Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 39 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

38 - Pensando Sobre a Vida

FALANDO DE BEM-ESTAR EXPERIMENTADO

“A meta das políticas públicas deve ser a redução do sofrimento humano. Objetivamos um índice U mais baixo na sociedade.

Lidar com a depressão e a pobreza extrema deve ser uma prioridade.”

“O modo mais fácil de aumentar a felicidade é controlar seu uso do tempo. Você consegue achar mais tempo para fazer as coisas de que gosta?”

“Quando você ultrapassa o nível de rendimento da saciedade, pode adquirir mais experiências prazerosas, mas vai perder parte de sua capacidade de usufruir as menos caras.”

27 U-index, no original, de unpleasant state. (N. do T.)

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PENSANDO SOBRE A VIDA

A figura 16 é tirada de uma análise de Andrew Clark, Ed Diener e

Yannis Georgellis, do Painel Socioeconômico Alemão1, em que se perguntou a um mesmo grupo de pessoas todos os anos sobre seu grau de satisfação com a própria vida. Os participantes relataram também grandes mudanças que haviam ocorrido em sua condição de vida durante o ano precedente. O

gráfico mostra o nível de satisfação relatado pelas pessoas próximo à época em que se casaram.

Figura 16

O gráfico inevitavelmente provoca risadas nervosas nas plateias, e o nervosismo é fácil de compreender: afinal, pessoas que decidem se casar o fazem ou porque esperam que isso as torne mais felizes ou porque esperam que a criação de um laço permanente irá manter o presente estado de felicidade. Para usar um termo útil introduzido por Daniel Gilbert e Timothy Wilson, a decisão de se casar reflete,

para muitas pessoas, um erro brutal de previsão afetiva2 ( affective forecasting). No dia do casamento, a noiva e o noivo sabem que a taxa de divórcio é elevada e que a incidência de decepção com o cônjuge é ainda mais elevada, mas não acreditam que essas estatísticas se apliquem a eles.

A novidade chocante da figura 16 é o declínio abrupto da satisfação com a vida. O gráfico é comumente interpretado como investigando um processo de adaptação, em que as primeiras alegrias do casamento rapidamente desaparecem à medida que a experiência se torna rotineira. Porém, outra abordagem é possível, a qual foca nas heurísticas de julgamento. Aqui perguntamos o que acontece na cabeça das pessoas quando lhes pedimos para avaliar sua vida. As perguntas “Até que ponto você está satisfeito com sua vida como um todo?” e “Até que ponto você está feliz hoje em dia?” não são tão simples quanto “Qual é o seu número de telefone?”. De que maneira os participantes do estudo conseguem responder a questões assim em poucos segundos, como todos fazem? Ajudará se você pensar nisso como outro julgamento.

Como é também o caso para outras questões, algumas pessoas talvez já tenham uma resposta pronta, que formularam em outra ocasião em que avaliaram sua vida. Outros, provavelmente a maioria, não encontra rapidamente uma resposta para a pergunta exata que lhes foi feita, e automaticamente tornam sua tarefa mais fácil com a substituição, dando a resposta para outra pergunta. O Sistema 1 está em operação. Quando olhamos para a figura 16 sob essa luz, ela assume um significado diferente.

As respostas para muitas questões simples podem ser colocadas no lugar de uma avaliação global da vida. Lembre-se do levantamento em que estudantes a quem fora perguntado quantos encontros haviam tido no mês anterior relataram sobre sua “felicidade ultimamente” como se sair com alguém fosse o único fato

significativo em suas vidas3. Em outro conhecido experimento nessa mesma linha, Norbert Schwarz e seus colegas convidaram os voluntários ao laboratório para preencher um questionário sobre seu

grau de satisfação com a vida4. Antes que iniciassem a tarefa, porém, ele lhes pedia para fotocopiar uma folha de papel para ele. Metade dos participantes encontrava uma moeda de dez centavos sobre a máquina, plantada ali pelo pesquisador. O pequeno episódio de sorte ocasionava uma melhoria notável no grau de satisfação com a vida como um todo informado pelos participantes! Uma heurística do humor é um modo de responder a perguntas sobre satisfação com a vida.

