Rápido e devagar: Duas formas de pensar
4 - a Máquina Associativa
“Ela não precisava se esforçar para se manter concentrada durante horas. Entrava num estado de fluxo.”
“O ego dele ficou esgotado após um longo dia de reuniões. Então ele simplesmente recorreu a procedimentos operacionais padronizados em vez de pensar acerca do problema.”
“Ele não se deu ao trabalho de verificar se o que dizia fazia sentido. Será que ele normalmente apresenta um Sistema 2
preguiçoso ou estava mais cansado do que o normal?”
“Infelizmente, ela tende a dizer a primeira coisa que lhe vem à mente. Provavelmente também tem dificuldade para adiar a gratificação. Um Sistema 2 fraco.”
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A MÁQUINA ASSOCIATIVA1
Para começar sua exploração do surpreendente funcionamento do Sistema 1, olhe para as seguintes palavras:
Bananas Vômito
Muita coisa aconteceu com você nos últimos um ou dois segundos. Você vivenciou algumas imagens e memórias desagradáveis. Seu rosto se contorceu ligeiramente numa expressão de nojo, e pode ter acontecido de você afastar o livro imperceptivelmente de seu rosto. Seus batimentos cardíacos aumentaram, o pelo em seus braços ficou um pouco eriçado e suas glândulas sudoríparas foram ativadas. Em resumo, você reagiu à palavra causadora de nojo com uma versão atenuada de como reagiria ao evento real. Tudo isso foi
realizado de forma automática, além de seu controle2.
Não havia nenhum motivo particular para fazê-lo, mas sua mente admitiu automaticamente uma sequência temporal e uma conexão causal entre as palavras bananas e vômito, compondo um roteiro rudimentar em que as bananas causaram o enjoo. Como resultado, você está experimentando uma aversão temporária a bananas (não se preocupe, isso passa). O estado de sua memória mudou de outras maneiras: você está agora extraordinariamente pronto a reconhecer e reagir a objetos e conceitos associados com “vômito”, como enjoo, fedor ou náusea, e palavras associadas com “bananas”, como amarelo e fruta, e talvez maçãs e amoras.
Vomitar normalmente ocorre em contextos específicos, como ressacas e indigestão. Você também ficaria invulgarmente pronto a reconhecer palavras associadas com outras causas do mesmo infeliz desfecho. Além do mais, seu Sistema 1 notou o fato de que a justaposição das duas palavras é incomum; você provavelmente nunca encontrou isso antes. Experimentou uma leve surpresa.
Essa complexa configuração de reações ocorreu de forma rápida, automática e fácil. Você não a desejou e não pôde detê-la. Foi uma operação do Sistema 1. Os eventos que tiveram lugar como resultado de você ver as palavras aconteceram por um processo chamado ativação associativa: ideias que foram evocadas disparam muitas outras ideias, numa cascata crescente de atividade em seu cérebro. O traço essencial dessa série complexa de eventos mentais é sua coerência. Cada elemento está conectado, e cada um apoia e fortalece os outros. A palavra evoca lembranças, que evocam emoções, que por sua vez evocam expressões faciais e outras reações, tais como um aumento geral de tensão e uma tendência a evitar algo. A expressão facial e o gesto de evitar intensificam os sentimentos aos quais estão ligados, e os sentimentos por sua vez reforçam ideias compatíveis. Tudo isso acontece rapidamente e tudo de uma vez, gerando um padrão autorreforçado de reações cognitivas, emocionais e físicas que são ao mesmo tempo diversas e integradas — isso é chamado de associativamente coerente.
Em um segundo ou algo assim você realizou, de forma automática e inconsciente, um feito notável. Partindo de um evento completamente inesperado, seu Sistema 1 extraiu tanto sentido quanto possível da situação — duas palavras simples, estranhamente justapostas —, ligando as palavras numa narrativa causal; ele estimou a possível ameaça (de branda para moderada) e criou um contexto para futuros acontecimentos ao preparar você para eventos que haviam apenas se tornado mais prováveis; também criou um contexto para o evento do momento estimando quão surpreendente ele era. Você terminou tão informado sobre o passado e tão preparado para o futuro quanto poderia estar.
