Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 4 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

3 - o Controlador Preguiçoso

FALANDO DE ATENÇÃO E ESFORÇO

“Não vou tentar resolver isso enquanto dirijo. Essa é uma tarefa dilatadora de pupila. Exige esforço mental!”

“A lei do menor esforço está em operação aqui. Ele vai pensar o menos possível.”

“Ela não se esqueceu da reunião. Estava completamente concentrada em outra coisa quando a reunião foi marcada e simplesmente não escutou o que você disse.”

“O que me veio rapidamente à mente foi uma intuição do Sistema 1. Terei de começar outra vez e deliberadamente dar uma busca em minha memória.”

7 Baseline: conjunto inicial de dados ou observações utilizados como referência em um estudo. (N. do T.)

8 A expressão utilizada em psicologia cognitiva e experimental é task switching, ou “comutação de tarefa”. (N. do T.)

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O CONTROLADOR PREGUIÇOSO

Passo alguns meses por ano em Berkeley, e um dos meus maiores prazeres por lá é uma caminhada diária de 6 quilômetros por uma trilha nas colinas, com uma linda vista da baía de San Francisco. Normalmente conto o tempo que faço e aprendi um bocado sobre esforço fazendo isso. Descobri uma velocidade, de cerca de dez minutos por quilômetro, na qual sinto-me como se passeasse. Sem dúvida exerço mais esforço físico e queimo mais calorias nessa velocidade do que se ficasse sentado numa espreguiçadeira, mas não sinto nenhuma tensão, nenhum conflito, nenhuma necessidade de forçar meu limite. Também consigo pensar e trabalhar quando estou caminhando nessa velocidade. Na verdade, desconfio que a excitação física branda da caminhada possivelmente se traduza em maior agilidade mental.

O Sistema 2 também possui uma velocidade natural. Você gasta alguma energia mental em pensamentos aleatórios e em monitorar o que acontece em torno de si mesmo quando sua mente não faz nada em particular, mas há pouca tensão. A menos que você esteja numa situação que o deixe extraordinariamente cauteloso ou constrangido, monitorar o que acontece no ambiente ou dentro de sua cabeça exige pouco esforço. Você toma várias pequenas decisões conforme dirige seu carro, absorve alguma informação conforme lê o jornal e conversa amenidades rotineiras com um cônjuge ou um colega, tudo com pouco esforço e nenhuma tensão. Exatamente como um passeio.

Normalmente é fácil e de fato bastante agradável andar e pensar ao mesmo tempo, mas em casos extremos essas atividades parecem competir pelos recursos limitados do Sistema 2.

Você pode confirmar essa afirmação com um experimento simples. Caminhando confortavelmente com um amigo, peça-lhe para calcular 23 x 78 de cabeça, e que o faça imediatamente. Ele quase com certeza vai parar de andar. Por minha experiência, sou capaz de pensar enquanto caminho, mas não consigo empreender um esforço mental que imponha uma carga pesada sobre a memória de curto prazo. Se devo construir um argumento intrincado sob a pressão do tempo, prefiro ficar parado, e prefiro estar sentado do que de pé. Claro, nem todo pensamento lento exige essa forma de concentração intensa e cálculo trabalhoso —

empreendi a melhor atividade pensante de minha vida em caminhadas ociosas com Amos.

Acelerar além de minha velocidade de caminhada muda completamente a experiência de andar, pois a transição para uma caminhada mais acelerada acarreta uma acentuada degradação em minha capacidade de pensar coerentemente. Conforme acelero a marcha, minha atenção é atraída com frequência cada vez maior para a experiência de andar e para a manutenção deliberada de um ritmo mais acelerado. Minha capacidade de levar uma cadeia de pensamentos a uma conclusão fica igualmente prejudicada. Na máxima velocidade que consigo manter pelas colinas, cerca de oito a nove minutos por quilômetro, nem mesmo tento pensar em mais nada. Além do esforço físico de mover meu corpo rapidamente pela trilha, um esforço mental de autocontrole é necessário para resistir à tentação premente de diminuir a

velocidade. Autocontrole e pensamento deliberado aparentemente exigem o mesmo orçamento limitado de esforço.

