Práticas de Microbiologia (2ª edição)

Alane Beatriz Vermelho · Capítulo 56 de 56

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Práticas de Microbiologia (2ª edição)

Boas práticas com perguntas e respostas

A partir dessa premissa, colocamos em prática alguns dos conhecimentos vitais para quem trabalha com microbiologia e reunimos questões que sempre surgem com relação a alguns problemas na rotina microbiológica. De qualquer forma, uma orientação geral para todos seria a de ter bom senso e, mais ainda, perguntar, sempre que tiver dúvidas, às pessoas com mais experiência e conhecimento dentro do laboratório.

 

Boas práticas com perguntas e respostas

 

Embora haja vários livros, textos e manuais ou guias de prática sobre microbiologia, com excelentes informações e conteúdo, muitas vezes nos deparamos com questões de ordem prática mas não encontramos orientações satisfatórias para auxiliar na tomada de decisões. Sendo assim, serão citadas situações rotineiras no dia a dia de um laboratório de microbiologia e, de forma simples, oferecidas soluções no esquema de perguntas e respostas. A ideia não é de forma alguma postular dogmas ou condutas que contrariem ou sigam em sentido contrário aos preceitos e fundamentos microbiológicos, mas sim que ajudarão na decisão de um caminho prático e rápido, com auxílio do aparato e de condições reais do operador e do laboratório/material disponível do momento.

 

Fluxo laminar versus bico de Bunsen | O que é melhor e mais seguro?

Essa pergunta seria de fácil resposta, até certo ponto, se não envolvesse um fator econômico e que em muitos casos leva o operador, ou responsável pelo laboratório, a tomar a decisão em relação a tal questão. Ambos os equipamentos são úteis e eficazes no trabalho de forma asséptica, alterando-se apenas a forma como cada um deles fornece a segurança de se trabalhar na manutenção da assepsia.

O fluxo laminar utiliza a recirculação do ar ambiente, possibilitando o trabalho com material estéril e a segurança no manuseio de materiais biológicos que não podem sofrer contaminação, visto que a corrente de ar,

para baixo e no sentido vertical (fluxo laminar vertical – Figura 9.1A) ou

apenas no sentido horizontal (fluxo laminar horizontal – Figura 9.1B), passa através de um filtro absoluto HEPA (sigla do inglês high-efficiency particulate air), removendo quase que 100% das partículas em suspensão, de tamanho de 0,3 mícron de diâmetro.

No bico de Bunsen, como já discutido no Capítulo 2, Materiais e Técnicas Básicas da Microbiologia, utiliza-se o calor da chama dentro de uma zona de segurança, em um raio de aproximadamente 30 cm, o que, de certa forma, restringe muito a área de trabalho quando comparada aos fluxos laminares.

Figura 9.1 Fluxos laminares. Os fluxos laminares podem ter a disposição do filtro HEPA na posição vertical (A), onde fica localizado na porção superior do equipamento, ou na posição horizontal (B) onde a posição do filtro fica de frente para o operador, como pode ser observado na foto. Notar a lâmpada ultravioleta (UV) acesa no fluxo laminar vertical (A).

 

A seguir, estão descritas as vantagens e as desvantagens no uso de ambos os métodos e equipamentos para se trabalhar de forma asséptica.

 

▶ Bico de Bunsen

 

▶ Vantagens. O custo de aquisição, instalação e manutenção é baixo; tem rápido acesso para uso, visto que basta acender a chama para utilizá-lo, sem a necessidade de longo tempo de espera para o início dos trabalhos.

▶ Desvantagens. Pelo fato de utilizar gás liquefeito de petróleo (GLP) e em função da lei que proíbe a utilização de botijões de gás dentro de laboratórios clínicos ou de pesquisa, deve-se ter uma instalação apropriada com uso de tubos específicos e condutores de gás, ou ainda se pode optar pelo bico de Bunsen elétrico; a área de segurança fica restrita para manipulação da amostra; amostras que porventura possuam algum material inflamável ou de fácil combustão devem ser evitadas, pois há risco sério de incêndio ou acidentes com queimaduras graves; deve-se ter muito cuidado com a emissão de partículas após as amostras atingirem altas temperaturas com o uso de alça ou agulhas de platina e, por isso, recomenda-se o uso de máscaras e óculos protetores.

 

▶ Fluxo laminar

 

▶ Vantagens. Fornece uma grande área de trabalho, o que proporciona maior tranquilidade na manipulação do material biológico de forma asséptica; não utiliza chama de gás e, portanto, não há necessidade de instalação deste; proporciona maior proteção para o operador em função do vidro frontal e o fluxo de ar contínuo que retém partículas em suspensão.