Uma estranha característica do que aconteceu é que seu Sistema 1 tratou a mera conjunção de duas palavras como representações da realidade. Seu corpo reagiu em uma reprodução atenuada de uma reação à coisa real, e a reação emocional e o encolhimento físico foram parte da interpretação do evento. Como cientistas cognitivos têm enfatizado em anos recentes, a cognição é corporificada; você
pensa com seu corpo3, não apenas com seu cérebro.
O mecanismo que ocasiona esses eventos mentais é conhecido há muito tempo: trata-se da associação de ideias. Todos sabemos por experiência que as ideias se sucedem em nossa mente consciente de um modo razoavelmente ordenado. Os filósofos britânicos dos séculos XVII e XVIII investigaram as regras que explicam tais sequências. Em Investigação sobre o entendimento humano, publicada em 1748, o filósofo escocês David Hume reduziu os princípios de associação a três: semelhança, contiguidade de tempo e lugar, e causalidade.
Nosso conceito de associação mudou radicalmente desde o tempo de Hume, mas seus três princípios continuam a fornecer um bom ponto de partida.
Vou adotar uma visão abrangente do que seja uma ideia. Ela pode ser concreta ou abstrata, e pode ser expressa de muitas formas: enquanto verbo, enquanto substantivo, enquanto adjetivo ou como um punho fechado. Os psicólogos pensam nas ideias como nódulos numa vasta rede, chamada memória associativa, em que cada ideia está ligada a muitas outras. Há diferentes tipos de ligações: causas estão ligadas a seus efeitos (vírus resfriado); coisas com suas propriedades (limão verde); coisas com as categorias às quais pertencem (banana fruta).
Um modo pelo qual avançamos além de Hume é que não mais pensamos na mente como passando por uma sequência de ideias conscientes, uma de cada vez. Na atual visão de como funciona a memória associativa, um bocado de coisas acontece ao mesmo tempo. Uma ideia que foi ativada não evoca meramente uma outra ideia. Ela ativa muitas ideias, que por sua vez ativam outras. Além do mais, apenas algumas das ideias ativadas vão aparecer registradas na consciência; a maior parte do trabalho do pensamento associativo é silencioso, oculta-se de nossos eus conscientes. A ideia de que temos acesso limitado às operações de nossas mentes é difícil de aceitar porque, naturalmente, é estranha a nossa experiência, mas é verdadeira: você sabe muito menos sobre si mesmo do que sente saber.
AS MARAVILHAS DO PRIMING
Como é comum na ciência, o primeiro grande avanço em nossa compreensão do mecanismo de associação foi o aperfeiçoamento de um método de medição. Até poucas décadas atrás, o
único modo de estudar associações era fazer a muitas pessoas perguntas como: “Qual a primeira palavra que vem à sua mente quando você escuta a palavra DIA?” Os pesquisadores registravam a frequência de respostas, como “noite”, “ensolarado” ou “longo”. Na década de 1980, os psicólogos descobriram que a exposição a uma palavra causa mudanças imediatas e mensuráveis na facilidade com que muitas palavras relacionadas podem ser evocadas. Se você viu ou escutou recentemente a palavra EAT (comer), está temporariamente mais propenso a completar o fragmento de palavra SO_P como SOUP (sopa) em vez de SOAP
(sabão). O contrário aconteceria, é claro, se você tivesse acabado de ver a palavra WASH
(lavar). Chamamos isso de efeito de priming ( priming effect) e dizemos que a ideia de EAT
evoca a ideia de SOUP, e que a de WASH evoca a de SOAP. 4
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Efeitos de priming assumem diversas formas. Se a ideia de EAT está atualmente na sua mente (esteja você consciente dela ou não), você será mais rápido do que o normal em reconhecer a palavra SOUP quando for falada num sussurro ou apresentada numa tipologia borrada. E é claro que você é estimulado não apenas pela ideia de sopa, mas também por uma diversidade de ideias relacionadas com comida, incluindo garfo, fome, gordo, dieta, biscoito.