Para a maioria de nós, na maior parte do tempo, a manutenção de uma cadeia coerente de pensamento e o ocasional envolvimento em um pensamento trabalhoso também exigem autocontrole. Embora eu não tenha conduzido um estudo sistemático, desconfio que a comutação frequente de tarefas e a aceleração do trabalho mental não sejam intrinsecamente prazerosos, e que as pessoas os evitam na medida do possível. É assim que a lei do menor esforço se torna uma lei. Mesmo na ausência de pressão do tempo, manter uma cadeia de pensamentos coerente exige disciplina. Alguém que observe o número de vezes que verifico meus e-mails ou olho dentro da geladeira durante uma hora em que estou escrevendo poderia inferir razoavelmente uma vontade de escapar e concluir que me manter na tarefa exige mais autocontrole do que sou capaz de reunir.

Felizmente, o trabalho cognitivo nem sempre é aversivo, e as pessoas às vezes empregam esforço considerável por longos períodos de tempo sem ter de empregar a força de vontade. O

psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (pronuncia-se “six-cent-mihaly”) fez mais do que qualquer outra pessoa para estudar esse estado de atenção sem esforço, e o nome que propôs para isso, fluxo ( flow), tornou-se parte da linguagem. As pessoas que experimentam o fluxo descrevem-no como “um estado de concentração sem esforço tão profundo que elas perdem a noção do tempo, de si mesmas, de seus problemas”, e suas descrições da alegria desse estado são tão

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persuasivas que Csikszentmihalyi o chamou de uma “experiência ótima” (“optimal experience”). Muitas atividades podem induzir uma sensação de fluxo, desde pintar até participar de uma corrida de motocicletas — e para alguns escritores sortudos que conheço, até escrever um livro é muitas vezes uma experiência ótima. O fluxo separa distintamente as duas formas de esforço: concentração na tarefa e controle deliberado da atenção. Correr de moto a 250 km/h e disputar uma partida competitiva de xadrez são sem dúvida ações muito trabalhosas. Em um estado de fluxo, porém, manter a atenção concentrada nessas atividades absorventes não exige nenhum empenho do autocontrole, desse modo liberando os recursos para serem dirigidos à tarefa que se apresenta.

O OCUPADO E ESGOTADO SISTEMA 2

Atualmente é uma proposição bem estabelecida que tanto o autocontrole como o esforço cognitivo são formas de trabalho mental. Diversos estudos psicológicos têm mostrado que pessoas que são desafiadas simultaneamente por uma tarefa cognitiva exigente e por uma tentação muito provavelmente vão ceder à tentação. Imagine que lhe peçam para reter na mente uma lista de sete dígitos durante um minuto ou dois. A pessoa lhe diz que se lembrar dos dígitos é sua prioridade máxima. Enquanto sua atenção está focada nos dígitos, lhe é oferecida a escolha entre duas sobremesas: um pecaminoso bolo de chocolate e uma virtuosa salada de frutas. A evidência sugere que muito provavelmente você escolheria o tentador bolo de chocolate quando sua cabeça está carregada de dígitos. O Sistema 1 exerce maior influência

no comportamento quando o Sistema 2 está ocupado, e ele tem um

fraco por doces2.

Pessoas que estão cognitivamente ocupadas3 também têm maior probabilidade de fazer escolhas egoístas, usar linguajar sexista e fazer julgamentos superficiais em situações sociais.

Memorizar e repetir dígitos relaxa o controle do Sistema 2 sobre o comportamento, mas é claro que a carga cognitiva não é a única causa de autocontrole enfraquecido. Algumas doses de álcool exercem o mesmo efeito, assim como uma noite insone. O autocontrole de pessoas que acordam cedo fica prejudicado à noite; o inverso é verdadeiro para pessoas notívagas.

Preocupação demasiada sobre estar executando bem uma tarefa às vezes atrapalha o desempenho ao carregar a memória de curto

prazo com pensamentos ansiosos desnecessários4. A conclusão é inequívoca: autocontrole exige atenção e esforço. Outro modo de dizer isso é que controlar pensamentos e comportamentos é uma das tarefas que o Sistema 2

realiza.

Uma série de experimentos surpreendentes feitos pelo psicólogo Roy Baumeister e seus colegas mostrou conclusivamente que todas as variedades de esforço voluntário — cognitivo, emocional ou físico — dependem ao menos em parte de uma reserva compartilhada de energia mental. Seus experimentos envolvem antes tarefas sucessivas que simultâneas.

