Rápido e devagar: Duas formas de pensar
37 - Bem-Estar Experimentado
Para outro experimento mental, imagine que você está diante de uma cirurgia dolorosa durante a qual vai permanecer consciente. Eles lhe explicam que você vai gritar de dor e implorar que o cirurgião pare. Contudo, prometem a você um medicamento indutor de amnésia que varrerá completamente qualquer lembrança do episódio. Como você se sente diante dessa perspectiva? Aqui, mais uma vez, minha observação informal é de que a maioria das pessoas se revela notavelmente indiferente aos sofrimentos do seu eu experiencial. Alguns dizem que não dão a menor importância. Outros partilham de meu sentimento, que é de que sinto pena de meu eu sofrendo, mas não mais do que sentiria de um estranho em sofrimento. Por mais estranho que pareça, eu sou meu eu recordativo, e o eu experiencial, que vive de fato minha vida, é como um estranho para mim.
FALANDO DA VIDA COMO UMA NARRATIVA
“Ele está tentando desesperadamente proteger a história de toda uma vida de integridade, que corre risco com o mais recente episódio.”
“Até que ponto ele está disposto a ter uma relação sexual casual é sinal de uma completa negligência com a duração.”
“Você parece devotar suas férias inteiras à construção de lembranças. Será que não é melhor pôr a câmera de lado e aproveitar o momento, mesmo que não seja tão inesquecível assim?”
“Ela é paciente de Alzheimer. Ela não mantém mais uma narrativa de sua vida, mas seu eu experiencial continua sensível à beleza e à bondade.”
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BEM-ESTAR EXPERIMENTADO
Quando me interessei pelo estudo do bem-estar, há cerca de 15 anos, descobri rapidamente que quase tudo que eu sabia sobre o assunto vinha das respostas de milhões de pessoas a variações mínimas de uma questão de estudo, que era de forma geral aceita como uma medida de felicidade. A pergunta é claramente endereçada ao seu eu recordativo, que é convidado a pensar sobre sua vida:
Tudo considerado, até que ponto você está satisfeito com sua vida
como um todo hoje em dia1?
Tendo chegado ao tema do bem-estar a partir do estudo das lembranças equivocadas de colonoscopias e mãos dolorosamente geladas, fiquei naturalmente desconfiado da satisfação global com a vida como uma medida válida de bem-estar. Como o eu recordativo não se mostrara uma boa testemunha em meus experimentos, concentrei-me no bem-estar do eu experiencial. Propus que fazia sentido dizer que “Helen foi feliz no mês de março” se passou a maior parte do tempo empenhada em atividades que teria preferido continuar em vez de parar, pouco tempo em situações das quais queria escapar e — muito importante, pois a vida é curta — não tempo demais em um estado neutro em que não se importaria se fosse de um jeito ou de outro.
Há muitas experiências diferentes que preferiríamos continuar em lugar de parar, incluindo os prazeres tanto mentais como físicos. Um dos exemplos que eu tinha em mente para uma situação que Helen desejaria continuar é a total absorção em uma tarefa, o que Mihaly Csikszentmihalyi chama de fluxo — um estado que alguns artistas vivenciam em seus momentos criativos e que muitas outras pessoas atingem quando fascinadas por um filme, um livro ou palavras cruzadas: interrupções não são bem-vindas em nenhuma dessas situações.
Também tive lembranças de uma infância tenra e feliz em que eu sempre chorava quando minha mãe vinha me separar de meus brinquedos para me levar para o parque, e chorava outra vez quando ela me tirava do balanço e do escorregador. A resistência à interrupção era um sinal de que eu estava me divertindo, tanto com meus brinquedos como no parquinho.
Propus medir a felicidade objetiva de Helen precisamente como avaliamos a experiência dos dois pacientes de colonoscopia, estimando um perfil do bem-estar que ela vivenciou em sucessivos momentos de sua vida. Nisso eu estava seguindo o método do hedonímetro de Edgeworth de um século atrás. Em meu entusiasmo inicial por essa abordagem, fiquei inclinado a descartar o eu recordativo de Helen como uma testemunha propensa ao erro para o verdadeiro bem-estar de seu eu experiencial. Suspeitei que essa posição fosse extrema demais, o que se revelou ser mesmo, mas foi um bom começo.
