Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 23 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

22 - Intuição de Especialista: Quando Podemos Confiar?

FALANDO DE JULGAMENTOS VERSUS FÓRMULAS

“Sempre que podemos substituir o julgamento humano por uma fórmula, devemos ao menos levá-la em consideração.”

“Ele acha que seus julgamentos são complexos e sutis, mas uma combinação simples de pontuações provavelmente daria mais resultado.”

“Vamos decidir de antemão que peso atribuir aos dados que temos sobre o desempenho passado do candidato. De outro modo, daremos peso demais à nossa impressão com base nas entrevistas.”

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INTUIÇÃO DE ESPECIALISTA: QUANDO PODEMOS CONFIAR?

Controvérsias profissionais despertam o que há de pior nos acadêmicos. Periódicos científicos ocasionalmente publicam esses debates, muitas vezes começando com a crítica ao trabalho alheio, seguida de uma réplica e uma tréplica. Sempre achei esses debates uma perda de tempo. Principalmente quando a crítica original é feita em palavras duras, a réplica e a tréplica são muitas vezes exercícios no que costumo chamar de sarcasmo para iniciantes e sarcasmo avançado. As réplicas raramente fazem qualquer concessão a uma crítica mordaz, e quase nunca ouvi falar de uma tréplica que admita que a crítica original tenha sido mal dirigida ou de algum modo equivocada. Em algumas ocasiões respondi a críticas que achei grosseiramente enganosas, pois deixar de responder pode ser interpretado como admissão de erro, mas nunca achei trocas de hostilidades algo instrutivo. Procurando outra maneira de lidar com as discordâncias, empreendi algumas “colaborações entre adversários”, em que estudiosos que discordam sobre a ciência concordam em escrever um artigo em coautoria sobre suas diferenças, e às vezes conduzem uma pesquisa juntos. Em situações particularmente tensas, a pesquisa é moderada por um

árbitro1.

Minha colaboração mais gratificante e produtiva com um adversário foi com Gary Klein, o líder intelectual de uma associação de teóricos e práticos que não apreciam o tipo de trabalho que faço. Eles se intitulam estudiosos de Naturalistic Decision Making (Tomada de Decisão Naturalista), ou NDM, na sigla em inglês, e a maioria trabalha em organizações onde frequentemente estudam como os especialistas operam. Os NDMs rejeitam terminantemente o foco em vieses na abordagem de heurísticas e vieses. Criticam esse modelo como sendo abertamente voltado a fracassos e orientado antes por experimentos artificiais do que pelo estudo de pessoas reais fazendo coisas que importam. Eles são profundamente céticos sobre o valor de usar algoritmos rígidos para substituir o julgamento humano, e Paul Meehl não está entre seus heróis. Gary Klein tem

articulado essa posição2 com eloquência durante muitos anos.

Dificilmente podemos dizer que foi o início de uma bela amizade, mas a história não se resume a isso. Eu nunca acreditei que a intuição sempre induz a erro. Também tornei-me um admirador dos estudos de Klein sobre a perícia de bombeiros desde que vi o rascunho de um paper que ele escreveu na década de 1970, e fiquei impressionado com seu livro Fontes de poder, que em grande parte analisa como profissionais experientes desenvolvem habilidades intuitivas. Convidei-o para unirmos forças numa tentativa de mapear a fronteira que separa as maravilhas da intuição de suas falhas. Ele ficou intrigado com a ideia e seguimos em frente com o projeto — sem ter a menor certeza do sucesso. Determinamo-nos a responder a uma pergunta específica: Quando é possível confiar num profissional experiente que alega ter uma intuição? Era óbvio que Klein estaria mais disposto a acreditar, e eu seria mais cético. Mas seríamos capazes de concordar quanto aos princípios para responder à questão geral?

Durante sete ou oito anos tivemos muitas discussões, resolvemos muitas discordâncias, quase rompemos a parceria em mais de uma ocasião, escrevemos inúmeros rascunhos, ficamos amigos e, por fim, publicamos um artigo conjunto com um título que conta a história:

“Conditions for Intuitive Expertise: A Failure to Disagree” (Condições para a perícia intuitiva: um fracasso em discordar). De fato, não encontramos problemas reais sobre os quais discordar — mas tampouco concordamos de fato.

