Rápido e devagar: Duas formas de pensar
26 - Teoria da Perspectiva
“Ela o está processando por causa da pensão alimentícia. Ela na verdade gostaria de um acordo, mas ele prefere ir para o tribunal. Isso não é de surpreender — ela só tem a ganhar, então é avessa ao risco. Ele, por outro lado, enfrenta opções que são todas ruins, então prefere correr o risco.”
25 Em português, também traduzida por “teoria do prospecto”.
26
TEORIA DA PERSPECTIVA
Amos e eu topamos com a falha central na teoria de Bernoulli por uma feliz combinação de habilidade e ignorância. Por sugestão de Amos, li um capítulo em seu livro que descrevia experimentos em que estudiosos destacados haviam mensurado a utilidade do dinheiro pedindo às pessoas para fazer escolhas sobre apostas em que o participante podia ganhar ou perder alguns trocados. Os pesquisadores estavam medindo a utilidade da riqueza, modificando a riqueza numa faixa de menos de um dólar. Isso suscitou questões. É plausível presumir que as pessoas avaliem as apostas por minúsculas diferenças de riqueza? Como alguém poderia esperar aprender sobre a psicofísica da riqueza estudando reações a ganhos e perdas de centavos? Desenvolvimentos recentes na teoria psicofísica sugeriram que se você quer estudar o valor subjetivo da
riqueza1, deve fazer perguntas diretas sobre riqueza, não sobre mudanças de riqueza. Eu não sabia o suficiente sobre a teoria da utilidade para ficar cego por respeitá-la demais, e fiquei perplexo.
Quando Amos e eu nos encontramos no dia seguinte, relatei minhas dificuldades como um vago pensamento, não como uma descoberta. Eu esperava que ele me corrigisse e explicasse por que o experimento que me deixara perplexo fazia sentido, afinal de contas, mas ele não fez nada do tipo — a relevância da psicofísica moderna ficou imediatamente óbvia para ele. Ele recordou que o economista Harry Markowitz, que mais tarde receberia o Prêmio Nobel de Economia por seu trabalho sobre finanças, havia proposto uma teoria em que utilidades eram mais ligadas a mudanças de riqueza do que a estados de riqueza. A ideia de Markowitz estivera circulando por um quarto de século e não atraíra muita atenção, mas rapidamente concluímos que era assim mesmo, e que a teoria que estávamos planejando desenvolver definiria os resultados como ganhos e perdas, não como estados de riqueza. Tanto o conhecimento da percepção como a ignorância sobre a teoria da decisão contribuíram para um grande passo adiante em nossa pesquisa.
Logo soubemos que tínhamos superado um grave caso de cegueira induzida pela teoria, pois a ideia que havíamos rejeitado agora parecia não só falsa, como também absurda.
Estávamos achando graça em perceber que éramos incapazes de avaliar nossa riqueza presente dentro das dezenas de milhares de dólares. A ideia de deduzir atitudes para pequenas mudanças a partir da utilidade da riqueza agora parecia indefensável. Você sabe que fez um avanço teórico quando não consegue mais reconstruir por que fracassou por tanto tempo em enxergar o óbvio. Mesmo assim, levamos anos para explorar as implicações de pensar nos resultados como ganhos e perdas.
Em teoria da utilidade, a utilidade de um ganho é aferida comparando-se as utilidades de dois estados de riqueza. Por exemplo, a utilidade de obter quinhentos dólares extras quando sua riqueza é de um milhão de dólares é a diferença entre a utilidade de 1.000.500 dólares e a utilidade de um milhão de dólares. E se você possui a quantia maior, a desutilidade de perder
quinhentos dólares é novamente a diferença entre as utilidades dos dois estados de riqueza.
Nessa teoria, concede-se que as utilidades de ganhos e perdas sejam diferenciadas apenas no sinal (+ ou -). Não há maneira de representar o fato de que a desutilidade de perder quinhentos dólares poderia ser maior do que a utilidade de ganhar a mesma quantia — embora é claro ela seja. Como talvez seja esperado em uma situação de cegueira induzida pela teoria, possíveis diferenças entre ganhos e perdas não foram nem esperadas, nem estudadas. Presumiu-se que a distinção entre ganhos e perdas não importava, então não fazia sentido examiná-la.
