Rápido e devagar: Duas formas de pensar
8 - Como os Julgamentos Acontecem
15 A expressão idiomática jumping to conclusions significa tomar uma decisão sem estar de posse de todos os fatos ou informações, isto é, tirar conclusões precipitadas; embora a tradução literal não faça sentido em português, foi necessário recorrer a essa solução para os momentos no texto em que ela assume o duplo sentido de pulo ou salto tanto físico como mental. (N. do T.)
16 O exemplo acima é baseado na palavra em inglês para banco — bank —, que também significa margem do rio. (N. do T.)
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COMO OS JULGAMENTOS ACONTECEM
Não há limite para o número de perguntas que você pode responder, seja perguntas que alguma outra pessoa faz, seja perguntas que você faz a si mesmo. Tampouco há um limite para o número de atributos que você pode avaliar. Você é capaz de contar o número de letras maiúsculas nesta página, comparar a altura das janelas de sua casa com as da casa do outro lado da rua e estimar as perspectivas políticas de seu senador numa escala que vai de excelente a desastrosa. As perguntas são dirigidas ao Sistema 2, que vai dirigir a atenção e fazer uma busca na memória para encontrar as respostas. O Sistema 2 recebe as perguntas ou as gera: tanto num caso como no outro ele dirige a atenção e procura na memória para encontrar as respostas. O Sistema 1 opera de modo diferente. Ele monitora continuamente o que está acontecendo fora e dentro da mente, e gera continuamente avaliações dos vários aspectos da situação sem intenção específica e com pouco ou nenhum esforço. Essas avaliações básicas ( basic assessments) desempenham importante papel no julgamento intuitivo, pois elas facilmente entram no lugar de questões mais difíceis — essa é a ideia essencial da abordagem de heurísticas e vieses. Duas outras características do Sistema 1
também sustentam a substituição de um julgamento por outro. Uma é a capacidade de traduzir valores através de dimensões, coisa que você faz ao responder a uma pergunta que a maioria das pessoas acha fácil: “Se Sam fosse tão alto quanto inteligente, ele seria alto ou baixo?”
Finalmente, há o bacamarte mental ( mental shotgun). Uma intenção do Sistema 2 em responder a uma pergunta específica ou avaliar um atributo particular da situação automaticamente dispara outros cálculos, incluindo avaliações básicas.
AVALIAÇÕES BÁSICAS
O Sistema 1 foi moldado pela evolução para fornecer uma avaliação contínua dos principais problemas que um organismo deve resolver para sobreviver: Como andam as coisas? Existe alguma ameaça ou grande oportunidade? Tudo está normal? Devo me aproximar ou evitar? As questões talvez sejam menos prementes para um humano em um ambiente urbano do que para uma gazela na savana, mas herdamos os mecanismos neurais que evoluíram para fornecer avaliações atuais do nível de ameaça, e eles não foram desligados. As situações são constantemente estimadas como boas ou ruins, exigindo a fuga ou permitindo a abordagem.
Bom humor e conforto cognitivo são os equivalentes humanos das avaliações de segurança e familiaridade.
Para um exemplo específico de uma avaliação básica, considere a capacidade de discriminar amigo de inimigo a um olhar. Isso contribui para as chances de uma pessoa sobreviver em um mundo perigoso, e tal aptidão de fato evoluiu. Alex Todorov, meu colega em
Princeton, explorou as raízes biológicas1 dos julgamentos rápidos sobre até onde é seguro interagir com um estranho. Ele demonstrou que somos dotados de uma capacidade para
estimar, com um simples olhar para o rosto de um estranho, dois fatos potencialmente cruciais sobre essa pessoa: até que ponto ela é dominante (e portanto potencialmente ameaçadora) e até que ponto é confiável, isto é, se suas intenções estão mais para cordiais
ou hostis2. O
formato do rosto fornece os indícios para avaliar a dominância: um queixo quadrado e “forte”
é um deles. A expressão facial (sorriso ou carranca) fornece os indícios para avaliar as intenções do estranho. A combinação de um queixo quadrado com uma boca virada para baixo pode significar
encrenca3. A precisão da leitura de rosto é longe de perfeita: queixos arredondados não são um indicador confiável de brandura, e sorrisos podem (até certo ponto) ser fingidos. Mesmo assim, até uma capacidade imperfeita de avaliar estranhos confere uma vantagem na sobrevivência.