Se em sua refeição mais recente você sentou a uma mesa bamba de restaurante, você ficará igualmente estimulado por essa condição bamba. Além do mais, as ideias evocadas têm certa capacidade de evocar outras ideias, embora mais fracamente. Como marolas num lago, a ativação se difunde por uma pequena parte da vasta rede de ideias associadas. O mapeamento dessas ondulações é atualmente um dos desafios mais empolgantes na pesquisa psicológica.
Outro grande avanço em nossa compreensão da memória foi a descoberta de que o priming não se restringe a conceitos e palavras. Você não pode saber disso pela experiência consciente, é claro, mas deve aceitar a estranha ideia de que suas ações e emoções podem ser primadas por eventos dos quais nem sequer tem consciência. Em um experimento que se tornou um clássico instantâneo, o psicólogo John Bargh e seus colaboradores pediram a alunos da Universidade de Nova York — a maioria entre 18 e 22 anos — para montar frases de quatro palavras partindo de uma série de cinco palavras (por exemplo, “acha ele isso amarelo
instantaneamente” 5). Para um grupo de alunos, metade das frases embaralhadas continham palavras associadas com pessoas idosas,
como Flórida, esquecido, careca, grisalho ou ruga. 10 Quando haviam completado a tarefa, os jovens participantes eram encaminhados para outro experimento numa sala no fim do corredor. Essa curta caminhada era o objetivo do experimento. Os pesquisadores mediam discretamente o tempo que levava para as pessoas irem de um lado a outro do corredor. Como Bargh previra, os jovens que haviam sido incumbidos de formar uma frase com palavras de temática idosa percorriam o trajeto de um modo significativamente mais lento do que os outros.
O “efeito Flórida” envolve dois estágios de priming. Primeiro, a série de palavras evoca pensamentos de pessoas mais velhas, ainda que a palavra velho nunca seja mencionada; segundo, esses pensamentos evocam um comportamento, caminhar devagar, que está associado à velhice. Tudo isso acontece sem que se tenha consciência alguma. Quando questionados
posteriormente, nenhum dos alunos informou ter notado que as palavras possuíam um tema comum, e todos insistiram que nada do que fizeram após o primeiro experimento poderia ter sido influenciado pelas palavras que haviam utilizado. A ideia de velhice não viera ao conhecimento consciente deles, mas suas atitudes mudaram mesmo assim. Esse notável fenômeno de priming — uma ideia influenciando uma ação — é conhecido como efeito ideomotor. Embora você sem dúvida não tivesse consciência disso, a leitura deste parágrafo estimulou você também. Se sentiu necessidade de se levantar para pegar um copo d’água, você deve ter se movido ligeiramente mais devagar do que o normal ao se erguer de sua poltrona —
a menos que aconteça de você por algum motivo não gostar de pessoas velhas, situação em que a pesquisa sugere que talvez tenha se movido ligeiramente mais rápido do que o normal!
A conexão ideomotora também funciona inversamente. Um estudo conduzido numa universidade alemã foi a imagem espelhada do antigo experimento que Bargh e seus colegas haviam realizado em Nova York. Os estudantes recebiam instrução de andar por uma sala durante cinco minutos a uma velocidade de trinta passos por minuto, o que constituía cerca de um terço de seu ritmo normal.
Após a breve experiência, os participantes eram muito mais rápidos
em reconhecer palavras relacionadas à velhice6, como esquecido, velho e solitário.
Efeitos de priming recíprocos tendem a produzir uma reação coerente: se você fosse estimulado a pensar na velhice, tenderia a agir como velho, e agir como velho reforçaria o pensamento de velhice.
