Rápido e devagar: Duas formas de pensar
5 - Conforto Cognitivo
FALANDO DE PRIMING
“A visão de todas essas pessoas usando uniforme não estimula criatividade.”
“O mundo faz muito menos sentido do que você pensa. A coerência deriva principalmente do modo como sua mente funciona.”
“Eles foram estimulados para encontrar falhas, e é exatamente isso que encontraram.”
“O Sistema 1 dele construiu uma história, e o Sistema 2 dele acreditou. Acontece com todos nós.”
“Me obriguei a sorrir e de fato estou me sentindo melhor!”
9 No inglês, o verbo utilizado é o verbo prime, que aqui foi traduzido por evocar, estimular, dependendo da construção da frase.
(N. do T.)
10 Flórida é um popular destino de aposentados nos Estados Unidos. (N. do T.)
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CONFORTO COGNITIVO
Sempre que você está consciente, e talvez até quando não está, múltiplos cálculos ocorrem em seu cérebro, o que sustenta e atualiza respostas correntes a algumas questões-chave: Há alguma coisa nova ocorrendo? Há alguma ameaça? As coisas estão correndo bem? Devo redirecionar minha atenção? É preciso mais esforço para essa tarefa? Você pode pensar numa cabine de avião, com uma série de mostradores que indicam os valores atualizados para cada uma dessas variáveis essenciais. As avaliações são efetuadas automaticamente pelo Sistema 1, e uma de suas funções é determinar se esforço extra é exigido do Sistema 2.
Um dos mostradores mede o conforto cognitivo ( cognitive ease), e
sua variação se dá entre “Relaxado” e “Tenso” 1. Relaxado é um sinal de que as coisas estão indo bem — sem ameaças, sem grandes novidades, nenhuma necessidade de redirecionar a atenção ou de mobilizar esforços. Tenso indica a existência de algum problema, que vai exigir mobilização ampliada do Sistema 2. Inversamente, você experimenta tensão cognitiva ( cognitive strain).
A tensão cognitiva é afetada tanto pelo nível atual de esforço como pela presença de demandas não cumpridas. O surpreendente é que um único mostrador de conforto cognitivo está conectado com uma
ampla rede de inputs e outputs diversos2. A figura 5 na página 79
conta essa história.
A figura sugere que uma frase impressa numa tipologia legível, ou que foi repetida, ou que foi evocada, será processada fluentemente com facilidade cognitiva. Escutar alguém falando quando você está de bom humor, ou mesmo quando está com um lápis preso transversalmente em sua boca para fazê-lo “sorrir”, também induz conforto cognitivo. Por outro lado, você sente desconforto cognitivo quando lê instruções em uma fonte ruim ou em cores fracas, ou em linguagem complicada, ou quando está de mau humor ou mesmo quando franze o rosto.
Figura 5. Causas e consequências do conforto cognitivo
As várias causas do conforto ou tensão guardam efeitos intercambiáveis. Quando você se encontra em um estado de conforto cognitivo, provavelmente está de bom humor, gosta do que vê, acredita no que ouve, confia em suas intuições e sente que a presente situação é confortavelmente familiar. Também apresenta maior propensão a ser relativamente casual e superficial nas coisas que pensa. Quando você se sente tenso, tem maior probabilidade de se mostrar vigilante e desconfiado, investir mais esforço no que está fazendo, sentir-se menos confortável e cometer menos erros, mas também fica menos intuitivo e menos criativo do que
o normal.
ILUSÕES DE LEMBRANÇA
A palavra ilusão traz à mente ilusões visuais, porque estamos todos familiarizados com imagens que enganam. Mas a visão não é o único domínio das ilusões; a memória também é suscetível a elas, assim como o pensamento, de um modo mais geral.
David Stenbill, Monica Bigoutski, Shana Tirana. Acabei de inventar esses nomes. Se você encontrar qualquer um deles nos próximos minutos, provavelmente se lembrará de onde os viu. Você sabe, e saberá por algum tempo, que esses não são nomes de celebridades menores.
