Rápido e devagar: Duas formas de pensar

Daniel Kahneman · Capítulo 31 de 42

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Rápido e devagar: Duas formas de pensar

30 - Eventos Raros

• Se a cidade fecha um acordo para cada processo em 100 mil dólares, sua perda total será de 20 milhões de dólares.

Quando você adota a visão a longo prazo de muitas decisões semelhantes, pode perceber que pagar um prêmio para evitar um pequeno risco de uma grande perda é custoso. Uma análise semelhante se aplica a cada uma das células do padrão quádruplo: desvios sistemáticos do valor esperado são custosos a longo prazo — e essa regra se aplica tanto à aversão ao risco como à busca de risco. A atribuição constante de peso excessivo a resultados improváveis —

característica da tomada de decisão intuitiva — acaba por levar a resultados inferiores.

FALANDO DO PADRÃO QUÁDRUPLO

“Ele está tentado a fechar um acordo nessa reivindicação frívola para evitar uma perda insólita, por mais improvável que seja.

Isso é dar um peso excessivo a pequenas probabilidades. Como é provável que enfrente muitos problemas semelhantes, seria melhor se ele não cedesse.”

“Nunca deixamos que nossas férias dependam de um acerto de última hora. Estamos dispostos a pagar muito bem por certeza.”

“Eles não vão diminuir seu prejuízo enquanto houver uma chance de um ponto de equilíbrio. Isso é atração pelo risco nas perdas.”

“Eles sabem que o risco de uma explosão de gás é minúsculo, mas querem que seja mitigado. É um efeito de possibilidade, e eles querem paz de espírito.”

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EVENTOS RAROS

Visitei Israel diversas vezes durante um período em que homens-bomba em ônibus eram relativamente comuns — embora é claro muito raros em termos absolutos. Houve no total 23

atentados entre dezembro de 2001 e setembro de 2004, o que causara um total de 236

fatalidades. O número de usuários diários de ônibus em Israel era de aproximadamente 1,3

milhão na época. Para qualquer passageiro, os riscos eram ínfimos, mas não era assim que o público se sentia na época. As pessoas evitavam andar de ônibus o máximo que podiam, e muitos passageiros ficavam o tempo todo dentro do ônibus ansiosamente examinando os vizinhos à procura de pacotes ou roupas estufadas que pudessem ocultar uma bomba.

Não tive muita oportunidade de andar de ônibus, já que eu usava um carro alugado, mas notei, muito a contragosto, que meu comportamento também havia mudado. Percebi que não me sentia à vontade parando ao lado de um ônibus no sinal vermelho, e que eu me afastava com mais rapidez do que o normal quando o semáforo abria. Senti vergonha de mim mesmo, porque é claro eu não acreditava nisso. Eu sabia que o risco era de fato desprezível e que qualquer efeito em minhas ações atribuiria um “peso de decisão” excessivamente elevado a uma probabilidade minúscula. Na verdade, eu tinha maiores chances de me ferir em um acidente de trânsito do que parando ao lado de um ônibus. Mas minha relutância com a proximidade dos ônibus não era motivada por uma preocupação racional com a sobrevivência. O que me movia era a experiência do momento: estar perto de um ônibus me fazia pensar em bombas, e esses pensamentos eram desagradáveis. Eu evitava ônibus porque queria pensar em alguma outra coisa.

Minha experiência ilustra o modo como o terrorismo funciona e por que é tão eficaz: ele provoca uma cascata de disponibilidade. Uma imagem extremamente vívida de morte e destruição, reforçada constantemente pela atenção da mídia e pelas conversas frequentes, torna-se altamente acessível, sobretudo se está associada com uma situação específica como a visão de um ônibus. A perturbação emocional é associativa, automática e descontrolada, e produz um impulso por medidas de proteção. O Sistema 2 pode “saber” que a probabilidade é baixa, mas esse conhecimento não elimina o desconforto criado por você mesmo e o desejo de evitá-

lo1. O Sistema 1 não pode ser desligado. A emoção não é apenas desproporcional à probabilidade, como também é insensível ao nível exato de probabilidade. Suponha que duas cidades tenham sido advertidas sobre a presença de homens-bomba. Os moradores de uma cidade são informados de que dois deles estão prontos para agir. Os moradores da outra, de que é um único homem-bomba. O risco deles é cortado pela metade, mas eles se sentem muito mais seguros?