▶ Desvantagens. Alto custo do equipamento, o que inviabiliza a aquisição para laboratórios de pequeno porte; equipamento de grandes dimensões, tornando necessária a ocupação de grande espaço físico; pela necessidade de preparo inicial do equipamento, como a espera da ação da luz UV por tempo que varia de 20 a 30 min, seu uso não pode ser imediato; caso falte energia elétrica, a utilização do equipamento e a realização do trabalho serão inviabilizadas. Lembre-se: deve-se ter sempre o cuidado de não manipular ou trabalhar no fluxo enquanto a lâmpada UV estiver ligada, pois há risco de queimadura pela exposição da pele sem proteção.

 

Bico de Bunsen dentro do fluxo laminar | Posso fazer uso dessa combinação?

 

Definitivamente a resposta é não! Como dito anteriormente, o fluxo laminar possui um filtro HEPA que é constituído basicamente de papel de microfibra de vidro plissado e montado em molduras vedadas com poliuretano rígido, ou seja, temos um perigo claro de incêndio, mesmo que digam que a chama do bico de Bunsen não seja tão alta a ponto de causar esse tipo de dano. Além disso, a fuligem que pode surgir da chama também contribui para uma saturação mais rápida do filtro, o que é capaz de diminuir consideravelmente a eficácia na retenção de partículas e, por consequência, causar redução ou perda da condição asséptica de trabalho.

Muito se questiona o fato de operadores, principalmente os que utilizam bactérias e/ou fungos como material biológico, necessitarem do uso de alça ou agulha de platina, o que faria com que precisassem usar o bico de Bunsen dentro de fluxos laminares. Para essa questão, a resposta seria simples: use-o sempre fora do fluxo, ou então, para sua segurança, utilize agulhas e/ou alças descartáveis para, assim, poder usar o fluxo laminar sem o bico de Bunsen no seu interior.

 

Posso usar luvas descartáveis no fluxo laminar e bico de Bunsen?

 

Dentro do fluxo laminar e, claro, dependendo do risco biológico da amostra que se está trabalhando, não só é permitido como também aconselhável o uso de luvas para evitar acidentes e contaminação. O mesmo não pode ser dito ou aconselhado quando se utiliza o bico de Bunsen: não se deve usar luvas de borrachas perto da chama. Temos sempre de lembrar que a maneira correta de se trabalhar no bico de Bunsen é colocando as mãos atrás da chama e respeitando sempre a margem de segurança, que seria um raio virtual de aproximadamente 30 cm ao redor dela, para evitar contaminação do material e do operador. O uso de luvas de látex é muito perigoso, pois qualquer contato com a chama pode causar queimaduras graves no operador, já que rapidamente a luva pode entrar em combustão e aderir à pele, causando sérios danos, com consequências drásticas e irreparáveis.

Esse tipo de atenção também deve ser dado a indivíduos que usam cabelos ou barbas longos, os quais devem permanecer presos ou contidos em toucas/máscaras, para que também se evitem acidentes com a chama.

Mais uma vez, a escolha da utilização de ambos os métodos de forma conjunta deve ser evitada. Deve-se sempre optar pelo que for mais adequado a seu trabalho, lembrando que, se há o fluxo laminar, não é necessário utilizar o bico de Bunsen.

 

Posso reutilizar material esterilizado deixando-o dentro do fluxo laminar ou perto do bico de Bunsen?

 

Por precaução, a resposta é não. Considerando que nem sempre há um único usuário do equipamento e, consequentemente, do material que foi esterilizado, não se pode afirmar ou garantir que todos os usuários trabalhem de forma correta. Dessa forma, também não se pode afirmar ou confiar que o material que já foi aberto e utilizado ainda se encontre estéril, o que pode levar a perdas consideráveis de tempo e, pior, de amostras que poderão ser inutilizadas definitivamente.

É claro que, se apenas um operador fizer uso do material e de forma 100% correta e segura, essa reutilização pode ser feita, mas é apenas nesse caso; do contrário, deve-se evitar a reutilização de material estéril, seja para uso no fluxo ou no bico de Bunsen.

Posso deixar meu material exposto à lâmpada ultravioleta para que seja esterilizado?

 

A resposta é não. A radiação emitida pela lâmpada ultravioleta (UV) não pode ser considerada como um método de esterilização completo, já que não tem poder de penetração tão grande e, por isso, não é capaz de atravessar líquidos, tecidos ou materiais como vidro, acrílico etc. Ou seja, esse tipo de radiação age apenas na superfície onde incidem os raios ultravioleta, o que diminui a concentração de microrganismos e reduz a contaminação microbiológica. É preciso lembrar que todo o material a ser utilizado no experimento ou teste, como frascos com meio de cultura, ponteiras, placas, pipetas etc., deve ser colocado dentro do fluxo antes de ser acionada a lâmpada UV, para que sofra ação do raio UV e, assim, evite contaminação durante a manipulação. Caso se esqueça de algum material, recomenda-se um novo ciclo de exposição ao UV ou, então, que seja limpa a superfície com algum desinfetante como álcool 70%, se possível.

 

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