MARAVILHAS E FALHAS

O best-seller de Malcolm Gladwell, Blink: a decisão num piscar de olhos, apareceu quando Klein e eu trabalhávamos no projeto, e foi reconfortante ver que estávamos de acordo sobre o livro. Gladwell o inicia com a memorável história de especialistas em arte diante de

um objeto que é descrito como um exemplo magnífico de kouros3, uma escultura de menino em movimento. Vários especialistas tiveram reações fortemente viscerais: sentiam lá no fundo que a estátua era falsa, mas eram incapazes de articular o que havia nela que os deixava desconfortáveis. Todo mundo que leu o livro — milhões de pessoas — lembra dessa história como um triunfo da intuição. Os especialistas concordaram que sabiam que a escultura era falsa sem saber como sabiam — a verdadeira definição de intuição. Essa história parece sugerir que uma busca sistemática pelo indício que guiou os especialistas teria falhado, mas Klein e eu rejeitamos essa conclusão. De nosso ponto de vista, fazer essa investigação era necessário, e se conduzida da maneira apropriada (o que Klein sabe como fazer), provavelmente teria sido bem-sucedida.

Embora muitos leitores do exemplo do kouros estivessem certamente atraídos pela visão quase mágica da intuição do especialista, o próprio Gladwell não defende essa posição. Em um capítulo posterior, ele descreve um fracasso maciço da intuição: os norte-americanos elegeram o presidente Harding, cuja única qualificação para o cargo era parecer perfeito para o papel. Alto, com queixo quadrado, era a imagem irretocável do líder forte e decidido. As pessoas votaram em alguém que parecia forte e decidido sem qualquer outro motivo para acreditar que era. Uma previsão intuitiva sobre como Harding iria se sair como presidente surgiu como substituição de uma pergunta por outra. Um leitor deste livro já deve saber que uma intuição desse tipo não se deixa abalar assim tão facilmente.

INTUIÇÃO COMO RECONHECIMENTO

As primeiras experiências a moldar a visão de Klein sobre intuição foram radicalmente diferentes das minhas. Meu pensamento se formou quando observei a ilusão de validade em mim mesmo e quando li as demonstrações de Paul Meehl sobre a inferioridade do prognóstico clínico. Por sua vez, a visão de Klein foi formada por seus estudos iniciais de comandantes de brigada de incêndio (chefes de equipes de bombeiros). Ele os seguia quando combatiam incêndios e mais tarde entrevistava o líder sobre o que pensava ao tomar suas decisões. Como descreveu Klein em nosso artigo conjunto, ele e seus colaboradores

investigavam como os comandantes eram capazes de tomar boas decisões sem comparar opções. A hipótese inicial era que os comandantes restringiam sua análise a apenas um par de opções, mas a hipótese se mostrou incorreta. Na verdade, os comandantes em geral pensavam numa única opção, e isso era tudo de que precisavam. Eles conseguiam se apoiar no repertório de padrões que haviam compilado durante mais de uma década tanto na experiência real como virtual para identificar uma opção plausível, que primeiro consideravam. Eles avaliavam essa opção simulando-a mentalmente para ver se funcionaria na situação que estavam enfrentando. […] Se o curso da ação que estavam considerando parecia apropriado, eles a implementavam. Se tivesse alguma falha, eles a modificavam. Se não podiam modificá-la facilmente, voltavam-se para a opção mais plausível seguinte e executavam o mesmo procedimento até que um curso de ação fosse encontrado.

Klein elaborou essa descrição em uma teoria de tomada de decisão que chamou de modelo de decisão por reconhecimento evocado ( recognition-primed decision, ou RPD), que se aplica a bombeiros, mas também descreve a perícia em outros domínios, incluindo o xadrez. O

processo envolve tanto o Sistema 1 como o Sistema 2. Na primeira fase, um plano experimental vem à mente por meio de uma função automática da memória associativa — o Sistema 1. A fase seguinte é um processo deliberado em que o plano é estimulado mentalmente para verificar se vai funcionar — uma operação do Sistema 2. O modelo da tomada de decisão intuitiva como um reconhecimento de padrão desenvolve ideias introduzidas há algum tempo por Herbert Simon, talvez o único estudioso reconhecido e

admirado como herói4 e figura fundadora por todos os clãs e tribos rivais no estudo da tomada de decisão. Citei a definição de intuição de Herbert Simon na introdução, mas vai fazer mais sentido quando eu repeti-la agora: “A situação forneceu um indício; esse indício deu ao especialista acesso à informação armazenada em sua memória, e a informação fornece a resposta. A intuição não é nada mais,

nada menos que reconhecimento.5”