Muitas lojas em Nova York vendem bilhetes de loteria, e é um bom negócio. A psicologia das

loterias altamente premiadas é semelhante à psicologia do terrorismo. A possibilidade empolgante de ganhar o grande prêmio é compartilhada por todos e reforçada por conversas no trabalho e em casa. A compra de um bilhete é imediatamente recompensada com fantasias agradáveis, assim como evitar um ônibus foi imediatamente recompensado com o alívio do medo. Em ambos os casos, a probabilidade real não faz diferença; só a possibilidade importa.

A formulação original da teoria da perspectiva incluía o argumento de que “eventos altamente improváveis são ignorados ou recebem peso excessivo”, mas não especificava sob que condições uma coisa ou outra irá ocorrer, tampouco propõe uma interpretação psicológica disso. Minha visão atual dos pesos de decisão foi fortemente influenciada pela pesquisa recente sobre o papel das

emoções e da vivacidade na tomada de decisões2. Dar peso excessivo a resultados improváveis é algo arraigado nas características do Sistema 1, que a essa altura já são familiares. Emoção e vivacidade influenciam fluência, disponibilidade e julgamentos de probabilidade — e desse modo explicam nossa reação excessiva aos raríssimos eventos que não ignoramos.

EXAGERANDO A ESTIMATIVA E O PESO

Como você avalia a probabilidade de que o próximo presidente dos Estados Unidos será um candidato de um terceiro partido?

Quanto você pagará por uma aposta em que recebe mil dólares se o próximo presidente dos Estados Unidos for um candidato de um terceiro partido, e nada caso contrário?

As duas perguntas são diferentes, mas obviamente estão relacionadas. A primeira lhe pede para estimar a probabilidade de um evento improvável. A segunda o convida a pôr um peso de decisão sobre o mesmo evento, fazendo uma aposta sobre ele.

Como as pessoas formam seus julgamentos e como elas atribuem pesos de decisão?

Começamos por duas respostas simples, depois as qualificamos. Eis aqui as respostas excessivamente simplificadas:

• As pessoas superestimam as probabilidades de eventos improváveis.

• As pessoas atribuem peso excessivo a eventos improváveis em suas decisões.

Embora superestimar e dar peso excessivo sejam fenômenos distintos, os mesmos mecanismos psicológicos estão envolvidos em ambos: atenção concentrada, viés de confirmação e conforto cognitivo.

Descrições específicas disparam o funcionamento do maquinário associativo do Sistema 1.

Quando você pensou na vitória improvável de um candidato de um terceiro partido, seu sistema associativo operou em seu usual modo confirmatório, seletivamente recuperando da memória evidências, ocorrências e imagens que fariam da afirmação algo verdadeiro. O

processo foi tendencioso, mas não foi um exercício em fantasia. Você procurou por um cenário plausível que se conformasse às restrições da realidade; não imaginou simplesmente a Fada do Oeste instalando um candidato de um terceiro partido na cadeira presidencial. Seu julgamento da probabilidade foi em última instância determinado pelo conforto cognitivo, ou fluência, com que um cenário plausível lhe veio à mente.

Você nem sempre foca o evento que lhe foi pedido para estimar. Se o evento-alvo é muito provável, você foca a alternativa a ele. Considere o seguinte exemplo:

Qual a probabilidade de que um bebê nascido no hospital local seja liberado dentro de três dias?

