Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 32 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

31 - Políticas de Risco

FALANDO DE EVENTOS RAROS

“Tsunamis são muito raros no Japão, mas a imagem é tão vívida e poderosa que os turistas tendem a superestimar sua probabilidade.”

“É o familiar ciclo do desastre. Começa com o exagero e o peso excessivo, depois a negligência aparece.”

“Não deveríamos nos concentrar em um único cenário, ou iremos superestimar sua probabilidade. Vamos determinar alternativas específicas e fazer as probabilidades somarem 100%.”

“Eles querem que as pessoas se preocupem com o risco. É por isso que o descrevem como uma morte por mil. Estão contando com a negligência com o denominador.”

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POLÍTICAS DE RISCO

Imagine que você enfrenta o seguinte par de decisões conflitantes. Primeiro, examine ambas as decisões, depois faça suas escolhas.

Decisão (i): Escolha entre

A. ganho seguro de 240 dólares

B. 25% de chance de ganhar mil dólares e 75% de chance de não ganhar

nada

Decisão (ii): Escolha entre

C. perda segura de 750 dólares D. 75% de chance de perder mil dólares e 25% de chance de não perder

nada

Esse par de problemas de escolha tem um lugar importante na história da teoria da perspectiva, e tem coisas novas a nos dizer sobre racionalidade. Conforme você lia rapidamente os dois problemas, sua reação inicial às coisas seguras (A e C) foi atração pela primeira e aversão à segunda. A avaliação emocional de “ganho seguro” e “perda segura” é uma reação automática do Sistema 1, o que certamente ocorre antes do cálculo mais trabalhoso (e opcional) dos valores esperados das duas apostas (respectivamente, um ganho de 250 dólares e uma perda de 750). As escolhas da maioria das pessoas correspondem às predileções do Sistema 1, e a grande maioria prefere A a B e D a C. Como em muitas outras escolhas que envolvem probabilidades moderadas ou elevadas, as pessoas tendem a ser avessas ao risco no domínio dos ganhos e atraídas pelo risco no domínio das perdas. No experimento original que Amos e eu fizemos, 73% dos voluntários escolheram A na decisão (i) e D na decisão (ii) e apenas 3% favoreceram a combinação de B e C.

Foi pedido a você que examinasse ambas as opções antes de fazer sua primeira escolha, e você provavelmente fez isso. Mas uma coisa que certamente não fez foi: você não calculou os resultados possíveis das quatro combinações de escolhas (A e C, A e D, B e C, B e D) para determinar de que combinação mais gosta. Suas preferências separadas para os dois problemas foram intuitivamente instigantes e não havia motivo para esperar que levassem a uma dificuldade. Além do mais, combinar os dois problemas decisórios é um exercício laborioso que lhe exigiria papel e lápis para executar. Você não fez isso. Agora considere o seguinte problema de escolha:

AD. 25% de chance de ganhar 240 dólares e 75% de chance de perder 760 dólares BC. 25% de chance de ganhar 250 dólares e 75% de chance de perder 750 dólares

A escolha é fácil! A opção BC1 na verdade domina a opção AD (o termo técnico para uma opção ser inequivocamente melhor do que outra). Você já sabe o que vem em seguida. A opção dominante em AD é a combinação das duas opções rejeitadas no primeiro par de problemas de decisão, aquela que apenas 3% dos pesquisados favoreceram em nosso estudo original. A opção inferior BC foi preferida por 73% dos pesquisados.

AMPLO OU ESTREITO?

Esse conjunto de escolhas tem muito a nos dizer sobre os limites da racionalidade humana.

Para começar, ele nos ajuda a ver a consistência lógica das preferências humanas pelo que elas são — uma miragem impossível. Dê mais uma olhada no último problema, o mais fácil.

Você teria imaginado a possibilidade de decompor esse óbvio problema de escolha em um par de problemas que levaria uma grande maioria de pessoas a escolher uma opção inferior? Isso é verdadeiro de um modo geral: toda escolha simples formulada em termos de ganhos e perdas pode ser desconstruída de maneiras inumeráveis em uma combinação de escolhas, produzindo preferências que provavelmente são inconsistentes.

O exemplo mostra também que é custoso ficar avesso ao risco para ganhos e atraído pelo risco para perdas. Essas atitudes deixam você predisposto a pagar um prêmio para obter um ganho seguro em vez de enfrentar uma aposta, e também disposto a pagar um prêmio (em valor esperado) para evitar uma perda certa. Ambos os pagamentos saem do mesmo bolso e quando você enfrenta ambos os tipos de problema de uma só vez, as atitudes discrepantes dificilmente serão ideais.