O estudo dos encontros e o experimento da moeda-sobre-a-máquina demonstrou, como se pretendia, que as respostas a questões de bem-estar global devem ser recebidas com um pé atrás. Mas é claro que seu presente humor não é a única coisa que vem à sua mente quando lhe pedem para avaliar sua vida. Você provavelmente irá recordar eventos significativos em seu passado recente ou num futuro próximo; preocupações recorrentes, como a saúde do cônjuge ou as más companhias com que sua filha adolescente anda; realizações importantes e fracassos dolorosos. Algumas ideias que são relevantes à pergunta irão lhe ocorrer; muitas outras, não.

Mesmo quando não influenciado por acidentes completamente irrelevantes, como a moeda na máquina, o placar que você rapidamente atribui a sua vida é determinado por uma pequena amostra de ideias altamente disponíveis, não por uma cuidadosa ponderação dos domínios de sua vida.

Pessoas que se casaram recentemente, ou que estão esperando se casar num futuro próximo, provavelmente se lembrarão do fato quando lhes for feita uma pergunta geral sobre sua vida.

Como o casamento é quase sempre voluntário nos Estados Unidos, quase todo mundo que é lembrado de seu casamento recente ou iminente ficará feliz com a ideia. Atenção é a chave do enigma. A figura 16 pode ser lida como um gráfico da probabilidade de que as pessoas pensarão em seu casamento recente ou próximo quando lhes for perguntado sobre sua vida. A proeminência desse pensamento está fadada a diminuir com a passagem do tempo, conforme seu caráter de novidade minguar.

A figura mostra um nível anormalmente alto de satisfação com a vida que dura dois ou três anos em torno da ocorrência do casamento. Entretanto, se esse aparente pico reflete o transcorrer de tempo de uma heurística para responder à questão, há pouco que podemos

aprender com ele, seja sobre felicidade, seja sobre o processo de adaptação ao casamento.

Não podemos inferir a partir disso que uma maré de felicidade aumentada dura por vários anos e gradualmente recua. Mesmo pessoas que ficam felizes de recordar seu casamento quando lhes fazemos uma pergunta sobre sua vida não necessariamente ficam felizes o resto do tempo. A menos que tenham pensamentos felizes sobre seu casamento durante grande parte do dia, isso não vai influenciar diretamente sua felicidade. Até mesmo recém-casados que são sortudos o bastante para gozar de um estado de feliz preocupação com seu amor mútuo acabarão por voltar à terra, e seu bem-estar experimentado mais uma vez irá depender, como é o caso com o resto de nós, do ambiente e das atividades do presente momento.

Nos estudos do DRM, não há diferença global no bem-estar experimentado entre as mulheres que conviveram com um parceiro e as que não conviveram. Os detalhes de como os dois grupos usavam seu tempo explicou a constatação. Mulheres que têm um parceiro passam menos tempo sozinhas, mas também muito menos tempo com amigos. Elas passam mais tempo fazendo amor, o que é ótimo, mas também mais tempo executando serviço doméstico, preparando comida e cuidando dos filhos, todas atividades relativamente impopulares. E é claro que a grande quantidade de tempo que mulheres casadas passam com seus maridos é muito mais agradável para algumas do que para outras. O bem-estar experimentado na média não é influenciado pelo casamento, não porque o casamento não faz diferença para a felicidade, mas porque ele muda determinados aspectos da vida para melhor, e outros para pior.

Um dos motivos para as baixas correlações entre as circunstâncias dos indivíduos e sua satisfação com a vida é que tanto a felicidade vivenciada como a satisfação com a vida são amplamente determinadas pela genética do temperamento. A disposição para o bem-estar é uma característica tão hereditária quanto altura ou inteligência, como demonstrado por estudos de gêmeos separados no nascimento. Pessoas que parecem igualmente afortunadas variam enormemente no grau de felicidade. Em alguns casos, como no casamento, as correlações com o bem-estar são baixas devido aos efeitos de equilíbrio. A mesma situação pode ser boa para algumas pessoas e ruim para outras, e novas circunstâncias apresentam tanto benefícios como custos. Em outros casos, como renda elevada, os efeitos sobre a satisfação com a vida são de modo geral positivos, mas o panorama é complicado pelo fato de que algumas pessoas ligam muito mais para dinheiro do que outras.