Pediram-lhe para estimar a probabilidade de o bebê ir para casa, mas você quase certamente se concentrou nos eventos que podem fazer com que um bebê não seja liberado dentro do período normal. Nossa mente tem a útil capacidade de focalizar espontaneamente qualquer coisa que seja estranha, diferente ou incomum. Você rapidamente percebeu que é normal que os bebês nos Estados Unidos (nem todos os países têm o mesmo padrão) sejam liberados de dois a três dias após o nascimento, de modo que sua atenção voltou-se para a alternativa anormal. O evento improvável passou a ser o foco. É provável que a heurística da disponibilidade seja evocada: seu julgamento foi determinado provavelmente pelo número de cenários de problemas médicos que você concebeu e pela facilidade com que eles vieram à sua mente. Como você estava no modo confirmatório, há uma boa chance de que sua estimativa da frequência de problemas tenha sido alta demais.

A probabilidade de um evento raro muito provavelmente será superestimada quando a alternativa não estiver plenamente especificada. Meu exemplo favorito vem de um estudo que o

psicólogo Craig Fox conduziu quando era aluno de Amos3. Fox recrutou torcedores de basquete profissional e extraiu deles diversos julgamentos e decisões relativas ao vencedor dos playoffs da NBA. Em particular, ele lhes pediu para estimar a probabilidade de que cada um dos oito times participantes vencesse o playoff; a vitória de cada equipe por sua vez era o evento focal.

Você certamente consegue adivinhar o que aconteceu, mas a magnitude do efeito observado por Fox talvez o surpreenda. Imagine um torcedor ao qual se pediu para estimar as chances de que o Chicago Bulls vença o torneio. O evento focal está bem definido, mas sua alternativa —

um dos outros sete times vencer — é difusa e menos evocativa. A memória e imaginação dos torcedores, operando no modo confirmatório, estão tentando construir uma vitória para os Bulls. Quando em seguida se pede à mesma pessoa que avalie as chances dos Lakers, a mesma ativação seletiva vai funcionar em favor desse time. Os oito melhores times de basquete profissional dos Estados Unidos são todos muito bons, e é possível imaginar até mesmo um time relativamente fraco entre eles saindo campeão. O resultado: os julgamentos de probabilidade gerados sucessivamente para os oito times somaram 240%! Esse padrão é absurdo, claro, pois a soma das chances dos oito eventos têm de somar 100%. A situação absurda desapareceu quando se perguntou aos mesmos avaliadores se o vencedor sairia da

conferência do Leste ou do Oeste. O evento focal e sua alternativa4 foram igualmente específicos nessa questão e os julgamentos de suas probabilidades somaram 100%.

Para avaliar os pesos de decisão, Fox tanbém convidou os torcedores de basquete a apostar também no resultado do torneio. Eles atribuíram um equivalente em dinheiro para cada aposta (uma quantia em dinheiro que era tão atraente quanto fazer a aposta). Vencer a aposta renderia um prêmio de 160 dólares. A soma dos equivalentes em dinheiro para as oito equipes individuais foi de 287 dólares. Um participante médio que fizesse todas as oito apostas teria assegurado uma perda de 127 dólares! Os participantes certamente sabiam que havia oito times no torneio e que o pagamento médio por apostar em todos eles não poderia exceder 160

dólares, mas mesmo assim atribuíram peso excessivo. Os torcedores não apenas superestimaram a probabilidade dos eventos em que se concentraram — como também se mostraram inteiramente dispostos a apostar neles.

Essas descobertas lançaram nova luz sobre a falácia do planejamento e outras manifestações de otimismo. A execução bem-sucedida de um plano é específica e fácil de imaginar quando a pessoa tenta prever o resultado de um projeto. Por outro lado, a alternativa de fracasso é difusa, pois há inúmeros modos de que as coisas deem errado. Empresários e investidores que avaliam suas perspectivas são propensos tanto a superestimar suas chances como a dar peso excessivo a suas estimativas.