Amos e eu não percebemos de imediato que nosso foco em mudanças de riqueza abria o caminho para a exploração de um novo tópico. Estávamos preocupados principalmente com as diferenças entre apostas com probabilidade de ganho alta ou baixa. Um dia, Amos fez uma sugestão casual, “E as perdas?”, e descobrimos rapidamente que nossa familiar aversão ao risco foi substituída por busca de risco quando mudávamos nosso foco. Considere esses dois problemas:
Problema 1: O que você prefere?
Conseguir novecentos dólares com certeza OU 90% de chance de conseguir mil dólares.
Problema 2: O que você prefere?
Perder novecentos dólares com certeza OU 90% de chance de perder mil dólares.
Você provavelmente foi avesso ao risco no problema 1, como é o caso com a grande maioria das pessoas. O valor subjetivo de um ganho de novecentos dólares é certamente mais de 90%
do valor de um ganho de mil dólares. A escolha avessa ao risco nesse problema tão teria surpreendido Bernoulli.
Agora examine sua preferência no problema 2. Se você é como a maioria das outras pessoas, optou pela aposta nessa questão. A explicação para essa escolha pela busca do risco é a imagem espelhada da explicação para aversão ao risco no problema 1: o valor (negativo) de perder novecentos dólares é muito maior do que 90% do valor (negativo) de perder mil dólares. A perda certa é muito aversiva, e isso impulsiona você a correr o risco. Mais tarde, vamos ver que as avaliações das probabilidades (90% versus 100%) contribuem também tanto para a aversão ao risco no problema 1 como para a preferência pela aposta no problema 2.
Não fomos os primeiros a notar que as pessoas se tornam favoráveis ao risco quando todas as suas opções são ruins, mas a cegueira induzida pela teoria prevalecera. Como a teoria dominante não forneceu um modo plausível de acomodar diferentes atitudes em relação ao risco para ganhos e perdas, o fato de que as atitudes diferiam teve de ser ignorado. Por outro lado, nossa decisão de ver resultados como ganhos e perdas levou-nos a focar precisamente essa discrepância. A observação de atitudes de risco contrastantes com perspectivas favoráveis e desfavoráveis logo rendeu um avanço significativo: descobrimos um modo de demonstrar o erro central no modelo de escolha de Bernoulli. Vejamos:
Problema 3: Além do que já tem, você recebeu mil dólares.
Agora lhe pedem para escolher uma dessas opções:
50% de chance de ganhar mil dólares OU conseguir quinhentos dólares com certeza.
Problema 4: Além do que já tem, você recebeu 2 mil dólares.
Agora lhe pedem para escolher uma dessas opções:
50% de chance de perder mil dólares OU perder quinhentos dólares com certeza.
Você pode confirmar facilmente que em termos de estados finais de riqueza — tudo que importa para a teoria de Bernoulli —, os problemas 3 e 4 são idênticos. Em ambos os casos você tem uma escolha entre as mesmas duas opções: você pode ter a certeza de ficar mais rico do que é atualmente em 1.500 dólares ou aceitar uma aposta em que tem iguais chances de ficar mais rico em mil dólares ou em 2 mil dólares. Na teoria de Bernoulli, portanto, os dois problemas devem elicitar preferências semelhantes. Verifique suas próprias intuições, e você provavelmente adivinhará o que outros fizeram.
• Na primeira escolha, uma grande maioria respondeu que preferia a coisa segura.
• Na segunda escolha, uma grande maioria preferiu a aposta.
A descoberta de diferentes preferências nos problemas 3 e 4 foi um contraexemplo decisivo para a ideia central da teoria de Bernoulli. Se a utilidade de riqueza é tudo que importa, então afirmações transparentemente equivalentes do mesmo problema devem produzir escolhas idênticas. A comparação dos problemas enfatiza o papel crucial do ponto de referência a partir do qual as opções são avaliadas. O ponto de referência é mais elevado do que a atual riqueza em mil dólares no problema 3, em 2 mil dólares no problema 4. Ficar mais rico em 1.500 dólares é desse modo um ganho de quinhentos dólares no problema 3 e uma perda no problema 4. Obviamente, outros exemplos do mesmo tipo são fáceis de produzir. A história de Anthony e Betty tinha uma estrutura similar.