O grupo de Baumeister verificou repetidamente que um esforço de vontade ou autocontrole é cansativo: se você se vê obrigado a se forçar a fazer algo, fica menos disposto ou menos capaz de exercer

autocontrole5 quando o próximo desafio se apresenta. O fenômeno tem sido chamado de esgotamento do ego ( ego depletion). Numa demonstração típica, participantes instruídos a suprimir sua reação emocional num filme de grande carga emocional mais tarde exibirão um desempenho ruim num teste de resistência física — quanto tempo conseguem manter um aperto firme em um dinamômetro, a despeito do desconforto crescente. O esforço emocional na primeira fase do experimento reduz a capacidade de suportar a dor da contração muscular prolongada, e pessoas de ego esgotado desse modo sucumbem mais rapidamente à necessidade de desistir. Em outro experimento, as pessoas são primeiramente esgotadas com uma tarefa em que ingerem comidas saudáveis como rabanetes e aipo enquanto resistem à tentação de se entregar a chocolates e biscoitos calóricos. Mais tarde essas pessoas vão desistir mais cedo do que o normal quando confrontadas com uma tarefa cognitiva difícil.

A lista de situações e tarefas hoje sabidamente causadoras de esgotamento do autocontrole é longa e variada. Todas envolvem conflito e a necessidade de suprimir uma tendência natural.

Elas incluem:

evitar pensar em ursos-polares

inibir a reação emocional a um filme comovente

fazer uma série de escolhas que envolvem conflito

tentar impressionar os outros

reagir educadamente ao comportamento desagradável de um parceiro

interagir com uma pessoa de raça diferente (para indivíduos racistas)

A lista de indicativos de esgotamento também é altamente diversa:

sair da dieta

gastar demais em compras impulsivas

reagir agressivamente à provocação

persistir menos tempo numa tarefa de preensão manual

desempenhar mal tarefas cognitivas e tomadas de decisão lógicas

A evidência é persuasiva: atividades que impõem altas exigências ao Sistema 2 requerem autocontrole, e a aplicação de autocontrole é exaustiva e desagradável. Ao contrário da carga cognitiva, o esgotamento do ego é ao menos em parte uma perda de motivação. Após exercer o autocontrole numa tarefa, você não se sente disposto a empreender esforço em outra, embora pudesse, se realmente tivesse de fazê-lo. Em diversos experimentos, as pessoas

eram capazes de resistir aos efeitos do esgotamento do ego6 quando recebiam um forte incentivo para fazer tal coisa. Por outro lado, aumentar o esforço não é uma opção quando você deve guardar seis dígitos na memória de curto prazo ao mesmo tempo que realiza uma tarefa. Esgotamento do ego não é o mesmo estado mental que ocupação cognitiva.

A descoberta mais surpreendente feita pelo grupo de Baumeister revela, como ele afirma, que a ideia de energia mental é mais do

que uma simples metáfora7. O sistema nervoso consome mais glicose do que outras partes do corpo, e a atividade mental trabalhosa parece ser particularmente dispendiosa na moeda da glicose. Quando você está ativamente envolvido em um raciocínio cognitivo difícil ou ocupado numa tarefa que exige autocontrole, seu nível de glicose no sangue cai. O efeito é análogo a um corredor que suga a glicose armazenada em seus músculos num tiro. A implicação óbvia dessa ideia é que os efeitos do esgotamento do

ego8 podem ser anulados com a ingestão de glicose, e Baumeister e seus colegas confirmaram essa hipótese em diversos experimentos.

Voluntários em um de seus estudos assistiram a um curto filme mudo de uma mulher sendo entrevistada e foi-lhes solicitado que interpretassem sua linguagem corporal. Enquanto realizavam a tarefa, uma série de palavras passava pela tela em lenta sucessão. Os participantes foram especialmente instruídos a ignorar as palavras, e se achassem que sua atenção estava sendo desviada tinham de voltar a se concentrar no comportamento da mulher.