RESULTADOS VÍVIDOS

Como vimos, a teoria da perspectiva difere da teoria da utilidade na relação que sugere haver entre probabilidade e peso de decisão. Na teoria da utilidade, os pesos de decisão e as probabilidades são a mesma coisa. O peso de decisão de uma coisa segura é cem, e o peso que corresponde a uma chance de 90% é exatamente noventa, que é nove vezes mais do que o peso de decisão para uma chance de 10%. Na teoria da perspectiva, variações de probabilidade têm menos efeito nos pesos de decisão. Um experimento que mencionei anteriormente revelou que o peso de decisão para uma chance de 90% era de 71,2 e o peso de decisão para uma chance de 10% era 18,6. A razão das probabilidades era 9,0, mas a razão dos pesos de decisão era apenas 3,83, indicando sensibilidade insuficiente à probabilidade nessa faixa. Em ambas as teorias, os pesos de decisão dependem apenas da probabilidade, não do resultado. Ambas as teorias preveem que o peso de decisão para uma chance de 90% é o mesmo para ganhar cem dólares,

receber uma dúzia de rosas5 ou levar um choque elétrico. A previsão teórica se mostra errada.

Psicólogos na Universidade de Chicago publicaram um artigo com o atraente título de

“Money, Kisses, and Electric Shocks: On the Affective Psychology of Risk” (Dinheiro, beijos e choques elétricos: sobre a psicologia afetiva do risco). Eles descobriram que a valoração de apostas era muito menos sensível à probabilidade quando os resultados (fictícios) envolviam emoções (“encontrar e beijar seu astro de cinema favorito” ou “levar um choque elétrico dolorido, mas não perigoso”) do que quando os resultados eram ganhos ou perdas de dinheiro.

Isso não foi uma descoberta isolada. Outros pesquisadores haviam descoberto, usando mensurações fisiológicas como batimentos cardíacos, que o medo de um choque elétrico iminente estava essencialmente não correlacionado com a probabilidade de levar o choque. A mera possibilidade de um choque disparava uma reação de medo plenamente amadurecida. A equipe de Chicago propôs que o “repertório imagético carregado de afeto” subjugava a reação à probabilidade. Dez anos mais tarde, uma equipe de psicólogos em Princeton desafiou essa conclusão.

A equipe de Princeton argumentou que a baixa sensibilidade à probabilidade que fora observada para resultados emocionais é normal. Apostas com dinheiro são a exceção. A sensibilidade à probabilidade é relativamente alta para essas apostas, pois elas carregam um valor esperado definido.

Que quantia de dinheiro é tão atraente quanto cada uma dessas apostas?

A. 84% de chance de ganhar 59 dólares

B. 84% de chance de receber uma dúzia de rosas vermelhas em um vaso de vidro

O que você notou? A diferença marcante é que a questão A é muito mais fácil do que a questão B. Você não parou para calcular o valor esperado da aposta, mas provavelmente percebeu rapidamente que não está longe de cinquenta dólares (na verdade, é 49,56 dólares), e a estimativa vaga foi suficiente para fornecer uma âncora útil conforme você procurava por um prêmio em dinheiro igualmente atraente. Nenhuma âncora como essa está disponível para a questão B, que é desse modo muito mais difícil de responder. Os pesquisados também avaliaram o equivalente em dinheiro de apostas com uma chance de 21% de obter os dois resultados. Como esperado, a diferença entre as apostas de alta probabilidade e de baixa probabilidade era muito mais pronunciada para o dinheiro do que para as rosas.

Para respaldar seu argumento de que a insensibilidade à probabilidade não é causada pela emoção, a equipe de Princeton comparou a predisposição a pagar para evitar apostas: 21% de chance (ou 84% de chance) de passar um fim de semana pintando o apartamento de três dormitórios de alguém

21% de chance (ou 84% de chance) de limpar três privadas do banheiro coletivo de um dormitório estudantil após um fim de semana de uso

O segundo resultado é certamente muito mais emocional que o primeiro, mas os pesos de decisão para os dois resultados não diferem. Evidentemente, a intensidade da emoção não é a resposta.

