Rápido e devagar: Duas formas de pensar
Conclusões
28 Do prefixo mis-, “enganoso”, “ruim”, “equivocado”, e wanting, “querer”, “carência”. (N. do T.)
CONCLUSÕES
Comecei este livro apresentando dois personagens fictícios, passei algum tempo discutindo duas espécies e terminei com dois eus. Os dois personagens foram o intuitivo Sistema 1, que exerce o pensamento rápido, e o oneroso e mais lento Sistema 2, que executa o pensamento lento, monitora o Sistema 1 e mantém o controle da melhor forma que pode dentro de seus recursos limitados. As duas espécies eram os fictícios Econs, que vivem no mundo da teoria, e os Humanos, que atuam no mundo real. Os dois eus são o eu experiencial, que vive, e o eu recordativo, que mantém a contagem do placar e faz as escolhas. Neste capítulo final vou considerar algumas aplicações das três distinções, abordando-as em ordem inversa.
DOIS EUS
A possibilidade de conflitos entre o eu recordativo e os interesses do eu experiencial revelou-se um problema mais difícil do que julguei inicialmente. Em um antigo experimento, o estudo da mão gelada, a combinação da negligência com a duração e da regra do pico-fim levou a escolhas que eram manifestamente absurdas. Por que as pessoas iriam se expor de livre e espontânea vontade a sofrimento desnecessário? Os participantes de nosso experimento deixaram a escolha ao seu eu recordativo, preferindo repetir o teste que deixava a melhor lembrança, embora implicasse mais sofrimento. Escolher conforme a qualidade da lembrança talvez se justifique em casos extremos, por exemplo quando o estresse pós-traumático é uma possibilidade, mas a experiência da mão gelada não era traumática. Um observador objetivo fazendo a escolha em nome de outra pessoa iria indubitavelmente escolher a exposição curta, favorecendo o eu experiencial do sofredor. As escolhas que as pessoas fazem em seu próprio nome são com bastante frequência descritas como equívocos. A negligência com a duração e a regra do pico-fim na avaliação de histórias, tanto na ópera como nos julgamentos sobre a vida de Jen, são igualmente indefensáveis. Não faz sentido avaliar toda uma vida por seus últimos momentos, ou não atribuir peso algum à duração ao decidir qual vida é mais desejável.
O eu recordativo é uma construção do Sistema 2. Entretanto, os traços distintivos do modo como ele avalia episódios e vidas são característicos de nossa memória. A negligência com a duração e a regra do pico-fim originam-se no Sistema 1 e não necessariamente correspondem aos valores do Sistema 2. Acreditamos que a duração é importante, mas nossa memória nos diz que não é. As regras que governam a avaliação do passado são guias ruins para nossa tomada de decisão, pois o tempo importa, e muito. O fato central de nossa existência é que o tempo é o recurso finito supremo, mas o eu recordativo ignora essa realidade. A negligência com a duração, combinada à regra do pico-fim, ocasiona um viés que favorece antes um curto período de intensa alegria do que um longo período de felicidade moderada. A imagem espelhada do mesmo viés nos faz temer um período curto de sofrimento tolerável porém intenso mais do que temer um período muito mais prolongado de sofrimento moderado. A negligência com a duração também nos torna propensos a aceitar um longo período de desprazer moderado porque o fim será melhor, e favorece abrir mão de uma oportunidade para um período prolongado e feliz se houver a probabilidade de que ele tenha um final ruim. Para
levar essa mesma ideia ao ponto do desconforto, considere a seguinte advertência: “Não faça isso, você vai se arrepender.” O conselho soa como sábio, pois o arrependimento antecipado é o veredito do eu recordativo e somos inclinados a aceitar tais julgamentos como definitivos e conclusivos. Não devemos nos esquecer, porém, que a perspectiva do eu recordativo nem sempre é correta. Um observador objetivo do perfil do hedonímetro, com os interesses do eu experiencial em mente, pode muito bem oferecer um conselho diferente. A negligência com a duração do eu recordativo, sua ênfase exagerada nos picos e fins e sua suscetibilidade ao retrospecto combinam-se para produzir reflexos distorcidos de nossa experiência real.
