Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 2 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Parte 1: - Dois Sistemas

4 Social science: expressão abrangente que engloba ciências sociais, ciências humanas, economia, linguística etc. (N. do T.)

5 Serão traduzidas igualmente por “aposta/apostar” as palavras gamble e bet (ambas compreendendo as noções de jogo de azar, risco etc.). (N. do T.)

PARTE 1

DOIS SISTEMAS

PARTE 1 - DOIS SISTEMAS

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OS PERSONAGENS DA HISTÓRIA

 

Para observar sua mente em um modo automático, dê uma olhada na imagem abaixo.

Figura 1

Sua experiência quando olha para o rosto da mulher combina, de forma integral, o que normalmente chamamos de ver e de pensamento intuitivo. Tão certa e rapidamente quanto você viu que o cabelo da mulher é escuro, você compreendeu que ela está com raiva. Além do mais, o que você viu se projetou no futuro. Você percebeu que esta mulher está prestes a dizer algumas palavras muito desagradáveis, provavelmente num tom de voz alto e estridente. Uma premonição do que ela fará a seguir veio à mente automaticamente e sem esforço. Você não pretendia avaliar o humor dela ou antecipar o que ela podia fazer, e sua reação à foto não estava ligada à sensação de algo que você fez. Simplesmente aconteceu com você. Isso foi um exemplo de pensamento rápido.

Agora olhe para o seguinte problema:

17 X 24

Você percebeu na mesma hora que esse era um problema de multiplicação, e provavelmente percebeu que seria capaz de resolvê-lo, com papel e lápis, quando não de cabeça. Também teve um vago conhecimento intuitivo do leque de resultados possíveis. Você admitiria rapidamente que tanto 12.609 como 123 são implausíveis. Sem gastar algum tempo resolvendo o problema, porém, você não teria certeza de que a resposta não é 568. Uma solução precisa não lhe veio à mente, e você sentiu que poderia escolher se empreendia ou não o cálculo. Se ainda não o fez, tente resolver o problema de multiplicação agora, completando ao menos parte dele.

Você experimentou o pensamento lento conforme procedeu a uma sequência de passos.

Primeiro puxou da memória o programa cognitivo para multiplicação que aprendeu na escola, depois o implementou. Empreender o cálculo exigiu algum esforço. Você sentiu o peso de guardar muito material na memória, conforme precisou não perder de vista onde estava e para onde estava indo, ao mesmo tempo em que guardava o resultado intermediário. O processo foi um trabalho mental: deliberado, laborioso e ordenado — um protótipo do pensamento lento. O

cálculo não foi um simples evento em sua mente; seu corpo também se envolveu. Seus músculos ficaram tensos, sua pressão sanguínea subiu e seus batimentos cardíacos aumentaram. Alguém examinando de perto seus olhos enquanto você resolvia o problema teria visto suas pupilas se dilatarem. Suas pupilas contraíram de volta ao tamanho normal assim que você deu a tarefa por encerrada — quando descobriu a resposta (que é 408, a propósito) ou quando desistiu.

DOIS SISTEMAS

Por várias décadas, os psicólogos têm se mostrado profundamente interessados nos dois modos de pensamento evocados pela foto da mulher com raiva e pelo problema da

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multiplicação, e sugeriram muitas classificações para eles . Adotei termos propostos originalmente pelos psicólogos Keith Stanovich e Richard West, e vou fazer referência a dois sistemas na mente, o Sistema 1 e o Sistema 2.

• O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma percepção de controle voluntário.

• O Sistema 2 aloca atenção às atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos. As operações do Sistema 2 são muitas vezes

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associadas com a experiência subjetiva de atividade , escolha e concentração.

Os nomes de Sistema 1 e Sistema 2 são amplamente utilizados em psicologia, mas vou mais longe do que a maioria neste livro, que pode ser lido como um psicodrama com dois personagens.

Quando pensamos em nós mesmos, nos identificamos com o Sistema 2, o eu consciente, raciocinador, que tem crenças, faz escolhas e decide o que pensar e o que fazer a respeito de algo. Embora o Sistema 2 acredite estar onde a ação acontece, é o automático Sistema 1 o herói deste livro. Descrevo o Sistema 1 como originando sem esforço as impressões e sensações que são as principais fontes das crenças explícitas e escolhas deliberadas do Sistema 2. As operações automáticas do Sistema 1 geram padrões de ideias surpreendentemente complexos, mas apenas o Sistema 2, mais lento, pode construir pensamentos em séries ordenadas de passos. Também descrevo circunstâncias em que o Sistema 2 assume o controle, dominando os irrefreáveis impulsos e associações do Sistema 1.