Essa forte declaração reduz a mágica aparente da intuição à experiência cotidiana da memória. Nós nos maravilhamos com a história do bombeiro que sente um impulso repentino de fugir de uma casa pegando fogo pouco antes que ela desabe, porque o

bombeiro sabe intuitivamente do perigo “sem saber como ele sabe6” . Contudo, também não sabemos como sabemos imediatamente que uma pessoa que vemos ao entrar em um lugar é nosso amigo Peter.

A moral da observação de Simon é que o mistério de saber sem saber não é um traço distintivo da intuição; é a norma da vida mental.

ADQUIRINDO HABILIDADE

De que maneira a informação que sustenta a intuição fica “armazenada na memória”? Certos tipos de intuições são adquiridos muito rapidamente. Herdamos de nossos ancestrais uma grande facilidade em aprender quando estamos assustados. Na verdade, uma única experiência muitas vezes é suficiente para estabelecer aversão e medo a longo prazo. Muitos de nós têm uma lembrança visceral de um simples prato duvidoso que ainda nos deixa vagamente relutantes de voltar a um restaurante. Todo mundo fica mais tenso ao se aproximar de um lugar

onde um evento desagradável ocorreu, mesmo quando não existe motivo para supor que vá acontecer outra vez. Para mim, um lugar assim é a ladeira que leva ao aeroporto de São Francisco, onde anos atrás um motorista, em um momento de raiva no trânsito, seguiu-me desde a via expressa, baixou o vidro e vociferou obscenidades para mim. Nunca soube o que causou seu ódio, mas lembro de sua voz toda vez que passo pelo lugar a caminho do aeroporto.

Minha lembrança do incidente do aeroporto é consciente e explica inteiramente a emoção que a acompanha. Em inúmeras ocasiões, porém, você pode se sentir desconfortável em um lugar particular ou quando alguém usa alguma expressão particular sem ter uma lembrança consciente do evento disparador. Em retrospecto, você vai rotular o desconforto como uma intuição, se ele for seguido de uma experiência ruim. Esse modo de aprendizado emocional está relacionado de perto com o que aconteceu nos famosos experimentos de condicionamento de Pavlov, em que cães aprendiam a reconhecer o toque de uma campainha como um sinal de que a comida estava chegando. O que os cães de Pavlov aprendiam pode ser descrito como uma expectativa aprendida. Medos aprendidos são adquiridos ainda mais facilmente.

O medo também pode ser aprendido — com grande facilidade, de fato — antes por palavras do que pela experiência. O bombeiro que teve o “sexto sentido” do perigo certamente encontrara diversas ocasiões para discutir e refletir sobre tipos de incêndios em que não se envolvera e para ensaiar em sua mente quais poderiam ser os indícios e como ele deveria reagir. Como lembro por experiência, um jovem comandante de pelotão sem qualquer vivência em combate ficará mais tenso ao conduzir as tropas por um desfiladeiro estreito, pois ele aprendeu a identificar o terreno como favorecendo uma emboscada. Pouca repetição é necessária para o aprendizado.

Aprendizado emocional pode ser rápido, mas o que consideramos como “perícia” em geral leva um longo tempo para ser desenvolvido. A aquisição de perícia em tarefas complexas como xadrez de alto nível, basquete profissional ou combate ao fogo é intrincada e lenta porque a perícia em um domínio não é uma habilidade única, mas antes uma ampla coleção de mini-habilidades. Xadrez é um bom exemplo. Um jogador perito pode compreender uma posição complexa a um olhar, mas leva anos para desenvolver esse nível de capacidade.

