Rápido e devagar: Duas formas de pensar
Parte 5: - Dois Eus
“Pedem que você tique no campo para retirar seu nome da mala-direta deles. A lista de mala-direta iria encolher se pedissem às pessoas para ticar no campo caso quisessem fazer parte dela!”
PARTE 5
DOIS EUS
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DOIS EUS
O termo utilidade costuma apresentar dois significados distintos em sua longa história. Jeremy Bentham abriu sua Introdução aos princípios da moral e da legislação com a famosa sentença: “A natureza pôs a espécie humana sob o domínio de dois mestres soberanos, a dor e o prazer. Cabe a eles exclusivamente indicar o que devemos fazer, bem como determinar o que faremos.” Em uma nota constrangida, Bentham pedia desculpas por empregar a palavra utilidade para essas experiências, dizendo que fora incapaz de encontrar palavra melhor. Para distinguir a interpretação que Bentham faz do termo, vou chamá-lo de utilidade experimentada ( experienced utility).
Nos últimos cem anos, os economistas têm utilizado a mesma palavra para querer dizer alguma outra coisa. Da forma como os economistas e teóricos da decisão empregam o termo, ele significa
“desejabilidade” 1 (“wantability”) — e eu o chamei de utilidade de decisão ( decision utility). A teoria da utilidade experimentada, por exemplo, refere-se exclusivamente às regras da racionalidade que devem governar as utilidades de decisão; não tem absolutamente nada a dizer sobre experiências hedônicas. Claro, os dois conceitos de utilidade vão coincidir se as pessoas querem o que vão usufruir, e usufruem o que escolhem para si — e essa pressuposição de coincidência está implícita na ideia geral de que os agentes econômicos são racionais. É de se esperar que os agentes racionais saibam quais são seus gostos, tanto presentes como futuros, e presume-se que tomem decisões acertadas que irão maximizar esses interesses.
UTILIDADE EXPERIMENTADA
Meu fascínio com as possíveis discrepâncias entre utilidade experimentada e utilidade de decisão vem de longe. Quando Amos e eu ainda estávamos trabalhando na teoria da perspectiva, formulei um problema, que era o seguinte: imagine um indivíduo que recebe uma injeção dolorida todo dia. Não existe adaptação; a dor é a mesma dia após dia. Será que as pessoas vão atribuir o mesmo valor à redução no número de injeções planejadas, tanto no caso de vinte para 18 quanto de seis para quatro? Há alguma justificativa para fazer uma distinção?
Não coligi dados, pois o resultado era evidente. Pode verificar por si mesmo que você pagaria mais para reduzir o número de injeções em um terço (de seis para quatro) do que em
um décimo (de vinte para 18). A utilidade de decisão em evitar duas injeções é mais elevada no primeiro caso do que no segundo, e todo mundo pagará mais pela primeira redução do que pela segunda. Mas essa diferença é absurda. Se a dor não muda de um dia para outro, o que poderia justificar a designação de diferentes utilidades para uma redução da quantidade total de dor com duas injeções, dependendo do número de injeções precedentes? Nos termos que usaríamos hoje, meu problema introduziu a ideia de que utilidade experimentada poderia ser medida pelo número de injeções. Sugeria também que, pelo menos em alguns casos, a utilidade experimentada é o critério pelo qual uma decisão deve ser avaliada. Um tomador de decisão que pague diferentes quantias para atingir o mesmo ganho de utilidade experimentada (ou ser poupado da mesma perda) está cometendo um erro. Você talvez ache essa observação óbvia, mas em teoria da decisão a única base para julgar que uma decisão está errada é a inconsistência com outras preferências. Amos e eu discutimos o problema, mas não o perseguimos. Muitos anos depois, voltei a ele.
EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA
Como pode a utilidade experimentada ser medida? Como devemos responder a perguntas como “Quanta dor Helen sofreu durante o procedimento médico?” ou “Quanto divertimento ela obteve passando vinte minutos na praia?”. O economista britânico Francis Edgeworth especulava sobre esse tema no século XIX e propôs a ideia de um “hedonímetro”, um instrumento imaginário análogo aos dispositivos utilizados nas estações meteorológicas, que mediria o nível de prazer ou dor que um indivíduo experimenta a um dado
momento2.