BEM-ESTAR EXPERIMENTADO
Montei um dream team2 que incluía três outros psicólogos de diferentes especialidades e um economista, e arregaçamos as mangas para desenvolver uma mensuração do bem-estar do eu experiencial. Um registro contínuo de experiência infelizmente era impossível — uma pessoa não pode viver normalmente se fica relatando constantemente suas experiências. A alternativa mais próxima era amostragem da experiência, um método que Csikszentmihalyi tinha inventado. A tecnologia avançou desde seus primeiros usos. A amostragem da experiência é hoje implementada programando o celular de uma pessoa para bipar ou vibrar a intervalos aleatórios durante o dia. O aparelho apresenta então um breve menu de questões sobre o que o voluntário está fazendo e com quem estava quando foi interrompido. Os participantes são apresentados também a escalas de classificação para relatar a
intensidade de vários sentimentos3 felicidade, tensão, raiva, preocupação, envolvimento, dor física e outros.
Amostragem de experiência é dispendiosa e onerosa (embora seja menos incômoda do que a maioria das pessoas espera inicialmente; responder às perguntas leva muito pouco tempo).
Uma alternativa mais prática era necessária, então desenvolvemos um método que chamamos de Método da Reconstrução do Dia (Day Reconstruction Method, DRM, na sigla em inglês).
Esperávamos que isso aproximasse os resultados da amostragem de experiência e fornecesse informação adicional sobre o modo
como as pessoas passam seu tempo4. As participantes (todas mulheres, nos primeiros estudos) eram convidadas para uma sessão de duas horas.
Primeiro pedíamos a elas para repassar o dia anterior em detalhes, separando-o em episódios como cenas em um filme. Posteriormente, elas respondiam a perguntas sobre cada episódio, baseadas no método da amostragem da experiência. Elas selecionavam atividades em que estavam envolvidas a partir de uma lista e indicavam em qual delas prestaram mais atenção.
Também listavam os indivíduos com quem haviam estado, e classificavam a intensidade de diversos sentimentos em escalas de 0–6 separadas (0 = ausência de sentimento; 6 = sentimento mais intenso). Nosso método valia-se da evidência de que pessoas capazes de recuperar da memória em detalhes uma situação passada também são capazes de reviver os sentimentos que a acompanharam, até mesmo vivenciando seus antigos sinais
fisiológicos de emoção5.
Presumimos que nossas participantes recordariam de forma razoavelmente precisa a sensação de um momento prototípico do episódio. Diversas comparações com amostragem da experiência confirmaram a validade do DRM. Como as participantes relatavam também as ocasiões em que os episódios começavam e terminavam, fomos capazes de calcular uma medida ponderada-por-duração do que sentiam durante todo o dia acordadas. Episódios mais longos contavam mais do que episódios curtos em nossa medição sumária do afeto diário.
Nossos questionários incluíam também medições de satisfação com a vida, que interpretamos como a satisfação do eu recordativo. Utilizamos o DRM para estudar os fatores determinantes tanto do bem-estar emocional como da satisfação de vida entre muitos milhares de mulheres nos Estados Unidos, França e Dinamarca.
A experiência de um momento ou de um episódio não é facilmente representada por um único valor de felicidade. Há muitas variantes de sentimentos positivos, incluindo amor,
alegria, envolvimento, esperança, diversão e muitas outras. Emoções negativas também vêm em muitas variedades, incluindo raiva, vergonha, depressão e solidão. Embora as emoções positivas e negativas existam ao mesmo tempo, é possível classificar a maioria dos momentos da vida como positivos ou negativos, no fim das contas. Podíamos identificar episódios desagradáveis comparando as classificações de adjetivos positivos e negativos. Chamávamos um episódio de desagradável se um sentimento negativo recebia uma classificação mais elevada do que todos os sentimentos positivos. Descobrimos que as mulheres norte-americanas passam em torno de 19% do tempo em um estado de desagrado, proporção um pouco mais elevada do que as francesas (16%) ou dinamarquesas (14%).
Chamamos a porcentagem de tempo que um indivíduo passa em
um estado de desagrado de índice U6. 27 Por exemplo, um indivíduo que passa de quatro a 16 horas de seu tempo desperto em um estado de desagrado apresentaria um índice U de 25%. A vantagem do índice U é que ele está baseado não numa escala de classificação, mas em uma medição objetiva de tempo.
Se o índice U para uma população cai de 20% para 18%, você pode inferir que o tempo total que a população gasta em desconforto emocional ou sofrimento diminuiu um décimo.
Uma observação surpreendente foi a extensão da desigualdade na
distribuição de dor emocional7. Cerca de metade das nossas participantes relataram ter passado um dia inteiro sem experimentar um episódio desagradável. Por outro lado, uma minoria significativa da população vivenciou considerável aflição emocional durante grande parte do dia. Ao que parece, uma pequena fração da população arca com a maior parte do sofrimento — seja devido a alguma enfermidade física ou mental, um temperamento infeliz ou aos azares e tragédias pessoais em sua vida.