Um estudo em grande escala do impacto da educação superior, que foi conduzido para outras finalidades, revelou evidências surpreendentes dos efeitos permanentes das metas que pessoas

jovens estabelecem para si5. Os dados relevantes foram extraídos de questionários colhidos em 1995-1997 de aproximadamente 12 mil pessoas que haviam começado o ensino superior em faculdades de elite em 1976. Quando tinham 17 ou 18 anos, os participantes haviam preenchido um questionário em que classificaram a meta de “ser muito bem-sucedido

financeiramente” 6 em uma escala de 4 pontos, indo de “não é importante” a “essencial”. O

questionário que eles completaram vinte anos depois incluía medições de seu rendimento em 1995, bem como uma medição global de satisfação com a vida.

Metas fazem uma grande diferença. Dezenove anos após terem declarado suas aspirações financeiras, muitas pessoas que desejavam uma renda alta haviam conseguido obtê-la. Entre os 597 médicos e outros profissionais de medicina na mesma amostra, por exemplo, cada ponto adicional na escala de importância do dinheiro estava associado a um incremento de mais de 14 mil dólares de renda no trabalho, em dólares de 1995! Mulheres casadas que não trabalhavam também tendiam a exibir satisfação com suas ambições financeiras. Cada ponto na escala se traduzia em mais de 12 mil dólares de renda doméstica somada para essas mulheres, evidentemente por intermédio dos ganhos de seus esposos.

A importância que as pessoas atribuíam à renda aos 18 anos também antecipava a satisfação delas com sua renda quando adultas. Comparamos a satisfação de vida em um grupo de renda elevada (mais de 200 mil dólares de renda doméstica) com um grupo de renda entre baixa e moderada (menos de 50 mil dólares). O efeito da renda na satisfação da vida foi maior para os que haviam apontado o sucesso financeiro como meta essencial: 0,57 ponto numa escala de 5 pontos. A diferença correspondente para os

que haviam indicado que dinheiro não era importante7 era apenas 0,12. As pessoas que queriam dinheiro e conseguiram estavam significativamente mais satisfeitas do que a média; as que queriam dinheiro e não conseguiram estavam significativamente mais insatisfeitas. O mesmo princípio se aplica a outras metas —

uma receita para uma idade adulta insatisfeita é estabelecer metas que sejam particularmente difíceis de atingir. Medida pela satisfação de vida vinte anos depois, a meta menos promissora que uma pessoa jovem podia ter tido era “mostrar talento em alguma arte”. As metas da adolescência influenciam o que acontece com as pessoas, aonde vão chegar e até que ponto estão satisfeitas.

Em parte devido a essas descobertas, mudei de ideia sobre a definição de bem-estar. As metas que as pessoas estabelecem para si são tão importantes para o que elas fazem e para como se sentem em relação a isso que um foco exclusivo no bem-estar experimentado não se sustenta. Não podemos defender um conceito de bem-estar que ignore o que as pessoas querem. Por outro lado, também é verdade que um conceito de bem-estar que ignore como as pessoas se sentem enquanto vivem e se concentre apenas em como se sentem quando pensam a respeito de sua vida também é insustentável. Temos de aceitar as complexidades de uma visão híbrida, em que o bem-estar de ambos os eus seja considerado.

A ILUSÃO DE FOCO

Podemos inferir pela velocidade com que as pessoas respondem a perguntas sobre sua vida, e pelas impressões do atual humor em suas respostas, que elas não se empenham em um exame cuidadoso quando avaliam sua vida. Elas devem estar utilizando heurísticas, que são exemplos tanto de substituição como de WYSIATI. Embora a visão que têm de suas vidas

tenha sido influenciada por uma pergunta sobre encontros amorosos ou por uma moeda na máquina de xerox, os participantes nesses estudos não esquecem que há outras coisas na vida além de sair com alguém ou se sentir sortudo. O conceito de felicidade não é subitamente alterado por achar dez centavos, mas o Sistema 1 prontamente substitui sua totalidade por uma pequena parte dele. Qualquer aspecto da vida para o qual a atenção é dirigida assomará como grande numa avaliação global. Isso é a essência da ilusão de foco ( focusing illusion), que pode ser descrita numa única frase:

Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é quando você está pensando a respeito.

A origem dessa ideia foi uma discussão em família sobre uma mudança da Califórnia para Princeton, em que minha esposa alegou que as pessoas são mais felizes na Califórnia do que na Costa Leste. Argumentei que o clima comprovadamente não é um determinante importante do bem-estar — os países escandinavos estão provavelmente entre os mais felizes do mundo.

Observei que circunstâncias de vida permanentes têm pouco efeito sobre o bem-estar e tentei em vão convencer minha esposa de que

suas intuições sobre a felicidade dos californianos8 era um erro de previsão afetiva.