Outro experimento forneceu um resultado surpreendente. Os participantes receberam informação de preço explícita junto com a descrição verbal do prêmio. Um exemplo poderia ser:

84% de chance de ganhar: Uma dúzia de rosas vermelhas em um vaso de vidro. Valor 59 dólares.

21% de chance de ganhar: Uma dúzia de rosas vermelhas em um vaso de vidro. Valor 59 dólares.

É fácil estimar o valor monetário esperado dessas apostas, mas acrescentar um valor monetário específico não altera os resultados: as avaliações continuaram insensíveis à probabilidade mesmo nessa condição. As pessoas que pensaram no prêmio como uma chance de obter rosas não usaram informação de preço como uma âncora na avaliação da aposta.

Como dizem às vezes os cientistas, isso é uma descoberta surpreendente que está tentando nos dizer alguma coisa. Que história isso está tentando nos contar?

A história, acredito, é que uma representação rica e vívida do resultado, seja ou não emocional, reduz o papel da probabilidade na avaliação de uma perspectiva incerta. Essa hipótese sugere uma previsão, em que deposito confiança razoavelmente elevada: acrescer detalhes irrelevantes mas vívidos a um resultado monetário também perturba o cálculo.

Compare seus equivalentes em dinheiro para os seguintes resultados:

21% (ou 84%) de chance de receber 59 dólares na segunda-feira próxima

21% (ou 84%) de chance de receber um grande envelope de papel-cartão azul contendo 59 dólares na manhã da segunda-feira

A nova hipótese é de que haverá menos sensibilidade à probabilidade no segundo caso, pois o envelope azul evoca uma representação mais rica e mais fluente do que a ideia abstrata de uma soma em dinheiro. Você construiu o evento em sua mente, e a imagem vívida do resultado existe mesmo que você saiba que sua probabilidade é baixa. O conforto cognitivo contribui também para o efeito de certeza: quando você concebe a imagem vívida de um evento, a possibilidade de sua não ocorrência também é representada vividamente, e recebe peso excessivo. A combinação de um efeito de possibilidade intensificado com um efeito de certeza intensificado deixa pouca margem para que os pesos de decisão mudem entre as chances de 21% e 84%.

PROBABILIDADES VÍVIDAS

A ideia de que fluência, vivacidade e a facilidade de imaginar contribuem para pesos de decisão ganha apoio a partir de muitas outras observações. Pediu-se aos participantes de um famoso experimento que tirassem uma bola de gude de um entre dois vasos, sendo que a bola vermelha significava um prêmio:

A urna A contém 10 bolinhas, das quais 1 é vermelha.

A urna B contém 100 bolinhas, das quais 8 são vermelhas.

Qual urna você escolheria? As chances de ganhar são de 10% na urna A e 8% na urna B, de modo que fazer a escolha correta deve ser fácil, mas não é: cerca de 30%–40% dos alunos escolheram a urna com o maior número de bolinhas ganhadoras, em vez de escolher a urna que oferece maior chance de ganhar. Seymour Epstein argumentou que os resultados ilustram as características de

processamento superficiais6 do Sistema 1 (o que ele chama de sistema experimental).

Como seria de esperar, as escolhas notavelmente tolas que as pessoas fazem nessa situação têm chamado a atenção de muitos pesquisadores. O viés recebeu diversos nomes; acompanhando Paul Slovic, vou chamá-lo de negligência com o denominador ( denominator neglect). Se sua atenção é atraída para as bolinhas ganhadoras, você não avalia o número de bolinhas não ganhadoras com o mesmo cuidado. O repertório imagético vívido contribui para a negligência com o denominador, pelo menos do modo como a experiência funciona para mim. Quando penso na urna pequena, vejo uma única bolinha de gude vermelha em um pano de fundo vagamente definido de bolinhas brancas. Quando penso na urna maior, vejo oito bolinhas vermelhas ganhadoras em um pano de fundo indistinto de bolinhas brancas, o que gera uma sensação mais esperançosa. A vivacidade distintiva das bolinhas ganhadoras aumenta o peso de decisão desse evento, intensificando o efeito de possibilidade. Claro que o mesmo será verdadeiro do efeito de certeza. Se tenho uma chance de 90% de ganhar um prêmio, o evento de não ganhá-lo será mais proeminente antes se 10 de 100 bolinhas são “perdedoras” do que se 1 de 10 bolinhas produz o mesmo resultado.

