Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 14 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

13 - Disponibilidade, Emoção e Risc

Bush, novembro de 2002). A seguir eles mostram que confiar na intuição é apenas em parte um traço de personalidade. Simplesmente lembrar as pessoas de uma época em que tinham poder aumenta sua aparente confiança em sua própria intuição.

FALANDO DE DISPONIBILIDADE

“Devido à coincidência do choque entre dois aviões no mês passado, ela agora prefere pegar trem. Isso é idiotice. O risco não mudou de verdade; é um viés de disponibilidade.”

“Ele subestima os riscos da qualidade do ar interior (QAI) porque a mídia quase não noticia o assunto. Isso é um efeito de disponibilidade. Ele deveria olhar para as estatísticas.

“Ela anda assistindo a muitos filmes de espionagem ultimamente, então tem visto conspirações por toda parte.”

“A diretora executiva acertou em cheio várias vezes seguidas, então o fracasso não é algo que passa facilmente por sua cabeça. O viés de disponibilidade a está deixando superconfiante.”

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DISPONIBILIDADE, EMOÇÃO E RISCO

Estudiosos do risco perceberam rapidamente que a ideia de disponibilidade era relevante para seu campo de pesquisa. Mesmo antes que nosso trabalho fosse publicado, o economista Howard Kunreuther, que estava então nos primeiros estágios de uma carreira devotada ao estudo de risco e segurança, notou que os efeitos de disponibilidade ajudam a explicar o padrão de aquisição de seguro e medidas de proteção após desastres. Vítimas e quase vítimas ficam muito preocupadas após um desastre. Depois de cada terremoto significativo, os californianos se mostram por algum tempo diligentes em adquirir seguros e adotar medidas de proteção e alívio. Eles prendem seus boilers para reduzir os danos com tremores de terra, selam as portas do porão como prevenção contra enchentes e mantêm suprimentos de emergência bem organizados. Entretanto, a lembrança do desastre enfraquece com o tempo, e igualmente a preocupação e a diligência. A dinâmica da memória ajuda a explicar os ciclos recorrentes de desastre, preocupação e complacência crescente, familiares aos estudiosos de emergências em larga escala.

Kunreuther observou também que medidas de proteção, sejam tomadas por indivíduos ou por governos, são em geral planejadas para se adequarem ao pior desastre efetivamente vivenciado. Já no Egito dos faraós as sociedades acompanhavam a marca mais elevada de rios que transbordavam periodicamente — e sempre se preparavam de acordo com isso, aparentemente presumindo que as cheias não iriam atingir um ponto mais elevado do que a marca máxima existente. Imagens de desastres maiores não vêm facilmente à imaginação.

DISPONIBILIDADE E AFETO

Os mais influentes estudos de vieses de disponibilidade foram efetuados por amigos nossos em Eugene, onde Paul Slovic e sua colaboradora de longa data, Sarah Lichtenstein, uniram-se ao nosso ex-aluno Baruch Fischhoff. Eles empreenderam uma pesquisa pioneira nas percepções públicas de riscos, incluindo um levantamento que se tornou o exemplo padrão de um viés de disponibilidade. Pediram aos participantes do estudo para considerar causas de morte aos pares: diabetes e asma, ou derrame e acidentes. Para cada par, as pessoas indicavam a causa mais frequente e estimavam a proporção das duas frequências. Os pareceres foram comparados a estatísticas de saúde do período. Eis aqui uma amostra do que descobriram:

• Derrames causam quase o dobro de mortes de todos os acidentes combinados, mas 80% dos participantes avaliaram a morte acidental como mais provável.

• Tornados foram vistos como assassinos mais frequentes do que asma, embora esta última provoque vinte vezes mais mortes.

• Morte por raios foi julgada menos provável do que morte por botulismo, ainda que

seja 52 vezes mais frequente.

• Morte por doença é 18 vezes mais provável que morte acidental, mas as duas foram julgadas igualmente prováveis.