Quanta atenção você prestou no prêmio de mil dólares ou 2 mil dólares que “recebeu”
antes de fazer sua escolha? Se você é como a maioria das pessoas, mal notou. Na verdade, não há o menor motivo para que o fizesse, pois o prêmio está incluso no ponto de referência, e pontos de referência são de um modo geral ignorados. Você sabe alguma coisa sobre suas preferências que teóricos da utilidade não sabem — que suas atitudes em relação ao risco não seriam diferentes se o seu patrimônio líquido fosse mais alto ou mais baixo em alguns milhares de dólares (a menos que você seja terrivelmente pobre). E você sabe também que suas atitudes com ganhos e perdas não são derivadas da avaliação de sua riqueza. O motivo para você gostar da ideia de ganhar cem dólares e não gostar da ideia de perder cem dólares não é que essas quantias mudam sua riqueza. Você simplesmente gosta de ganhar e não gosta de perder — e quase certamente não gosta de perder mais do que gosta de ganhar.
Os quatro problemas enfatizam a fraqueza do modelo de Bernoulli. A teoria dele é simples demais e carece de uma parte móvel. A variável que está faltando é o ponto de referência, o estado anterior relativo ao qual ganhos e perdas são avaliados. Na teoria de Bernoulli você precisa saber apenas o estado de riqueza para determinar sua utilidade, mas na teoria da perspectiva você precisa saber também o estado de referência. A teoria da perspectiva é assim mais complexa do que a teoria da utilidade. Em ciência, complexidade é considerada um custo, que deve ser justificado por um conjunto suficientemente rico de previsões novas e (preferencialmente) interessantes de fatos que a atual teoria não pode explicar. Esse foi o desafio que tivemos de enfrentar.
Embora Amos e eu não estivéssemos trabalhando com o modelo de dois sistemas da mente, está claro agora que há três características cognitivas no coração da teoria da perspectiva.
Elas desempenham um papel essencial na avaliação dos resultados financeiros e são comuns a diversos processos automáticos de percepção, juízo e emoção. Elas devem ser vistas como características operantes do Sistema 1.
• A avaliação é relativa a um ponto de referência neutro, ao qual às vezes nos referimos como “nível de adaptação”. Você pode facilmente preparar uma demonstração convincente desse princípio. Ponha três tigelas de água na sua frente.
Ponha água gelada na tigela da esquerda e água morna na tigela da direita. A água na tigela do meio deve estar em temperatura ambiente. Mergulhe suas mãos na água fria e na quente por cerca de um minuto, depois mergulhe ambas na tigela do meio. Você vai experimentar a mesma temperatura como quente em uma mão e fria na outra. Para resultados financeiros, o ponto de referência usual é o status quo, mas também pode ser o resultado que você espera, ou talvez o resultado ao qual se sente no direito, por exemplo, o aumento ou o bônus que seus colegas estão recebendo. Resultados que são melhores do que os pontos de referência são ganhos. Abaixo do ponto de referência eles são perdas.
• Um princípio de sensibilidade decrescente se aplica tanto a dimensões sensoriais como à avaliação de mudanças de riqueza. Acender uma luz fraca produz um forte efeito em um ambiente escuro. O mesmo incremento de luz pode ser indetectável em um ambiente brilhantemente iluminado. De modo similar, a diferença subjetiva entre novecentos dólares e mil dólares é muito menor do que a diferença entre cem dólares e duzentos dólares.
• O terceiro princípio é aversão à perda. Quando diretamente comparadas ou ponderadas em relação umas às outras, as perdas assomam como maiores do que os ganhos. Essa assimetria entre o poder das expectativas ou experiências positivas e negativas tem um histórico evolucionário. Organismos que tratam ameaças como mais urgentes do que as oportunidades têm uma melhor chance de sobreviver e se
reproduzir.
Os três princípios2 que governam o valor dos resultados são ilustrados pela figura 10. Se a teoria da perspectiva tivesse uma bandeira, essa imagem estaria bordada nela. O gráfico mostra o valor psicológico de ganhos e perdas, que são os “portadores” de valor na teoria da perspectiva (ao contrário do modelo de Bernoulli, em que estados de riqueza são os portadores de valor). O gráfico tem duas partes distintas, à direita e à esquerda de um ponto de referência neutro. Uma característica proeminente é a de ser em forma de S, o que representa sensibilidade decrescente tanto para ganhos como para perdas. Finalmente, as duas curvas do S não são simétricas. A inclinação da função muda abruptamente no ponto de referência: a reação às perdas é mais forte do que a reação aos ganhos correspondentes. Isso é aversão à perda.