A ideia da negligência com o denominador ajuda a explicar por que modos diferentes de comunicar riscos variam tanto em seus efeitos. Você lê que “uma vacina que protege crianças de uma doença fatal compreende um risco de incapacitação permanente de 0,001%”. O risco parece pequeno. Agora considere outra descrição do mesmo risco: “Uma em cada 100 mil crianças vacinadas ficará permanentemente incapacitada.” A segunda advertência faz algo em sua mente que a primeira não faz: evoca a imagem de uma criança individual que ficou permanentemente incapacitada por uma vacina; as 999.999 crianças vacinadas a salvo desapareceram no pano de fundo. Como previsto pela negligência com o denominador, eventos de baixa probabilidade são pesados com gravidade bem maior quando descritos em termos de frequências relativas (qual a quantidade) do que quando referidos em termos mais abstratos de “chances”, “risco” ou “probabilidade” (qual a possibilidade). Como vimos, o Sistema 1 se sai muito melhor lidando com indivíduos do que com categorias.

O efeito do formato de frequência é grande. Em um estudo, as pessoas que viram a informação sobre “uma doença que mata

1.286 pessoas de cada 10 mil” julgou isso como mais perigoso7do que pessoas informadas sobre “uma doença que mata 24,14% da população”. A primeira doença parece mais ameaçadora do que a segunda, embora o risco da primeira seja apenas metade do da segunda! Em uma demonstração ainda mais direta da negligência com o denominador, “uma doença que mata 1.286 pessoas de cada 10 mil” foi avaliada como mais perigosa com o que uma doença que “mata 24,4 de cada cem”. O efeito certamente seria

reduzido ou eliminado se fosse pedido aos participantes para fazer uma comparação direta entre as duas formulações, tarefa que chama explicitamente pelo Sistema 2. A vida, porém, é normalmente um experimento entressujeitos, no qual você vê apenas uma formulação de cada vez. Seria necessário um Sistema 2 excepcionalmente ativo para gerar formulações alternativas da que você vê e descobrir que elas evocam uma resposta diferente.

Psicólogos e psiquiatras forenses experientes8 não estão imunes aos efeitos do formato em que os riscos são expressos. Em um experimento, os profissionais avaliaram se era seguro dar alta para um paciente do hospital psiquiátrico, o sr. Jones, com um histórico de violência. A informação recebida incluía a avaliação de um especialista sobre o risco. As mesmas estatísticas eram descritas de duas maneiras:

Estima-se que pacientes semelhantes ao sr. Jones tenham 10% de probabilidade de cometer um ato de violência contra outros durante os primeiros meses após a alta.

De cada cem pacientes semelhantes ao sr. Jones, estima-se que dez cometam um ato de violência contra outros durante os primeiros meses após a alta.

Os profissionais que viram o formato de frequência mostraram uma probabilidade quase duas vezes maior de negar a alta (41%, comparado a 21% no formato de probabilidade). A descrição mais vívida produz um peso de decisão mais elevado para a mesma probabilidade.

O poder do formato cria oportunidade para manipulação, coisa que pessoas com segundas intenções sabem como explorar. Slovic e seus colegas citam um artigo que afirma que

“aproximadamente mil homicídios por ano são cometidos em todo o país por indivíduos com alguma grave enfermidade mental que não estão tomando sua medicação”. Outro modo de expressar o mesmo fato é que “mil de cada 273 milhões de americanos vão morrer dessa maneira todo ano”. Outro é que “a probabilidade anual de ser morto por um indivíduo assim é de aproximadamente 0,00036%”. Outro, ainda: “mil americanos vão morrer dessa maneira todo ano, ou menos de um trigésimo do número que vai morrer de suicídio e cerca de um quarto do número que vai morrer de câncer da laringe”. Slovic observa que “os defensores dessa causa são bem claros sobre sua motivação: eles querem assustar o público em geral em relação à violência de pessoas com distúrbio mental, na esperança de que esse medo se traduza em fundos ampliados para os serviços de saúde mental”.