• Morte por acidentes foi avaliada como mais de trezentas vezes mais provável do que morte por diabetes, mas a proporção verdadeira é 1:4.

A lição é clara: estimativas de causas de morte são distorcidas pela cobertura da mídia. A própria cobertura em si tende para a novidade e a comoção. A mídia não só molda o interesse do público, mas também é por ele moldada. Os editores não podem ignorar as exigências do público de que determinados temas e pontos de vista recebam cobertura extensa. Eventos incomuns (como botulismo) atraem atenção desproporcional e são consequentemente percebidos como menos incomuns do que realmente são. O mundo em nossas cabeças não é uma réplica precisa da realidade; nossas expectativas sobre a frequência dos eventos são distorcidas pela preponderância e intensidade emocional das mensagens às quais somos expostos.

As estimativas das causas de morte são uma representação quase direta da ativação de ideias na memória associativa, e são um bom exemplo de substituição. Mas Slovic e seus colegas foram levados a um insight mais profundo: perceberam que a facilidade com que ideias de vários riscos vêm à mente e as reações emocionais a esses riscos estão inextricavelmente ligadas. Pensamentos e imagens assustadores ocorrem-nos com particular facilidade, e pensamentos de perigo que são fluentes e vívidos exacerbam o medo.

Como mencionado anteriormente, Slovic acabou por desenvolver o conceito de uma heurística do afeto, em que as pessoas fazem julgamentos e tomam decisões consultando suas emoções: Será que gosto disso? Eu odeio isso? Qual a força de meus sentimentos em relação a isso? Em muitos domínios da vida, disse Slovic, as pessoas formam opiniões e fazem escolhas que expressam diretamente seus sentimentos e sua tendência básica de abordar ou evitar, muitas vezes sem se dar conta de que o estão fazendo. A heurística do afeto é um caso de substituição, em que a resposta para uma pergunta fácil (Como me sinto em relação a isso?) serve como resposta para uma questão muito mais difícil (O que penso sobre isso?). Slovic e seus colegas relacionaram suas ideias ao trabalho do neurocientista António Damásio, que havia proposto que as estimativas emocionais de resultados feitas pelas pessoas, e os estados físicos e tendências de se aproximar ou se afastar associados a eles todos desempenham um papel central em orientar a tomada de decisão. Damásio e seus colegas observaram que pessoas que não exibem emoções apropriadas antes de decidir,

às vezes devido a algum dano cerebral1, apresentam também uma capacidade prejudicada de tomar boas decisões. Uma incapacidade de ser guiado por um “medo saudável” de consequências ruins é uma falha

desastrosa.

Numa demonstração convincente da heurística do afeto em operação, a equipe de pesquisadores de Slovic coligiu opiniões sobre várias tecnologias, incluindo fluoretação da água, indústrias químicas, conservantes de alimentos e carros, e pediu aos pesquisados que listassem tanto os benefícios como os riscos de cada uma. Eles observaram uma correlação negativa implausivelmente elevada entre as duas estimativas feitas pelas pessoas: o nível de benefício e o nível de risco que atribuíam às

tecnologias2. Quando as pessoas eram favoravelmente inclinadas em relação a uma tecnologia, classificavam-na como oferecendo grandes benefícios e impondo pouco risco; quando não gostavam de uma tecnologia, só conseguiam pensar em suas desvantagens, e poucas vantagens lhes vinham à mente. Como as tecnologias alinhavam-se claramente de boas a más, nenhuma troca penosa precisava ser enfrentada. Estimativas de risco e benefício correspondiam de forma ainda mais próxima quando as pessoas classificavam os riscos e benefícios sob pressão do tempo.

Notavelmente, membros da British Toxicology Society3 responderam de forma similar: eles viram pouco benefício em substâncias ou tecnologias que achavam arriscadas, e vice-versa. Afeto consistente é um elemento central do que tenho chamado de coerência associativa.