Estudos de mestres enxadristas mostraram que pelo menos 10 mil

horas de prática dedicada7 (cerca de seis anos jogando xadrez cinco horas por dia) são exigidas para atingir o nível mais alto de desempenho. Durante essas horas de concentração intensa, um jogador de xadrez sério fica familiarizado com milhares de configurações, cada uma consistindo em um arranjo de peças correlacionadas que podem ameaçar ou defender umas às outras.

O aprendizado de xadrez de alto nível pode ser comparado ao aprendizado da leitura. Um aluno de primeiro ano dá duro para reconhecer letras individuais e agregá-las em sílabas e palavras, mas um bom leitor adulto percebe frases inteiras. Um leitor perito conquistou também a capacidade de juntar elementos familiares em um novo padrão e pode “reconhecer”

rapidamente e pronunciar corretamente uma palavra que nunca viu antes. No xadrez, padrões

recorrentes de peças interagindo desempenham o papel de letras, e uma posição no xadrez é uma longa palavra ou sentença.

Um leitor habilidoso que a vê pela primeira vez será capaz de ler a estrofe de abertura do

“Jabberwocky” de Lewis Carroll com ritmo e entonação perfeitos, para não mencionar o prazer da leitura:

’Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wabe:

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe. 23

Adquirir perícia no xadrez é mais difícil e mais vagaroso do que aprender a ler porque há muito mais letras no “alfabeto” do xadrez e porque as “palavras” consistem em muitas letras.

Após milhares de horas de prática, porém, os mestres enxadristas são capazes de ler uma situação no xadrez a um golpe de vista. Os poucos movimentos que vêm à sua mente são quase sempre poderosos e às vezes criativos. Eles podem lidar com uma “palavra” que nunca viram antes e conseguem encontrar um novo modo de interpretar uma com a qual estão familiarizados.

O AMBIENTE DE HABILIDADE

Klein e eu rapidamente descobrimos que ambos concordávamos sobre a natureza da habilidade intuitiva e sobre como ela é adquirida. Ainda precisávamos concordar sobre nossa questão-chave: Quando você pode confiar em um profissional autoconfiante que alega ter uma intuição?

Acabamos concluindo que nossa discordância era devida em parte ao fato de que tínhamos diferentes peritos em mente. Klein passara bastante tempo com comandantes no combate a incêndios, enfermeiras clínicas e outros profissionais que possuem perícia real. Eu passara mais tempo pensando em clínicos, consultores de investimento e cientistas políticos tentando fazer prognósticos insuportavelmente a longo prazo. Não é de surpreender que sua atitude padrão fosse de confiança e respeito; a minha era de ceticismo. Ele se mostrava mais disposto a confiar em especialistas que alegam ter uma intuição porque, como me disse, peritos de verdade sabem os limites de seu conhecimento. Argumentei que há inúmeros pseudoespecialistas que não fazem a menor ideia de que não sabem o que estão fazendo (a ilusão de validade) e que, enquanto proposição geral, a confiança subjetiva é normalmente elevada demais e frequentemente desprovida de informação.

Anteriormente identifiquei a confiança das pessoas em uma crença como estando ligada a duas impressões relacionadas: conforto cognitivo e coerência. Ficamos confiantes quando a história que contamos a nós mesmos vem com facilidade à mente, sem nenhuma contradição e nenhum roteiro conflitante. Mas conforto cognitivo e coerência não garantem que um crença mantida com confiança seja verdadeira. O maquinário associativo é ajustado para suprimir a

dúvida e evocar ideias e informação que sejam compatíveis com a história no momento dominante. Uma mente que segue WYSIATI conquistará confiança elevada com muita facilidade ignorando o que ela não sabe. Não é de surpreender portanto que muitos de nós sejamos propensos a ter alta confiança em intuições infundadas. Klein e eu acabamos concordando com um importante princípio: a confiança que as pessoas depositam em suas intuições não é um guia confiável de sua validade. Em outras palavras, não confie em ninguém

— incluindo você mesmo — para lhe dizer o quanto você deve confiar no julgamento delas.

Se a confiança subjetiva não é confiável, como podemos avaliar a validade provável de um julgamento intuitivo? Quando os julgamentos refletem perícia genuína? Quando eles apresentam uma ilusão de validade? A resposta vem das duas condições básicas para adquirir uma habilidade:

• um ambiente que seja suficientemente regular para ser previsível

• uma oportunidade de aprender essas regularidades mediante a prática prolongada Quando essas duas condições estão satisfeitas, é provável que as intuições sejam proficientes.