Conexões recíprocas são comuns na rede associativa. Por exemplo, ser entretido tende a fazê-lo sorrir, e sorrir tende a fazer com que se sinta entretido. Faça a experiência: pegue um lápis e segure-o entre os dentes por alguns segundos com a borracha apontada para sua direita e a ponta para sua esquerda. Em seguida, prenda o lápis de modo que a ponta fique direcionada bem à sua frente, franzindo os lábios em torno da extremidade com a borracha.
Provavelmente você não tomou consciência de que uma dessas ações forçou seu rosto a se franzir e a outra o moldou num sorriso. Pediu-se a alunos universitários que classificassem a graça de
alguns cartuns de Gary Larson, The Far Side 7, enquanto seguravam um lápis com a boca. Os que estavam “sorrindo” (sem consciência de que o faziam) achavam os cartuns mais engraçados do que os que “franziam” o rosto. Em outro experimento, pessoas cujo rosto se moldava numa expressão carrancuda (ao juntar as sobrancelhas) comunicavam uma reação emocional ampliada diante
de fotos perturbadoras8 — crianças famintas, pessoas brigando, vítimas de acidente mutiladas.
Gestos simples, comuns, também podem influenciar inconscientemente nossos pensamentos e sentimentos. Em uma
demonstração, as pessoas escutavam mensagens9 em seus novos fones de ouvido. Eram informadas de que o propósito do experimento era testar a qualidade do equipamento de áudio e instruídas a mexer a cabeça repetidamente para constatar qualquer distorção de som. Metade dos participantes devia balançar a cabeça para cima e para baixo enquanto a outra metade recebeu instrução de abanar a cabeça de um lado para o outro. As mensagens escutadas eram editoriais de rádio. Os que balançavam a cabeça (um gesto de sim)
tendiam a aceitar a mensagem que escutavam, os que a abanavam tendiam a rejeitá-la. Mais uma vez, não havia consciência, apenas uma conexão habitual entre uma atitude de rejeição ou aceitação e sua expressão física comum. Pode-se perceber por que o comum aviso para “agir com calma e educação independentemente de como você se sente” é um bom conselho: é provável que você seja recompensado sentindo-se de fato calmo e educado.
PRIMINGS QUE NOS ORIENTAM
Estudos sobre efeitos de priming renderam descobertas que ameaçam nossa autoimagem como autores conscientes e autônomos de nossos julgamentos e nossas escolhas. Por exemplo, a maioria de nós pensa no ato de votar como um gesto deliberado que reflete nossos valores e nossas avaliações da política e não influenciado por questões irrelevantes. Nosso voto não deveria ser afetado pelo local onde está a urna, por exemplo, mas é. Um estudo sobre padrões de voto no Arizona em 2000 revelou que o apoio a propostas de aumentar a verba para escolas era significativamente
maior quando o prédio da votação era uma escola10, em vez de qualquer outro local nas redondezas. Um experimento separado mostrou que expor as pessoas a imagens de salas de aula e armários escolares também aumentava a tendência dos votantes a apoiar a iniciativa pró-escola. O efeito das imagens foi maior do que a diferença entre os pais e os demais eleitores! O estudo do priming tem ido um pouco além das demonstrações iniciais de que lembrar às pessoas sobre a velhice faz com que caminhem mais devagar. Agora sabemos que os efeitos de priming podem atingir cada recesso de nossas vidas.
Lembretes de dinheiro11 geram efeitos perturbadores. Participantes de um experimento foram apresentados a uma lista de cinco palavras a partir da qual tinham de construir uma frase de quatro palavras com dinheiro como tema (“alto um salário mesa pagar” virou “pagar um alto salário”). Outros primings eram bem mais sutis, incluindo a presença de algum irrelevante objeto ligado a dinheiro no fundo, como uma pilha de dinheiro de Banco Imobiliário sobre a mesa, ou um computador com um descanso de tela de notas de dólar flutuando na água.