Você será convidado a pensar nos dois sistemas como agentes com suas capacidades, limitações e funções individuais.

Em ordem aproximada de complexidade, eis aqui alguns exemplos das atividades automáticas que são atribuídas ao Sistema 1:

• Detectar que um objeto está mais distante que outro.

• Orientar em relação à fonte de um som repentino.

• Completar a expressão “pão com…”

• Fazer “cara de aversão” ao ver uma foto horrível.

• Detectar hostilidade em uma voz.

• Responder 2 + 2 = ?

• Ler palavras em grandes cartazes.

• Dirigir um carro por uma rua vazia.

• Encontrar um movimento decisivo no xadrez (se você for um mestre enxadrista).

• Compreender sentenças simples.

• Reconhecer que uma “índole dócil e organizada com paixão pelo detalhe” se assemelha a um estereótipo ocupacional.

Todos esses eventos mentais estão no mesmo grupo da mulher raivosa — eles ocorrem automaticamente e exigem pouco ou nenhum esforço. As capacidades do Sistema 1 incluem habilidades inatas que compartilhamos com outros animais. Nascemos preparados para perceber o mundo em torno de nós, reconhecer objetos, orientar a atenção, evitar perdas e ter medo de aranhas. Outras atividades mentais se tornam rápidas e automáticas por meio da prática prolongada. O Sistema 1 aprendeu associações entre ideias (a capital da França?); também aprendeu habilidades como ler e compreender nuanças de situações sociais. Algumas habilidades, como encontrar movimentos decisivos de xadrez, são adquiridas apenas por peritos especializados. Outras são amplamente compartilhadas. Detectar a similaridade de um esboço de personalidade para um estereótipo ocupacional exige amplo conhecimento da língua e da cultura, coisa que a maioria de nós possui. O conhecimento fica armazenado na memória e é acessado sem intenção e sem esforço.

Inúmeras ações mentais na lista são completamente involuntárias. Você não consegue deixar de compreender sentenças simples em sua própria língua ou de se orientar na direção de um som alto e inesperado, tampouco se abster de saber que 2 + 2 = 4 ou de pensar em Paris quando a capital da França é mencionada. Outras atividades, como mastigar, são suscetíveis de controle voluntário, mas normalmente funcionam no piloto automático. O controle da atenção é compartilhado pelos dois sistemas. Orientar-se para um som alto normalmente é uma operação involuntária do Sistema 1, que imediatamente mobiliza a atenção voluntária do Sistema 2. Você talvez seja capaz de resistir a se virar em direção à fonte de um comentário alto e ofensivo numa festa cheia de gente, mas mesmo que sua cabeça não se mova, sua atenção é inicialmente dirigida para lá, pelo menos por algum tempo. Entretanto, a atenção pode se afastar de um foco indesejado, principalmente com uma concentração intensa em outro alvo.

As operações altamente diversificadas do Sistema 2 têm uma característica em comum: elas exigem atenção e são interrompidas quando a atenção é desviada. Eis aqui alguns exemplos:

• Manter-se no lugar para o tiro de largada numa corrida.

• Concentrar a atenção nos palhaços do circo.

• Concentrar-se na voz de determinada pessoa em uma sala cheia e barulhenta.

• Procurar uma mulher de cabelos brancos.

• Sondar a memória para identificar um som surpreendente.

• Manter uma velocidade de caminhada mais rápida do que o natural para você.

• Monitorar a conveniência de seu comportamento numa situação social.

• Contar as ocorrências da letra a numa página de texto.

• Dizer a alguém seu número de telefone.

• Estacionar numa vaga apertada (para a maioria das pessoas, exceto manobristas de garagem).

• Comparar duas máquinas de lavar roupa em relação ao valor global.

• Preencher um formulário de imposto.

• Verificar a validade de um argumento lógico complexo.