Esse antigo mecanismo é posto em novo uso no mundo moderno: ele tem alguma influência em como as pessoas votam. Todorov mostrou para seus alunos fotos do rosto de homens, às vezes por apenas um décimo de segundo, e pediu-lhes que classificassem os rostos segundo vários atributos, incluindo capacidade de agradar e competência. Os observadores mostraram grande consenso nessas classificações. Os rostos que Todorov mostrou não eram uma série aleatória: eram fotos de políticos em campanha por um cargo eletivo. Todorov em seguida comparou os resultados das disputas eleitorais com as classificações de competência que os alunos de Princeton haviam feito, baseadas em uma breve exposição de fotografias e fora de qualquer contexto político. Em cerca de 70% das eleições para senador, congressista e governador, o vencedor foi o candidato cujo rosto recebera uma classificação maior de competência. O resultado surpreendente foi rapidamente confirmado em eleições nacionais na Finlândia, eleições regionais na Inglaterra e diversas disputas eleitorais na Austrália, na Alemanha e no México4. Surpreendentemente (ao menos para mim), classificações de competência eram muito mais proféticas em relação a resultados eleitorais no estudo de Todorov do que classificações da capacidade de agradar.
Todorov descobriu que as pessoas julgam competência combinando as duas dimensões de força e confiabilidade. Os rostos que transmitem competência combinam um queixo forte com um sorriso denotando ligeira autoconfiança. Não há evidência de que esses traços faciais de fato prevejam se os políticos se sairão bem no mandato. Mas estudos da reação do cérebro a candidatos vencedores e derrotados mostram que somos biologicamente predispostos a rejeitar candidatos que carecem dos atributos que valorizamos — nessa pesquisa, os derrotados evocaram indicações mais fortes de reação emocional (negativa). Esse é um exemplo do que chamarei de heurística de julgamento nos próximos capítulos. Os eleitores estão tentando formar uma impressão de quão bem um candidato se sairá no mandato, e retrocedem a uma avaliação mais simples que é feita de forma rápida e automática e está disponível quando o Sistema 2 deve tomar sua decisão.
Cientistas políticos deram continuidade à pesquisa inicial de Todorov identificando uma categoria de eleitores para quem as preferências automáticas do Sistema 1 apresentam probabilidade particularmente maior de desempenhar um papel importante. Descobriram o
que estavam procurando entre eleitores politicamente desinformados que assistiam a muita televisão. Como esperado, o efeito da competência facial na votação é cerca de três vezes maior entre os eleitores pobres de informação e propensos à tevê do que entre outros que são mais bem informados e assistem a menos
televisão5. Evidentemente, a importância relativa do Sistema 1 em determinar as escolhas eleitorais não é a mesma para todo mundo. Vamos encontrar outros exemplos de diferenças individuais como essas.
O Sistema 1 compreende a linguagem, é claro, e a compreensão depende das avaliações básicas que são rotineiramente realizadas como parte da percepção dos eventos e da compreensão de mensagens. Essas avaliações incluem cálculos de similaridade e representatividade, atribuições de causalidade e estimativas da disponibilidade de associações e paradigmas. Elas são realizadas
até na ausência de um ajuste de tarefa6 ( task set) específico, embora os resultados sejam usados para atender as demandas da tarefa à medida que surgem.
A lista de avaliações básicas é longa, mas nem todo atributo possível é avaliado. Para um exemplo, observe brevemente a figura
7 na página 54.
Um olhar fornece uma impressão imediata de muitas características da disposição exibida.
Você sabe que as duas torres são igualmente altas e que são mais semelhantes uma à outra do que a torre da esquerda é do arranjo de blocos no meio. Entretanto, você não sabe imediatamente que o número de blocos na torre esquerda é o mesmo número de blocos disposto no chão, e você não tem impressão alguma da altura da torre que poderia construir com eles. Para confirmar que os números são iguais, você precisaria contar as duas séries de blocos e comparar os resultados, atividade que somente o Sistema 2 pode executar.
Figura 7
CONJUNTOS E PROTÓTIPOS
Para outro exemplo, considere a pergunta: qual é o comprimento médio das linhas na figura 8?
