Ácido oxálico Prata e mercúrio
Ácido perclórico Anidrido acético, alcoóis, bismuto e suas ligas, papel
Ácido sulfúrico Madeira, cloratos, percloratos, pemanganatos e água
Alquil alumínio Água
Amônia anidra Mercúrio, cloro, hipoclorito de cálcio, iodo, bromo, ácido
uorídrico
Anidrido acético Compostos contendo hidroxila, tais como etilenoglicol,
ácido perclórico
Anilina Ácido nítrico, peróxido de hidrogênio
Azida sódica Chumbo, cobre e outros metais
Bromo e cloro Benzeno, hidróxido de amônio, benzina de petróleo,
hidrogênio, acetileno, etano, propano, butadienos, pós
metálicos
Carvão ativado Dicromatos, permanganatos, ácido nítrico, ácido
sulfúrico, hipoclorito de sódio
Cloro Amônia, acetileno, butadieno, butano, outros gases de
petróleo, hidrogênio, carbeto de sódio, terebintina,
benzeno, metais namente divididos, benzinas e
outras frações do petróleo
Cianetos Ácidos e álcalis
Cloratos, percloratos, clorato de Sais de amônio, ácidos, metais em pó, matérias
potássio orgânicas, particuladas, substâncias combustíveis
Cobre metálico Acetileno, peróxido de hidrogênio, azidas
Dióxido de cloro Amônia, metano, fósforo, sulfeto de hidrogênio
Flúor Manter isolado de outros produtos químicos
Fósforo Enxofre, compostos oxigenados, cloratos, percloratos,
nitratos, permanganatos
Halogênios ( úor, cloro, bromo e Amoníaco, acetileno e hidrocarbonetos
iodo)
Hidrazida Peróxido de hidrogênio, ácido nítrico e outros oxidantes
Hidrocarbonetos (butano, propano, Ácido crômico, úor, cloro, bromo, peróxidos
tolueno)
Iodo Acetileno, hidróxido de amônio, hidrogênio
Líquidos in amáveis Ácido nítrico, nitrato de amônio, óxido de cromo VI,
peróxidos, úor, cloro, bromo, hidrogênio
Mercúrio Acetileno, ácido fulmínico, amônia
Metais alcalinos Dióxido de carbono, tetracloreto de carbono, outros
hidrocarbonetos clorados
Nitrato de amônio Ácidos, pós metálicos, líquidos in amáveis, cloretos,
enxofre, compostos orgânicos em pó
Nitrato de sódio Nitrato de amônio e outros sais de amônio
Óxido de cálcio Água
Óxido de cromo VI Ácido acético, glicerina, benzina de petróleo, líquidos
in amáveis, naftaleno
Oxigênio Óleos, graxas, hidrogênio, líquidos, sólidos e gases
in amáveis
Perclorato de potássio Ácidos
Permanganato de potássio Glicerina, etilenoglicol, ácido sulfúrico
Peróxido de hidrogênio Cobre, cromo, ferro, alcoóis, acetonas, substâncias
combustíveis
Peróxido de sódio Metanol, etilenoglicol, acetatos de metila e etila, furfural
Prata e sais de prata Acetileno, ácido tartárico, ácido oxálico, compostos de
amônio
Sódio Dióxido de carbono, tetracloreto de carbono, outros
hidrocarbonetos clorados
Sulfeto de hidrogênio Ácido nítrico fumegante, gases oxidantes
RDC 222, 2018. *Adaptado de Hirata; Mancini Filho, 2002.
■ ABNT NBR 14725-1: produtos químicos – informações sobre
segurança, saúde e meio ambiente. Parte 1: terminologia, versão
corrigida em 2010.
■ ABNT NBR 14725-2: produtos químicos – informações sobre
segurança, saúde e meio ambiente. Parte 2: sistema de classificação de
perigo, 2009.
■ ABNT NBR 14725-3: produtos químicos – informações sobre
segurança, saúde e meio ambiente. Parte 3: rotulagem, 2012.
■ ABNT NBR 14725-4: produtos químicos – informações sobre
segurança, saúde e meio ambiente. Parte 4: ficha de informações de
segurança de produtos químicos (FISPQ), 2010.