A utilidade experimentada iria variar, muito ao modo como a temperatura diária ou a pressão atmosférica variam, e os resultados seriam representados em um gráfico em função do tempo. A resposta à questão de quanta dor ou prazer Helen experimentou durante seu procedimento médico ou suas férias seria a “área sob a curva”. O tempo desempenha um papel crítico na concepção de Edgeworth. Se Helen permanece na praia por quarenta minutos em vez de vinte, e seu divertimento continua tão intenso quanto antes, então a utilidade experimentada total desse episódio dobra, assim como dobrar o número de injeções torna uma série de injeções duas vezes pior. Essa era a teoria de Edgeworth, e hoje temos uma compreensão precisa das condições sob as quais sua teoria
funciona3.
Os gráficos na figura 15 mostram os perfis das experiências de dois pacientes passando por uma dolorosa colonoscopia, tirados de um estudo que Don Redelmeier e eu projetamos em conjunto.
Redelmeier, um médico e pesquisador na Universidade de Toronto4, o realizou no início dos anos 1990. Esse procedimento hoje é rotineiramente administrado com anestesia, bem como com medicação amnésica, mas tais substâncias não eram disseminadas quando nossos dados foram colhidos. Os pacientes eram lembrados de indicar a cada sessenta segundos o nível de dor que experimentavam no momento. Os dados mostrados estão em uma escala onde zero é “dor nenhuma” e 10 é “dor intolerável”. Como você pode ver, a experiência de cada paciente variou consideravelmente durante o procedimento, que durou
oito minutos para o paciente A e 24 minutos para o paciente B (a última leitura de dor zero foi registrada após o fim do procedimento). Um total de 154 pacientes participou do experimento; o procedimento mais curto durou quatro minutos, o mais longo, 69 minutos.
Em seguida, considere uma questão fácil: Presumindo que os dois pacientes usaram a escala de dor de maneira similar, qual paciente sofreu mais? Sem chance. Todo mundo concorda que o paciente B passou os piores bocados. O paciente B passou no mínimo tanto tempo quanto o paciente A em qualquer nível de dor, e a “área sob a curva” é claramente maior para B do que para A. O fator crucial, claro, é que o procedimento de B durou muito mais tempo. Chamarei as mensurações baseadas em relatos de dor momentânea de totais de hedonímetro.
Figura 15
Quando o procedimento terminou, pediu-se a todos os participantes que classificassem “a quantidade total de dor” que haviam experimentado durante o procedimento. O palavriado da expressão foi planejado para encorajá-los a pensar na integral da dor que haviam relatado, reproduzindo os totais do hedonímetro. Surpreendentemente, os pacientes não fizeram nada do gênero. A análise estatística revelou duas descobertas, as quais ilustram um padrão que observamos em outros experimentos:
• Regra do pico-fim ( peak-end rule): a classificação retrospectiva global foi bem prevista pela média do nível de dor relatado no pior momento da experiência e em seu fim.
• Negligência com a duração ( duration neglect): a duração do procedimento não exerceu o menor efeito nas avaliações de dor total.
Você pode agora aplicar essas regras aos perfis dos pacientes A e B. A pior classificação (8
na escala de 10 pontos) foi a mesma para ambos os pacientes, mas a última classificação antes do fim do procedimento foi 7 para o paciente A e apenas 1 para o paciente B. A média pico-fim foi desse modo 7,5 para o paciente A e apenas 4,5 para o paciente B. Como esperado, o paciente A reteve uma lembrança muito pior do episódio do que o paciente B. Foi uma má sorte do paciente A que o procedimento terminasse em um mau momento, deixando-o com uma lembrança desagradável.