Figura 10
AVERSÃO À PERDA
Muitas das opções que enfrentamos na vida são “mistas”: há um risco de perda e uma oportunidade para ganho, e devemos decidir se aceitamos a aposta ou a rejeitamos.
Investidores que avaliam uma proposta de pequeno negócio, advogados tentando decidir entre entrar ou não com uma ação, generais em tempo de guerra que deliberam sobre uma ofensiva e políticos que têm de decidir se concorrem a um determinado cargo enfrentam todos as possibilidades de vitória ou derrota. Para um exemplo elementar de uma perspectiva mista, examine sua reação à seguinte pergunta.
Problema 5: Alguém lhe propõe uma aposta na moeda.
Se a moeda der coroa, você perde cem dólares.
Se a moeda der cara, você ganha 150 dólares.
Essa aposta é atraente? Você a aceitaria?
Para fazer essa escolha, você deve equilibrar o benefício psicológico de obter 150 dólares contra o custo psicológico de perder cem dólares. Como você se sente em relação a isso?
Embora o valor esperado da aposta seja obviamente positivo, porque você se candidata a ganhar mais do que pode perder, você provavelmente não gosta da ideia — como a maioria das pessoas. A rejeição dessa aposta é uma ação do Sistema 2, mas os inputs críticos são reações emocionais geradas pelo Sistema 1. Para a maioria das pessoas, o medo de perder cem dólares é mais intenso do que a esperança de ganhar 150 dólares. Concluímos com base em inúmeras observações como essa que “as perdas assomam como maiores do que os ganhos” e que as pessoas são avessas à perda.
Você pode medir a extensão de sua aversão a perdas fazendo a si mesmo uma pergunta: Qual é o menor ganho de que necessito para equilibrar uma chance igual de perder cem dólares? Para muitas pessoas, a resposta é cerca de duzentos dólares, o dobro da perda. A
“razão de aversão à perda3” foi estimada em diversos experimentos e normalmente fica na faixa de 1,5 a 2,5. Isso é uma média, claro; algumas pessoas são muito menos avessas à perda do que outras. Os tomadores de risco profissionais que atuam nos mercados financeiros são mais tolerantes a perdas, provavelmente porque não respondem emocionalmente a qualquer flutuação. Quando participantes em um experimento foram instruídos a “pensar como um investidor”, mostraram-se menos avessos à perda e a reação
emocional deles às perdas4 (medida por um índice fisiológico de excitação emocional) foi acentuadamente reduzida.
A fim de examinar sua razão de aversão à perda para diferentes apostas, considere as seguintes questões. Ignore quaisquer considerações sociais, não tente bancar o ousado, nem o cauteloso, e concentre-se apenas no impacto subjetivo da perda possível e do ganho equivalente.
• Considere uma aposta 50–50 em que você pode perder dez dólares. Qual é o menor ganho que torna a aposta atraente? Se você diz dez dólares, então é indiferente ao risco. Se diz um número menor do que dez dólares, busca o risco. Se responde mais do que dez dólares, tem aversão ao risco.
• E que tal uma perda possível de quinhentos dólares num lance de moeda? Que ganho possível você exige para compensá-la?
• E que tal uma perda de 2 mil dólares?
Realizando esse exercício, você provavelmente descobriu que seu coeficiente de aversão à perda tende a aumentar quando as apostas são altas, mas não dramaticamente. Todas as apostas estão suspensas, é claro, se a perda possível é potencialmente ruinosa, ou se o seu estilo de vida é ameaçado. O coeficiente de aversão à perda é muito grande em tais casos e pode até ser infinito — há riscos que você não vai aceitar, independentemente de quantos milhões possa se candidatar a ganhar se tiver sorte.
Outra olhada na figura 10 talvez ajude a prevenir uma confusão comum. Neste capítulo fiz duas afirmações, que alguns leitores podem encarar como contraditórias:
• Em apostas mistas, onde tanto um ganho como uma perda são possíveis, a aversão à perda provoca escolhas extremamente avessas ao risco.
• Em escolhas ruins, onde uma perda segura é comparada a uma perda maior que é meramente provável, a sensibilidade decrescente causa a atração pelo risco.