Por outro lado, a concepção ponderada-por-duração de bem-estar trata todos os momentos da vida de modo similar, sejam eles inesquecíveis ou não. Alguns momentos acabam com um peso maior do que outros, seja porque são inesquecíveis, seja porque são importantes. O
tempo que as pessoas gastam detendo-se em um momento inesquecível deve ser incluído em sua duração, contribuindo para seu peso. Um momento também pode ganhar importância alterando-se a experiência dos momentos subsequentes. Por exemplo, uma hora passada praticando violino pode intensificar a experiência de muitas horas tocando ou ouvindo música anos mais tarde. Similarmente, um evento breve e horrível que cause um TEPT deve ser pesado segundo a duração total do sofrimento a longo prazo que causa. Na perspectiva ponderada-por-duração, podemos determinar apenas o fato de que um momento é inesquecível ou significativo. As afirmações de que “sempre vou me lembrar…” ou “este é um momento significativo” devem ser tomadas como promessas ou previsões, que podem ser falsas — e muitas vezes são — mesmo quando feitas com total sinceridade. Existem grandes chances de que muitas coisas que dizemos que nunca vamos esquecer já estarão há muito esquecidas dez anos depois.
A lógica da ponderação por duração é convincente, mas não pode ser considerada uma teoria completa do bem-estar porque os indivíduos se identificam com seu eu recordativo e se importam com sua própria história. Uma teoria do bem-estar que ignore o que as pessoas querem não pode se sustentar. Por outro lado, uma teoria que ignore o que de fato acontece na vida das pessoas e se concentre exclusivamente no que elas pensam sobre sua própria vida tampouco é defensável. O eu recordativo e o eu experiencial devem ambos ser considerados, pois seus interesses nem sempre coincidem. Os filósofos poderiam se debater com essas questões por um longo tempo.
A questão de qual dos dois eus importa mais não é uma questão apenas para os filósofos; ela traz implicações para as políticas públicas em diversos campos, notadamente a medicina e a previdência social. Considere o investimento que deve ser feito no tratamento de diversos problemas médicos, incluindo cegueira, surdez ou falência renal. Será que os investimentos devem ser determinados pelo grau de temor das pessoas em relação a essas enfermidades? Os investimentos devem ser orientados pelo sofrimento que os pacientes de fato passam? Ou devem se pautar pela intensidade do desejo dos pacientes em se ver aliviados de sua condição e pelos sacrifícios que estariam dispostos a fazer para alcançar esse alívio? A classificação
da cegueira e da surdez, ou da colostomia e da diálise, pode muito bem ser diferente, dependendo de qual medida da gravidade do sofrimento for utilizada. Nenhuma solução fácil encontra-se à vista,
mas a questão é importante demais para ser ignorada17.
A possibilidade de usar medidas de bem-estar como indicadores
para orientar as políticas do governo18 tem atraído considerável interesse, recentemente, tanto entre acadêmicos como entre diversos governos da Europa. Hoje é concebível, algo que nem sequer se cogitava há poucos anos, que um índice da quantidade de sofrimento na sociedade venha a ser um dia incluído nas estatísticas nacionais, a exemplo das taxas de desemprego, incapacitação física e renda. Esse projeto já fez um grande progresso.
ECONS E HUMANOS
Na linguagem do dia a dia, chamamos as pessoas de razoáveis se podemos argumentar com elas, se suas crenças estão de um modo geral sintonizadas com a realidade e se suas preferências estão alinhadas com seus interesses e valores. A palavra racional transmite uma imagem de maior deliberação, mais cálculo, menos entusiasmo, mas na linguagem comum uma pessoa racional certamente é razoável. Para os economistas e teóricos da decisão, o adjetivo possui um significado completamente diferente. O único teste de racionalidade não é se as crenças e preferências de uma pessoa são razoáveis, mas se elas são internamente consistentes. Uma pessoa racional pode acreditar em fantasmas na medida em que todas suas outras crenças forem consistentes com a existência de fantasmas. Uma pessoa racional pode preferir ser odiada a ser amada, contanto que suas preferências sejam consistentes.
Racionalidade é coerência lógica — seja ela razoável ou não. Econs são racionais por essa definição, mas há evidências esmagadoras de que os Humanos não podem ser. Um Econ não seria suscetível a priming, WYSIATI, enquadramento estreito, visão de dentro ou reversões de preferência, coisa que os Humanos são incapazes de evitar de forma consistente.