Deste modo, de acordo com a norma ABNT NBR 14725-2, os produtos químicos e as misturas podem ser classificados em uma das cinco categorias de toxicidade aguda por via oral, dérmica ou por inalação. A classificação de perigo de substâncias e misturas é baseada em valores de corte/limites de concentração dos valores de toxicidade aguda oral, dérmica e inalatória, DL50 e CL50, que são obtidos por meio de ensaios com mamíferos, de acordo com os métodos descritos na norma. Esses limites classificam as substâncias e as misturas em categorias de perigo. A norma ABNT NBR 14725-3 especifica em detalhes como deve ser a rotulagem dos produtos químicos: no rótulo deve constar a composição química da
substância e o pictograma (Quadro 8.2), bem como a palavra de advertência “perigo”– para categorias mais graves de perigo – ou “atenção” – para menos graves. Também devem constar no rótulo as frases de perigo, que são textos padronizados, junto com seus respectivos códigos. Exemplos de frases de perigo e códigos:
■ H225 – Líquido e vapores altamente inflamáveis
■ H311 – Tóxico em contato com a pele
■ H336 – Pode provocar sonolência ou vertigem
■ H400 – Muito tóxico para os organismos aquáticos.
Outra informação necessária nos rótulos são as frases de precaução. Devem constar no máximo seis delas, para descrever a natureza e gravidade dos perigos. As frases de precaução devem ser selecionadas de acordo com as categorias de perigo, propriedades especiais do produto e as utilizações pretendidas, e compreendem informações sobre: (1) geral; (2) prevenção; (3) resposta à emergência; (4) armazenamento; (5) disposição.
Exemplos de frases de precaução são:
■ P311 – Contate um Centro de Informação Toxicológica/médico
■ P361 – Retire imediatamente toda a roupa contaminada
■ P376 – Contenha o vazamento se puder ser feito com segurança.
Informações adicionais podem ser inseridas sobre perigos. A Figura 8.3 ilustra essas especificações.
▶ Classificação de risco de agentes químicos
O sistema GHS e a norma ABNT NBR 14725-2 estabelecem critérios para o sistema de classificação de perigos de produtos químicos, sejam substâncias ou misturas, de modo a fornecerem ao usuário informações relativas à segurança, à saúde humana e ao meio ambiente. Os perigos das substâncias e misturas à saúde são determinados por meio da avaliação das suas propriedades toxicológicas, em conformidade com os critérios descritos nesta norma e metodologias descritas no Manual de Ensaios e Critérios da Organização das Nações Unidas (ONU). Além desses critérios, os perigos das substâncias e misturas podem ser demonstrados por meio de estudos epidemiológicos de casos cientificamente válidos ou de experiências apoiadas em elementos estatísticos; efeitos toxicológicos nos seres humanos que diferem dos indicados pela aplicação dos métodos experimentais, laboratoriais, referenciados na norma, mas que devem ser classificados conforme os sintomas observados no homem. Por último, os perigos de efeitos sinérgicos, de potenciação ou aditivos que devem ser considerados na classificação da mistura quando uma avaliação convencional levar a uma subestimação dos perigos de natureza toxicológica. A seguir, alguns exemplos das três principais categorias de produtos perigosos, segundo o GHS, 2017.
Quadro 8.2 Pictogramas e símbolos de classificação de risco de produtos químicos.
Classi cação Símbolo antigo Símbolo atual* Tipo de risco
Tóxico ou altamente Risco à saúde
tóxico
Corrosivo Risco à saúde
Explosivo Risco à saúde
Nocivo à natureza Risco ao meio
ambiente
Material in amável e Risco físico
extremamente
in amável
Irritante Risco à saúde
Nocivo, mutagênicos, Risco à saúde
carcinogênico,
tóxico a órgãos
Comburente, Risco físico
oxidante, peróxidos
orgânicos
Gás sob pressão Risco físico
*ABNT NBR 14725-3/ 2012. O GHS, sistema das Nações Unidas destinado a identi car produtos
químicos perigosos e a informar os utilizadores sobre tais perigos, foi adotado por muitos países
em todo o mundo e serve de base para a regulamentação internacional e nacional em matéria de
transporte de mercadorias perigosas. Já o Regulamento Classi cação, Rotulagem e Embalagem
(CRE, no 1.272/2008 do Parlamento Europeu) entrou em vigor em 20 de janeiro de 2009 e
substituiu progressivamente a classi cação e a rotulagem. O Regulamento CRE harmoniza a
anterior legislação da União Europeia com o GHS e tem também ligações com o Regulamento
REACH.