O que temos agora é um excesso de opções: duas medidas de utilidade experimentada — o
total do hedonímetro e a avaliação retrospectiva — que são sistematicamente diferentes. Os totais do hedonímetro são calculados por um observador a partir do relato de um indivíduo da experiência dos momentos. Chamamos esses julgamentos de ponderados-por-duração ( duration-weighted), pois o cálculo da “área sob a curva” designa pesos iguais a todos os momentos: dois minutos de dor no nível 9 é duas vezes tão ruim quanto um minuto no mesmo nível de dor. Entretanto, as descobertas desse experimento e de outros mostram que as avaliações retrospectivas são insensíveis à duração e dão peso a dois momentos singulares, o pico e o fim, muito maior do que a outros. Então qual deve ter importância? O que o médico deve fazer? A escolha tem implicações para a prática médica. Observamos que:
• Se o objetivo é reduzir a lembrança de dor dos pacientes, baixar o pico de intensidade de dor poderia ser mais importante do que diminuir a duração do procedimento. Pelo mesmo raciocínio, o alívio gradual pode ser preferível ao alívio abrupto se os pacientes conservam uma melhor lembrança quando a dor no fim do procedimento é relativamente branda.
• Se o objetivo é reduzir a quantidade de dor realmente experimentada, conduzir o procedimento com rapidez talvez seja apropriado mesmo que fazer isso aumente o pico de intensidade de dor e deixe os pacientes com uma péssima lembrança.
Qual dos dois objetivos você achou mais atraente? Não conduzi um estudo apropriado, mas minha impressão é que uma grande maioria se mostrará a favor de reduzir a lembrança da dor.
Acho útil pensar nesse dilema como um conflito de interesses entre dois eus (que não correspondem aos dois sistemas familiares). O eu experiencial ( experiencing self) é o que responde à pergunta: “Está doendo agora?” O eu recordativo ( remembering self) é o que responde à pergunta: “Como foi isso, no todo?” As lembranças são tudo que temos para reter nossa experiência de viver, e a única perspectiva que podemos adotar quando pensamos em nossas vidas é portanto a do eu recordativo.
Um comentário que escutei de um membro da plateia após uma palestra ilustra a dificuldade de distinguir as lembranças da experiência. Ele contou do arrebatamento de escutar uma longa sinfonia em um disco que perto do fim estava arranhado, produzindo um som horrível, e disse que o final ruim “estragou toda a experiência”. Mas a experiência não foi arruinada de fato, apenas a lembrança dela. O eu experiencial passara por uma experiência que era quase inteiramente boa, e o final ruim não era capaz de desfazê-la, pois ela já havia acontecido. Meu questionador atribuíra a todo o episódio uma avaliação de fracasso, porque terminara muito mal, mas essa avaliação efetivamente ignorava quarenta minutos de júbilo musical. Será que a experiência real não conta para nada?
Confundir a experiência com a lembrança dela é uma ilusão cognitiva convincente — e é a substituição que nos faz acreditar que uma experiência passada pode ser arruinada. O eu experiencial não tem uma voz. O eu recordativo às vezes está errado, mas é ele que fica de
olho no placar e governa o que aprendemos com a vida, e é ele quem toma as decisões. O que aprendemos com o passado é maximizar as qualidades de nossas futuras lembranças, não necessariamente de nossa futura experiência. Essa é a tirania do eu recordativo.
QUE EU DEVE SER LEVADO EM CONSIDERAÇÃO?
Para demonstrar o poder da tomada de decisão do eu recordativo, meus colegas e eu projetamos um experimento, usando uma forma branda de tortura que vou chamar de situação da mão gelada (seu pavoroso nome técnico é cold-pressor, ou teste vasoconstritor). É pedido à pessoa que mantenha a mão até o pulso mergulhada na água dolorosamente fria até ser instruído a retirá-la e receber uma toalha aquecida. Os participantes de nosso experimento usavam a mão livre para controlar setas em um teclado de modo a fornecer um registro contínuo da dor que suportavam, uma comunicação direta de seu eu experiencial. Escolhemos uma temperatura que causava dor moderada, mas tolerável: os participantes voluntários obviamente tinham liberdade para retirar a mão a qualquer momento, mas nenhum escolheu fazer isso.