Mas suponha que daqui a uns poucos dias alguém lhe mostre uma comprida lista de nomes, incluindo algumas celebridades menores e nomes “novos” de pessoas de quem nunca ouviu falar; sua tarefa será checar cada nome de uma celebridade na lista. Há uma substancial probabilidade de que você venha a identificar David Stenbill como uma pessoa muito conhecida, embora você não saberá (é claro) se viu o nome dele num contexto de filmes, esportes ou política. O psicólogo Larry Jacoby, que foi o primeiro a demonstrar essa ilusão de memória em seu laboratório, intitulou seu
artigo de “Becoming Famous Overnight” 3 (Ficando famoso da noite para o dia). Como isso acontece? Comece por se perguntar como você sabe se alguém é famoso ou não é. Em alguns casos de pessoas verdadeiramente famosas (ou de celebridades numa área que você acompanha), você detém um arquivo mental rico em informações sobre uma pessoa — pense em Albert Einstein, Bono, Hillary Clinton. Mas você não terá nenhum arquivo de informação sobre David Stenbill se deparar com seu nome dentro de alguns dias. Tudo que terá vai ser uma sensação de familiaridade — você já viu esse nome em algum lugar.
Jacoby expressou o problema da maneira apropriada4: “A experiência de familiaridade tem uma qualidade simples mas poderosa de ‘preteridade’ [‘ pastness’] que parece indicar que ela é um reflexo direto de uma experiência anterior.” Essa qualidade de preteridade é uma ilusão.
A verdade é, como Jacoby e muitos seguidores demonstraram, que o nome David Stenbill vai lhe parecer familiar quando você o vir porque você o verá mais claramente. Palavras que você já viu antes tornam-se mais fáceis de ver outra vez — você pode identificá-las melhor do que outras palavras quando são mostradas muito brevemente ou mascaradas por um ruído, e você será mais rápido (em alguns centésimos de segundo) para as ler do que se lesse outras palavras. Em resumo, você experimenta maior conforto cognitivo ao perceber uma palavra que já viu antes, e é essa
sensação de conforto que lhe dá a impressão de familiaridade5.
A figura 5 sugere um modo de testar isso. Escolha uma palavra completamente nova, deixe-a fácil de ver e será mais provável ela ter a qualidade de preteridade. De fato, uma palavra nova tem maior probabilidade de ser reconhecida como familiar se for inconscientemente evocada, sendo mostrada durante alguns milissegundos pouco antes do teste, ou se for mostrada em contraste mais claro do que algumas outras palavras na lista. A ligação também opera em outra direção. Imagine que lhe é mostrada uma lista de palavras que está mais ou
menos desfocada. Algumas dessas palavras estão seriamente borradas, outras, um pouco menos, e sua tarefa é identificar as palavras que são mostradas mais claramente. Uma palavra que você viu recentemente vai parecer mais clara do que palavras não familiares. Como indica a figura 5, os vários modos de induzir conforto cognitivo ou tensão cognitiva são intercambiáveis; pode ser que você não saiba precisamente o que é isso que torna as coisas cognitivamente confortáveis ou tensas. É assim que ocorre a ilusão de familiaridade.
ILUSÃO DE VERACIDADE
“Nova York é uma grande cidade nos Estados Unidos.” “A Lua gira em torno da Terra.” “Uma galinha tem quatro patas.” Em todos esses casos, você relembrou rapidamente uma boa dose de informação associada, quase toda ela apontando numa direção ou em outra. Você soube logo depois de ler as três frases que as duas primeiras afirmações são verdadeiras e que a última é falsa. Observe, porém, que a afirmação “Uma galinha tem três patas” é mais obviamente falsa do que “Uma galinha tem quatro patas”. Seu maquinário associativo retarda o julgamento da última sentença recuperando o fato de que muitos animais possuem quatro patas, e talvez até de que os supermercados muitas vezes vendem pés de galinha em pacotes de quatro. O Sistema 2 esteve envolvido em peneirar essa informação, talvez levantando o problema de que a questão sobre Nova York era fácil demais, ou checando o significado de gira.
Pense na última vez em que você fez a prova teórica para a carteira de motorista. É
verdade que você precisa de uma carteira especial para dirigir um veículo que pesa mais do que 3 toneladas? Talvez você tenha estudado a sério e consiga lembrar o lado da página onde estava a resposta, bem como a lógica por trás dela. Certamente não foi assim que passei nas provas quando mudei de estado. Minha prática era ler o livrinho de leis rapidamente uma vez e esperar pelo melhor. Eu sabia parte das respostas graças à experiência de motorista de longa data. Mas havia perguntas em que nenhuma resposta boa me vinha à mente, onde a única coisa a me pautar era o conforto cognitivo. Se a resposta me parecesse familiar, eu presumia que provavelmente era verdadeira. Se parecia nova (ou improvavelmente exagerada), eu a rejeitava. A impressão de familiaridade é produzida pelo Sistema 1, e o Sistema 2 se apoia nessa impressão para um julgamento de verdadeiro/falso.