Figura 8.3 Representação de rótulo de uma embalagem para líquido inflamável, categoria 2, norma ABNT NBR 14725-3.
■ Perigos físicos
In amáveis
Gases, líquidos e sólidos com pontos de inflamação baixos, substâncias sólidas com facilidade de inflamar, de continuar queimando por si sós, que liberam substâncias facilmente inflamáveis por ação da umidade. Segundo o sistema GHS, gás inflamável é aquele com faixa de inflamabilidade com ar a 20°C e pressão padrão de 101,3 kPa (p. ex., metano, acetileno, amoníaco, hidrogênio, propano). Líquido inflamável é aquele com ponto de inflamação não superior a 93°C (p. ex., gasolina, álcool e óleo diesel), e sólido inflamável é todo sólido que é facilmente combustível ou que pode causar ou contribuir para o fogo através da fricção (p. ex., compostos N-nitrosos [–N–N=O]).
Embora sejam muito usados, deve-se ter em estoque pouca quantidade deles. Há de se conhecer seus pontos de ebulição, pontos de fulgor (temperatura na qual o material se inflama se houver fonte de ignição próxima, embora a chama não se mantenha) e sempre conhecer qual tipo de extintor é adequado para apagar um possível incêndio. O ideal é que se evitem embalagens de vidro, estocando-os em recipientes de aço inoxidável. Deve-se ter cuidado com as instalações elétricas próximas e com qualquer fonte de calor e chama.
Oxidantes | Peróxidos orgânicos
São agentes que desprendem oxigênio e favorecem a combustão e, assim, podem inflamar substâncias combustíveis ou acelerar a propagação de incêndio. Como exemplo de alguns oxidantes podemos citar os peróxidos, nitratos, bromatos, cromatos, cloratos, dicromatos, percloratos e permanganatos. Deve ser observada a questão de compatibilidade, e agentes oxidantes não devem ser armazenados na mesma área que produtos químicos inflamáveis, substâncias orgânicas, agentes desidratantes ou agentes redutores. A área para estocar os agentes oxidantes deve possuir resistência ao fogo, ser blindada e bem ventilada. Os peróxidos orgânicos são agentes de alto poder oxidante, podendo ser irritantes para olhos, pele, mucosas e garganta. Assim como os oxidantes, são termicamente instáveis e podem sofrer decomposição exotérmica e autoacelerável, gerando risco de explosão. Esses produtos são também sensíveis a choque e atrito. Como exemplo de peróxido orgânico, destacam-se peróxido de butila e peróxido de benzoíla.
Corrosivos
Esses produtos químicos causam a destruição de tecidos vivos e/ou materiais inertes. A estocagem dos líquidos corrosivos deve ser feita em área fresca, seca e ventilada. Devem ser mantidos em temperatura maior que a de seu ponto de fusão. Os chuveiros lava-olhos e de emergência devem estar presentes em caso de acidentes. Exemplos: ácido clorídrico, ácido acético e amoníaco.
Explosivos | Autorreativos
São agentes químicos que, pela ação de choque, percussão ou fricção, produzem centelhas ou calor suficiente para iniciar um processo destrutivo através de liberação de energia. Algumas substâncias explosivas encontradas em laboratórios são: peróxido de benzoíla, dissulfeto de carbono, éter di-isopropílico, éter etílico, ácido pícrico, ácido perclórico, potássio metálico, TNT (trinitrotolueno), ácido pícrico, nitrocelulose, pólvora negra, pólvora branca.
Gases sob pressão
Embalagens sob pressão que podem explodir em contato com o calor. Entre os exemplos, se incluem o hélio e a mistura comercial argônio (79%) e dióxido de carbono (25%).
■ Perigos para a saúde
Mutagênicos | Carcinogênicos | Tóxicos a órgãos
Mutagenicidade em células germinativas refere-se a mutações genéticas hereditárias, estruturais e numéricas e aberrações cromossômicas em células germinativas que ocorrem após exposição a uma substância ou mistura. Essa classe de perigo está principalmente relacionada a produtos químicos que podem causar mutações nas células germinativas e ser transmitidas para a progênie.