Xadrez é um exemplo extremo de um ambiente regular, mas bridge e pôquer também fornecem regularidades estatísticas robustas capazes de favorecer a proficiência. Médicos, enfermeiras, atletas e bombeiros também enfrentam situações complexas mas fundamentalmente ordenadas.

As intuições acuradas que Gary Klein descreveu são devidas a indícios altamente válidos que o Sistema 1 do perito aprendeu a usar, mesmo se o Sistema 2 não aprendeu a nomeá-los. Por outro lado, consultores de investimento e cientistas políticos que fazem prognósticos de longo prazo operam em um ambiente de validade zero ( zero-validity environment). Seus fracassos refletem a imprevisibilidade básica dos eventos que eles tentam prognosticar.

Alguns ambientes são piores do que irregulares. Robin Hogarth descreveu ambientes

“perniciosos”, em que os profissionais provavelmente aprenderão as lições erradas com base na experiência. Ele toma emprestado de Lewis Thomas o exemplo de um médico no início do século XX que com frequência tinha intuições sobre pacientes que estavam prestes a desenvolver febre tifoide. Infelizmente, ele testava seu pressentimento apalpando a língua do paciente, sem lavar as mãos entre um paciente e outro. Quando um após outro adoecia, o médico desenvolveu uma sensação de infalibilidade clínica. Suas predições eram precisas —

mas não porque estivesse exercendo alguma intuição profissional!

Os psicólogos clínicos de Meehl não eram ineptos e seu fracasso não se deveu à falta de talento. Eles tiveram um desempenho fraco porque estavam incumbidos de tarefas que não tinham uma solução simples. O dilema desses profissionais era menos extremo do que o ambiente de validade zero da previsão política de longo prazo, mas eles operavam em situações de validade baixa que não permitiam precisão elevada. Sabemos ser o caso porque

os melhores algoritmos estatísticos, embora mais precisos que julgamentos humanos, nunca foram muito precisos. De fato, os estudos de Meehl e seus adeptos nunca produziu uma demonstração “arrasadora”, um caso em que os clínicos deixassem escapar completamente um indício altamente válido que o algoritmo detectou. Um fracasso extremo desse tipo é improvável, pois o aprendizado humano normalmente é eficiente. Se um indício preditivo forte existe, os observadores humanos vão encontrá-lo, desde que oferecida uma oportunidade decente para fazê-lo. Algoritmos estatísticos superam de longe os humanos em ambientes com muito ruído por dois motivos: eles têm maior probabilidade do que juízos humanos de detectar indícios pouco válidos e probabilidade muito maior de manter um nível modesto de precisão utilizando tais indícios de maneira consistente.

É errado culpar quem quer que seja por fracassar em prognosticar com precisão em um mundo imprevisível. Porém, parece justo culpar profissionais por acreditar que podem se sair bem numa tarefa impossível. Alegações de intuições corretas numa situação imprevisível são na melhor das hipóteses uma autoilusão, quando não coisa pior. Na ausência de indícios válidos, “acertos” intuitivos devem-se a sorte ou a mentiras. Se você acha essa conclusão surpreendente, é porque continua a alimentar a crença de que a intuição é mágica. Lembre-se desta regra: não se pode confiar na intuição na ausência de regularidades estáveis no ambiente.

FEEDBACK E PRÁTICA

Algumas regularidades no ambiente são mais fáceis de descobrir e empregar do que outras.

Pense em como você desenvolveu um estilo de frear seu carro. Quando você aprendia a habilidade de fazer curvas, gradualmente dominava o momento de soltar o acelerador e o momento e a pressão adequados ao pisar no freio. Uma curva difere da outra, e a variabilidade que você experimentou conforme aprendia atualmente é uma garantia de que você está pronto para frear no momento certo e com a força certa em qualquer curva que encontre. As condições para aprender essa habilidade são ideais, pois você recebe um feedback imediato e inequívoco toda vez que faz uma curva: a moderada recompensa de uma curva confortável ou a moderada punição da dificuldade em controlar o carro se frear com força de mais ou com força de menos. As situações que um piloto de navio enfrenta manobrando grandes navios não são menos regulares, mas uma técnica é muito mais difícil de adquirir pela pura experiência devido à longa demora entre as ações e seus resultados identificáveis. A oportunidade para que profissionais desenvolvam perícia intuitiva depende essencialmente da qualidade e velocidade do feedback, bem como de oportunidade suficiente para praticar.