Figura 8
Essa pergunta é fácil e o Sistema 1 a responde sem demora. Experimentos revelaram que uma fração de segundo é suficiente para que as pessoas registrem a extensão média de um arranjo de linhas com considerável precisão. Além do mais, a exatidão desses julgamentos não é prejudicada quando o observador está cognitivamente ocupado com uma tarefa de memória. Eles não sabem necessariamente como descrever a média em polegadas ou centímetros, mas se mostrarão bem precisos em ajustar o comprimento de outra linha para bater com a média. O Sistema 2 não é necessário para formar uma impressão da norma de comprimento para um arranjo. O Sistema 1 faz isso, de maneira automática e sem esforço, assim como registra a cor das linhas e o fato de que não são paralelas. Também podemos formar uma impressão imediata do número de objetos em um arranjo — com precisão, se houver quatro objetos ou menos, grosseiramente, se houver mais.
Agora passemos a outra questão: Qual é a extensão total das linhas na figura 8? Isso é uma experiência diferente, pois o Sistema 1 não tem sugestões a oferecer. O único modo de você responder a essa pergunta é ativando o Sistema 2, que irá laboriosamente estimar a média, estimar ou contar as linhas e multiplicar o comprimento médio pelo número de linhas.
O fracasso do Sistema 1 em calcular com um simples olhar a extensão total de um conjunto de linhas pode lhe parecer óbvio; você nunca pensou que fosse capaz de fazê-lo. É na verdade a ocorrência de uma importante limitação desse sistema. Como o Sistema 1 representa categorias por meio de um protótipo ou de um conjunto de paradigmas típicos, ele lida bem com médias, mas mal com somas. O tamanho da categoria, o número de ocorrências que ela contém, tende a ser ignorado nos julgamentos do que chamarei de variáveis tipo soma ( sum-like variables).
Perguntou-se aos participantes de um dos inúmeros experimentos que foram inspirados pelo litígio que se seguiu ao desastroso
vazamento de petróleo do Exxon Valdez7 sobre sua disposição de pagar por redes para cobrir manchas de óleo em que pássaros migratórios muitas vezes se afogavam. Diferentes grupos de participantes afirmaram sua disposição de pagar para salvar 2 mil, 20 mil ou 200 mil pássaros. Se salvar pássaros é um bem econômico, ele deve ser uma variável tipo soma: salvar 200 mil pássaros deveria valer muito mais do que salvar 2 mil pássaros. De fato, as contribuições médias dos três grupos foram 80, 78 e 88
dólares, respectivamente. O número de pássaros fez pouquíssima diferença. Aquilo a que os participantes reagiram, em todos os três grupos, foi um protótipo — a horrível imagem de um pássaro desamparado se afogando, suas penas encharcadas de óleo espesso. A quase completa negligência com a quantidade em tais contextos emocionais foi confirmada inúmeras vezes.
EQUIPARAÇÃO DE INTENSIDADE
Questões sobre sua felicidade, a popularidade do presidente, a punição apropriada para vilões financeiros e as perspectivas futuras de um político compartilham uma característica importante: todas se referem a uma dimensão subjacente de intensidade ou quantidade que permite o uso da palavra mais: mais felicidade, mais popular, mais severa ou mais poderosa
(para um político). Por exemplo, o futuro político de uma candidata pode variar do baixo “Ela será derrotada na primária” ao alto “Ela um dia será presidente dos Estados Unidos”.
Aqui encontramos uma nova aptidão do Sistema 1. Uma escala subjacente de intensidade permite equiparação ( matching) entre dimensões diversas. Se crimes fossem cores, assassinato seria um matiz de vermelho mais profundo que roubo. Se crimes fossem expressos como música, assassinato em massa seria tocado em fortíssimo enquanto o acúmulo de multas por estacionamento seria um leve pianíssimo. E é claro que você partilha de sentimentos semelhantes sobre a intensidade das punições. Em experimentos clássicos, as pessoas ajustaram a altura de um som à gravidade dos crimes; outras pessoas ajustaram a altura à gravidade das punições legais. Se você escutava duas notas, uma para o crime e
uma para a punição, sentiria uma sensação de injustiça8 se um tom fosse bem mais alto do que o outro.
Considere um exemplo que vamos encontrar novamente mais tarde:
Julie lia com fluência quando tinha 4 anos de idade.
Agora equipare a habilidade de leitura Julie na infância com a seguinte escala de intensidade: Qual a altura de um homem que é tão alto quanto Julie era precoce?
O que você acha de 1,80 metro? Obviamente é pouco. E que tal 2,10 metros? Provavelmente é demais. Você está procurando uma altura que seja tão notável quanto aprender ao ler aos 4
anos. Razoavelmente notável, mas não extraordinária. Ler com 15 meses de idade seria extraordinário, talvez como um homem com 2,30 metros.