Um índice U também pode ser calculado por atividades. Por exemplo, podemos medir a proporção de tempo que as pessoas passam em um estado emocional negativo quando utilizam o transporte público, trabalham ou interagem com seus pais, esposos ou filhos. Para mil norte-americanas numa cidade do Meio-Oeste, o índice U foi de 29% para pegar o trem de manhã, 27% para o trabalho, 24% para cuidar dos filhos, 18% para o serviço doméstico, 12% para a socialização, 12% para assistir à televisão e 5% para sexo. O índice U era em cerca de 6%
mais elevado nos dias úteis do que nos fins de semana, em grande parte porque nos fins de semana as pessoas passam menos tempo em atividades de que não gostam e não sofrem a tensão e o estresse associados com o trabalho. A maior surpresa foi a experiência emocional do tempo gasto com os filhos, que para as mulheres norte-americanas era ligeiramente menos agradável do que fazer o serviço doméstico. Aqui encontramos um dos poucos contrastes entre mulheres francesas e norte-americanas: as francesas passam menos tempo com os filhos, mas aproveitam mais, talvez porque tenham mais acesso a serviços de cuidados infantis e passem menos tempo durante o dia levando as crianças de carro de uma atividade para outra.
O humor de um indivíduo a um dado momento depende de seu temperamento e felicidade total, mas o bem-estar emocional também flutua consideravelmente ao longo do dia e da semana. O humor do momento depende primordialmente da situação presente. O humor no
trabalho, por exemplo, é muito pouco afetado pelos fatores que influenciam a satisfação geral com o emprego, incluindo benefícios e status. O mais importante são os fatores circunstanciais, como uma oportunidade de se socializar com os colegas, exposição a ruído alto, pressão de tempo (uma significativa fonte de afeto negativo) e a presença imediata de um chefe (em nosso primeiro estudo, a única coisa pior do que ficar sozinho). A atenção é crucial.
Nosso estado emocional é amplamente determinado por aquilo em que prestamos atenção no momento, e normalmente estamos concentrados em nossa presente atividade e no ambiente imediato. Há exceções, onde a qualidade da experiência subjetiva é dominada mais pelos pensamentos recorrentes do que pelos eventos do momento. Quando estamos felizes por estar apaixonados, podemos sentir alegria até parados no trânsito, e se sofremos algum pesar, podemos continuar deprimidos até assistindo a um filme de comédia. Em circunstâncias normais, porém, extraímos prazer e dor do que está acontecendo no momento, se prestarmos atenção. Para extrair prazer da comida, por exemplo, você deve prestar atenção no que está fazendo. Descobrimos que as mulheres francesas e norte-americanas gastam mais ou menos a mesma quantidade de tempo comendo, mas para as francesas comer tem uma probabilidade duas vezes maior de ser algo focado do que para as americanas. As americanas eram muito mais propensas a combinar a refeição com outras atividades, e seu prazer em comer ficava diluído de modo correspondente.
Essas observações trazem implicações tanto para os indivíduos como para a sociedade. O
uso do tempo é uma das áreas da vida sobre a qual as pessoas têm algum controle. Poucos indivíduos são capazes de deliberadamente adquirir uma disposição mais animada, mas alguns talvez consigam organizar suas vidas de modo a passar uma parte menor de seu dia indo e voltando do trabalho, e mais tempo fazendo coisas que apreciam com pessoas de que gostam.
Os sentimentos associados com diferentes atividades sugerem que outro modo de melhorar a experiência é substituir o tempo de lazer passivo, como assistir a tevê, para formas mais ativas de lazer, incluindo socialização e exercício. Da perspectiva social, melhoria do transporte público para a força de trabalho, disponibilidade de creches para as mulheres que trabalham fora e melhoria das oportunidades de socialização para a terceira idade podem ser maneiras relativamente eficientes de reduzir o índice U da sociedade — até mesmo uma redução de um por cento seria uma conquista significativa, somando milhões de horas de prevenção de sofrimento. Estudos nacionais combinados de uso do tempo e bem-estar experimentado podem determinar as políticas sociais de múltiplas maneiras. O economista de nossa equipe, Alan Krueger, tomou a frente em um esforço de introduzir elementos desse método às estatísticas nacionais.