Um bom advogado que deseja lançar dúvida sobre a evidência de DNA não dirá ao júri que “a chance de um falso positivo é de 0,1%”. A afirmação de que “um falso positivo ocorre em um de cada mil

casos capitais9” tem probabilidade muito maior de ultrapassar o limiar da dúvida razoável. O júri, ao ouvir essas palavras, fica tentado a gerar a imagem de que o homem sentado diante deles na sala do tribunal está sendo condenado equivocadamente devido a uma falha na evidência do DNA. O promotor, é claro, favorecerá a abordagem abstrata — na esperança de encher a cabeça dos jurados com casas decimais.

DECISÕES A PARTIR DE IMPRESSÕES GLOBAIS

A evidência sugere a hipótese de que a atenção focal e a proeminência contribuem tanto para a superestimativa de eventos improváveis como para o peso excessivo de resultados improváveis. A proeminência é intensificada pela mera menção de um evento, por sua vivacidade e pelo formato em que a probabilidade é descrita. Há exceções, é claro, em que concentrar-se num evento não eleva sua probabilidade: casos em que uma teoria errônea faz um evento parecer impossível mesmo quando você pensa a respeito, ou casos em que a incapacidade de imaginar como um resultado pode acontecer deixa você convencido de que ele não irá ocorrer. O viés direcionado para a superestimativa e o peso excessivo de eventos proeminentes não é uma regra absoluta, mas é grande e robusto.

Tem havido muito interesse em anos recentes nos estudos de

escolha partindo da experiência 10 ( choice from experience), que segue regras diferentes das escolhas partindo da descrição ( choices from description) que são analisadas na teoria da perspectiva. Os participantes em um experimento típico veem-se diante de dois botões. Quando pressionado, cada botão produz uma recompensa monetária ou nada, e o resultado é extraído aleatoriamente de acordo com as especificações de uma perspectiva (por exemplo, “5% de chance de ganhar 12 dólares” ou “95% de chance de ganhar um dólar”). O processo é de fato aleatório, de modo que não há garantia de que a amostra que um participante vê represente exatamente o arranjo estatístico. Os valores esperados associados com os dois botões são aproximadamente iguais, mas um é mais arriscado (mais variável) do que o outro. (Por exemplo, um botão pode produzir dez dólares em 5% das tentativas e o outro um dólar em 50% das tentativas.) A escolha partindo da experiência é implementada expondo-se o participante a várias tentativas em que ele pode observar as consequências de pressionar um ou outro botão. Na tentativa crítica, ele escolhe um dos dois botões, e fica com o resultado dessa tentativa. A escolha partindo da descrição é efetuada mostrando-se ao participante a descrição verbal da perspectiva arriscada associada a cada botão (como “5% de chance de ganhar 12 dólares”) e pedindo-lhe para escolher um. Como esperado com base na teoria da perspectiva, a escolha partindo da descrição produz um efeito de possibilidade — resultados raros recebem peso excessivo relativamente a sua probabilidade. Em acentuado contraste, o peso excessivo nunca é observado na escolha partindo da experiência, e peso insuficiente é comum.

A situação experimental de escolha por experiência visa representar diversas situações em que somos expostos a resultados variáveis partindo da mesma fonte. Um restaurante que normalmente é bom pode ocasionalmente servir uma refeição maravilhosa ou horrível. Seu amigo normalmente é uma boa companhia, mas ele às vezes fica mal-humorado e agressivo. A Califórnia é propensa a terremotos, mas eles raramente ocorrem. Os resultados de muitos experimentos sugerem que eventos raros não recebem peso excessivo quando tomamos decisões como escolher um restaurante ou amarrar o boiler para reduzir os danos causados por terremotos.