A lição da figura 5 é de que ilusões previsíveis inevitavelmente ocorrem se um julgamento está baseado numa impressão de conforto ou tensão cognitiva. Qualquer coisa que torne mais fácil para a máquina associativa funcionar com suavidade também vai predispor crenças. Um jeito confiável de fazer as pessoas acreditarem em falsidades é a repetição frequente, pois a familiaridade não é facilmente distinguível da verdade. Instituições autoritárias e marqueteiros sempre souberam desse fato. Mas foram os psicólogos que descobriram que você não precisa repetir a afirmação inteira de um fato ou ideia para lhe dar uma aparência de verdade. Pessoas que foram repetidamente expostas à frase “a
temperatura corporal de uma galinha” 6 mostraram-se mais predispostas a aceitar como verdadeira a afirmação de que “a
temperatura corporal de uma galinha é 62°” (ou qualquer outro número arbitrário). A familiaridade com uma única frase na afirmação foi suficiente para fazer a afirmação toda parecer familiar, e desse modo verdadeira. Se você não consegue se lembrar da origem de uma afirmação, e não tem nenhuma maneira de relacioná-la com outras coisas que sabe, não lhe resta outra opção a não ser se deixar levar pela sensação de conforto cognitivo.
COMO REDIGIR UMA MENSAGEM PERSUASIVA
Suponha que você deva escrever uma mensagem em que deseja que os receptores acreditem.
Claro, sua mensagem será verdadeira, mas isso não é necessariamente suficiente para que as pessoas acreditem que ela é verdadeira. É perfeitamente legítimo que você recrute o conforto cognitivo para operar em seu favor, e estudos de ilusões de veracidade ( truth illusions) fornecem sugestões específicas que podem ajudá-lo a atingir esse objetivo.
O princípio geral é de que qualquer coisa que você possa fazer para reduzir a tensão cognitiva vai ajudar, de modo que a primeira coisa é maximizar a legibilidade. Compare essas duas afirmações:
Adolf Hitle r nasce u e m 1892.
Adolf Hitler nasceu em 1887.
Ambas são falsas (Hitler nasceu em 1889), mas experimentos têm mostrado que é maior a probabilidade de acreditarmos na primeira. Mais um conselho: se sua mensagem vai ser impressa, use papel de alta qualidade para maximizar o contraste entre as letras e o fundo. Se você vai usar cor, há maior probabilidade de que acreditem em você se seu texto for impresso em azul ou vermelho brilhantes do que em tons medianos de verde, amarelo ou azul-claro.
Se deseja ser aceito como digno de crédito e inteligente, não use linguagem complicada onde uma linguagem simples daria conta do recado. Meu colega de Princeton, Danny Oppenheimer, refutou um mito predominante entre alunos acerca do vocabulário que os professores julgam mais impressionante. Em um artigo intitulado “Consequências do vernáculo erudito utilizado a despeito da necessidade: problemas com o uso desnecessário de palavras longas”, ele mostrou que expressar ideias familiares com linguagem pretensiosa é tomado como sinal de baixa inteligência e pouca
credibilidade7.
Além de tornar sua mensagem simples, tente torná-la memorável. Ponha suas ideias em verso, se for capaz; haverá maior probabilidade de que sejam aceitas como verdadeiras.
Participantes em um experimento muito citado leram dezenas de aforismos pouco familiares, como:
Woes unite foes.
Little strokes will tumble great oaks.
A fault confessed is half redressed.
Outros alunos leram alguns desses mesmos provérbios, transformados em versões sem rimas: Woes unite enemies.
Little strokes will tumble great trees.
A fault admitted is half redressed. 11
Os aforismos foram julgados como mais perspicazes quando
rimavam8 do que no outro caso.
Finalmente, se você cita uma fonte, escolha uma com um nome que seja fácil de pronunciar.