Pouco tempo depois, com essa discussão ainda em mente, participei de um workshop sobre a ciência social do aquecimento global. Um colega apresentou um argumento que estava baseado em sua visão do bem-estar da população do planeta Terra no próximo século.

Argumentei que era absurdo prever como seria viver em um planeta mais quente quando não sabemos sequer como é viver na Califórnia. Pouco depois dessa conversa, meu colega David Schkade e eu recebemos fundos de pesquisa para estudar duas questões: Será que as pessoas que vivem na Califórnia são mais felizes do que as outras?, e: Quais são as crenças populares sobre a felicidade relativa dos californianos?

Recrutamos grandes amostras de estudantes de importantes universidades estaduais da Califórnia, Ohio e Michigan. Com alguns deles obtivemos um relato detalhado de sua satisfação com vários

aspectos de sua vida9. Com outros obtivemos uma predição de como alguém “com seus interesses e valores”, que morou em algum outro lugar, completaria o mesmo questionário.

Enquanto analisávamos os dados, ficou óbvio que eu vencera o

debate familiar10. Como esperado, os estudantes nas duas regiões diferiram enormemente em sua atitude para com o próprio clima: os californianos apreciavam seu clima e os moradores do Meio-Oeste desprezavam o deles. Mas o clima não era um determinante importante do bem-estar. Na verdade, não havia a menor diferença entre o grau de satisfação com a vida dos estudantes da Califórnia e

do Meio-Oeste11. Descobrimos também que minha esposa não estava sozinha em sua crença de que os californianos gozam de maior bem-estar que os demais. Estudantes em ambas as regiões partilhavam da mesma visão equivocada, e fomos capazes de verificar que seu erro estava ligado a uma crença exagerada na importância do clima. Descrevemos o erro

como uma ilusão de foco.

A essência da ilusão de foco é WYSIATI, dar peso demais ao clima, e de menos a todos os demais determinantes do bem-estar. Para apreciar até que ponto essa ilusão é forte, tire alguns segundos para considerar a questão:

Quanto prazer você tem com seu carro?

Uma resposta lhe veio à mente de imediato; você sabe quanto gosta e usufrui de seu carro.

Agora examine uma pergunta diferente: “Quando você tem prazer

com seu carro?” 12A resposta a essa pergunta pode surpreendê-lo, mas é inequívoca: você obtém prazer (ou desprazer) com seu carro quando pensa no seu carro, o que provavelmente não ocorre com muita frequência. Sob circunstâncias normais, você não passa muito tempo pensando sobre seu carro quando o está dirigindo. Você pensa em outras coisas quando dirige, e seu humor é determinado por qualquer coisa em que você esteja pensando. Aqui, mais uma vez, quando tentou classificar quanto gostava de seu carro, você na verdade respondeu a uma questão bem mais restrita: “Quanto prazer você tem com seu carro quando pensa sobre ele?” A substituição o levou a ignorar o fato de que você raramente pensa sobre seu carro, uma forma de negligência com a duração. O resultado é uma ilusão de foco. Se você gosta de seu carro, é provável que exagere o prazer que extrai dele, o que vai enganá-lo quando pensar nas virtudes de seu atual veículo, bem como quando contemplar a compra de um novo.

Um viés similar distorce julgamentos sobre as felicidades dos californianos. Quando lhe perguntam sobre a felicidade dos californianos, você provavelmente invoca uma imagem de alguém tomando parte em algum aspecto distintivo da experiência de viver na Califórnia, como caminhar no verão ou admirar o ameno clima de inverno. A ilusão de foco surge porque os californianos na verdade passam pouco tempo envolvidos nesses aspectos de sua vida.

Além do mais, californianos de longa data dificilmente vão pensar no clima quando lhes for solicitada uma avaliação global de suas vidas. Se você morou lá toda a sua vida e não viaja muito, viver na Califórnia é como ter dez dedos nos pés: bom, mas não é algo a que se dê grande atenção. Pensamentos de qualquer aspecto da vida têm maior probabilidade de serem proeminentes se uma alternativa contrastante está altamente disponível.

Pessoas que se mudaram recentemente para a Califórnia vão responder de forma diferente.