Carcinogenicidade refere-se a indução de câncer ou um aumento na incidência de câncer que ocorre após exposição a uma substância ou mistura. Substâncias e misturas que induziram tumores benignos e malignos em estudos experimentais bem realizados em animais são consideradas presumíveis ou suspeitas de serem carcinogênicos humanos, a menos que haja fortes evidências de que o mecanismo de formação do tumor não seja relevante para os seres humanos. A classificação de uma substância ou mistura como tendo um risco carcinogênico baseia-se em suas propriedades e não fornece informações sobre o nível do risco de cancro humano que a utilização da substância ou mistura pode representar.
A toxicidade para órgãos-alvo específicos – exposição única, refere-se a efeitos tóxicos específicos e não letais aos órgãos-alvo que ocorram após uma única exposição a uma substância ou mistura. A classificação identifica a substância ou mistura como sendo um tóxico para órgãos-alvo específicos e, como tal, pode apresentar um potencial para efeitos adversos à saúde em pessoas que estão expostas a ela. A classificação depende da disponibilidade de evidências confiáveis de que uma única exposição à substância ou mistura tenha produzido um efeito tóxico consistente e identificável em seres humanos, ou da observação, em animais, de alterações toxicologicamente significativas que afetem a função ou a morfologia de um tecido ou órgão. Há de se constatar se produziram sérias mudanças na bioquímica ou hematologia do organismo e se estas são relevantes para a saúde humana. Os dados obtidos com humanos serão a principal fonte de evidência para essa classe de perigo. A toxicidade pode ser também para órgãos-alvo específicos – exposição repetida e, nesse caso, refere-se a efeitos tóxicos específicos em órgãos-alvo ocorridos após exposição repetida a uma substância ou mistura. Todos os efeitos significativos para a saúde que podem prejudicar a função, tanto de modo reversível quanto irreversível, imediato e/ou tardio, estão incluídos. A avaliação deve levar em consideração não somente mudanças significativas em um único órgão ou sistema mas também mudanças generalizadas de natureza menos grave envolvendo vários órgãos. A toxicidade específica do órgão pode ocorrer por qualquer via relevante para os seres humanos, ou seja, principalmente dérmica ou inalação. Um exemplo são as terebintinas.
De toxicidade aguda
São produtos cuja inalação, ingestão ou absorção através da pele provoca danos à saúde, na maior parte das vezes, muito graves, ou até mesmo leva à morte. Exemplos: biocidas e metanol.
Nocivos | Irritantes
São agentes químicos que, por inalação, absorção ou ingestão, produzem efeitos de menor gravidade. Essa classificação indica também substâncias que podem desenvolver ação irritante sobre a pele, os olhos e o trato respiratório, por exemplo, produtos de limpeza.
■ Perigos para o ambiente
Aqui se incluem, entre outras, as substâncias tóxicas aos organismos aquáticos (peixes, algas, crustáceos), como pesticidas, biocidas, gasolina. Alguns conceitos são importantes na análise dessa toxicidade:
■ Toxicidade aguda em meio aquático: propriedade intrínseca de uma
substância ser prejudicial a uma exposição aquática dessa substância a
curto prazo
■ Disponibilidade: se a substância está solúvel ou agregada a uma
molécula, como é o caso de muitos metais
■ Biodisponibilidade (ou disponibilidade biológica): à medida que uma
substância é absorvida no organismo, é distribuída para uma área dentro
do organismo. Depende das propriedades físico-químicas da substância,
da anatomia e da fisiologia do organismo, da farmacocinética e da via
de exposição.
■ Bioacumulação: absorção, transformação e eliminação de uma
substância em um organismo devido a todas as vias de exposição (ar,
água, sedimento/solo e alimentos)
■ Bioconcentração: absorção, transformação e eliminação de uma
substância em um organismo devido à exposição à água
■ Toxicidade crônica em meio aquático: propriedade intrínseca de uma
substância para causar efeitos adversos em organismos durante
exposições aquáticas que são determinadas em relação ao ciclo de vida
do organismo
■ Misturas complexas, ou substâncias com múltiplos componentes, ou
substâncias complexas: misturas de substâncias individuais com
diferentes solubilidades e propriedades físico-químicas
■ Degradação: decomposição de moléculas orgânicas em moléculas
menores e eventualmente dióxido de carbono, água e sais.