Os participantes de um experimento deveriam avaliar as
perspectivas de empresas turcas fictícias9 com base em relatórios de duas firmas de corretagem. Para cada fundo de ações, um dos relatórios vinha de um nome de fácil pronúncia (por exemplo, Artan) e o outro relatório vinha de uma firma com um nome infeliz (por exemplo, Taahhut). Os relatórios às vezes discordavam. O melhor procedimento para os observadores teria sido uma média entre os dois relatórios, mas não foi isso que fizeram. Deram muito mais peso ao relatório de Artan do que ao relatório de Taahhut. Não esqueça que o Sistema 2 é preguiçoso e que o esforço mental é aversivo. Se possível, os receptores de sua mensagem querem ficar longe de qualquer coisa que os lembre do esforço, incluindo uma fonte com um nome complicado.
Todos esses conselhos são muito bons, mas não devemos nos deixar levar. Papel de alta qualidade, cores brilhantes, rimas e linguagem simples não serão de grande ajuda se sua mensagem obviamente não fizer sentido, ou se ela contradiz fatos que seu público sabe serem verdadeiros. Os psicólogos que fazem esses experimentos não acreditam que as pessoas são estúpidas ou infinitamente crédulas. O que os psicólogos realmente acreditam é que todos nós vivemos grande parte de nossas vidas guiados pelas impressões do Sistema 1 — e muitas vezes não sabemos a origem dessas impressões. Como você sabe que uma afirmação é verdadeira? Se ela está ligada fortemente por lógica ou associação a outras crenças ou preferências que você possui, ou vem de uma fonte em que você confia e de que gosta, você vai ter uma sensação de conforto cognitivo. O problema é que pode haver outras causas para sua sensação de conforto — incluindo a qualidade da tipologia e o ritmo atraente da prosa —
e não existe um jeito simples de você rastrear as sensações até a fonte. Essa é a mensagem da figura 5: a sensação de conforto ou tensão tem múltiplas causas e é difícil separá-las. Difícil, mas não impossível. As pessoas podem superar alguns dos fatores superficiais que produzem ilusões de veracidade quando fortemente motivadas a assim fazer. Na maioria das ocasiões, porém, o preguiçoso Sistema 2 adotará as sugestões do Sistema 1 e seguirá em frente.
TENSÃO E ESFORÇO
A simetria de muitas conexões associativas foi um tema dominante na discussão de coerência associativa. Como vimos antes, pessoas que são levadas a “sorrir” ou “fechar a cara”
segurando um lápis com a boca ou prendendo uma bola entre as sobrancelhas enrugadas ficam inclinadas a sentir as emoções que uma carranca ou um sorriso normalmente expressa. A
mesma reciprocidade autorreforçadora é encontrada em estudos de conforto cognitivo. Por um lado, a tensão cognitiva é vivenciada quando as operações trabalhosas do Sistema 2 estão envolvidas. Por outro, a experiência da tensão cognitiva, seja qual for sua origem, tende a mobilizar o Sistema 2, mudando a abordagem que as pessoas fazem dos problemas de um modo intuitivo casual para
um modo mais empenhado e analítico10.
O problema do bastão e bola foi mencionado anteriormente como um teste para a tendência das pessoas a responder a perguntas com a primeira ideia que lhes vem à cabeça, sem verificação. O Teste de Reflexo Cognitivo de Shane Frederick consiste no problema do bastão e bola e dois outros, todos escolhidos porque evocam uma resposta intuitiva imediata que é incorreta. Os outros dois itens no teste são:
Se são necessárias 5 máquinas por 5 minutos para fazer 5 aparelhos, quanto tempo 100 máquinas precisariam para fazer 100 aparelhos?
100 minutos OU 5 minutos
Num lago, há uma área coberta por ninfeias. Todos os dias, a área dobra de tamanho. Se leva 48 dias para a área cobrir o lago todo, quanto tempo levaria para a área cobrir metade do lago?
24 dias OU 47 dias
As respostas corretas para ambos os problemas estão em uma nota
de rodapé no fim da página. 12 Os condutores da experiência recrutaram quarenta alunos de Princeton para realizar o teste. Metade deles viu os problemas numa tipologia pequena impressa em cinza desbotado.
Os problemas eram legíveis, mas a tipologia induzia à tensão cognitiva. Os resultados contam uma história clara: 90% dos alunos que viram o teste em tipologia normal cometeram pelo menos um erro no teste, mas a proporção caiu para 35% quando a tipologia mal era legível.