A melhor parte do experimento veio em seguida. Após completar o levantamento inicial, os entrevistados leram breves trechos com argumentos em favor de várias tecnologias. Alguns receberam argumentos focados nos diversos benefícios de uma tecnologia; outros, argumentos enfatizando seus baixos riscos. Essas mensagens foram eficazes em mudar o apelo emocional das tecnologias. A descoberta surpreendente foi de que as pessoas que haviam recebido uma mensagem exaltando os benefícios de uma tecnologia também mudavam suas crenças em relação aos seus riscos. Embora não tivessem recebido qualquer evidência relevante, a tecnologia de que agora gostavam mais do que antes também era percebida como menos arriscada. Similarmente, entrevistados a quem fora informado apenas que os riscos de uma tecnologia eram brandos desenvolveram uma opinião mais favorável de seus benefícios. A implicação é clara: como disse o psicólogo Jonathan Haidt em outro contexto, “A cauda emocional abana o cão racional”

4. A heurística do afeto simplifica nossas vidas criando um mundo que é muito mais ordenado do que a realidade. Boas tecnologias apresentam poucos custos no mundo imaginário que habitamos, más tecnologias não têm qualquer benefício e todas as decisões são fáceis. No mundo real, é claro, frequentemente enfrentamos trocas penosas entre benefícios e custos.

O PÚBLICO E OS ESPECIALISTAS

Paul Slovic provavelmente sabe mais acerca das peculiaridades do julgamento de risco dos seres humanos do que qualquer um. Seu trabalho oferece um retrato do sr. e da sra. Cidadãos Comuns que está longe de ser lisonjeiro: orientados pela emoção mais do que pela razão, facilmente influenciados por detalhes triviais e inadequadamente sensíveis a diferenças entre probabilidades baixas e insignificantemente baixas. Slovic também examinou especialistas,

que são claramente superiores em lidar com números e quantidades. Especialistas exibem diversos dos mesmos vieses que o restante dos mortais de uma forma atenuada, mas muitas vezes seus julgamentos e suas preferências sobre riscos divergem dos das outras pessoas.

Diferenças entre especialistas e o público são explicadas em parte por vieses em julgamentos leigos, mas Slovic chama a atenção para situações em que as diferenças refletem um genuíno conflito de valores. Ele ressalta que os especialistas muitas vezes medem os riscos pelo número de vidas (ou anos-vida) perdidas, ao passo que o público traça distinções mais sutis, por exemplo entre “mortes boas” e “mortes ruins”, ou entre fatalidades acidentais aleatórias e mortes que ocorrem no decorrer de atividades voluntárias, como esquiar. Essas distinções legítimas são em geral ignoradas nas estatísticas que meramente computam casos.

Slovic argumenta a partir de tais observações que o público possui uma concepção mais complexa dos riscos que os especialistas. Consequentemente, ele resiste fortemente à opinião de que os especialistas devem ter a última palavra e de que a opinião deles deve ser aceita sem questionamento quando entra em conflito com as opiniões e os desejos dos outros cidadãos. Quando especialistas e o público discordam acerca de suas prioridades, diz ele:

“Cada lado deve respeitar o discernimento e a inteligência do outro.”

Em seu esforço por tirar o controle exclusivo da política de gestão de risco da mão dos especialistas, Slovic desafiou o próprio fundamento de sua especialização: a ideia de que risco é objetivo.

“Risco” não existe “à solta por aí” 5, independentemente de nossas mentes e cultura, esperando ser medido. Os seres humanos inventaram o conceito de “risco” como uma ajuda para compreender e lidar com os perigos e incertezas da vida. Embora esses perigos sejam reais, não existe essa coisa de “risco real” ou “risco objetivo”.