Perícia não é uma habilidade isolada; é uma coleção de habilidades, e o mesmo profissional pode ser um grande especialista em algumas tarefas de sua área enquanto permanece um novato em outras. Na altura em que jogadores de xadrez se tornaram especialistas, eles já “viram de tudo” (ou quase tudo), mas o xadrez é uma exceção nesse

aspecto. Cirurgiões podem ser muito mais proficientes em algumas operações do que em outras. Além do mais, determinados aspectos das tarefas de qualquer profissional são muito mais fáceis de aprender do que outros. Psicoterapeutas têm inúmeras oportunidades de observar as reações imediatas de pacientes ao que eles dizem. O feedback lhes permite desenvolver a habilidade intuitiva de encontrar as palavras e o tom que irão acalmar, forjar confiança ou focar a atenção do paciente. Por outro lado, terapeutas não têm oportunidade de identificar que abordagem de tratamento geral é mais adequada para pacientes diferentes. O

feedback que eles recebem dos resultados de longo prazo de seus pacientes é esparso, atrasado ou (normalmente) inexistente, e em todo caso ambíguo demais para dar sustentação a um aprendizado com base na experiência.

Entre as especialidades médicas, os anestesistas se beneficiam de um bom feedback, pois é provável que os efeitos de suas ações se mostrem rapidamente evidentes. Ao contrário, radiologistas obtêm pouca informação sobre a precisão dos diagnósticos que fazem e sobre as patologias que deixam de detectar. Anestesistas estão desse modo em melhor posição de desenvolver habilidades intuitivas úteis. Se um anestesista diz: “Estou com a sensação de que há alguma coisa errada”, todo mundo na sala de operações deve ficar preparado para uma emergência.

Aqui, mais uma vez, como no caso da confiança subjetiva, os experts talvez não saibam os limites de sua expertise. Um psicoterapeuta calejado sabe que é habilidoso em imaginar o que se passa na cabeça de seu paciente e que ele tem boas intuições sobre o que o paciente dirá a seguir. É tentador para ele concluir que é capaz ainda de antecipar quão bem o paciente vai ficar no ano seguinte, mas essa conclusão não é igualmente justificada. Antecipação de curto prazo e prognóstico de longo prazo são tarefas diferentes, e o terapeuta teve oportunidade adequada de aprender uma, mas não a outra. Similarmente, um especialista financeiro pode ter habilidades em muitos aspectos de seu trabalho, mas não para escolher estoques de ações, e um especialista em Oriente Médio sabe muitas coisa, mas não sabe o futuro. O psicólogo clínico, o consultor financeiro e o analista geopolítico de fato possuem habilidades intuitivas para algumas tarefas, mas não aprenderam a identificar as situações e as tarefas em que a intuição vai traí-los. Os limites não reconhecidos da habilidade profissional ajudam a explicar por que especialistas são muitas vezes superconfiantes.

AVALIANDO VALIDADE

No fim de nossa empreitada, Gary Klein e eu concordamos numa resposta geral para nossa questão inicial: Quando se pode confiar em um profissional experiente que alega ter uma intuição? Nossa conclusão foi que na maior parte dos casos é possível distinguir intuições com mais probabilidade de serem válidas das que muito provavelmente são falsas. Como na avaliação para saber se uma obra de arte é genuína ou falsa, você em geral se sairá melhor concentrando-se na proveniência do que olhando para a própria peça. Se o ambiente é suficientemente regular e se aquele que julga teve oportunidade de aprender acerca de suas

regularidades, o maquinário associativo irá reconhecer situações e gerar previsões e decisões rápidas e precisas. Você pode confiar nas intuições de alguém se essas condições forem atendidas.