A definição de racionalidade como coerência é impossivelmente restritiva; ela pede adesão a regras de lógica que uma mente finita não é capaz de implementar. Pessoas razoáveis não podem ser racionais segundo essa definição, mas elas não devem ser rotuladas como irracionais por essa razão. Irracional é uma palavra
forte19, que conota impulsividade, emotividade e uma resistência obstinada ao argumento razoável. Eu costumo me encolher todo quando dizem que meu trabalho com Amos demonstra que as escolhas humanas são irracionais, quando na verdade nossa pesquisa apenas mostrou que os Humanos não são bem descritos pelo modelo de agente racional.
Embora os Humanos não sejam irracionais, eles com frequência necessitam de ajuda para fazer julgamentos mais precisos e tomar decisões melhores, e em alguns casos as políticas públicas e as instituições podem fornecer essa ajuda. Essas afirmações talvez pareçam inócuas, mas são na verdade bastante controversas. Tal como interpretado pela importante escola econômica de Chicago, a fé na racionalidade humana está estreitamente ligada a uma ideologia em que é desnecessário e até imoral proteger as pessoas contra suas escolhas.
Pessoas racionais devem ser livres, e devem ser responsáveis por cuidar de si mesmas.
Milton Friedman, o principal pensador dessa escola, expressou essa visão no título de um de seus populares livros: Liberdade de escolher.
A pressuposição de que os agentes são racionais fornece a fundamentação intelectual para a abordagem libertária das políticas públicas: não interferir com o direito de escolha das pessoas, a menos que essas escolhas acarretem danos aos outros. Políticas libertárias são ainda mais encorajadas pela admiração com a eficiência dos mercados em alocar os bens para as pessoas que estão dispostas a pagar mais por eles. Um famoso exemplo da abordagem de Chicago intitula-se A Theory of Rational Addiction (Uma teoria do vício racional); ela explica como um agente racional com forte preferência por gratificação intensa e imediata talvez tome
a decisão racional de aceitar o futuro vício20 como consequência. Certa vez ouvi Gary Becker, um dos autores daquele artigo, que é também um membro da escola de Chicago laureado com o Nobel, defender numa veia um pouco mais leve, mas não inteiramente como uma piada, que deveríamos considerar a possibilidade de explicar a assim chamada epidemia de obesidade pela crença das pessoas de que uma cura para o diabetes em breve estará disponível. Seu argumento era valioso: quando observamos as pessoas agindo de maneiras que parecem estranhas, devemos primeiro examinar a possibilidade de terem uma boa razão para fazer o que fazem. Interpretações psicológicas só devem ser invocadas quando as razões se tornam implausíveis — o que a explicação de Becker para a obesidade provavelmente é.
Numa nação de Econs, o governo deve ficar fora do caminho, permitindo que os Econs ajam como bem lhes aprouver, contanto que não causem danos uns aos outros. Se um motociclista decide andar sem capacete, um libertário apoiará seu direito de fazer tal coisa.
Os cidadãos sabem o que estão fazendo, mesmo quando escolhem não guardar dinheiro para a velhice ou quando se expõem a substâncias viciantes. Às vezes há um lado injusto nessa posição: pessoas mais velhas que não pouparam o suficiente para a aposentadoria recebem um pouco mais de simpatia do que alguém que reclama da conta após consumir uma farta refeição em um restaurante. Há então muita coisa em jogo no debate entre a escola de Chicago e os economistas comportamentais, que rejeitam a forma extrema do modelo de agente racional.
Liberdade não é um valor contestado; todos os participantes no debate são a favor disso. Mas a vida é mais complexa para os economistas comportamentais do que para os adeptos ferrenhos da racionalidade humana. Nenhum economista comportamental será a favor de um Estado que force seus cidadãos a ter uma dieta balanceada e assistir apenas a programas de televisão que sejam bons para a alma. Para os economistas comportamentais, porém, a liberdade tem um custo, que é arcado pelos indivíduos que fazem escolhas ruins, e pela sociedade que se sente na obrigação de ajudá-los. A decisão de proteger ou não os indivíduos contra seus erros apresenta desse modo um dilema para os economistas comportamentais. Os economistas da escola de Chicago não enfrentam esse problema, pois os agentes racionais não cometem enganos. Para os defensores dessa escola, a liberdade não apresenta custo algum.