Pessoas estimuladas pela palavra dinheiro tornam-se mais independentes do que seriam sem o gatilho associativo. Elas perseveraram quase o dobro do tempo em tentar resolver um problema muito difícil antes de pedir ajuda ao pesquisador, uma nítida demonstração de autoconfiança aumentada. Também mais egoístas: elas se mostraram bem menos dispostas a perder tempo ajudando outro aluno que fingia estar confuso sobre uma tarefa experimental.
Quando um pesquisador desajeitado derrubou um punhado de lápis no chão, os participantes com dinheiro (inconscientemente) na mente pegaram menos lápis. Em outro experimento na série, foi explicado aos participantes que eles deveriam empreender uma breve conversa para conhecer alguma outra pessoa e pediu-se a eles que pusessem duas cadeiras frente a frente enquanto o pesquisador saía para buscar a tal pessoa. Os participantes estimulados pelo dinheiro optaram por ficar bem mais longe do que os demais não primados (118 contra 80
centímetros). Universitários estimulados pelo dinheiro também mostraram uma preferência
maior por ficarem sozinhos.
O tema geral desses resultados é que a ideia de dinheiro evoca individualismo: uma relutância a se envolver com outros, a depender de outros ou a aceitar pedidos dos outros. A psicóloga que conduziu essa pesquisa notável, Kathleen Vohs, mostrou-se, de maneira louvável, contida em discutir as implicações de suas descobertas, deixando a tarefa aos seus leitores. Seus experimentos são profundos — suas descobertas sugerem que viver em uma cultura que nos cerca com lembretes de dinheiro pode moldar nosso comportamento e nossas atitudes de maneiras a respeito das quais não temos consciência e das quais talvez não nos orgulhemos. Algumas culturas fornecem lembretes frequentes de respeito, outras, lembram seus membros frequentemente de Deus, e algumas sociedades estimulam obediência com imagens gigantes do Querido Líder. Será que pode restar ainda alguma dúvida de que os ubíquos retratos do líder nacional nas sociedades ditatoriais não só transmite a sensação de que o “Grande Irmão está Olhando” como também levam a uma redução efetiva do pensamento espontâneo e da ação independente?
A evidência do priming sugere que lembrar as pessoas de sua
própria mortalidade aumenta o apelo de ideias autoritárias12, que podem se tornar tranquilizadoras no contexto do terror da morte. Outros experimentos têm confirmado insights freudianos sobre o papel dos símbolos e metáforas em associações inconscientes. Por exemplo, considere os ambíguos fragmentos de palavras W_ _H e S_ _P. Pessoas a quem se pediu recentemente para pensar numa ação da qual sentiram vergonha são mais propensas a completar esses fragmentos como WASH (lavar) e SOAP (sabão) e menos propensas a enxergá-las como WISH (desejo) e SOUP (sopa). Além disso, o mero pensamento de esfaquear um colega de trabalho nas costas deixa as pessoas mais inclinadas a comprar sabão, desinfetante ou detergente do que pilhas, suco ou chocolate.
Sentir que a própria alma está manchada parece disparar um desejo de limpar o corpo, impulso que foi apelidado de “efeito Lady
Macbeth” 13.
A limpeza é muito específica quanto às partes do corpo envolvidas em um pecado.
Participantes de um experimento foram induzidos a “mentir” para uma pessoa imaginária, fosse pelo telefone, fosse por e-mail. Num teste subsequente de desejabilidade de vários produtos, as pessoas que haviam mentido ao telefone preferiam um antisséptico bucal a sabão, e as que haviam mentido por e-mail preferiam sabão a
antisséptico bucal14.