Para ilustrar sua afirmação, Slovic lista nove maneiras de definir o risco de mortalidade associado com a liberação de um material tóxico no ar, indo de “morte por milhões de pessoas” a “morte por milhões de dólares de produto produzido”. Seu argumento é que a avaliação do risco depende da escolha de uma mensuração — com a possibilidade óbvia de que a escolha possa ter sido orientada segundo uma preferência por um resultado ou outro. Ele chega à conclusão de que “definir risco é desse modo um exercício de poder”. Quando você ia imaginar que alguém poderia chegar a questões de políticas públicas tão espinhosas a partir de estudos experimentais da psicologia do julgamento! Entretanto, as políticas públicas são em última instância sobre pessoas, o que elas querem e o que é melhor para elas. Toda questão envolvendo políticas públicas implica pressuposições acerca da natureza humana, em particular sobre as escolhas que as pessoas podem fazer e as consequências de suas escolhas para si mesmas e para a sociedade.

Outro estudioso e amigo que admiro enormemente, Cass Sunstein, discorda veementemente da posição de Slovic sobre as diferentes opiniões dos especialistas e cidadãos, e defende o papel dos especialistas como um bastião contra os excessos “populistas”. Sunstein é um dos juristas mais destacados dos Estados Unidos, e compartilha com outros estudiosos eminentes

de sua profissão o atributo da audácia intelectual. Ele sabe que pode dominar qualquer corpo de conhecimento de forma rápida e completa, e de fato dominou vários, incluindo tanto a psicologia do julgamento e da escolha como problemas de regulamentação e políticas de gestão de risco. Sua visão é de que o atual sistema de regulamentação nos Estados Unidos exibe um conjunto de prioridades muito pobre, que reflete mais a reação a pressões públicas do que a análise de objetivos cuidadosos. Ele parte da posição de que a regulamentação do risco e a intervenção governamental para reduzir os riscos devem ser orientadas pela ponderação racional de custos e benefícios, e que as unidades naturais para essa análise são o número de vidas salvas (ou talvez o número de anos-vida salvos, o que atribui maior peso à proteção dos mais jovens) e o custo monetário para a economia. Uma regulamentação ruim significa perda de vidas e dinheiro, duas coisas que podem ser mensuradas objetivamente.

Sunstein não ficou convencido com o argumento de Slovic de que o risco e sua medição sejam subjetivos. Muitos aspectos da avaliação de risco são discutíveis, mas ele tem fé na objetividade que pode ser conquistada pela ciência, especialização e deliberação cuidadosa.

Sunstein veio a acreditar que reações tendenciosas a riscos são uma fonte importante de prioridades erráticas e mal colocadas na política pública. Os legisladores e reguladores devem ser amplamente receptivos às preocupações irracionais dos cidadãos, tanto devido à sensibilidade política como por estarem propensos aos mesmos vieses cognitivos dos demais cidadãos.

Sunstein e um colaborador, o jurista Timur Kuran, inventaram um nome para o mecanismo por meio do qual os vieses fluem para as

políticas públicas: a cascata de disponibilidade 6( availability cascade). Eles comentam que, no contexto social, “todas as heurísticas são iguais, mas a disponibilidade é mais igual do que as outras”. O que eles têm em mente é um conceito expandido da heurística, em que a disponibilidade forneça uma outra heurística para os julgamentos que não a frequência. Em particular, a importância de uma ideia é muitas vezes julgada pela fluência (e carga emocional) com que essa ideia vem à mente.

Uma cascata de disponibilidade é uma cadeia de eventos autossustentável, que pode começar de notícias na mídia sobre um evento relativamente menor e levar ao pânico público e ação governamental de larga escala. Em determinadas ocasiões, uma matéria na mídia sobre algum risco capta a atenção de um segmento do público, que fica agitado e preocupado. Essa reação emocional se torna uma notícia em si mesma, motivando cobertura adicional da mídia, que por sua vez gera ainda maior preocupação e envolvimento. O ciclo às vezes é acelerado deliberadamente por “empresários de disponibilidade”, indivíduos ou organizações que trabalham para assegurar um fluxo contínuo de notícias preocupantes. O perigo é cada vez mais exagerado conforme a mídia compete por manchetes que chamem a atenção. Cientistas e outros que tentam refrear o medo e a aversão crescentes atraem pouca atenção, na maior parte, hostil: qualquer um que alegue que o perigo está sendo dimensionado de forma exagerada é suspeito de associação com alguma odiosa tentativa de “acobertamento”. A questão se torna politicamente importante porque está na cabeça de todo mundo, e a reação do sistema político