Havia duas maneiras de construir as decisões (i) e (ii):

• enquadramento estreito ( narrow framing): uma sequência de duas decisões simples, consideradas separadamente • enquadramento amplo ( broad framing): uma única decisão abrangente, com quatro opções

O enquadramento amplo era obviamente superior nesse caso. De fato, ele vai ser superior (ou pelo menos não inferior) em todo caso em que diversas decisões tiverem de ser contempladas juntas. Imagine uma lista mais longa de cinco decisões simples (binárias) a serem consideradas simultaneamente. O enquadramento amplo (abrangente) consiste em uma única escolha com 32 opções. O enquadramento estreito produz uma sequência de cinco escolhas simples. A sequência de cinco escolhas será uma das 32 opções do quadro amplo. Será a melhor? Talvez, mas não é muito provável. Um agente racional sem dúvida vai se empenhar no enquadramento amplo, mas os Humanos são enquadradores estreitos por natureza.

O ideal de consistência lógica, como mostra o exemplo, não pode ser atingido por nossa mente limitada. Como somos suscetíveis a WYSIATI e avessos ao esforço mental, tendemos a tomar decisões à medida que os problemas surgem, mesmo quando especificamente instruídos

a considerá-los conjuntamente. Não temos nem a inclinação, nem os recursos mentais para inculcar consistência em nossas preferências, e nossas preferências não são magicamente ajustadas para serem coerentes, como é o caso do modelo de agente racional.

O PROBLEMA DE SAMUELSON

Há um famoso episódio em que o grande Paul Samuelson — um gigante entre os economistas do século XX — perguntou a um amigo se este aceitaria uma aposta na moeda em que poderia perder cem dólares ou ganhar duzentos dólares. O amigo respondeu: “Não, porque eu ia sentir mais a perda de cem dólares do que o ganho de duzentos. Mas aceito seu desafio se você me prometer fazer a aposta mais cem vezes.” A menos que você seja um teórico da decisão, provavelmente partilha da intuição do amigo de Samuelson de que disputar um jogo muito favorável mas arriscado inúmeras vezes reduz o risco subjetivo. Samuelson achou a resposta de seu amigo interessante e resolveu analisá-la. Ele demonstrou que sob condições muito especiais, um maximizador de utilidade que rejeite uma única aposta também deve rejeitar o oferecimento de várias.

Surpreendentemente, Samuelson não pareceu se importar com o fato de que sua demonstração, que sem dúvida é válida, levava a uma conclusão que viola o bom-senso, quando não a racionalidade: a oferta de cem apostas é tão atraente que nenhuma pessoa em sã consciência a rejeitaria. Matthew Rabin e Richard Thaler observaram que “a disputa agregada de cem apostas 50–50 perder cem dólares/ganhar duzentos dólares traz um retorno esperado de 5 mil dólares, com uma chance de apenas 1/2.300 de perder algum dinheiro e uma chance de meramente 1/62.000 de perder mais do que mil dólares”. O argumento deles, é claro, é que se a teoria da utilidade pode ser consistente com uma preferência tão tola sob tais circunstâncias, então alguma coisa deve estar errada com ela enquanto modelo de escolha racional. Samuelson não vira a demonstração feita por Rabin das consequências absurdas de grave aversão à perda para apostas pequenas, mas ele sem dúvida não teria se surpreendido com ela. Sua predisposição a até mesmo considerar a possibilidade de que poderia ser racional rejeitar o pacote comprova a poderosa influência do modelo racional.

Presumamos que uma função de valor muito simples descreva as preferências do amigo de Samuelson (vamos chamá-lo de Sam). Para expressar sua aversão a perdas, Sam primeiro reformula a aposta, depois de multiplicar cada perda por um fator de 2. Ele então calcula o valor esperado da aposta reformulada. Eis aqui os resultados, para um, dois ou três lances de moeda. Eles são suficientemente instrutivos para merecer algum esforço dilatador da pupila.