Medições de bem-estar experimentado hoje são rotineiramente usadas em estudos nacionais de larga escala nos Estados Unidos,
Canadá e Europa, e o Gallup World Poll8estendeu essas medições a milhões de voluntários nos Estados Unidos e em mais de 150 países. As pesquisas
do Gallup obtiveram informações sobre as emoções vivenciadas durante o dia anterior, embora em menos detalhes do que o DRM. As amostras gigantes permitem análises extremamente refinadas, o que tem confirmado a importância dos fatores circunstanciais, saúde física e contato social para o bem-estar experimentado. Não é de surpreender que uma dor de cabeça torne a pessoa infeliz e que o segundo melhor prognosticador dos sentimentos de um dia seja se uma pessoa teve ou não contatos com amigos ou parentes. É apenas um leve exagero dizer que felicidade é a experiência de passar o tempo com as pessoas que você ama e que amam você.
Os dados do Gallup permitem uma comparação de dois aspectos de bem-estar:
• o bem-estar que as pessoas sentem quando vivem suas vidas
• o julgamento que fazem quando avaliam a própria vida
A avaliação de vida do Gallup é medida por uma questão conhecida como Cantril Self-Anchoring Striving Scale (Escala de Esforço de Autoancoragem Cantril):
Imagine uma escada com degraus numerados de 0 na base a 10 no topo. O topo da escada representa a melhor vida possível para você e a base da escada representa a pior vida possível para você. Em que degrau da escada você diria que se sente presente neste momento?
Alguns aspectos da vida têm mais efeito na avaliação da vida de uma pessoa do que na experiência de viver. A conquista educacional é um exemplo. Maior grau de instrução está associado com avaliação mais elevada da vida, mas não com um maior bem-estar experimentado. Na verdade, pelo menos nos Estados Unidos, pessoas com maior instrução tendem a relatar maior estresse. Por outro lado, saúde ruim tem um efeito adverso muito mais forte no bem-estar experimentado do que na avaliação da vida. Viver com os filhos também impõe um custo significativo na moeda corrente dos sentimentos diários — relatos de estresse e raiva são comuns entre pais, mas os efeitos adversos sobre a avaliação da vida são menores.
A participação religiosa também tem impacto favorável relativamente maior no afeto positivo e na redução de estresse do que na avaliação da vida. Surpreendentemente, porém, a religião não fornece qualquer redução nos sentimentos de depressão ou preocupação.
Uma análise de mais de 450 mil respostas para o Gallup-
Healthways Well-Being Index9,
um levantamento diário de mil norte-americanos, fornece uma resposta surpreendentemente precisa para a pergunta feita com maior frequência na pesquisa de bem-estar: Dinheiro compra felicidade? A conclusão é que ser pobre torna a pessoa infeliz, e que ser rico pode intensificar a satisfação da vida de alguém, mas (na média) não melhora o bem-estar experimentado.
A pobreza extrema intensifica os efeitos vivenciados com outros infortúnios da vida. Em particular, a doença é bem pior para os muito
pobres10 do que para os que vivem com mais conforto. Uma dor de cabeça aumenta a proporção dos que relatam tristeza e preocupação de
19% a 38% para os indivíduos nos dois terços superiores da distribuição de renda. Os números correspondentes para a décima parte mais pobre são 38% e 70% — um nível de linha de base mais elevado e um crescimento muito maior. Diferenças significativas entre os muito pobres e os outros também são encontradas para os efeitos de divórcio e solidão. Além do mais, os efeitos benéficos do fim de semana no bem-estar experimentado são significativamente menores para os muito pobres do que para a maioria dos demais.
O nível de saciedade além do qual o bem-estar experimentado para de crescer era uma renda familiar de cerca de 75 mil dólares anuais
em áreas de custo elevado11 (podia ser menos em áreas onde o custo de vida é menor). O crescimento médio de bem-estar experimentado associado com rendas além desse nível era precisamente zero. Isso é surpreendente porque uma renda mais elevada indubitavelmente permite a aquisição de muitos prazeres, incluindo férias em lugares interessantes e ingressos para óperas, bem como um ambiente de vida melhorado. Por que esses prazeres agregados não aparecem nos relatórios de experiência emocional? Uma interpretação plausível é de que maior renda está associada com uma capacidade reduzida de usufruir os pequenos prazeres da vida. Há sugestiva evidência a favor dessa ideia: em estudantes estimulados pela ideia de riqueza, o prazer que seus rostos
expressam ao comer uma barra de chocolate é reduzido!12
Há um claro contraste entre os efeitos da renda no bem-estar experimentado e na satisfação de vida. Renda mais elevada traz consigo satisfação mais elevada, muito além do ponto em que deixa de ter qualquer efeito positivo na experiência. A conclusão geral é tão clara para o bem-estar quanto foi para colonoscopias: a avaliação que as pessoas fazem de suas vidas e a experiência real podem estar relacionadas, mas também são diferentes. Satisfação de vida não é uma medição imperfeita de seu bem-estar experimentado, como eu pensava alguns anos atrás. É algo completamente diferente.