Em todas essas situações, você deve prestar atenção, e você não se sairá muito bem, ou nada bem, se não estiver preparado ou se sua atenção for direcionada inapropriadamente. O

Sistema 2 tem alguma capacidade de mudar o modo como o Sistema 1 funciona programando as funções normalmente automáticas de atenção e memória. Quando espera por um parente numa agitada estação de trem, por exemplo, você pode se dispor quanto quiser a procurar por uma mulher de cabelos brancos ou um homem de barba e desse modo aumentar a probabilidade de detectar seu parente de longe. Você pode ajustar sua memória para procurar capitais que começam com N ou romances existencialistas franceses. E quando aluga um carro no aeroporto Heathrow em Londres a atendente provavelmente vai lembrá-lo que “aqui dirigimos do lado esquerdo da rua”. Em todos esses casos, exige-se de você que faça algo que não lhe vem naturalmente, e você vai descobrir que manter de forma consciente um ajuste exige o emprego contínuo de pelo menos algum esforço.

A expressão tantas vezes utilizada em inglês, pay attention,6 cabe bem aqui: você dispõe de um orçamento de atenção limitado para alocar às suas atividades e, se tenta ir além desse orçamento, fracassa. Uma característica das atividades que exigem esforço é que elas interferem umas com as outras, motivo pelo qual é difícil ou impossível conduzir várias delas ao mesmo tempo. Você não consegue calcular o produto de 17 x 24 fazendo uma curva à esquerda no tráfego pesado, e certamente é melhor não tentar. Você pode fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas apenas se forem fáceis e pouco exigentes. É provavelmente seguro conversar com a pessoa no banco do passageiro enquanto dirige por uma estrada vazia, e muitos pais já descobriram, talvez com alguma culpa, que conseguem ler uma história para uma criança enquanto pensam em alguma outra coisa.

Todo mundo tem alguma consciência da capacidade de atenção limitada, e nosso comportamento social leva em consideração essas limitações. Quando o motorista de um carro está ultrapassando um caminhão em uma pista estreita, por exemplo, os passageiros adultos muito sensatamente param de falar. Eles sabem que distrair o motorista não é uma boa ideia, e também suspeitam que ele está temporariamente surdo e não vai ouvir o que dizem.

Foco intenso numa tarefa pode tornar a pessoa efetivamente cega, mesmo a estímulos que em geral atraem a atenção. A demonstração mais radical disso foi feita por Chistopher Chabris e Daniel Simons em seu livro O gorila invisível. Eles montaram um curta-metragem de duas equipes trocando passes de basquete, uma das equipes com camisetas brancas, a outra vestindo preto. Os espectadores do filme são instruídos a contar o número de passes feitos pelo time branco, ignorando os jogadores de preto. Essa tarefa é difícil e completamente absorvente. No meio do vídeo, uma mulher usando um traje de gorila aparece, atravessa a quadra, bate no peito e vai embora. O gorila fica à vista por nove segundos. Milhares de pessoas assistiram ao vídeo e cerca da metade delas não observou nada de incomum. É a tarefa de contar — e sobretudo a instrução de ignorar uma das equipes — que causa a cegueira. Ninguém que assiste ao vídeo sem a tarefa deixaria de ver o gorila. Ver e se orientar são funções automáticas do Sistema 1, mas elas dependem da alocação de alguma atenção ao estímulo relevante. Os autores notam que a observação mais notável em seu estudo é as pessoas acharem seus resultados muito surpreendentes. De fato, as pessoas que deixam de ver o gorila ficam inicialmente convictas de que ele não estava lá — não conseguem imaginar que deixaram de ver um evento tão chamativo. O estudo do gorila ilustra dois importantes fatos acerca de nossas mentes: podemos ficar cegos para o óbvio, e também somos cegos para nossa própria cegueira.

SINOPSE DA TRAMA

A interação dos dois sistemas é um tema recorrente do livro, e uma breve sinopse da trama se faz necessária. Na história que vou contar, os Sistemas 1 e 2 estão ambos ativos sempre que estamos despertos. O Sistema 1 funciona automaticamente e o Sistema 2 está normalmente em um confortável modo de pouco esforço, em que apenas uma fração de sua capacidade está envolvida. O Sistema 1 gera continuamente sugestões para o Sistema 2: impressões, intuições, intenções e sentimentos. Se endossadas pelo Sistema 2, impressões e intuições se tornam crenças, e impulsos se tornam ações voluntárias. Quando tudo funciona suavemente, o que acontece na maior parte do tempo, o Sistema 2 adota as sugestões do Sistema 1 com pouca ou nenhuma modificação. Você geralmente acredita em suas impressões e age segundo seus desejos, e tudo bem — normalmente.