Nessa categoria se incluem também substâncias que danificam a camada de ozônio, medida definida pelo potencial de destruição do ozono (ODP, do inglês ozone depletion potential), que é uma quantidade integrativa, distinta para cada fonte de halocarbono que representa a extensão da depleção de ozônio na estratosfera. No âmbito internacional, os países signatários do Protocolo de Montreal, que entrou em vigor em 1o de janeiro de 1989, se comprometeram a substituir as substâncias que demonstrarem ser responsáveis pela destruição do ozônio.
▶ Diagrama de Hommel
É uma simbologia empregada pela Associação Nacional de Proteção contra Incêndios (NFPA, das iniciais do inglês National Fire Protection Association), dos EUA, conhecida pelo código NFPA 704 e feita com quadrados que representam tipos de risco em graus que variam de 0 a 4
(Figura 8.4). Cada quadrado é especificado por uma cor (branca, azul, amarela e vermelha), as quais representam os riscos específicos (sem cor), os risco à saúde (cor azul), a reatividade (cor amarela) e a inflamabilidade (cor vermelha) dos agentes químicos, sendo por isso importante para organizar o ambiente em relação a todos os riscos. Quando utilizado na rotulagem de produtos, o diagrama é de grande utilidade, permitindo que se tenha ideia sobre o risco representado pela substância. Para o preenchimento do diagrama pode-se utilizar diversas bases de consulta que contenham as FISPQ, em que a classificação de cada produto químico
possa ser encontrada. A Figura 8.5 mostra o diagrama de Hommel para o ácido perclórico e o etanol.
Figura 8.4 Diagrama de Hommel.
Figura 8.5 Diagrama de Hommel para o ácido perclórico (A) e o etanol (B).
■ Inflamabilidade
■ 4: Gases inflamáveis, líquidos muito voláteis (ponto de fulgor abaixo de
23°C)
■ 3: Substâncias que entram em ignição à temperatura ambiente (ponto de
fulgor abaixo de 38°C)
■ 2: Substâncias que entram em ignição quando aquecidas
moderadamente (ponto de fulgor abaixo de 93°C)
■ 1: Substâncias que precisam ser aquecidas para entrar em ignição (ponto
de fulgor acima de 93°C)
■ 0: Substâncias que não queimam.
■ Riscos à saúde
■ 4: Substância letal
■ 3: Substância severamente perigosa
■ 2: Substância moderadamente perigosa ■ 1: Substância levemente perigosa
■ 0: Substância não perigosa ou de risco mínimo.
■ Riscos específicos
■ OXY: Oxidante forte
■ ACID P: Ácido forte
■ ALK: Alcalino (base)
■ COR: Corrosivo
■ W: Não misture com água.
■ Reatividade
■ 4: Pode explodir
■ 3: Pode explodir com choque mecânico ou calor
■ 2: Reação química violenta
■ 1: Instável se aquecido
■ 0: Estável.
Riscos biológicos
A manipulação ou a exposição a agentes biológicos (Figura 8.6) pode causar infecções ou consequências mais graves, incluindo a morte. A microbiologia trabalha com microrganismos que têm diferentes graus de riscos, e a segurança para trabalhar com agentes patogênicos depende de vários fatores, como instalações e equipamentos adequados, EPI e
conhecimento em boas práticas de laboratório (ver Capítulo 9, Boas Práticas em Microbiologia). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os perigos oriundos de microrganismos infecciosos são causados por grupos de riscos (classificados em 1, 2, 3 e 4). Vários critérios são usados nessa classificação, como o grau de patogenicidade para o homem e o modo de transmissão, que pode ter valor na disseminação do agente. A estabilidade e a dose do agente infectante são também importantes, assim como a existência ou não de medidas profiláticas (medidas sanitárias, vacinação, existência de antissoros) e terapêuticas (medicamentos que combatam a doença, como antibióticos).
Figura 8.6 Símbolo relacionado a risco biológico.
▶ Classificação dos microrganismos por grupo de risco
▶ Grupo de risco 1. Riscos individual e coletivo baixos. São microrganismos cuja manipulação tem risco individual e coletivo baixos. Por exemplo, microrganismos probióticos, como Bacillus sp. e Lactobacillus sp., ou seja, aqueles utilizados em indústrias de alimentos e bebidas em geral e que não podem causar doença no ser humano ou em animais.