Esse ato de autocontrole sabidamente causava esgotamento do ego. Todos os voluntários beberam um pouco de limonada antes de participar de uma segunda tarefa. A limonada foi adoçada com glicose para a metade deles e com adoçante para os outros. Depois, todos os participantes receberam uma tarefa em que precisavam superar uma reação intuitiva para obter a resposta correta. Erros intuitivos são em geral muito mais frequentes entre pessoas com esgotamento do ego, e os que consumiram adoçante mostraram o efeito de esgotamento esperado. Por outro lado, os que beberam glicose não exibiram esgotamento. A restauração do nível de açúcar disponível no cérebro havia impedido a deterioração do desempenho. Levará algum tempo e muita pesquisa adicional para determinar se as tarefas que causam esgotamento da glicose também causam a excitação momentânea que se reflete em aumentos de tamanho da

pupila e batimento cardíaco.

Uma demonstração perturbadora dos efeitos de esgotamento no

julgamento9 foi relatada recentemente nos Proceedings of the National Academy of Sciences. Os participantes inadvertidos do estudo eram oito juízes de condicional em Israel. Eles passam dias inteiros revisando pedidos de condicional. Os casos são apresentados em ordem aleatória, e os juízes dedicam pouco tempo a cada um, numa média de seis minutos. (A decisão default é a rejeição da condicional; apenas 35% dos pedidos são aprovados. O tempo exato de cada decisão é registrado, e os períodos dos três intervalos para refeição dos juízes — a pausa da manhã, o almoço e o lanche da tarde — durante o dia também são registrados.) Os autores do estudo fizeram um gráfico da proporção de pedidos aprovados em relação ao tempo desde a última pausa para refeição. A proporção conhece picos após cada refeição, quando cerca de 65%

dos pedidos são concedidos. Durante as duas horas, mais ou menos, até a refeição seguinte dos juízes, a taxa de aprovação cai regularmente, até chegar perto de zero pouco antes da refeição. Como era de se esperar, esse é um resultado indesejável e os autores verificaram cuidadosamente muitas explicações alternativas. A melhor explicação possível dos dados é uma má notícia: juízes cansados e com fome tendem a incorrer na mais fácil posição default de negar os pedidos de condicional. Tanto o cansaço como a fome provavelmente desempenham um papel.

O PREGUIÇOSO SISTEMA 2

Uma das principais funções do Sistema 2 é monitorar e controlar pensamentos e ações

“sugeridos” pelo Sistema 1, permitindo que parte deles sejam expressos diretamente no comportamento e suprimindo ou modificando outros.

Para dar um exemplo, eis aqui um problema simples. Não tente resolvê-lo, apenas dê ouvidos à sua intuição.

Um bastão e uma bola custam 1,10 dólar.

O bastão custa um dólar a mais que a bola.

Quanto custa a bola?

Um número veio à sua cabeça. O número, claro, é dez: 10 centavos. A marca distintiva desse problema simples é que ele evoca uma resposta que é intuitiva, atraente e errada. Faça as contas e veja por si mesmo. Se a bola custa 10 centavos, então o custo total será de 1,20 dólar (10 centavos pela bola e 1,10 dólar pelo bastão), não 1,10 dólar. A resposta correta é 5

centavos. É seguro presumir que a resposta intuitiva também veio à mente dos que terminaram com o número correto — eles de algum modo deram um jeito de resistir à intuição.

Shane Frederick e eu trabalhamos juntos numa teoria do julgamento baseada em dois sistemas, e ele usou o problema do bastão e bola para estudar uma questão central: Até que ponto o Sistema 2 monitora de perto as sugestões do Sistema 1? Seu raciocínio foi de que sabemos um fato significativo sobre qualquer um que diz que a bola custa 10 centavos: essa pessoa não checou ativamente se a resposta estava correta, e seu Sistema 2 endossou uma resposta intuitiva que poderia ter sido rejeitada com um pequeno investimento de esforço.

Além do mais, também sabemos que as pessoas que deram a resposta intuitiva deixaram escapar uma dica social óbvia; eles deveriam ter se perguntado por que alguém incluiria em um questionário um problema com uma resposta tão óbvia. É notável que a pessoa deixe de checar quando o custo de fazê-lo é tão baixo: alguns segundos de trabalho mental (o problema é moderadamente difícil), com músculos ligeiramente tensionados e pupilas dilatadas, poderia evitar um erro embaraçoso. Pessoas que dizem 10 centavos parecem ser adeptos fervorosos da lei do menor esforço. Pessoas que evitam essa resposta parecem dotadas de mente mais ativa.