Não há contradição alguma. No caso misto, a perda possível assoma como duas vezes maior do que o ganho possível, como você pode ver comparando as inclinações da função de valor para perdas e ganhos. No caso ruim, a flexão da curva de valor (sensibilidade decrescente) causa atração pelo risco. A dor de perder novecentos dólares é maior do que 90% da dor de perder mil dólares. Esses dois insights são a essência da teoria da perspectiva.
A figura 10 mostra uma mudança abrupta na inclinação da função de valor onde os ganhos se transformam em perdas, pois há considerável aversão à perda mesmo quando o montante em risco é minúsculo relativamente a sua riqueza. É plausível que atitudes para estados de riqueza possam explicar a extrema aversão a pequenos riscos? É um exemplo notável de cegueira induzida pela teoria que essa falha óbvia na teoria de Bernoulli tenha deixado de chamar a atenção dos estudiosos por mais de 250 anos. Em 2000, o economista comportamental Matthew Rabin finalmente demonstrou matematicamente que tentativas de explicar aversão à perda pela utilidade da riqueza são absurdas e estão fadadas a fracassar, e sua
demonstração chamou a atenção. O teorema de Rabin5 mostra que qualquer um que rejeite uma aposta favorável com pouca coisa em jogo está matematicamente destinado a um nível absurdo de aversão ao risco por alguma aposta maior. Por exemplo, ele observa
que a maioria dos Humanos rejeita a seguinte aposta6:
50% de chance de perder cem dólares e 50% de chance de ganhar duzentos dólares Ele então mostra que, segundo a teoria da utilidade, um indivíduo que rejeite essa aposta também vai rejeitar a seguinte aposta:
50% de chance de perder duzentos dólares e 50% de chance de ganhar 20 mil dólares Mas é claro que ninguém em sã consciência vai rejeitar essa aposta! Em um entusiasmado artigo que escreveram sobre a demonstração, Matthew Rabin e Richard Thaler comentaram que a maior aposta “tem um retorno esperado de 9.900 dólares — com exatamente zero chance de perder mais do que
duzentos dólares. Até um advogado de quinta categoria7 seria capaz de fazer com que você fosse declarado legalmente insano por rejeitar essa aposta”.
Talvez deixando-se levar por seu entusiasmo, eles concluíram seu artigo recordando o famoso quadro do Monty Python em que um cliente frustrado tenta devolver um papagaio morto à loja de animais. O cliente usa uma longa série de frases para descrever o estado do pássaro, culminando com “este é um ex-papagaio”. Rabin e Thaler prosseguem afirmando que
“chegou a hora de os economistas reconhecerem que a utilidade esperada é uma ex-hipótese”.
Muitos economistas viram essa afirmação irreverente como algo próximo da blasfêmia.
Contudo, a cegueira induzida pela teoria de aceitar a utilidade da riqueza como uma explicação de atitudes para pequenas perdas é um alvo legítimo para o comentário jocoso.
PONTOS CEGOS DA TEORIA DA PERSPECTIVA
Até o momento nesta parte do livro tenho exaltado as virtudes da teoria da perspectiva e criticado o modelo racional e a teoria da utilidade esperada. Chegou a hora de equilibrar um pouco as coisas.
A maioria dos alunos de economia já ouviu falar sobre teoria da perspectiva e aversão à perda, mas é pouco provável que você encontre esses termos no índice de um texto introdutório sobre economia. Essa omissão às vezes me deixa aflito, mas na verdade é bastante razoável, devido ao papel central da racionalidade na teoria econômica básica. Os conceitos e resultados clássicos que são ensinados aos alunos podem ser explicados com mais facilidade presumindo-se que os Econs não cometem erros tolos. Essa pressuposição é verdadeiramente necessária, e seria solapada apresentando-se a teoria da perspectiva aos Humanos, cujas avaliações de resultados são irracionalmente míopes.
Há bons motivos para manter a teoria da perspectiva fora dos textos introdutórios. Os conceitos básicos de economia são ferramentas intelectuais essenciais, que não são fáceis de captar nem mesmo com pressuposições simplificadas e irrealistas sobre a natureza dos agentes econômicos que interagem nos mercados. Levantar questões sobre esses pressupostos mesmo à medida que são apresentados seria confuso, e talvez desmoralizante. É razoável dar prioridade em ajudar os alunos a adquirir as ferramentas básicas da disciplina. Além do mais, o fracasso da racionalidade que está incorporado à teoria da perspectiva é muitas vezes
irrelevante para as previsões da teoria econômica, que funciona com grande precisão em algumas situações e fornece boas aproximações em muitas outras. Em alguns contextos, porém, a diferença se torna significativa: os Humanos descritos pela teoria da perspectiva são guiados pelo impacto emocional imediato de ganhos e perdas, não por perspectivas de longo prazo de riqueza e utilidade global.