Em 2008, o economista Richard Thaler e o jurista Cass Sunstein se uniram para escrever
um livro, Nudge, que rapidamente se tornou um best-seller internacional e a bíblia da economia comportamental. O livro deles introduziu diversas palavras novas na língua, incluindo Econs e Humanos. Também apresentou um conjunto de soluções para o dilema de como ajudar as pessoas a tomar boas decisões sem restringir sua liberdade. Thaler e Sunstein defendem uma posição de paternalismo libertário, em que se permite que o Estado e outras instituições deem um empurrão nas pessoas para que elas tomem decisões que sirvam a seus próprios interesses de longo prazo. A indicação para integrar um plano de aposentadoria como opção default é exemplo desse cutucão ou empurrãozinho. É difícil argumentar que a liberdade de alguém ficará diminuída ao participar automaticamente de um plano, quando tudo que as pessoas têm a fazer é ticar um campo excluindo-as da proposta. Como vimos antes, o enquadramento da decisão do indivíduo — Thaler e Sunstein chamam isso de arquitetura da escolha — exerce um efeito enorme no resultado. O empurrão está baseado em psicologia sólida, que descrevi anteriormente. A opção default naturalmente é percebida como a escolha normal. Desviar da escolha normal é um gesto de comissão, o que exige mais deliberação laboriosa, implica maior responsabilidade e tem maior probabilidade de evocar arrependimento do que se você não fizesse nada. Essas são forças poderosas que podem orientar a decisão de alguém que de outro modo está inseguro sobre o que fazer.
Humanos, mais do que Econs, também necessitam ser protegidos de outros que deliberadamente exploram suas fraquezas — e sobretudo as idiossincrasias do Sistema 1 e a preguiça do Sistema 2. Os agentes racionais supostamente tomam decisões importantes com cuidado, e usam toda a informação que lhes é fornecida. Um Econ vai ler e compreender as letras miúdas de um contrato antes de assiná-lo, mas os Humanos em geral não fazem isso.
Uma empresa inescrupulosa que redige contratos que os clientes costumam assinar sem ler possui considerável margem de manobra legal para ocultar informação importante à vista de todos. Uma implicação perniciosa do modelo de agente racional em sua forma extrema é que os clientes supostamente não precisam de proteção alguma além da garantia de que a informação relevante seja exposta. O tamanho da fonte e a complexidade da linguagem em que é mostrada não são considerados relevantes — um Econ sabe como lidar com letras miúdas quando vem ao caso. Por outro lado, entre as recomendações de Nudge está a exigência de que as empresas ofereçam contratos suficientemente simples de serem lidos e compreendidos por seus clientes Humanos. É um bom sinal que algumas dessas recomendações tenham conhecido significativa oposição de empresas cujos lucros possivelmente virão a sofrer se seus clientes estiverem mais bem informados. Um mundo em que empresas competem oferecendo produtos melhores é preferível a um em que a vencedora é a empresa mais bem-sucedida em ofuscar.
Uma característica notável do paternalismo libertário é seu apelo por todo um amplo espectro político. O carro-chefe de uma política pública comportamental, chamado Save More Tomorrow (Poupe mais para Amanhã), foi apresentado no Congresso por uma coalizão incomum que incluía tanto conservadores extremos como liberais. O Save More Tomorrow é
um plano financeiro que as empresas podem oferecer a seus empregados. As pessoas que o assinam autorizam o patrão a aumentar sua contribuição para um plano de poupança mediante uma proporção fixa sempre que recebem um aumento. A taxa crescente de poupança é implementada automaticamente até o empregado dizer que não quer mais participar. Essa inovação brilhante, proposta por Richard Thaler e Shlomo Benartzi em 2003, hoje melhorou a taxa de poupanças e as perspectivas futuras de milhões de trabalhadores. Ela está baseada solidamente nos princípios psicológicos que os leitores deste livro hão de reconhecer. Ela evita a resistência a uma perda imediata ao não exigir qualquer mudança imediata; ao vincular o crescimento da poupança aos aumentos de salário, transforma perdas em ganhos perdidos, com os quais é muito mais fácil de arcar; e a característica de automatismo alinha a preguiça do Sistema 2 com os interesses de longo prazo dos trabalhadores. Tudo isso, é claro, sem obrigar ninguém a fazer alguma coisa que não queira e sem qualquer orientação mal-intencionada ou artimanha.