Valor

Esperado

Um lance

(50% perder 100; 50% ganhar 200)

50

Perdas dobradas (50% perder 200; 50% ganhar 200)

0

Dois lances

(25% perder 200; 50% ganhar 100; 25% ganhar 400)

100

Perdas dobradas (25% perder 400; 50% ganhar 100; 25% ganhar 400)

50

Três lances

(12,5% perder 300; 37,5% ganhar 0; 37,5% ganhar 300; 12,5% ganhar 600) 150

Perdas dobradas (12,5% perder 600; 37,5% ganhar 0; 37,5% ganhar 300; 12,5% ganhar 600) 112,5

Você pode ver no quadro que a aposta apresentou um valor esperado de 50. Entretanto, um lance não vale coisa alguma para Sam porque ele sente que a dor de perder um dólar é duas vezes mais intensa que o prazer de ganhar um dólar. Após reformular a aposta para refletir sua aversão à perda, Sam vai descobrir que o valor da aposta é 0.

Agora considere dois lances. As chances de perder caíram para 25%. Os dois resultados extremos (perder 200 ou ganhar 400) se cancelam em valor; eles são igualmente prováveis, e o peso das perdas equivale a duas vezes o ganho. Mas o resultado intermediário (uma perda, um ganho) é positivo, e igualmente o é a aposta combinada como um todo. Agora você pode ver o custo do enquadramento estreito e a mágica de apostas agregadas. Eis aqui duas apostas favoráveis, que individualmente não valem nada para Sam. Se ele encontra a oferta em duas ocasiões separadas, vai rejeitá-la em ambas as oportunidades. Porém, se as duas apostas vem num pacote, elas valem juntas cinquenta dólares!

As coisas ficam ainda melhores quando três apostas compõem o pacote. Os três resultados ainda se cancelam, mas eles se tornaram menos significativos. O terceiro lance, embora sem valor se avaliado em si mesmo, acrescentou 62,50 dólares ao valor total do pacote. Quando Sam estiver diante de cinco apostas, o valor esperado da oferta será de 250 dólares, sua probabilidade de perder alguma coisa será de 18,75% e seu equivalente monetário será de 203,125 dólares. O aspecto notável dessa história é que Sam nunca vacila em sua aversão a perdas. Porém, a agregação de apostas favoráveis rapidamente reduz a probabilidade de perder, e o impacto da aversão à perda em suas preferências decresce de acordo.

Agora tenho um sermão pronto para Sam se ele rejeitar a oferta de uma única aposta altamente favorável jogada uma única vez, e para você, caso partilhe da irracional aversão a perdas dele:

Sou solidário com sua aversão à perda em qualquer aposta, mas isso está lhe custando um bocado de dinheiro. Por favor, considere a seguinte questão: Por acaso você está em seu leito de morte? Esta é a última oferta de uma pequena aposta favorável que vai poder considerar? Claro, é pouco provável que lhe seja oferecida exatamente essa mesma aposta outra vez, mas você terá muitas oportunidades de considerar apostas atraentes com valores que são muito pequenos relativamente à sua riqueza. Você pode fazer para si mesmo um grande favor financeiro se for capaz de ver cada uma dessas apostas como parte de um pacote de pequenas apostas e ensaiar o mantra que o deixará significativamente mais próximo da racionalidade econômica: ganhe algumas, perca algumas. A principal finalidade do mantra é controlar sua reação emocional quando vier a perder. Se acha que será eficaz, você pode lembrar a si mesmo disso quando decidir entre aceitar ou não um pequeno risco com valor esperado positivo. Lembre-se desses requisitos ao usar o mantra:

• Ele funciona quando as apostas são genuinamente independentes umas das outras: não se aplica a múltiplos investimentos na mesma empreitada, caso em que iriam todos mal, conjuntamente.

• Funciona apenas quando a perda possível não faz com que você se preocupe com sua riqueza total. Se você interpreta a perda como uma notícia significativamente ruim para seu futuro econômico, fique alerta!

• Não deve ser aplicado a tentativas com pouca chance de sucesso, onde a probabilidade de vencer é muito pequena para cada aposta.

Se você for dotado da disciplina emocional que essa regra exige, jamais vai considerar uma aposta pequena isoladamente ou se mostrar avesso à perda para uma aposta pequena até que esteja de fato em seu leito de morte — e nem mesmo aí.