Enfatizei a cegueira induzida pela teoria em minha discussão de falhas no modelo de Bernoulli que permaneceu sem ser questionado por mais de dois séculos. Mas é claro que a cegueira induzida pela teoria não se restringe à teoria da utilidade esperada. A teoria da perspectiva tem suas próprias falhas, e a cegueira induzida pela teoria para essas falhas contribuiu para sua aceitação como a principal alternativa à teoria da utilidade.
Considere a suposição da teoria da perspectiva, de que o ponto de referência, em geral o status quo, tem um valor de zero. Essa suposição parece razoável, mas leva a certas consequências absurdas. Dê uma boa olhada nas seguintes perspectivas. Como seria tê-las?
A. uma chance em um milhão de ganhar um milhão de dólares
B. 90% de chance de ganhar 12 dólares e 10% de chance de não ganhar nada
C. 90% de chance de ganhar um milhão de dólares e 10% de chance de não ganhar nada Não ganhar nada é um resultado possível em todas as três apostas, e a teoria da perspectiva atribui o mesmo valor a esse resultado nos três casos. Não ganhar nada é o ponto de referência e seu valor é zero. Essas afirmações correspondem à sua experiência? Claro que não. Não ganhar nada é um não evento nos dois primeiros casos, e atribuir-lhe um valor de zero faz muito sentido. Por outro lado, deixar de ganhar na terceira situação é intensamente decepcionante. Como um aumento de salário que foi prometido informalmente, a alta probabilidade de ganhar a soma elevada estabelece um novo ponto de referência provisório.
Relativamente a suas expectativas, não ganhar nada será vivenciado como uma grande perda.
A teoria da perspectiva não pode lidar com esse fato, pois ela não admite que o valor de um resultado (nesse caso, não ganhar nada) mude quando ele é altamente improvável, ou quando a alternativa é muito valiosa. Em palavras simples, a teoria da perspectiva não sabe lidar com a decepção. Decepção e antecipação de decepção são reais, porém, e o fracasso em levá-las em consideração é uma falha tão óbvia quanto os contraexemplos que invoquei para criticar a teoria de Bernoulli.
A teoria da perspectiva e a teoria da utilidade fracassam também em admitir o arrependimento. As duas teorias partilham do pressuposto de que as opções disponíveis em uma escolha são avaliadas separada e independentemente, e de que a opção com o valor mais elevado é selecionada. Esse pressuposto está certamente errado, como mostra o exemplo seguinte.
Problema 6: Escolha entre 90% de chance de ganhar um milhão de dólares OU cinquenta dólares com certeza.
Problema 7: Escolha entre 90% de chance de ganhar um milhão de dólares OU 150 mil dólares com certeza.
Compare o sofrimento antecipado de escolher a aposta e não ganhar nos dois casos. Deixar de ganhar é uma decepção em ambos, mas o sofrimento potencial é intensificado no problema 7, por saber que se você escolheu apostar e perdeu você vai se arrepender da decisão
“gananciosa” que tomou ao rejeitar um prêmio seguro de 150 mil dólares. No arrependimento, a experiência de um resultado depende de uma opção que você poderia ter adotado, mas não adotou.
Diversos economistas e psicólogos8 propuseram modelos de tomada de decisão que estão baseados nas emoções do arrependimento e da decepção. É justo dizer que esses modelos exerceram menos influência que a teoria da perspectiva, e o motivo é instrutivo. As emoções de arrependimento e decepção são reais, e os tomadores de decisão certamente antecipam essas emoções quando fazem suas escolhas. O problema é que as teorias do arrependimento fazem poucas previsões notáveis que as distinguiriam da teoria da perspectiva, que tem a vantagem de ser mais simples. A complexidade da teoria da perspectiva foi mais aceitável na competição com a teoria da utilidade esperada porque de fato previu observações que a teoria da utilidade esperada não podia explicar.