Infelizmente, memória associativa também gera intuições subjetivamente convincentes que são falsas. Qualquer um que tenha assistido ao progresso no xadrez de um jovem talentoso sabe perfeitamente que uma habilidade não se torna perfeita da noite para o dia, e que no caminho da quase perfeição alguns enganos são cometidos com a maior das confianças. Ao avaliar a intuição de um especialista, você deve sempre considerar se há uma oportunidade adequada para aprender os indícios, mesmo em um ambiente regular.

Em um ambiente menos regular, ou de baixa validade, as heurísticas do julgamento são invocadas. O Sistema 1 é com frequência capaz de produzir respostas rápidas para perguntas difíceis por substituição, criando coerência onde não há nenhuma. A questão que é respondida não é a que se pretendia, mas a resposta é produzida rapidamente e pode ser suficientemente plausível para passar pela inspeção frouxa e tolerante do Sistema 2. Talvez você queira prognosticar o futuro comercial de uma empresa, por exemplo, e acredite que é isso que está julgando, quando na verdade sua avaliação é dominada por suas impressões da energia e competência de seus atuais executivos. Como a substituição ocorre automaticamente, você com frequência não sabe a origem de um julgamento que você (seu Sistema 2) endossa e adota. Se ele é o único que lhe vem à mente, talvez seja subjetivamente indistinguível dos julgamentos válidos que você faz com confiança de especialista. Eis por que confiança subjetiva não é um bom diagnóstico de precisão: julgamentos que respondem à pergunta errada também podem ser feitos com confiança elevada.

Talvez você esteja se perguntando: por que Gary Klein e eu não tivemos logo a ideia de avaliar a intuição de um especialista verificando a regularidade do ambiente e o histórico de aprendizado do especialista — pondo de lado quase integralmente a confiança do especialista? E qual pensamos que poderia ser a resposta? São boas perguntas, pois os contornos da solução ficaram visíveis logo de cara. Sabíamos desde o início que comandantes de bombeiros e enfermeiras pediátricas terminariam em um lado da fronteira das intuições válidas e que os especialistas estudados por Meehl acabariam do outro, junto com os consultores de investimento e os analistas geopolíticos.

É difícil reconstruir o que nos tomou anos, longas horas de argumentação, incontáveis trocas de rascunhos e centenas de e-mails discutindo termos, e em mais de uma ocasião chegando perto de desistir de tudo. Mas isso é o que sempre acontece quando um projeto termina razoavelmente bem: uma vez compreendida a conclusão principal, parece que ela sempre foi óbvia.

Como sugere o título de nosso artigo, Klein e eu discordamos menos do que havíamos imaginado e aceitamos soluções comuns para quase todas as questões substantivas que levantamos. Entretanto, descobrimos também que nossas antigas diferenças eram mais do que discordância intelectual. Tínhamos diferentes atitudes, emoções e gostos, e isso mudou

significativamente pouco ao longo dos anos. Isso fica mais óbvio nos fatos que achamos divertidos e interessantes. Klein ainda se encolhe todo ao ouvir a palavra viés ser mencionada e ainda aprecia histórias em que algoritmos ou procedimentos formais conduzem a decisões obviamente absurdas. Já eu tendo a ver os ocasionais fracassos dos algoritmos como uma oportunidade para aperfeiçoá-los. Por outro lado, sinto mais prazer do que Klein em dar um chega para lá nos experts arrogantes que alegam capacidades intuitivas em situações de validade zero. A longo prazo, porém, chegar ao acordo intelectual a que chegamos, por maior ou menor que seja, é certamente mais importante do que as persistentes diferenças emocionais que permaneceram.

FALANDO DE INTUIÇÃO DE ESPECIALISTA

“Quanta expertise ela tem nessa tarefa particular? Quanta prática ela teve?”

“Será que ele realmente acredita que o ambiente de pequenos negócios começando é suficientemente regular para justificar uma intuição que vai contra as taxas-base?”

“Ela está muito confiante em sua decisão, mas confiança subjetiva é um indicador ruim da precisão de um julgamento.”

“Ele teve de fato uma oportunidade de aprender? Com que rapidez e com que clareza veio o feedback que recebeu sobre seus julgamentos?”

23 Na conhecida tradução de Augusto de Campos: “Era briluz. As lesmolisas touvas/ Roldavam e relviam nos gramilvos./

Estavam mimsicais as pintalouvas/ E os momirratos davam grilvos.” (N. do T.)