é orientada pela intensidade do sentimento público. A cascata de disponibilidade agora tem prioridades redefinidas. Outros riscos e outros modos pelos quais os recursos podem ser aplicados para o bem público sumiram todos para um segundo plano.

Kuran e Sunstein se concentraram em dois exemplos que continuam controversos: o episódio de Love Canal e o assim chamado pânico do Alar. Em Love Canal, lixo tóxico enterrado foi exposto durante uma temporada chuvosa em 1979, causando contaminação da água muito além dos limites permitidos, bem como um odor fétido. Os moradores da comunidade ficaram furiosos e assustados, e um deles, Lois Gibbs, foi particularmente atuante na tentativa de sustentar o interesse no problema. A cascata de disponibilidade se desdobrou segundo o roteiro-padrão. Em seu auge, havia notícias diárias sobre Love Canal, cientistas que tentaram alegar que os perigos estavam sendo superestimados foram ignorados ou tiveram sua voz abafada pela gritaria geral, a rede ABC News levou ao ar um programa intitulado The Killing Ground (O campo mortífero) e caixões vazios de bebê eram carregados em passeata diante do Legislativo. Um grande número de moradores foi transferido às expensas do dinheiro público e o controle de lixo tóxico se tornou a principal questão ambiental dos anos 1980. A legislação que determinou a limpeza dos locais

tóxicos, chamada Cercla18,

estabeleceu um Superfundo e é considerada uma realização significativa da legislação ambiental. Foi também uma medida dispendiosa, e alguns alegaram que a mesma quantia de dinheiro poderia ter salvo muito mais vidas se tivesse sido destinada a outras prioridades.

Opiniões sobre o que de fato aconteceu em Love Canal continuam fortemente divididas, e as alegações de danos reais à saúde parecem não ter se confirmado. Kuran e Sunstein descreveram a história de Love Canal quase como um pseudoevento, ao passo que do outro lado do debate os ambientalistas continuam a falar no “desastre de Love Canal”.

As opiniões também se dividem no segundo exemplo que Kuran e Sunstein usaram para ilustrar seu conceito de uma cascata de disponibilidade, o incidente do Alar, conhecido pelos detratores das preocupações ambientalistas como o “pânico do Alar” de 1989. Alar é um produto químico que era borrifado em maçãs para regular seu crescimento e melhorar a aparência. O pânico começou com notícias na imprensa de que o produto, quando consumido em doses maciças, causava tumores cancerígenos em ratos e camundongos. As matérias compreensivelmente amedrontaram o público, e esses medos encorajaram mais cobertura da mídia, o mecanismo básico de uma cascata de disponibilidade. O assunto dominou o noticiário e produziu eventos de mídia dramáticos como o depoimento da atriz Meryl Streep perante o Congresso. A indústria da maçã sofreu enormes perdas conforme maçãs e produtos derivados tornaram-se objeto de medo. Kuran e Sunstein citaram um cidadão que ligou para perguntar “se era mais seguro jogar o suco de maçã pelo ralo ou se ele deveria procurar um depósito de lixo tóxico”. O fabricante recolheu o produto e a FDA (Food and Drug Administration) o proibiu. Pesquisas subsequentes confirmaram que a substância pode oferecer um risco muito pequeno como um possível carcinógeno, mas o incidente do Alar foi decerto uma reação profundamente exagerada para um problema menor. O resultado líquido

do incidente sobre a saúde pública foi provavelmente prejudicial, porque poucas maçãs boas chegaram a ser consumidas.