Você leu isso corretamente: o desempenho foi melhor com a tipologia ruim. A tensão cognitiva, seja qual for sua origem, mobiliza o Sistema 2, que tem maior probabilidade de rejeitar a resposta intuitiva sugerida pelo Sistema 1.
O PRAZER DO CONFORTO COGNITIVO
Um artigo intitulado “Mind at Ease Puts a Smile on the Face” (A mente à vontade põe um sorriso no rosto) descreve um experimento em que os participantes foram brevemente apresentados a fotos de
objetos11. Algumas dessas imagens eram tornadas mais fáceis de reconhecer apresentando-se a silhueta do objeto pouco antes de ser mostrada a imagem completa, tão brevemente que os contornos nunca eram notados. Reações emocionais eram medidas registrando-se os impulsos elétricos dos músculos faciais, mudanças de expressão que são ligeiras e breves demais para serem detectadas por observadores. Como esperado, as pessoas exibiam um tênue sorriso e frontes relaxadas quando as imagens eram mais fáceis de ver. Parece ser uma característica do Sistema 1 que o conforto cognitivo esteja associado com boas sensações.
Como esperado, palavras de pronúncia fácil evocam uma atitude favorável. Empresas com nomes pronunciáveis saem-se melhor do que as demais na primeira semana após uma ação ser
emitida, embora o efeito desapareça com o tempo. Ações com um nome comercial pronunciável (como KAR ou LUNMOO) têm desempenho superior a acrônimos trava-línguas, como PXG ou
RDO — e parecem conservar uma pequena vantagem12 ao longo do tempo. Um estudo conduzido na Suíça revelou que os investidores acreditam que ações com nomes fluentes como Emmi,
Swissfirst e Comet obterão retorno superior a títulos desajeitados13 como Geberit e Ypsomed.
Como vimos na figura 5, a repetição induz ao conforto cognitivo e a uma sensação tranquilizadora de familiaridade. O famoso psicólogo Robert Zajonc dedicou grande parte de sua carreira ao estudo da ligação entre a repetição de um estímulo arbitrário e a leve afeição que as pessoas acabam sentindo por ele. Zajonc chamou isso de
efeito de mera exposição14 ( mere exposure effect). Uma demonstração conduzida nos jornais estudantis da Universidade de Michigan e na Universidade Estadual de Michigan é um de meus
experimentos favoritos15. Pelo período de algumas semanas, um boxe ao estilo de um anúncio apareceu na primeira página do jornal, contendo uma das seguintes palavras turcas (ou que soavam como turcas): kadirga, saricik, biwonjni, nansoma e iktitaf. A frequência com que essas palavras eram repetidas variava: uma das palavras era mostrada apenas uma vez, as outras apareciam em duas, cinco, dez ou 25 ocasiões separadas. (As palavras apresentadas com mais frequência em um dos jornais universitários eram as menos frequentes no outro.) Nenhuma explicação era oferecida, e as perguntas dos leitores eram respondidas com a afirmação de que “a pessoa que pagara pelo anúncio queria anonimato”.
Quando a misteriosa série de anúncios terminou, os pesquisadores enviaram questionários para as comunidades universitárias pedindo impressões a respeito de quais palavras
“significam algo ‘bom’ ou algo ‘mau’”. Os resultados foram espetaculares: as palavras que foram apresentadas com maior frequência receberam classificações muito mais favoráveis do que as palavras que foram apresentadas apenas uma ou duas vezes. A descoberta foi confirmada em muitos experimentos, usando caracteres chineses, rostos e polígonos de formatos aleatórios.
O efeito de mera exposição não depende da experiência consciente de familiaridade. Na verdade, o efeito não depende nem um pouco da consciência: ele ocorre mesmo quando as palavras ou imagens repetidas são exibidas tão rapidamente que os observadores nem sequer têm consciência de as terem visto. Eles ainda acabam gostando das palavras ou imagens que foram apresentadas com mais frequência. Como deve estar claro a essa altura, o Sistema 1
pode responder a impressões de eventos do qual o Sistema 2 não tem conhecimento. De fato, o efeito de mera exposição é na verdade mais forte para estímulos que o indivíduo nunca vê
conscientemente16.