Milhares de alunos universitários responderam ao problema do bastão e bola, e os resultados são chocantes. Mais de 50% dos alunos em Harvard, MIT e Princeton deram a resposta intuitiva —

incorreta10. Em universidades menos seletivas, a taxa de ausência de checagem demonstrável foi superior a 80%. O problema do bastão e bola é nosso primeiro contato com uma observação que será um tema recorrente neste livro: muitas pessoas são superconfiantes, inclinadas a depositar excessiva fé em suas intuições. Elas aparentemente acham o esforço cognitivo no mínimo moderadamente desagradável e evitam-no o máximo que podem.

Agora vou mostrar um argumento lógico — duas premissas e uma conclusão. Tente determinar, o mais rapidamente que conseguir, se o argumento é logicamente válido. A conclusão parte das premissas?

Todas as rosas são flores.

Algumas flores murcham rápido.

Logo, algumas rosas murcham rápido.

A grande maioria dos estudantes universitários endossa esse

silogismo como válido11. Na verdade, o argumento é falho, pois é possível que as rosas não estejam entre as flores que murcham rápido. Assim como no problema do bastão e bola, uma resposta plausível vem imediatamente à cabeça. Superá-la exige trabalho duro — a ideia insistente de que “é verdade, é verdade!” torna difícil verificar a lógica, e a maioria das pessoas não se dá ao trabalho de pensar sobre o problema.

Esse experimento tem implicações desencorajadoras para o raciocínio na vida cotidiana.

Ele sugere que quando as pessoas acreditam que uma conclusão é verdadeira, também ficam muito propensas a acreditar nos argumentos que parecem sustentá-la, mesmo que esses argumentos não sejam confiáveis. Se o Sistema 1 está envolvido, a conclusão vem primeiro e os argumentos se seguem.

A seguir, considere a pergunta e responda a ela rapidamente antes de prosseguir com a leitura:

Quantos assassinatos ocorrem no estado de Michigan em um ano?

A questão, que também foi imaginada por Shane Frederick, é mais uma vez um desafio ao Sistema 2. A “manha” é se a pessoa que responde vai lembrar que Detroit, uma cidade com alto índice de criminalidade, fica em Michigan. Estudantes universitários nos Estados Unidos sabem desse fato e identificam corretamente Detroit como a maior cidade em Michigan. Mas o conhecimento de um fato não é tudo ou nada. Fatos que sabemos nem sempre vêm à mente quando precisamos deles. Pessoas que se lembram de que Detroit fica em Michigan oferecem estimativas mais elevadas da taxa de homicídios no estado do que pessoas que não sabem disso, mas a maioria dos consultados por Frederick não pensou na cidade quando questionados sobre o estado. Na verdade, a conjectura média de pessoas questionadas sobre Michigan é mais baixa do que as conjecturas de um grupo similar questionado sobre a taxa de homicídios em Detroit.

A culpa por deixar de pensar em Detroit pode ser creditada tanto ao Sistema 1 como ao Sistema 2. A cidade vir ou não à mente quando o estado é mencionado depende em parte da função automática da memória. As pessoas diferem a esse respeito. A representação do estado de Michigan é muito detalhada na mente de algumas pessoas: moradores do estado têm maior probabilidade de recordar muitos fatos sobre ele do que pessoas que vivem em outro lugar; estudiosos de geografia vão se recordar mais do que pessoas especializadas em estatísticas de beisebol; indivíduos mais inteligentes apresentam maior probabilidade do que outros de guardar representações detalhadas da maioria das coisas. Inteligência não é apenas a capacidade de raciocinar; é também a capacidade de encontrar material relevante na memória e mobilizar a atenção quando necessária. A função da memória é um atributo do Sistema 1.

Entretanto, qualquer um conta com a opção de reduzir a velocidade para empreender uma busca ativa na memória por todos os fatos relevantes possíveis — assim como poderia diminuir para verificar a resposta intuitiva no problema do bastão e bola. O grau de checagem e busca deliberadas é uma característica do Sistema 2, que varia de indivíduo para indivíduo.