Quando o Sistema 1 funciona com dificuldade, ele recorre ao Sistema 2 para fornecer um processamento mais detalhado e específico que talvez solucione o problema do momento. O

Sistema 2 é mobilizado quando surge uma questão para a qual o Sistema 1 não oferece uma resposta, como provavelmente aconteceu com você quando se viu diante do problema de multiplicação 17 x 24. Você também pode sentir uma sobrecarga de atenção consciente sempre que fica surpreso. O Sistema 2 é ativado quando se detecta um evento que viola o modelo do

mundo mantido pelo Sistema 1. Nesse mundo, abajures não pulam, gatos não latem e gorilas não atravessam quadras de basquete. O experimento do gorila demonstra que alguma atenção é necessária para que o estímulo surpreendente seja detectado. A surpresa, desse modo, ativa e orienta sua atenção: você fixa o olhar, e busca em sua memória uma história que dê sentido ao evento surpreendente. Ao Sistema 2 também é atribuído o contínuo monitoramento de seu próprio comportamento — o controle que o mantém sendo educado quando está furioso, e alerta quando está dirigindo à noite. O Sistema 2 é mobilizado para aumentar o esforço quando detecta um erro prestes a ser cometido. Lembre-se de uma ocasião em que você quase deixou escapar um comentário ofensivo e observe como se esforçou para recobrar o controle.

Em resumo, a maior parte do que você (seu Sistema 2) pensa e faz origina-se de seu Sistema 1, mas o Sistema 2 assume o controle quando as coisas ficam difíceis, e normalmente ele tem a última palavra.

A divisão de trabalho entre o Sistema 1 e o Sistema 2 é altamente eficiente: isso minimiza o esforço e otimiza o desempenho. O arranjo funciona bem na maior parte do tempo porque o Sistema 1 geralmente é muito bom no que faz: seus modelos de situações familiares são precisos, suas previsões de curto prazo são em geral igualmente precisas e suas reações iniciais a desafios são rápidas e normalmente apropriadas. O Sistema 1 tem vieses, porém, erros sistemáticos que ele tende a cometer em circunstâncias específicas. Como veremos, ele às vezes responde a perguntas mais fáceis do que essa que foi feita, e exibe pouco entendimento de lógica e estatísticas. Uma limitação adicional do Sistema 1 é que ele não pode ser desligado. Se alguém lhe mostra numa tela uma palavra numa língua que você

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conhece, você a lê — a menos que sua atenção esteja totalmente concentrada em outro lugar.

CONFLITO

A figura 2 é uma variação de um experimento clássico que produz um conflito entre os dois

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sistemas . Você deve tentar o exercício antes de prosseguir na leitura.

Sua primeira tarefa é descer por ambas as colunas, dizendo em voz alta se cada palavra está impressa em minúsculas ou maiúsculas. Quando houver terminado a primeira tarefa, desça por ambas as colunas outra vez, dizendo se cada palavra está impressa à esquerda ou à direita do centro, dizendo (ou sussurrando para si mesmo) “ESQUERDA” ou “DIREITA”.

ESQUERDA maiúscula esquerda minúscula

direita MINÚSCULA DIREITA maiúscula DIREITA MAIÚSCULA

esquerda minúscula ESQUERDA MINÚSCULA direita maiúscula Figura 2

Você quase certamente conseguiu dizer as palavras corretas em ambas as tarefas, e sem dúvida descobriu que algumas partes de cada tarefa eram bem mais fáceis que outras. Quando identificou as maiúsculas e as minúsculas, a coluna da esquerda foi fácil e a coluna da direita obrigou-o a diminuir a velocidade e talvez a gaguejar ou hesitar. Quando você nomeou a posição das palavras, a coluna da esquerda foi difícil e a da direita foi bem mais fácil.

Essas tarefas envolvem o Sistema 2, porque dizer “maiúscula/minúscula” ou

“direita/esquerda” não é o que rotineiramente você faz quando está percorrendo uma coluna de palavras. Uma das coisas que você fez para se ajustar à tarefa foi programar sua memória de modo que as palavras relevantes ( maiúscula e minúscula para a primeira tarefa) ficassem

“na ponta de sua língua”. A priorização das palavras escolhidas é eficaz e a tentação moderada de ler outras palavras foi razoavelmente fácil de resistir quando você percorreu a primeira coluna. Mas a segunda coluna era diferente, pois continha palavras para as quais você estava ajustado, e você não podia ignorá-las. Você foi na maior parte capaz de responder corretamente, mas dominar a reação antagônica exigiu esforço, e isso diminuiu sua velocidade. Você experimentou um conflito entre uma tarefa que pretendia empreender e uma reação automática que interferiu com isso.