Qual nível de renda em sua profissão se equipara ao desempenho de Julie na leitura?
Que crime é tão grave quanto Julie era precoce?
Que média de notas em Harvard ou Yale se equipara à leitura de Julie?
Não é tão difícil, não acha? Além do mais, pode ter certeza de que suas equiparações serão muito próximas das de outras pessoas no meio cultural ao qual você pertence. Veremos que ao pedir às pessoas uma previsão da média universitária de Julie a partir da informação sobre a idade com que ela aprendeu a ler, elas respondem com a tradução de uma escala para outra e a escolha de uma média equiparada. E veremos também por que esse modo de prever por equiparação é estatisticamente errado — embora seja perfeitamente natural para o Sistema 1, e para a maioria das pessoas, exceto estatísticos, também é aceitável para o Sistema 2.
O BACAMARTE MENTAL
O Sistema 1 realiza inúmeros cálculos ao mesmo tempo. Alguns deles são avaliações rotineiras que acontecem continuamente. Sempre que seus olhos se abrem, seu cérebro calcula uma representação tridimensional do que está em seu campo de visão, incluindo o formato dos
objetos, a posição no espaço, a identidade deles. Nenhuma intenção é necessária para disparar o gatilho dessa operação ou o processo de monitoramento contínuo da violação de expectativas. Ao contrário dessas avaliações de rotina, outros cálculos são empreendidos apenas quando necessários: você não realiza uma estimativa contínua de como está feliz ou bem de vida, e mesmo que seja um viciado em política, não avalia continuamente as perspectivas do presidente. Os julgamentos ocasionais são voluntários. Eles ocorrem apenas quando você quer.
Você não conta automaticamente o número de sílabas de cada palavra que lê, mas poderia fazer isso se quisesse. Porém, o controle sobre cálculos intencionais está longe de ser preciso: muitas vezes calculamos bem mais do que queremos ou precisamos. Chamo esse excesso de cálculo de bacamarte mental. É impossível mirar num único ponto com um bacamarte porque ela atira projéteis que se dispersam, e parece igualmente difícil para o Sistema 1 não fazer mais do que o Sistema 2 o encarrega de fazer. Dois experimentos sobre os quais li há muito tempo sugerem essa imagem.
Participantes de um experimento escutavam pares de palavras, com a instrução de apertar uma tecla o mais rapidamente possível
sempre que percebessem que as palavras rimavam9. As palavras rimam nestes dois pares:
VOTE—NOTE
VOTE—GOAT
A diferença é óbvia para você porque você está vendo os dois pares. VOTE (voto) e GOAT
(bode) rimam, mas se escrevem de forma diferente. Os participantes apenas escutavam as palavras, mas também eram influenciados pela grafia. Eles eram nitidamente mais vagarosos para reconhecer as palavras como uma rima se a grafia era discrepante. Embora as instruções exigissem uma comparação apenas dos sons, os participantes também comparavam as grafias, e a não equiparação nessa dimensão irrelevante tornava-os mais lentos. A intenção de responder a uma pergunta evocava outra, que era não apenas supérflua como também prejudicial à tarefa principal.
Em outro estudo, as pessoas escutavam uma série de frases, com a instrução de apertar uma tecla o mais rápido possível para indicar
se a frase era literalmente verdadeira10, e outra tecla se a frase não fosse literalmente verdadeira. Quais são as respostas corretas para as seguintes frases?
Some roads are snakes. (Algumas estradas são cobras.)
Some jobs are snakes. (Alguns empregos são cobras.)
Some jobs are jails. (Alguns empregos são prisões.)
Todas as três frases são literalmente falsas. Entretanto, você provavelmente observou que a segunda frase é mais obviamente falsa do que as outras duas — os tempos de reação coligidos no experimento confirmaram uma diferença substancial. O motivo da diferença é que as duas frases difíceis podem ser metaforicamente verdadeiras. Aqui mais uma vez a intenção de se realizar um cálculo evocou outro. E aqui mais uma vez a resposta correta prevaleceu no conflito, mas o conflito com a resposta irrelevante prejudicou o desempenho. No capítulo seguinte veremos que a combinação de um bacamarte mental com a equiparação de intensidade ( intensity matching) explica o motivo por que formamos julgamentos intuitivos acerca de muitas coisas sobre as quais pouco sabemos.