O problema do bastão e bola, o silogismo das flores e o problema Michigan/Detroit guardam alguma coisa em comum. O fracasso nesses minitestes parece ser, pelo menos em certa medida, uma questão de motivação insuficiente, de não tentar com bastante ênfase.

Qualquer um que possa ser admitido numa boa universidade é certamente capaz de raciocinar sobre as primeiras duas perguntas e de refletir sobre Michigan tempo bastante para se lembrar da principal cidade nesse estado e seu problema em relação aos crimes. Esses estudantes conseguem resolver problemas muito mais difíceis quando não ficam tentados a aceitar uma resposta superficialmente plausível que venha prontamente à mente. A facilidade com que eles se satisfazem o suficiente para pararem de pensar é um tanto quanto inquietante. “Preguiça” é um veredito duro sobre o automonitoramento desses jovens e seu Sistema 2, mas não parece ser injusto. Os que evitam o pecado da indolência intelectual poderiam ser chamados de

“empenhados”. São mais alertas, intelectualmente mais ativos, menos dispostos a se satisfazer com respostas superficialmente atraentes, mais céticos acerca de suas intuições. O psicólogo

Keith Stanovich diria que são mais racionais12.

INTELIGÊNCIA, CONTROLE, RACIONALIDADE

Os pesquisadores têm aplicado diversos métodos para examinar a ligação entre pensamento e autocontrole. Alguns abordam o problema fazendo a pergunta correlata: Se as pessoas fossem classificadas segundo seu autocontrole e segundo sua competência cognitiva, os indivíduos teriam posições similares nas duas classificações?

Em um dos mais famosos experimentos na história da psicologia, Walter Mischel e seus alunos expuseram crianças de 4 anos a um

dilema cruel13. Elas podiam escolher entre uma pequena recompensa (um biscoito recheado Oreo), que ganhariam a qualquer momento, ou uma recompensa maior (dois biscoitos), pela qual teriam de aguardar 15 minutos sob difíceis condições. Elas tinham de permanecer sozinhas numa sala, de frente para uma mesa com dois objetos: um único biscoito e um sino que a criança podia tocar a qualquer momento para chamar o condutor da experiência e receber aquela única bolacha. Como o experimento foi descrito: “Não havia brinquedos, livros, quadros nem qualquer outro objeto potencialmente distrativo no ambiente. O adulto deixava a sala e só voltava depois de 15 minutos ou após a criança ter tocado o sino, comido as recompensas, ficado de pé ou mostrado algum

sinal de desconforto.” 14

As crianças eram observadas por um espelho unidirecional, e o filme que exibe seu comportamento durante o tempo de espera sempre faz o público morrer de rir. Mais ou menos a metade das crianças conseguiu a proeza de esperar os 15 minutos, principalmente mantendo sua atenção longe da tentadora recompensa. Dez ou 15 anos depois, um grande fosso se abrira entre os que haviam resistido à tentação e os demais. Os resistentes tinham grau mais elevado de controle de execução em tarefas cognitivas e especialmente a capacidade de realocar efetivamente sua atenção. Como jovens adultos, eram menos propensos a usar drogas. Uma diferença significativa na competência intelectual emergiu: as crianças que haviam exibido maior autocontrole aos 4 anos de idade obtinham notas

substancialmente mais altas em testes de inteligência15.

Uma equipe de pesquisadores na Universidade do Oregon explorou a ligação entre controle cognitivo e inteligência de diversas formas, incluindo uma tentativa de aumentar a inteligência melhorando o controle da atenção. Durante cinco sessões de quarenta minutos, eles expuseram crianças com idade entre 4 e 6 anos a vários jogos de computador, especialmente projetados para exigir atenção e controle. Em um dos exercícios, as crianças utilizavam um joystick para puxar um gato e movê-lo até uma área gramada enquanto evitavam um terreno enlameado. As áreas gramadas pouco a pouco encolhiam e o terreno com lama aumentava, exigindo progressivamente maior controle de precisão. Os pesquisadores descobriram que treinar a atenção não melhorava apenas o controle de execução; acertos em testes de inteligência não verbais também

melhoravam, e a melhora era conservada por vários meses16. Outra pesquisa feita pelo mesmo grupo identificou genes específicos que estão envolvidos no controle da

atenção, revelou que técnicas de criação dos pais também afetavam essa capacidade e demonstraram uma ligação estreita entre a capacidade das crianças de controlar sua atenção e a capacidade de controlar suas emoções.