Quando descrevo estudos de priming diante de um público, a reação normalmente é de descrença. Isso não surpreende: o Sistema 2 acredita que está no comando e que ele sabe dos motivos para suas escolhas. As perguntas provavelmente também ficam brotando na sua cabeça: Como é possível que essas manipulações tão triviais do contexto tenham efeitos tão amplos? Será que esses experimentos demonstram que estamos completamente à mercê dos eventuais primings que o ambiente fornecer a qualquer dado momento? Claro que não. Os efeitos de um priming são robustos, mas não necessariamente abrangentes. Entre uma centena de votantes, só uns poucos cujas preferências iniciais eram incertas votarão de modo diferente acerca de uma questão escolar se o seu local de votação for uma escola, e não uma igreja —
mas basta uma pequena porcentagem para determinar o resultado de uma eleição.
A ideia em que você deve se concentrar, contudo, é a de que descrença não é uma opção.
Os resultados não são inventados, tampouco são casualidades estatísticas. Você não tem escolha a não ser aceitar que as principais conclusões desses estudos são verdadeiras. Mais importante, deve aceitar que são verdadeiras a seu respeito. Se você foi exposto a um descanso de tela com dólares flutuantes, haverá maior probabilidade de que você também tenha apanhado menos lápis para ajudar um estranho desajeitado. Você não acredita que esses resultados se apliquem a você porque eles não correspondem a coisa alguma em sua experiência subjetiva. Mas sua experiência subjetiva consiste em grande parte da história que seu próprio Sistema 2 conta sobre o que está acontecendo. Os fenômenos de priming surgem no Sistema 1, e você não tem qualquer acesso consciente a eles.
Concluo com uma perfeita demonstração de um efeito de priming, que foi realizada numa cozinha de funcionários em uma
universidade inglesa15. Durante muitos anos os membros desse escritório haviam pago pelo chá ou café de que se serviam sozinhos durante o dia, deixando o dinheiro numa “caixa da honestidade”. Uma lista de preços sugeridos ficava exposta na parede. Um dia, um cartaz foi colocado logo acima da lista de preços, sem nenhum aviso ou explicação. Por um período de dez semanas uma nova imagem era apresentada toda semana, ora de flores, ora de olhos que pareciam fitar diretamente o observador. Ninguém comentou as novas decorações, mas as contribuições na caixa de honestidade mudaram significativamente. Os cartazes e as quantias que as pessoas punham na caixa de dinheiro (relativas à quantia que elas consumiam) são exibidos na figura 4. Vale a pena observar atentamente.
Na primeira semana do experimento (que você pode ver na parte de baixo da figura), dois olhos bem abertos se direcionam para o bebedor de café ou chá, cuja contribuição média era de 70 pence por litro de leite (cerca de dois reais). Na semana 2, o cartaz mostra flores e a contribuição média cai para cerca de 15 pence (menos de cinquenta centavos). A tendência continua. Em média, os usuários da cozinha contribuíram quase três vezes mais nas “semanas com olhos” do que nas “semanas com flores”. Evidentemente, um lembrete puramente simbólico de estar sendo observado instigou as pessoas a um melhor comportamento. Como esperamos nesse ponto, o efeito ocorre sem qualquer consciência. Você acredita agora que também se encaixa nesse mesmo padrão?
Figura 4
Alguns anos atrás, o psicólogo Timothy Wilson escreveu um livro com o título evocativo de Strangers to Ourselves (Estranhos para
nós mesmos). Você acaba de ser apresentado a esse estranho16 que existe em você mesmo, que talvez esteja no controle sobre grande parte do que você faz, embora você raramente tenha um vislumbre disso. O Sistema 1 fornece as impressões que muitas vezes se transformam em suas crenças, e é a fonte dos impulsos que muitas vezes se tornam suas escolhas e suas ações. Ele oferece uma interpretação tácita do que acontece com você e em torno de você, ligando o presente com o passado recente e com expectativas sobre o futuro próximo. Contém o modelo do mundo que avalia instantaneamente os eventos como normais ou surpreendentes. É a fonte de seus julgamentos intuitivos rápidos e muitas vezes precisos. E faz a maior parte disso sem que você tenha conhecimento consciente das atividades dele. O Sistema 1 também é, como veremos nos capítulos seguintes, a origem de muitos erros sistemáticos de suas intuições.