Zajonc argumentou que o efeito da repetição no gosto é um fato biológico de profunda importância e que isso se estende a todos os animais. Para sobreviver em um mundo frequentemente perigoso, um organismo deve reagir cautelosamente a um estímulo novo, com retraimento e medo. As perspectivas de sobrevivência são ruins para um animal que não
desconfia de coisas novas. Entretanto, um enfraquecimento da cautela inicial também constitui adaptação se o estímulo na verdade for seguro. O efeito de mera exposição ocorre, alegou Zajonc, porque a exposição repetida de um estímulo não é acompanhada de nada ruim. Um estímulo assim acabará por se tornar um sinal de segurança, e segurança é algo bom.
Obviamente, esse argumento não se restringe a humanos. Para prová-lo, um dos colegas de Zajonc expôs duas séries de ovos de galinha fecundados a diferentes sons. Depois de chocados, os pintinhos emitiam regularmente menos chamados aflitos quando expostos ao som que haviam escutado quando estavam dentro da
casca17.
Zajonc forneceu um resumo eloquente de seu programa de pesquisa:
As consequências de exposições repetidas beneficiam o organismo em suas relações com o ambiente imediato, animado e inanimado. Elas permitem que o organismo diferencie objetos e habitats que são seguros dos que não o são, e constituem a base mais primitiva das ligações sociais. Logo, elas formam a base da organização e coesão social — as
18
fontes básicas de estabilidade psicológica e social.
A ligação entre emoção positiva e conforto cognitivo no Sistema 1 possui um longo histórico evolutivo.
CONFORTO, HUMOR E INTUIÇÃO
Por volta de 1960, um jovem psicólogo chamado Sarnoff Mednick imaginou ter identificado a essência da criatividade. Sua ideia era tão simples quanto poderosa: criatividade é uma memória associativa que funciona excepcionalmente bem. Ele inventou um teste, chamado Teste de Associação Remota (Remote Association Test, RAT, na sigla em inglês), que continua a ser utilizado com frequência em estudos sobre criatividade.
Para um exemplo fácil, considere as três palavras a seguir:
cottage Swiss cake
Você consegue pensar numa palavra que esteja associada com
todas as três? Provavelmente percebeu que a resposta é queijo. 13 Agora tente estas: dive light rocket
Esse problema é bem mais difícil, mas tem uma única resposta correta, que qualquer falante de inglês reconhece, embora menos de 20% de uma amostra de alunos a descobrisse em 15
segundos. A resposta é céu.14 Claro, nem toda trinca de palavras apresenta uma solução. Por exemplo, as palavras sonho, bola, livro não guardam uma associação compartilhada que todo mundo reconhecerá como válida.
Diversas equipes de psicólogos alemães que estudaram o RAT em anos recentes chegaram a notáveis descobertas sobre o conforto cognitivo. Uma das equipes levantou duas questões: será que as
pessoas sentem que uma trinca de palavras19 possui uma solução antes de saberem
qual é essa solução? De que modo o humor influencia o desempenho nessa tarefa? Para descobrir, eles primeiro tornaram parte de seus voluntários felizes e outros tristes, pedindo-lhes que pensassem durante vários minutos em episódios felizes ou tristes de suas vidas.
Depois apresentaram a essas pessoas uma série de trincas, metade delas ligada (como no caso de dive, light, rocket) e metade sem ligação (como sonho, bola, livro), instruindo-as a apertar uma de duas chaves bem rapidamente para indicar suas conjecturas sobre onde a trinca se ligava. O tempo concedido para a conjectura, dois segundos, era claramente curto demais para que a verdadeira solução viesse à mente de quem quer que fosse.
A primeira surpresa foi ver que os palpites das pessoas são bem mais precisos do que seriam por acaso. Achei isso assombroso. Uma sensação de conforto cognitivo aparentemente é gerada por um sinal muito fraco vindo da máquina associativa, que “sabe” que as três palavras são coerentes (compartilham uma associação)
muito antes de a associação ser puxada da memória20. O papel do conforto cognitivo no julgamento foi confirmado experimentalmente por outra equipe alemã: manipulações que aumentam o conforto
cognitivo21 ( priming, tipologia nítida, palavras pré-expostas) aumentam todas a tendência a ver as palavras como ligadas.
Outra descoberta notável é o poderoso efeito do humor nessa performance intuitiva. Os pesquisadores calcularam um “índice de intuição” para medir o grau de exatidão.