Esse conselho não é impossível de seguir. Homens de negócios experientes em mercado financeiro vivem segundo ele dia após dia, protegendo-se da dor das perdas por intermédio de um enquadramento amplo. Como mencionado anteriormente, hoje sabemos que voluntários de experimentos podem ser quase curados de sua aversão à perda (em um contexto particular) sendo induzidos a “pensar como um investidor”, assim como negociantes de cartões de beisebol experientes não são tão suscetíveis ao efeito dotação quanto os novatos. Estudantes tomam decisões arriscadas (para aceitar ou rejeitar apostas em que poderiam perder) sob instruções diferentes. Na condição de enquadramento estreito, eles foram instruídos a “tomar cada decisão como se fosse a única” e aceitar suas emoções. As instruções para enquadramento amplo de uma decisão incluem as expressões “imagine-se como um investidor”, “você faz isso o tempo todo” e “trate o caso como uma de inúmeras decisões monetárias, que irão se somar para produzir um ‘portfólio’”. Os pesquisadores aferiram a reação emocional a ganhos e perdas dos voluntários do experimento por meio de medições fisiológicas, incluindo alterações na condutividade elétrica da pele que são utilizadas pelos detectores de mentira. Como esperado, o enquadramento amplo embotou a reação emocional a perdas e aumentou a predisposição a assumir riscos.

A combinação de aversão a perda e enquadramento estreito é uma maldição custosa.

Investidores individuais podem evitar essa maldição, conquistando os benefícios emocionais do enquadramento amplo ao mesmo tempo em que poupam tempo e sofrimento, ao reduzir a frequência com que verificam até que ponto seus investimentos estão indo bem. Seguir de perto as flutuações diárias é um convite ao fracasso, pois a dor das pequenas perdas frequentes excede o prazer dos igualmente frequentes pequenos ganhos. Uma vez por trimestre é suficiente, e talvez seja mais do que suficiente para investidores individuais. Além de melhorar a qualidade de vida emocional, evitar deliberadamente se expor a resultados de curto prazo melhora a qualidade tanto das decisões como dos resultados. A típica reação de curto prazo a uma notícia ruim é o aumento da aversão à perda. Investidores que aguardam um

feedback agregado recebem essas notícias ruins com frequência muito menor e tendem a se mostrar menos avessos ao risco, e acabam ficando mais ricos. Há uma probabilidade menor também de comprometer desnecessariamente seu portfólio se você se abstém de saber diariamente (ou toda semana, ou mesmo todo mês) a quantas andam suas ações. Um comprometimento de não mudar de posição por vários períodos (o equivalente a “fechar” um

investimento2) melhora o desempenho financeiro.

POLÍTICAS DE RISCO

Os tomadores de decisão propensos ao enquadramento estreito desenvolvem uma preferência toda vez que enfrentam uma escolha arriscada. Melhor fariam se mantivessem uma política de risco que aplicassem rotineiramente sempre que um problema relevante surgisse. Exemplos familiares de políticas de risco são “sempre pegue a franquia mais elevada possível ao adquirir um seguro” e “nunca compre garantias estendidas”. Uma política de risco é um quadro amplo. Nos exemplos de seguro, você espera a perda ocasional da franquia inteira, ou a falha ocasional de um produto não segurado. A questão relevante é sua capacidade de reduzir ou eliminar a dor da perda ocasional com o pensamento de que a política que o deixou exposto a ela irá com quase toda certeza ser financeiramente vantajosa no longo prazo.

Uma política de risco que agregue decisões é análoga à visão de fora dos problemas de planejamento que discuti anteriormente. A visão de fora muda o foco das especificidades da situação corrente para as estatísticas de resultados em situações semelhantes. A visão de fora é um quadro amplo para pensar acerca de planos ou projetos. Uma política de risco é um quadro amplo que embute uma escolha arriscada particular em uma série de escolhas semelhantes.

A visão de fora e a política de risco são remédios contra dois vieses distintos que afetam muitas decisões: o otimismo exagerado da falácia do planejamento e a precaução exagerada induzida pela aversão à perda. Os dois vieses se opõem um ao outro. O otimismo exagerado protege os indivíduos e as organizações dos efeitos paralisantes da aversão à perda; a aversão à perda os protege das sandices do otimismo superconfiante. O desfecho é um tanto confortável para o tomador de decisão. Os otimistas acreditam que as decisões que tomam são mais prudentes do que realmente são, e tomadores de decisão avessos à perda rejeitam corretamente propostas marginais que de outro modo talvez aceitariam. Não há garantia, é claro, de que os vieses se cancelem reciprocamente em qualquer situação. Uma organização capaz de eliminar tanto o otimismo excessivo como a excessiva aversão à perda deve fazê-lo.

A combinação da visão de fora com uma política de risco deve ser a meta.