▶ Grupo de risco 2. Risco individual moderado e risco coletivo baixo. São microrganismos que podem causar doenças humanas ou animais, mas para as quais existem tratamentos e medidas de prevenção. O risco de disseminação é baixo. Como exemplos, temos o vírus da hepatite B, amebas, Salmonella enteritidis, Bacillus cereus, Neisseria meningitidis e Toxoplasma gondii, Candida albicans, Giardia, Trypanosoma cruzi.
▶ Grupo de risco 3. Risco individual alto e comunitário limitado. São microrganismos patogênicos que costumam provocar doenças graves, propagadas de um hospedeiro infectado ao outro. Para esses casos, há medidas profiláticas e de tratamento bem-estabelecidas. Como exemplos, os vírus HIV, HTLV e da encefalite equina, as bactérias Mycobacterium tuberculosis, Brucella suis, Coxiella burnetii, Bacillus anthracis, Clostridium botulinum, Coccidioides immitis, Histoplasma capsulatum.
▶ Grupo de risco 4. Riscos individual e comunitário elevados. São microrganismos que causam doença humana ou animal grave. O risco de transmissão de uma pessoa para outra, direta ou indiretamente, é alto, e medidas efetivas de tratamento ou prevenção não estão disponíveis. A transmissão se dá por via respiratória ou desconhecida. Exemplos: febres hemorrágicas, febre de Lassa, machupo, ebola, arenavírus e certos arbovírus.
▶ Níveis de biossegurança
De acordo com o grupo desses microrganismos, os níveis de biossegurança são estabelecidos em 4 tipos, desde o de mais simples contenção até o de nível de contenção mais alto. A proteção da equipe e do ambiente de trabalho é feita por meio da conduta e do treinamento com uso de equipamentos de proteção individual e/ou coletiva, podendo ser
necessárias instalações físicas adequadas. A Figura 8.7 resume os principais níveis.
■ Nível de biossegurança 1 (NB-1)
É o nível de contenção primária que se aplica aos laboratórios de ensino básico e pesquisa, onde são manipulados os microrganismos pertencentes à classe de risco 1. Nesses laboratórios não é necessária nenhuma estrutura especial, apenas planejamento funcional e adoção de boas práticas
laboratoriais (ver Capítulo 9, Boas Práticas em Microbiologia), presença de pia, janelas fechadas e bancadas resistentes a produtos químicos e desinfetantes. Roupas, objetos pessoais e alimentos devem estar fora da
área do laboratório. Os alunos e a equipe do laboratório (Figura 8.8) devem ter treinamento básico em técnicas laboratoriais sob a supervisão de um pesquisador com conhecimento e experiência em microbiologia. É necessária a descontaminação diária de bancadas, descarte adequado de lixo e controle de insetos e roedores. Ao lidar com os microrganismos, é essencial usar equipamento básico de proteção individual, como óculos de proteção, luva, jaleco e sapatos. Embora não seja obrigatório, é desejável que o local de manipulação dos microrganismos seja a câmara de segurança biológica classe I, com filtros HEPA (do inglês high-efficiency particulate air). Essa câmara deve passar por manutenção anual de forma a garantir sua eficácia. Além de ser uma barreira de proteção, ela impede a contaminação cruzada entre os microrganismos manipulados no laboratório.
Figura 8.7 Principais níveis de biossegurança.
Figura 8.8 Laboratório BIOINOVAR: bioprodutos, bioenergia e biocatálise, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ.
■ Nível de biossegurança 2 (NB-2)
Refere-se a laboratório com contenção secundária, onde são manipulados microrganismos da classe de risco 2. Aplica-se aos laboratórios clínicos ou hospitalares de níveis primários de diagnóstico, sendo necessário, além da adoção das boas práticas, o uso de barreiras físicas primárias (câmara de segurança biológica e EPI) e secundárias (desenho e organização do laboratório). Além das medidas e recomendações descritas para o nível de biossegurança 1, é necessário que se tenha autoclaves e lava-olhos. A autoclave, além de esterilizar objetos usados em microbiologia, faz a descontaminação de todos os materiais usados e dos resíduos gerados previamente à sua reutilização. São utilizadas câmaras de segurança biológica classe II.