A interpretação de escolha partindo da experiência ainda não está

estabelecida11, mas há um consenso geral a respeito de uma importante causa da atribuição de peso insuficiente a eventos raros, tanto nos experimentos como no mundo real: muitos participantes nunca vivenciaram o evento raro! A maioria dos californianos nunca vivenciou um terremoto de grandes proporções e, em 2007, nenhum banqueiro vivenciou pessoalmente uma crise financeira devastadora. Ralph Hertwig e Ido Erev observaram que “as chances

de eventos raros12 (como o estouro de bolhas imobiliárias) recebem menos impacto do que merecem, segundo suas probabilidades objetivas”. Eles apontam para a reação morna do público a ameaças ambientais de longo prazo como exemplo.

Esses exemplos de negligência são tão importantes quanto facilmente explicáveis, mas o peso insuficiente também ocorre quando as pessoas vivenciaram de fato o evento raro.

Suponha que você tenha uma pergunta complicada que dois colegas em seu andar poderiam talvez responder. Você os conhece há anos, e tem tido inúmeras oportunidades de observar e vivenciar o caráter de cada um. Adele é razoavelmente persistente e prestativa, de um modo geral, embora não seja excepcional nesse aspecto. Brian não é tão amigável e prestativo quanto Adele na maior parte do tempo, mas em determinadas ocasiões mostrou-se extremamente generoso em ceder seu tempo e dar suas opiniões. Quem você vai abordar?

Considere dois ângulos possíveis dessa decisão:

• É uma escolha entre duas apostas. Adele está mais próxima de constituir uma coisa segura; Brian provavelmente oferece a perspectiva de um resultado ligeiramente inferior, com baixa probabilidade de ser muito bom. O evento raro receberá um peso excessivo mediante um efeito de possibilidade, favorecendo Brian.

• É uma escolha entre suas impressões globais de Adele e Brian. As experiências boas e ruins que você viveu estão armazenadas na representação que você faz do comportamento normal deles. A menos que o evento raro seja tão extremo que venha à mente separadamente (Brian certa vez foi muito estúpido com um colega que pediu sua ajuda), a norma será parcial na direção de ocorrências típicas e recentes, favorecendo Adele.

Em uma mente de dois sistemas, a segunda interpretação parece muito mais plausível. O

Sistema 1 gera representações globais de Adele e Brian, que incluem uma atitude emocional e uma tendência a se aproximar ou evitar. Nada além de uma comparação dessas tendências é necessário para determinar em que porta você vai bater. A menos que o evento raro venha a sua mente explicitamente, ele não receberá peso excessivo. Aplicar a mesma ideia aos experimentos sobre escolha partindo da experiência é algo direto. Conforme são observados gerando resultados com o tempo, os dois botões desenvolvem “personalidades” integradas às quais estão ligadas respostas emocionais.

As condições sob as quais eventos raros são ignorados ou recebem peso excessivo são

mais bem compreendidas hoje do que eram quando a teoria da perspectiva foi formulada. A probabilidade de um evento raro irá (muitas vezes, nem sempre) ser superestimada, devido ao viés confirmatório da memória. Ao pensar nesse evento, você tenta torná-lo verdadeiro em sua mente. Um evento raro receberá peso excessivo se chamar a atenção especificamente. Uma atenção especial está efetivamente garantida quando as perspectivas são descritas explicitamente (“99% de chance de ganhar mil dólares e 1% de chance de não ganhar nada”).

Preocupações obsessivas (o ônibus em Jerusalém), imagens vívidas (as rosas), representações concretas (1 de 1.000) e lembretes explícitos (como na escolha partindo da descrição) contribuem todas para o peso excessivo. E quando não houver peso excessivo, haverá negligência. Quando se trata de probabilidades raras, nossa mente não está projetada para entender as coisas muito bem. Para os habitantes de um planeta que talvez seja exposto a eventos que ninguém jamais vivenciou, isso não é uma boa notícia.