Cada participante enfrentava dois episódios de mão gelada:
O episódio curto consistia em sessenta segundos de imersão em água a 14°C, o que é sentido como dolorosamente frio, mas não intolerável. No fim dos sessenta segundos, o pesquisador instruía os participantes a retirar a mão da água e lhes oferecia uma toalha aquecida.
O episódio longo durava noventa segundos. Os primeiros sessenta segundos eram idênticos ao episódio curto. O
pesquisador não dizia coisa alguma ao final dos 60 segundos. Em vez disso ele abria uma válvula que permitia à água ligeiramente mais quente fluir para dentro da bacia. Durante os trinta segundos adicionais, a temperatura da água subia aproximadamente em um grau, o suficiente apenas para que a maioria dos participantes detectasse uma leve diminuição na intensidade da dor.
Os participantes eram informados de que seriam submetidos a três testes de mão gelada, mas na verdade experimentavam apenas os episódios curto e longo, cada um com uma mão diferente. Os testes eram espaçados em sete minutos. Sete minutos após o segundo teste, os participantes podiam escolher o terceiro teste. Eram informados de que uma de suas experiências seria repetida de
modo exato, e estavam livres para escolher5 se repetiriam a experiência com a mão esquerda ou com a mão direita. Claro que metade dos participantes fez o teste curto com a mão esquerda, metade com a direita; metade fez o teste curto primeiro, metade começou pelo longo etc. Esse foi um experimento cuidadosamente controlado.
O experimento foi projetado para criar um conflito entre os interesses do eu experiencial e do eu recordativo, e também entre a utilidade experimentada e a utilidade de decisão. Da perspectiva do eu experiencial, o teste longo era obviamente pior. Esperávamos que o eu recordativo tivesse outra opinião. A regra do pico-fim prevê uma lembrança pior do teste curto do que do teste longo, e a negligência com a duração prevê que a diferença entre noventa
segundos e sessenta segundos de dor será ignorada. Desse modo previmos que os participantes teriam uma lembrança mais favorável (ou menos desfavorável) do teste longo e escolheriam repeti-lo. E foi assim mesmo. Um total de 80% dos participantes que relataram que sua dor diminuiu durante a fase final do episódio mais longo optaram por repeti-lo, desse modo declarando-se dispostos a sofrer trinta segundos de dor desnecessária no terceiro teste antecipado.
Os participantes que preferiram o episódio longo não eram masoquistas e não escolheram deliberadamente se expor à pior experiência; eles simplesmente cometeram um erro. Se tivéssemos lhes perguntado, “Você prefere uma imersão de noventa segundos ou apenas a primeira parte dela?”, certamente teriam escolhido a opção curta. Não usamos essas palavras, porém, e os participantes fizeram o que lhes ocorreu naturalmente: escolheram repetir o episódio do qual guardavam uma lembrança menos aversiva. Os voluntários sabiam perfeitamente bem qual das duas exposições era mais longa — perguntamos a eles —, mas não usaram esse conhecimento. A decisão deles foi governada por uma simples regra de escolha intuitiva: pegue a opção que você mais gosta, ou que menos desgosta. Regras da memória determinaram até que ponto não gostavam das duas opções, o que por sua vez determinou a escolha deles. O experimento da mão gelada, como meu velho problema das injeções, revelou uma discrepância entre utilidade de decisão e utilidade experimentada.
As preferências que observamos nesse experimento são mais um exemplo do efeito menos-é-mais que encontramos em ocasiões anteriores. Uma delas foi o estudo de Christopher Hsee em que acrescentar peças de louça a um serviço de 24 peças diminuía o valor total porque algumas das peças acrescentadas estavam quebradas. Outra foi Linda, a ativista considerada como mais provavelmente uma caixa de banco feminista do que uma caixa de banco. A semelhança não é acidental. O mesmo traço operante do Sistema 1 explica as três situações: o Sistema 1 representa conjuntos por médias, normas e protótipos, não por somas. Cada episódio de mão gelada é um conjunto de momentos, que o eu recordativo armazena como um momento prototípico. Isso leva a um conflito. Para um observador objetivo avaliando o episódio com base nas informações do eu experiencial, o que conta é a “área sob a curva” que integra a dor no decorrer do tempo; ela tem a natureza de uma soma. A memória que o eu recordativo guarda, por outro lado, é um momento representativo, fortemente influenciado pelo pico e pelo fim.