■ Nível de biossegurança 3 (NB-3)
É destinado ao trabalho com microrganismos da classe de risco 3 ou para manipulação de grandes volumes e altas concentrações de microrganismos da classe de risco 2. Para esse nível de contenção são requeridos, além dos itens referidos no nível 2, desenho e construção laboratoriais especiais. Deve ser mantido controle rígido quanto a operação, inspeção e manutenção das instalações e equipamentos, e o corpo técnico deve receber treinamento específico sobre procedimentos de segurança para a manipulação desses microrganismos. Para esse nível é obrigatório o uso de roupas de proteção apropriadas, bem como de máscaras, gorros, luvas e sapatilhas e óculos de proteção ou protetores faciais. Devem ser utilizadas câmaras de segurança biológica classe II, B2 ou III.
■ Nível de biossegurança 4 (NB-4)
São laboratórios de contenção máxima, destinados à manipulação de microrganismos da classe de risco 4, onde há o mais alto nível de contenção. Além de representarem uma unidade geográfica e funcionalmente independente de outras áreas, esses laboratórios requerem, além dos requisitos físicos e operacionais dos níveis de contenção 1, 2 e 3, barreiras de contenção (instalações, desenho, equipamentos de proteção) e procedimentos especiais de segurança. Para este nível se usa câmara de segurança biológica classe III.
▶ Tipos de câmaras de segurança biológica
Conhecidas também por capelas ou cabines de segurança biológica, as câmaras podem ser de vários tipos, descritos e classificados a seguir.
■ Classe I
A câmara tem uma abertura frontal, por onde o ar entra para circular por seu interior e depois ser eliminado por um condutor que fica na parte de trás da câmara, passando antes por um sistema de filtração especial: HEPA. Esses filtros têm alta eficiência na retenção de particulados do ar e são capazes de reter até 99,97% das partículas com até 0,3 micrômetro (μm) de diâmetro. Nessa câmara, o ar com aerossóis contendo partículas microscópicas com os agentes infecciosos (vírus, bactérias, fungos) gerados durante manipulações microbiológicas se move no interior da câmara e passa por um sistema de filtração que remove todas as partículas e contaminantes do ar. O ar limpo descontaminado é então liberado. O sistema das câmaras de segurança faz circular o ar no interior da câmara, evitando, dessa forma, que esses aerossóis e que os agentes infectantes permaneçam na câmara. Promove a recirculação de 70% do ar e a renovação de 30%, liberando o ar filtrado para dentro do laboratório.
■ Classe II
Como as câmaras de segurança de classe I, as de classe II têm um fluxo de ar interno que se desloca no equipamento, evitando que o aerossol gerado durante manipulações microbiológicas escape pela abertura frontal. No entanto, a entrada do ar flui através da grade dianteira, perto do operador. A corrente de ar não filtrada não entra na zona de trabalho da câmara; logo, o material manipulado não é contaminado pelo ar externo. Uma característica exclusiva das câmaras de classe II é o fluxo de ar filtrado unidirecionalmente, que passa pelo interior dela. Isso permite que o ar seja renovado continuamente e ainda protege as amostras manipuladas de contaminação. Podem ser A1, A2, B1 ou B2:
■ Câmara de segurança biológica de classe II, A1. O ar recircula em 70%,
com renovação de 30%. O ar filtrado é liberado para dentro do
laboratório
■ Câmara de segurança biológica de classe II, A2. Esta câmara é
composta por dois filtros HEPA e promove a recirculação de 70% do ar
e a renovação de 30% dele. O ar filtrado é exaurido e direcionado para
fora do laboratório através de um sistema de ducto
■ Câmara de segurança biológica de classe II, B1. Nela, 70% do ar é
exaurido e 30% volta a circular na área de trabalho da câmara. O ar
entra na câmara e passa pelo filtro HEPA abaixo da área de trabalho, e
30% do ar recircula enquanto 70% sai através do filtro exaustor
■ Câmara de segurança biológica de classe II, B2. Na câmara de tipo B2,
todo o fluxo de ar é exaurido após a filtração HEPA para o ambiente
externo, sem recirculação da zona de trabalho. O ar entra pelo topo da
câmara, atravessa o pré-filtro e o filtro HEPA sobre a área de trabalho.
O ar filtrado atravessa somente uma vez a área de trabalho. O
esgotamento do ar é realizado pelo filtro HEPA e o ar é conduzido por
um ducto para o exterior. O tipo B2 é adequado para manipulações de