Descobriram que deixar os participantes de bom humor antes do teste, fazendo-os ter pensamentos felizes, mais do que dobrava o
grau de exatidão22. Um resultado ainda mais surpreendente é que as pessoas infelizes eram completamente incapazes de realizar a tarefa intuitiva de forma precisa; suas conjecturas não eram melhores do que resultados aleatórios. O
humor evidentemente afeta a operação do Sistema 1: quando estamos desconfortáveis e infelizes, perdemos o contato com nossa intuição.
Essas descobertas vêm se somar à evidência cada vez maior de que bom humor, intuição, criatividade, credulidade e confiança
ampliada no Sistema 1 formam um agrupamento23. No outro polo, tristeza, vigilância, desconfiança, abordagem analítica e esforço ampliado também andam juntos. Um estado de bom humor afrouxa o controle do Sistema 2 sobre o desempenho: quando de bom humor, as pessoas se tornam mais intuitivas e mais criativas, mas também menos vigilantes e mais propensas a cometer erros lógicos. Aqui, mais uma vez, como no efeito de mera exposição, a conexão faz sentido biológico. Bom humor é um sinal de que as coisas estão indo bem de modo geral, o ambiente está seguro e não há problema em manter a guarda baixa. Mau humor indica que as coisas não estão indo muito bem, pode haver alguma ameaça e vigilância se faz necessária. O conforto cognitivo é tanto uma causa como uma consequência de uma sensação agradável.
O Teste de Associação Remota tem mais a nos dizer sobre a ligação entre conforto cognitivo e afeto positivo. Considere brevemente duas trincas de palavras:
sono correio interruptor
sal fundo espuma
Você não teria como saber, é claro, mas medições de atividade elétrica nos músculos de seu rosto provavelmente revelaram um ligeiro sorriso quando você leu a segunda trinca, que é coerente (a
solução é mar). Essa reação de sorrir24 diante da coerência aparece em indivíduos que não recebem informação alguma sobre associações comuns; eles são meramente apresentados a uma trinca de palavras arranjada verticalmente e instruídos a pressionar a barra de espaço depois de a terem lido. A impressão de conforto cognitivo que vem com a apresentação de uma trinca coerente parece ser moderadamente prazerosa em si mesma.
A evidência que temos sobre boas sensações, conforto cognitivo e a intuição de coerência é, como dizem os cientistas, correlacional, mas não necessariamente causal. Conforto cognitivo e sorrisos ocorrem juntos, mas será que de fato as sensações boas levam a intuições de coerência? Sim, levam. A prova vem de uma inteligente abordagem experimental que tem se tornado cada vez mais popular. Alguns participantes ouviram um pretexto fornecendo uma explicação alternativa para a boa sensação: os pesquisadores lhes diziam que havia música sendo tocada em seus fones de ouvido e que “uma investigação anterior mostrara que aquela música
influencia as reações emocionais dos indivíduos” 25. Essa explicação elimina completamente a intuição de coerência. A descoberta mostra que a breve reação emocional que se segue à apresentação de uma trinca de palavras (agradável se a trinca é coerente, desagradável de outro modo) é na verdade a base dos julgamentos de coerência. Não há nada aqui que o Sistema 1 não possa fazer. Mudanças emocionais são agora esperadas, e como não causam surpresa não estão ligadas causalmente às palavras.
Isso é o melhor que a pesquisa psicológica pode conseguir, em sua combinação de técnicas experimentais e em seus resultados, que são ao mesmo tempo robustos e extremamente surpreendentes. Aprendemos muito sobre o funcionamento automático do Sistema 1 nas últimas décadas. Grande parte do que sabemos teria parecido ficção científica trinta ou quarenta anos atrás. Era algo além da imaginação que uma tipologia ruim pudesse influenciar julgamentos de veracidade e melhorar o desempenho cognitivo, ou que uma reação emocional ao conforto cognitivo de uma trinca de palavras servisse de mediação para impressões de coerência. A psicologia avançou muito.
FALANDO DE CONFORTO COGNITIVO
“Não vamos descartar o plano de negócios deles só porque a tipologia que escolheram não é muito legível.”
“É normal que a gente fique inclinado a acreditar nisso porque foi repetido com tanta frequência, mas vamos pensar a respeito outra vez.”
“Familiaridade engendra apreço. Esse é um efeito de mera exposição.”
“Estou num ótimo humor hoje e meu Sistema 2 está mais enfraquecido do que o normal. Devo tomar um cuidado extra.”