Claro que a evolução poderia ter projetado a memória dos animais para armazenar integrais, como certamente faz em alguns casos. É importante para um esquilo “saber” a quantidade total de alimento armazenado, e uma representação do tamanho médio das nozes não seria um bom substituto. Porém, a integral de dor ou prazer ao longo do tempo pode ser biologicamente menos significativa. Sabemos, por exemplo, que ratos exibem negligência com duração tanto para o prazer como para a dor. Em um experimento, os ratos foram consistentemente expostos a uma sequência em que o acionamento de uma luz sinaliza que um choque elétrico em breve será desferido. Os ratos rapidamente aprenderam a temer a luz, e a
intensidade de seu medo podia ser medida por diversas reações
fisiológicas. A principal descoberta foi que a duração do choque6 teve pouco ou nenhum efeito sobre o medo — tudo que importa é a intensidade dolorosa do estímulo.
Outros estudos clássicos mostraram que o estímulo elétrico de áreas específicas no cérebro do rato (e de áreas correspondentes no cérebro humano) produzem uma sensação de prazer intenso, tão intenso em alguns casos que os ratos que podem estimular seu cérebro pressionando uma alavanca vão morrer de fome sem fazer uma pausa para se alimentar. O
estímulo elétrico prazeroso pode ser propiciado em explosões que variam em intensidade e duração. Aqui mais uma vez apenas a intensidade importa. Até certo ponto, aumentar a duração de uma
explosão de estímulo7 não parece aumentar a avidez do animal em obtê-la. As regras que governam o eu recordativo dos humanos têm um longo histórico evolucionário.
BIOLOGIA VERSUS RACIONALIDADE
A ideia mais útil no problema das injeções que ocupou meus pensamentos anos atrás foi que a utilidade experimentada de uma série de injeções igualmente dolorosas pode ser medida, simplesmente contando as injeções. Se todas as injeções são igualmente aversivas, então 20
delas são duas vezes tão ruins quanto 10, e uma redução de 20 para 18 e uma redução de 6
para 4 são igualmente valiosas. Se a utilidade de decisão não corresponde à utilidade experimentada, então alguma coisa está errada com a decisão. A mesma lógica funcionou no experimento da mão gelada: um episódio de dor que dura noventa segundos é pior do que os primeiros sessenta segundos desse episódio. Se as pessoas voluntariamente optam por suportar o episódio mais longo, alguma coisa está errada com a decisão delas. Em meu velho problema, a discrepância entre a decisão e a experiência originou-se da sensibilidade decrescente: a diferença entre 18 e 20 é menos impressionante, e parece valer menos, do que a diferença entre 6 e 4 injeções. No experimento da mão gelada, o erro reflete dois princípios da memória: negligência com a duração e a regra do pico-fim. Os mecanismos são diferentes, mas o resultado é o mesmo: uma decisão que não está corretamente sintonizada com a experiência.
Decisões que não produzem a melhor experiência possível e prognósticos errôneos de futuras sensações — ambas são más notícias para os adeptos da racionalidade da escolha. O
estudo da mão gelada mostrou que não podemos confiar totalmente que nossas preferências vão refletir nossos interesses, mesmo que estejam baseadas na experiência pessoal, e mesmo que a lembrança dessa experiência tenha sido impressa nos últimos 15 minutos! Gostos e decisões são moldados pelas lembranças, e as lembranças podem estar erradas. A evidência representa um profundo desafio à ideia de que os humanos têm preferências consistentes e sabem como maximizá-las, um dos fundamentos do modelo de agente racional. Há uma inconsistência incorporada ao design de nossas mentes. Temos fortes preferências acerca da duração de nossas experiências de dor e prazer. Queremos que a dor seja breve e que o prazer dure. Mas nossa memória, uma função do Sistema 1, evoluiu para representar o momento mais