O conflito entre uma reação automática e uma intenção de controlá-la é comum em nossas vidas. Qualquer um está familiarizado com a experiência de tentar não encarar o casal vestido de maneira excêntrica na mesa ao lado em um restaurante. Também sabemos como é forçar nossa atenção em um livro chato, no qual nos pegamos constantemente voltando ao ponto em que a leitura parou de fazer sentido. Em lugares onde os invernos são muito rigorosos, é comum os motoristas terem a lembrança de seu carro derrapando sem controle no gelo e da luta para seguir instruções bem ensaiadas que exigem o contrário do que você normalmente faria: “Gire o volante no sentido da derrapagem e, haja o que houver, não toque no freio!” E

todo ser humano já passou pela experiência de não mandar alguém para o inferno. Uma das

 

tarefas do Sistema 2 é dominar os impulsos do Sistema 1. Em outras palavras, o Sistema 2 é encarregado do autocontrole.

ILUSÕES

Para avaliar a autonomia do Sistema 1, bem como a diferença entre impressões e crenças, dê uma boa olhada na figura 3.

Figura 3

A imagem não tem nada de notável: duas linhas horizontais de diferentes comprimentos, com setas ou aletas nas extremidades, apontando em diferentes direções. A de baixo é obviamente mais comprida que a de cima. Isso é o que todos nós vemos, e naturalmente acreditamos no que vemos. Se você algum dia já viu a figura, porém, a reconhece como sendo a famosa ilusão de Müller-Lyer. Como pode facilmente confirmar medindo ambas as linhas com uma régua, elas na verdade têm extensão idêntica.

Agora que já mediu as linhas, você — seu Sistema 2, o ser consciente que você chama de

“eu” — tem uma nova crença: você sabe que as linhas são igualmente longas. Se questionado sobre sua extensão, você vai dizer o que sabe. Mas você continua a ver a linha de baixo como maior. Você decidiu acreditar na medição, mas não consegue impedir o Sistema 1 de executar seu truque; você não pode decidir ver as linhas como iguais, embora você saiba que são. Para resistir à ilusão, só existe uma coisa que você pode fazer: deve aprender a desconfiar da extensão de linhas quando há setas anexadas a suas extremidades. Para implementar essa regra, você deve ser capaz de reconhecer o padrão ilusório e recordar o que sabe a respeito.

Se for capaz de fazer isso, nunca mais será tapeado pela ilusão de Müller-Lyer. Mas continuará a ver uma linha como mais comprida do que a outra.

Nem todas as ilusões são visuais. Há ilusões de pensamento, que chamamos de ilusões cognitivas. Quando ainda estava na universidade, frequentei alguns cursos sobre arte e ciência da psicoterapia. Durante uma dessas aulas, o professor nos agraciou com uma pitada de sua sabedoria clínica. O que ele nos contou foi o seguinte: “De tempos em tempos você vai ter um paciente que vai lhe contar uma história perturbadora dos múltiplos equívocos cometidos em seu tratamento prévio. Ele passou por inúmeros médicos e nenhum tratamento deu certo. O paciente pode descrever lucidamente como seus terapeutas o compreenderam mal, mas que ele percebeu rapidamente que você é diferente. Você partilha dos mesmos sentimentos, está convencido de que o compreende e que vai poder ajudar.” Nesse ponto meu professor ergueu a voz e disse: “Nem sonhem em pegar esse paciente! Chutem-no para fora do consultório! Ele

muito provavelmente é um psicopata e você não será capaz de ajudá-lo.”

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Muitos anos depois descobri que o professor nos advertira contra o charme psicopático e a principal autoridade no estudo de psicopatia confirmou que o conselho do professor era sensato. A analogia com a ilusão de Müller-Lyer é próxima. O que nos estava sendo ensinado não era como devíamos nos sentir em relação ao paciente. Nosso professor partia da certeza de que a simpatia que sentiríamos pelo paciente não estaria sob nosso controle; ela brotaria do Sistema 1. Além do mais, não era para aprendermos a desconfiar de um modo geral de nossos sentimentos em relação aos pacientes. A lição era que uma forte atração por um paciente com um histórico repetido de tratamentos fracassados é um sinal perigoso — como as setas nas linhas paralelas. É uma ilusão — uma ilusão cognitiva — e me foi ensinado (Sistema 2) a reconhecê-la e ficar de sobreaviso para não acreditar nela nem agir com base nisso.