A história do Alar ilustra uma limitação básica na capacidade de nossa mente de lidar com pequenos riscos: ou os ignoramos completamente ou lhes damos peso excessivo — nada entre uma

coisa e outra7. Qualquer pai que já tenha ficado acordado até tarde esperando uma filha adolescente chegar de uma festa reconhecerá o sentimento. Talvez você saiba que na verdade não há (quase) nada com que se preocupar, mas não consegue impedir que imagens de desastres venham à sua mente. Como argumentou Slovic, a quantidade de preocupação não é adequadamente sensível à probabilidade de dano; você está imaginando o numerador — a trágica história que assistiu no noticiário — e não pensando no denominador. Sunstein cunhou a expressão “negligência com a probabilidade” ( probability neglect) para descrever o padrão. A combinação de negligência com a probabilidade com os mecanismos sociais de cascatas de disponibilidade inevitavelmente leva a um grosseiro exagero de ameaças menores, às vezes com consequências importantes.

No mundo de hoje, os terroristas são os praticantes mais significativos da arte de induzir cascatas de disponibilidade. Com poucas terríveis exceções, como o 11 de Setembro, o número de baixas por ataques terroristas é muito pequeno em relação a outras causas de morte. Mesmo em países que se tornaram alvo de intensas campanhas terroristas, como Israel, o número semanal de baixas quase nunca chegou perto do número de mortes no trânsito. A diferença está na disponibilidade dos dois riscos, na facilidade e na frequência com que cada um vem à mente. Imagens horríveis, repetidas exaustivamente na mídia, deixam todo mundo com os nervos à flor da pele. Como sei por experiência, é difícil apelar à razão para atingir um estado de calma absoluta. O terrorismo fala diretamente ao Sistema 1.

Onde me encaixo no debate entre meus amigos? Cascatas de disponibilidade são reais e indubitavelmente distorcem as prioridades na alocação de recursos públicos. Cass Sunstein almeja buscar mecanismos que isolem os tomadores de decisão das pressões públicas, deixando que a alocação de recursos seja determinada por especialistas imparciais dotados de uma visão ampla de todos os riscos e dos recursos disponíveis para reduzi-los. Paul Slovic confia nos especialistas bem menos e no público um pouco mais do que Sunstein, e aponta que isolar os especialistas das emoções do público gera políticas que o público irá rejeitar —

uma situação impossível numa democracia. Ambos são eminentemente sensatos, e concordo com os dois.

Partilho do desconforto de Sunstein com a influência de medos irracionais e cascatas de disponibilidade em política pública no domínio do risco. Contudo, também partilho da crença de Slovic de que medos disseminados, mesmo quando são irracionais, não devem ser ignorados pelos formuladores das políticas públicas. Racional ou não, medo é uma coisa dolorosa e debilitante, e os formularores de políticas devem se esforçar para proteger o público do medo, não apenas dos verdadeiros perigos.

Slovic enfatiza corretamente a resistência do público à ideia de decisões sendo tomadas

por especialistas não eleitos e isentos de responsabilidade. Além do mais, cascatas de disponibilidade podem apresentar um benefício a longo prazo chamando a atenção para classes de riscos e ampliando o tamanho global do orçamento para redução de risco. O

incidente de Love Canal talvez tenha levado a que recursos excessivos sejam alocados para o manuseio de lixo tóxico, mas também exerceu um efeito mais geral em elevar o nível de prioridade das preocupações ambientais. A democracia é inevitavelmente confusa em parte porque as heurísticas de disponibilidade e afeto que orientam as crenças e atitudes dos cidadãos são inevitavelmente tendenciosas, mesmo que de uma maneira geral apontem na direção certa. A psicologia deve informar o projeto de políticas públicas do risco que combine o conhecimento dos especialistas com as emoções e intuições do público.