O apelo do paternalismo libertário foi reconhecido em muitos países, incluindo o Reino Unido e a Coreia do Sul, e por políticos das mais diversas frentes, desde tóris até o governo democrata do presidente Obama. Com efeito, o governo britânico criou uma nova pequena unidade cuja missão é aplicar os princípios da ciência comportamental para ajudar o governo a cumprir melhor seus objetivos. O nome oficial dessa equipe é Behavioural Insight Team, mas ela é conhecida tanto dentro como fora do governo como a Nudge Unit. Thaler é consultor da equipe.
Em uma sequência novelesca à publicação de Nudge, Sunstein foi convidado pelo presidente Obama para servir como administrador do Office of Information and Regulatory Affairs (Gabinete de Informação e Assuntos Reguladores), posição que lhe rendeu considerável oportunidade para encorajar a aplicação das lições da psicologia e da economia comportamental às agências do governo. A missão está descrita no relatório 2010 do Office of Management and Budget (Gabinete de Administração e Orçamento). Os leitores deste livro vão apreciar a lógica por trás das recomendações específicas, incluindo o encorajamento de
“divulgações claras, simples, evidentes e significativas”. Vão reconhecer também declarações de princípios como “a apresentação importa muito; se, por exemplo, um resultado potencial é enquadrado como uma perda, ele pode ter mais impacto do que se for apresentado como um ganho”.
O exemplo de uma regulamentação para o enquadramento de divulgações relativas ao consumo de combustível foi mencionado anteriormente. As aplicações adicionais que foram implementadas incluem inscrição automática em um seguro de saúde, uma nova versão para orientações dietéticas, substituindo a incompreensível Pirâmide Alimentar pela eficaz imagem de um prato de comida esquemático (chamado Food Plate) contendo uma dieta balanceada e uma regra elaborada pelo Departamento de Agricultura norte-americano permitindo a inclusão de mensagens como “90% livre de gorduras” na embalagem de derivados de carne, contanto que a informação “10% de gordura” também seja exibida “contiguamente, em letras da mesma
cor, tamanho e tipologia, e com a mesma cor de fundo, da informação sobre a percentagem magra”. Os Humanos, como os Econs, precisam de ajuda para tomar boas decisões, e existem maneiras esclarecidas e não intrusivas de fornecer essa ajuda.
DOIS SISTEMAS
Este livro descreveu o funcionamento da mente como uma interação desajeitada entre dois personagens fictícios: o Sistema 1 automático e o Sistema 2 laborioso. Você está agora bastante familiarizado com as personalidades dos dois sistemas e é capaz de antecipar como eles devem reagir a diferentes situações. E é claro que você se lembra também de que os dois sistemas não existem de fato no cérebro nem em parte alguma. “O Sistema 1 faz X” é um atalho para “X ocorre automaticamente”. E “O Sistema 2 é mobilizado para fazer Y” é um atalho para “excitação aumenta, pupila dilata, atenção é focada e a atividade Y é realizada”.
Espero que você ache a linguagem dos sistemas tão útil quanto eu, e que tenha adquirido uma percepção intuitiva de como eles funcionam sem ficar confuso com a questão de que não existem. Tendo feito essa advertência necessária, continuarei a utilizar essa linguagem até o fim.