A pergunta que se faz com mais frequência sobre as ilusões cognitivas é se elas podem ser dominadas. A mensagem desses exemplos não é encorajadora. Como o Sistema 1 opera automaticamente e não pode ser desligado a seu bel-prazer, erros do pensamento intuitivo muitas vezes são difíceis de prevenir. Os vieses nem sempre podem ser evitados, pois o Sistema 2 talvez não ofereça pista alguma sobre o erro. Mesmo quando dicas para prováveis erros estão disponíveis, estes só podem ser prevenidos por meio do monitoramento acentuado e da atividade diligente do Sistema 2. Como um modo de viver sua vida, porém, vigilância contínua não necessariamente é um bem, e certamente é algo impraticável. Questionar constantemente nosso próprio pensamento seria impossivelmente tedioso, e o Sistema 2 é vagaroso e ineficiente demais para servir como um substituto para o Sistema 1 na tomada de decisões rotineiras. O melhor que podemos fazer é um acordo: aprender a reconhecer situações em que os enganos são prováveis e se esforçar mais para evitar enganos significativos quando há muita coisa em jogo. A premissa deste livro é de que é mais fácil reconhecer os enganos das outras pessoas do que os nossos.

FICÇÕES ÚTEIS

Você foi convidado a pensar nos dois sistemas como agentes dentro da mente, com suas personalidades, capacidades e limitações individuais. Vou muitas vezes usar sentenças em que os sistemas são o sujeito, como: “O Sistema 2 calcula produtos.”

O uso de uma linguagem assim é considerado um pecado nos círculos profissionais nos quais transito, pois parece explicar os pensamentos e ações de uma pessoa pelos pensamentos

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e ações de pessoas em miniatura dentro da cabeça de alguém. Gramaticalmente, a sentença sobre o Sistema 2 é semelhante a “O mordomo anda furtando o dinheiro das compras”. Meus colegas observariam que a ação do mordomo na verdade explica o desaparecimento do dinheiro, e com razão perguntam se a sentença sobre o Sistema 2 explica como produtos são calculados. Minha resposta é que a breve sentença ativa que atribui cálculo ao Sistema 2 é planejada para ser uma descrição, não uma explicação. Ela é significativa apenas devido ao que você já sabe sobre o Sistema 2. É uma forma abreviada para o seguinte: “Aritmética

mental é uma atividade que exige esforço, não deve ser realizada quando você está fazendo uma curva à esquerda e está associada a pupilas dilatadas e batimento cardíaco acelerado.”

De modo similar, a afirmação de que “dirigir em rodovias sob condições rotineiras cabe ao Sistema 1” significa que guiar o carro por uma curva é algo automático e quase não exige esforço. Implica também que um motorista experiente pode andar por uma estrada vazia enquanto conversa. Finalmente, “O Sistema 2 impediu James de reagir tolamente ao insulto”

significa que James teria sido mais agressivo em sua reação se sua capacidade para o controle laborioso houvesse sido danificada (por exemplo, se estivesse bêbado).

O Sistema 1 e o Sistema 2 são tão centrais à história que conto neste livro que devo deixar absolutamente claro que se tratam de personagens fictícios. Sistemas 1 e 2 não são sistemas no sentido clássico de entidades com aspectos ou partes que interagem. E não há nenhuma parte do cérebro que um ou outro sistema chamaria de lar. Você pode muito bem perguntar: Qual a finalidade de introduzir personagens fictícios com nomes horríveis num livro sério? A resposta é que os personagens são úteis devido a determinadas peculiaridades de nossas mentes, a sua e a minha. Uma sentença é compreendida mais facilmente se descreve o que um agente (o Sistema 2) faz do que se descreve o que determinada coisa é, quais propriedades ela tem. Em outras palavras, o “Sistema 2” é um sujeito melhor para uma sentença do que a expressão “aritmética mental”. A mente — sobretudo o Sistema 1 — parece dotada de uma competência especial para a construção e interpretação de histórias sobre agentes ativos, que têm personalidades, hábitos e capacidades. Você formou rapidamente uma má opinião do mordomo ladrão, está esperando mais comportamento inadequado vindo dele e vai se lembrar dele por algum tempo. É o que espero que aconteça também com a linguagem dos sistemas.

Por que chamá-los de Sistema 1 e Sistema 2 em vez de termos mais descritivos como “sistema automático” e “sistema oneroso”? O motivo é simples: “Sistema automático” leva mais tempo

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