Considere uma pessoa arrojada que se mudou de Ohio para buscar a felicidade em um clima melhor. Durante alguns anos após se mudar, uma pergunta sobre sua satisfação com a vida provavelmente o lembrará da mudança e também evocará pensamentos dos climas contrastantes nos dois estados. A comparação certamente favorecerá a Califórnia, e a atenção a esse aspecto da vida talvez distorça seu verdadeiro peso em experiência. Contudo, a ilusão de foco também pode trazer conforto. Estando ou não de fato feliz após a mudança, o indivíduo relatará que está mais feliz, pois pensamentos sobre o clima vão fazer com que acredite estar. A ilusão de foco pode levar as pessoas a se enganar sobre seu presente estado de bem-estar, bem como sobre a felicidade dos outros, e sobre sua própria felicidade no

futuro.

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Que proporção do dia paraplégicos passam de mau humor?

Essa pergunta quase certamente fez você pensar em um paraplégico que no momento está pensando em algum aspecto de sua condição. Sua conjectura sobre o humor de um paraplégico portanto será provavelmente acertada nos primeiros dias após o acidente que o deixou inválido; durante algum tempo após o evento, vítimas de acidente quase não pensam em outra coisa. Mas, com o tempo, com poucas exceções, a atenção sempre se afasta de uma nova situação à medida que ela se torna mais familiar. As principais exceções são dor crônica, exposição constante a ruído alto e depressão severa. Dor e ruído são biologicamente ajustados como sinais para chamar a atenção, e a depressão envolve um ciclo autorreforçador de pensamentos infelizes. Desse modo não há adaptação para essas condições. A paraplegia, porém, não é uma das exceções: observações detalhadas revelam que os paraplégicos exibem razoável bom humor mais da metade do tempo já um mês após seu acidente — embora o humor deles fique

certamente sombrio quando pensam em sua situação14. Na maior parte do tempo, porém, os paraplégicos trabalham, leem, divertem-se com piadas e com os amigos e sentem raiva quando leem sobre política no jornal. Quando estão envolvidos em qualquer uma dessas atividades, não ficam muito diferentes de qualquer outra pessoa, e podemos esperar que o bem-estar experimentado dos paraplégicos seja quase normal na maior parte do tempo.

Adaptação a uma nova situação, tanto boa como má, consiste em grande parte em pensar cada vez menos a respeito. Nesse sentido, a maioria das circunstâncias de vida a longo prazo, incluindo paraplegia e casamento, são estados que a pessoa habita em período parcial, apenas quando presta atenção neles.

Um dos privilégios de lecionar em Princeton é a oportunidade de orientar alunos brilhantes na pesquisa de suas teses. E uma de minhas experiências preferidas nessa linha foi um projeto em que Beruria Cohn colheu e analisou dados de uma empresa de pesquisa que pedia aos consultados para estimar a proporção de tempo que os paraplégicos passavam de mau humor.

Ela dividiu os pesquisados em dois grupos: um era informado de que o acidente incapacitante ocorrera um mês antes, o outro, um ano antes. Além disso, cada participante dizia se conhecia um paraplégico pessoalmente. Os dois grupos mostraram ampla concordância em seu julgamento sobre os paraplégicos recentes: os que conheciam um paraplégico estimaram 75%

de mau humor; os que tiveram de imaginar um paraplégico disseram 70%. Por outro lado, os dois grupos diferiram acentuadamente em suas estimativas do humor dos paraplégicos um ano após os acidentes: os que conheciam um paraplégico sugeriram 41% como sua estimativa do tempo passado nesse mau humor. As estimativas dos que não estavam pessoalmente familiarizados com um paraplégico foram em média de 68%. Evidentemente, os que conheciam um paraplégico haviam observado o gradual afastamento de atenção de sua própria condição, mas outros não previram que essa adaptação ocorreria. Julgamentos sobre o humor

de ganhadores da loteria um mês e um ano após o evento mostraram exatamente o mesmo padrão.

Podemos esperar que a satisfação de vida entre paraplégicos e outras condições crônicas e opressivas seja baixa relativamente ao seu bem-estar experimentado, pois o pedido de que avaliem suas vidas os lembrará inevitavelmente da vida dos outros e da vida que costumavam levar. De forma consistente com essa ideia, estudos

recentes de pacientes de colostomia15 produziram inconsistências dramáticas entre o bem-estar experimentado dos pacientes e sua avaliação sobre as próprias vidas. A amostragem da experiência não exibe diferença em felicidade vivenciada entre esses pacientes e uma população saudável. E

contudo pacientes de colostomia estariam dispostos a trocar anos de sua vida por uma vida mais curta sem a colostomia. Além do mais, pacientes cuja colostomia foi revertida lembram de seu período nessa condição como horrível, e abririam mão ainda mais de sua vida restante para não ter de voltar a ela. Aqui parece que o eu recordativo está sujeito a uma ilusão de foco maciça sobre a vida que o eu experiencial suporta bastante confortavelmente.