O atento Sistema 2 é quem pensamos que somos. O Sistema 2 articula julgamentos e faz escolhas, mas com frequência endossa ou racionaliza ideias e sentimentos que foram gerados pelo Sistema 1. Você pode não saber que está sendo otimista em relação a um projeto porque alguma coisa em seu líder o lembra sua estimada irmã, ou que não gosta de uma pessoa que se parece vagamente com seu dentista. Se lhe for pedida uma explicação, porém, você vai buscar na memória alguns motivos para apresentar, e certamente vai encontrar alguns. Além do mais, vai acreditar na história que elaborar. Mas o Sistema 2 não é meramente um defensor do Sistema 1; ele também impede muitas ideias estúpidas e impulsos inadequados de se expressarem abertamente. O investimento de atenção melhora o desempenho em inúmeras atividades — pense nos riscos de dirigir por um espaço estreito enquanto sua mente está vagando — e é essencial para algumas tarefas, incluindo comparação, escolha e raciocínio ordenado. Entretanto, o Sistema 2 não é um exemplo de racionalidade. Suas capacidades são limitadas, bem como o conhecimento ao qual ele tem acesso. Nem sempre pensamos direito quando raciocinamos, e os erros nem sempre são devidos a intuições intrusivas e incorretas.
Nós (nosso Sistema 2) muitas vezes cometemos erros porque não sabemos em que estamos nos metendo.
Passei mais tempo descrevendo o Sistema 1, e devotei muitas páginas a erros de julgamento e escolha intuitivos que atribuí a ele. Porém, o número relativo de páginas é um indicador pobre do equilíbrio entre as maravilhas e falhas do pensamento intuitivo. O Sistema 1 é de fato a origem de grande parte do que fazemos errado, mas é também a origem da maior parte do que fazemos certo — que é a maior parte do que fazemos. Nossos pensamentos e ações são rotineiramente guiados pelo Sistema 1 e em geral estão corretos. Uma das maravilhas é o rico e detalhado modelo de nosso mundo que é mantido na memória
associativa: ele distingue a surpresa dos eventos normais numa fração de segundo, gera imediatamente uma ideia do que era esperado em lugar de uma surpresa e automaticamente procura alguma interpretação causal de surpresas e eventos à medida que eles têm lugar.
A memória detém também o vasto repertório de habilidades que adquirimos numa vida inteira de prática, o qual automaticamente produz soluções adequadas para os desafios à medida que surgem, desde contornar uma grande pedra no caminho até evitar a iminente explosão furiosa de um cliente. A aquisição de habilidades exige um ambiente regular, uma oportunidade adequada para praticar e um feedback rápido e inequívoco sobre a precisão dos pensamentos e ações. Quando essas condições são preenchidas, a habilidade acaba se desenvolvendo, e os julgamentos e escolhas intuitivos que rapidamente vêm à mente estarão na maior parte corretos. Tudo isso é uma operação do Sistema 1, o que significa que ocorre automaticamente e com rapidez. Um sinal de desempenho proficiente é a capacidade de lidar com vastas quantidades de informação de maneira veloz e eficaz.
Quando é encontrado um desafio para o qual uma reação apta está disponível, essa reação é evocada. O que acontece na ausência da habilidade? Às vezes, como no problema 17 x 24 =
?, que pede por uma resposta específica, fica imediatamente óbvio que o Sistema 2 deve ser invocado. Mas é raro o Sistema 1 ficar confuso. O Sistema 1 não se deixa coibir por limites de capacidade e é pródigo em seus cálculos. Quando empenhado na busca de resposta para uma questão, ele simultaneamente gera as respostas para questões relacionadas, e talvez forneça uma resposta que vem mais facilmente à cabeça em substituição à que era exigida.
Nessa concepção de heurística, a resposta heurística não é necessariamente mais simples ou mais frugal do que a pergunta original — é apenas mais acessível, calculada com maior rapidez e facilidade. As respostas heurísticas não são aleatórias, e muitas vezes estão aproximadamente corretas. E às vezes, completamente erradas.
O Sistema 1 registra o conforto cognitivo com que processa informação, mas não gera um sinal de alerta quando se torna pouco confiável. Respostas intuitivas vêm à mente com rapidez e confiança, sejam originadas das habilidades, sejam da heurística. Não existe um modo simples de o Sistema 2 fazer a distinção entre uma reação apta e uma reação heurística. Seu único recurso é reduzir a velocidade e tentar construir uma resposta por conta própria, coisa que ele reluta em fazer porque é indolente. Muitas sugestões do Sistema 1 são casualmente endossadas com mínima verificação, como no problema do bastão e da bola. É assim que o Sistema 1 adquire sua má reputação como fonte de erros e vieses. Suas características operativas, que incluem WYSIATI, equiparação de intensidade e coerência associativa, entre outras, dão origem a vieses previsíveis e ilusões cognitivas como ancoragem, previsões não regressivas, superconfiança e inúmeras outras.