Shane Frederick construiu um Teste de Reflexo Cognitivo (Cognitive Reflection Test), consistindo no problema do bastão e bola e duas outras perguntas, escolhidas porque também convidam a uma resposta intuitiva que é tão tentadora quanto errada (as perguntas são mostradas no capítulo 5). Em seguida, ele estudou as características de estudantes que tiveram índice de acerto muito baixo nesse teste — a função fiscalizadora do Sistema 2 é fraca nessas pessoas — e descobriram que eles tendem a responder a perguntas com a primeira ideia que lhes vêm à mente e relutam em investir o esforço necessário para checar suas intuições.

Indivíduos que de modo pouco crítico seguem suas intuições acerca de problemas também são propensos a aceitar outras sugestões do Sistema 1. Em particular, eles são impulsivos, impacientes e ávidos por receber gratificação imediata. Por exemplo, 63% dos intuitivos responderam que prefeririam ganhar 3.400 dólares neste mês a ganhar 3.800 no mês seguinte.

Apenas 37% dos que resolvem todos os três problemas corretamente têm a mesma preferência míope por receber uma quantia menor imediatamente. Quando perguntados quanto pagarão para que seja entregue de um dia para o outro um livro que encomendaram, os de baixa pontuação no Teste de Reflexo Cognitivo mostram-se dispostos a pagar até duas vezes mais que os de pontuação alta. As descobertas de Frederick sugerem que os personagens de nosso psicodrama têm diferentes “personalidades”. O Sistema 1 é impulsivo e intuitivo; o Sistema 2

é capaz de raciocínio e é cauteloso, mas ao menos para algumas pessoas ele também é preguiçoso. Reconhecemos diferenças relacionadas entre os indivíduos: algumas pessoas são mais como seu Sistema 2; outras estão mais próximas do Sistema 1. Esse teste simples emergiu como um dos mais eficientes previsores de pensamento preguiçoso.

Keith Stanovich e seu colaborador de longa data Richard West originalmente introduziram os termos Sistema 1 e Sistema 2 (eles agora preferem falar em processos de Tipo 1 e Tipo 2).

Stanovich e seus colegas passaram décadas estudando as diferenças entre indivíduos nos tipos de problemas abordados neste livro. Eles fizeram uma pergunta básica de muitos modos diferentes: O que torna algumas pessoas mais suscetíveis do que outras a vieses de julgamento? Stanovich publicou suas conclusões em um livro intitulado Rationality and the Reflective Mind (Racionalidade e a mente reflexiva), que oferece uma abordagem ousada e distintiva ao tema deste capítulo. Ele traça uma acentuada distinção entre as duas partes do Sistema 2 — de fato, a distinção é tão acentuada que ele as chama de “mentes” separadas.

Uma dessas mentes (ele a chama de algorítmica) lida com pensamento lento e cálculos exigentes. Algumas pessoas são melhores do que outras nessas tarefas de capacidade cerebral

— são os indivíduos que se destacam em testes de inteligência e são capazes de passar de uma tarefa para outra de modo rápido e eficiente. Entretanto, Stanovich argumenta que inteligência elevada não torna as pessoas imunes a vieses. Há outra capacidade envolvida, que ele classifica como racionalidade. O conceito de Stanovich de uma pessoa racional é similar ao

que anteriormente classifiquei como “empenhado”. O cerne de seu argumento é que a racionalidade deve ser distinguida da inteligência. Na sua opinião, o pensamento superficial ou “preguiçoso” é uma falha na mente reflexiva, uma deficiência na racionalidade. Essa é uma ideia atraente e provocante para o pensamento. Dando apoio a ela, Stanovich e seus colegas descobriram que a questão do bastão e bola e outras como ela são de certo modo melhores indicadores de nossa suscetibilidade a erros cognitivos do que formas convencionais de medir a

inteligência17, como os testes de QI. Só o tempo dirá se a distinção entre inteligência e racionalidade pode conduzir a novas descobertas.

FALANDO DE CONTROLE