Daniel Gilbert e Timothy Wilson adotaram a palavra miswanting28

16 para descrever as más escolhas surgidas de erros de previsão afetiva. Essa palavra merece entrar para o vocabulário cotidiano. A ilusão de foco (que Gilbert e Wilson chamam de focalismo) é uma rica fonte de miswanting. Em particular, ela nos torna propensos a exagerar o efeito de aquisições significativas ou circunstâncias alteradas em nosso futuro bem-estar.

Compare dois compromissos que vão mudar alguns aspectos de sua vida: comprar um confortável carro novo e integrar um grupo que se encontra semanalmente, digamos, para um jogo de pôquer ou um clube do livro. Ambas as experiências serão uma novidade e trarão empolgação no começo. A diferença crucial é que você acabará prestando pouca atenção no carro conforme o utiliza, mas sempre estará ligado na interação social com a qual se comprometeu. Por WYSIATI, você tende a exagerar os benefícios de longo prazo do carro, mas é improvável que cometa o mesmo equívoco com uma reunião social ou com atividades que inerentemente exigem sua atenção, como jogar tênis ou aprender a tocar violoncelo. A ilusão de foco cria um viés em favor dos bens e experiências que são inicialmente empolgantes, mesmo que no fim das contas eles percam seu apelo. O tempo é negligenciado, fazendo com que as experiências que irão conservar seu valor de atenção a longo prazo sejam menos apreciadas do que merecem.

O TEMPO TODO

O papel do tempo tem sido um refrão nesta parte do livro. É algo lógico descrever a vida do eu experiencial como uma série de momentos, cada um com um valor. O valor de um episódio

— tenho chamado isso de total de hedonímetro — é simplesmente a soma dos valores de seus momentos. Mas não é assim que a mente representa episódios. O eu recordativo, como o descrevi, também conta histórias e faz escolhas, e nem as histórias nem as escolhas representam o tempo de forma apropriada. No modo narrador de histórias, um episódio é

representado por alguns poucos momentos críticos, especialmente o início, o pico e o fim. A duração é negligenciada. Vimos esse foco em momentos singulares, tanto na situação da mão gelada como na história de Violetta.

Vimos uma diferente forma de negligência com a duração na teoria da perspectiva, em que um estado é representado pela transição para ele. Ganhar na loteria produz um novo estado de riqueza que vai durar por algum tempo, mas a utilidade de decisão corresponde à intensidade antecipada da reação à notícia de que a pessoa ganhou. A retirada de atenção e outras adaptações ao novo estado são negligenciadas, somente essa fina fatia de tempo é considerada. O mesmo foco na transição para o novo estado e a mesma negligência com o tempo e adaptação são encontrados em previsões da reação a doenças crônicas e, é claro, na ilusão de foco. O equívoco que as pessoas cometem na ilusão de foco implica dar atenção a momentos selecionados e negligenciar o que acontece em outros momentos. A mente é boa com histórias, mas não parece bem projetada para o processamento do tempo.

Durante os últimos dez anos, descobrimos muitos fatos sobre a felicidade. Mas descobrimos também que a palavra felicidade não possui um significado simples e não deve ser usada como se possuísse. Às vezes o progresso científico nos deixa mais confusos do que estávamos antes.

FALANDO DE PENSAR SOBRE A VIDA

“Ela pensava que comprar um carro bonito ia torná-la mais feliz, mas como se viu isso foi um erro de previsão afetiva.”

“O carro quebrou a caminho do trabalho hoje de manhã e ele ficou de mau humor. Esse não é um bom dia para lhe perguntar sobre sua satisfação com o emprego!”

“Ela parece bem alegre na maior parte do tempo, mas, quando alguém lhe pergunta, diz que está muito infeliz. Talvez perguntar faça com que pense em seu divórcio recente.”

“Comprar uma casa maior talvez não nos torne mais felizes a longo prazo. Podemos estar sofrendo uma ilusão de foco.”

“Ele optou por dividir seu tempo entre duas cidades. Provavelmente, foi um caso grave de miswanting.”