O que pode ser feito com relação aos vieses? Como podemos melhorar os julgamentos e decisões, tantos os nossos próprios como os das instituições a que servimos e que estão a nosso serviço? A resposta breve é que pouca coisa pode ser conseguida sem um considerável investimento de esforço. Como sei por experiência, o Sistema 1 não é prontamente educável.
A não ser por alguns efeitos que atribuo na maior parte à idade, meu pensamento intuitivo é tão propenso a superconfiança, previsões extremas e falácia do planejamento quanto era antes que eu estudasse essas questões. Melhorei apenas em minha capacidade de reconhecer situações em que os erros são prováveis: “Este número vai ser uma âncora…”, “A decisão poderia ser outra se o problema for reenquadrado…” E fiz muito mais progresso em reconhecer os erros dos outros que os meus próprios.
O modo de bloquear erros originados no Sistema 1 é simples, em princípio: procure reconhecer os sinais de que você está pisando em um campo minado cognitivo, reduza a velocidade e peça apoio do Sistema 2. Eis como você irá proceder quando se deparar da próxima vez com a ilusão de Müller-Lyer. Quando olhar para linhas com aletas que apontam em diferentes direções, vai reconhecer a situação como um caso em que não deve confiar em suas impressões sobre o comprimento. Infelizmente, esse procedimento sensato tem menor probabilidade de ser empregado quando ele é mais necessário. Qualquer um gostaria de ter um sinal de alarme que tocasse audivelmente sempre que estivéssemos prestes a cometer um erro grave, mas um sinal como esse não está disponível, e ilusões cognitivas são geralmente mais difíceis de reconhecer do que ilusões perceptivas. A voz da razão talvez seja muito mais fraca do que a voz em alto e bom som de uma intuição equivocada, e questionar suas intuições é desagradável quando você enfrenta o estresse de uma decisão importante. Mais dúvida é a última coisa que você quer quando está com problemas. A conclusão é que é muito mais fácil identificar um campo minado quando você observa os outros andando por ele do que quando é você que faz isso. Observadores estão menos ocupados cognitivamente e estão mais abertos a informações do que os atores. Foi por esse motivo que escrevi um livro mais orientado para as críticas e as conversas de escritório do que para os tomadores de decisão.
As organizações são melhores do que os indivíduos quando se trata de evitar erros, pois naturalmente pensam mais lentamente e têm o poder de impor procedimentos ordenados. As organizações podem
instituir e impor21 a aplicação de úteis listas de checagem, bem como de exercícios mais elaborados, como prognóstico com base na classe de referência e premortem.
Ao menos em parte, fornecendo um vocabulário distinto22, as organizações também podem encorajar uma cultura em que as pessoas fiquem de olho umas nas outras ao se aproximarem de campos minados. Seja lá o que mais ela produz, toda organização é uma fábrica de julgamentos e decisões. E toda fábrica deve ter maneiras de assegurar a qualidade de seus produtos no projeto inicial, na fabricação e nas inspeções finais. Os estágios correspondentes na produção de decisões são o enquadramento do problema que deve ser solucionado, o conjunto de informação relevante que leva a uma decisão e a reflexão e revisão. Uma organização que procure melhorar seu produto decisório deve rotineiramente buscar uma melhor eficiência em cada um desses estágios. O conceito operativo é rotina. Controle de qualidade constante é uma alternativa para as revisões por atacado dos processos que as organizações comumente empreendem na esteira dos desastres. Há muito por fazer para melhorar a tomada de decisões. Um exemplo dentre vários é a notável ausência de treinamento
sistemático para a habilidade essencial de conduzir reuniões eficientes.
Finalmente, uma linguagem mais rica é essencial para a prática da crítica construtiva.
Muito ao modo da medicina, a identificação de erros de julgamento é uma tarefa diagnóstica, que exige um vocabulário preciso. O nome de uma doença é um cabide em que tudo que se conhece sobre a doença fica pendurado, incluindo vulnerabilidades, fatores ambientais, sintomas, prognósticos e tratamento. Similarmente, nomes como “efeitos de ancoragem”,