Romance Real
Capítulo 7
— Hmmm…
Os personagens engataram numa conversa na televisão, e ficamos em silêncio para continuar a assistir. Mas minha mente logo se dispersou do filme, refletindo sobre as palavras de Emi.
7
Words will be just words Til you bring them to life “Another world”
Eu encarava o celular enquanto o toque da chamada de vídeo continuava a preencher o ambiente. A foto da minha vó estampava a tela havia alguns segundos, mas eu ainda não tinha decidido se atenderia. Uma pontada de culpa surgia em meio à mágoa que eu sentia dos dois e era o que me tentava a atender.
Racionalmente, sabia que meus avós não tinham me despachado para Londres por mal. A morte da minha mãe fora difícil para todos nós — minha vó passara semanas deprimida, sem conseguir levantar da cama nem mesmo para comer, e eu e meu vô tivemos que ser fortes para cuidar dela, ainda que também estivéssemos sofrendo.
Na semana da missa de um mês, os dois receberam uma ligação da escola para uma reunião extraordinária — queriam falar sobre minha perda e o quanto isso tinha afetado meu rendimento. Foi naquele dia, na volta para casa, que eu tinha percebido o quanto meus avós pareciam cansados. Não apenas por causa da morte da filha, mas por serem obrigados a se tornar pais de uma adolescente de novo.
Então eu acabei dizendo: — E se eu fosse morar com meu pai e terminasse a escola em Londres?
Os dois olharam para mim, abismados, e dava para ver que a ideia nunca lhes tinha ocorrido.
— Quer dizer, eu sei que deve ser difícil pra vocês, e deveria ser obrigação dele cuidar de mim… — A minha voz foi morrendo quando vi os dois se entreolharem.
Tinha sido uma ideia impulsiva, e eu me arrependi assim que percebi que eles estavam cogitando de verdade. Não disseram
nem um deixe de bobeira, Dayana, nós somos perfeitamente capazes de cuidar de você antes da decisão final. Os dois simplesmente ficaram em silêncio, analisando a proposta, até que, naquela mesma noite, eu os ouvi ligar para o meu pai.
Era difícil aceitar que meus avós nem se esforçaram para ficar comigo. Eu tinha acabado de perder minha mãe, tudo o que mais queria era estar com minha família de verdade, com as pessoas que eu amava. Em vez disso, tinha sido abandonada por eles e obrigada a viver com um homem que nunca quisera saber de mim.
Talvez fosse meu castigo. Talvez meus avós também me culpassem pela morte dela.
Ainda assim…
— Oi, meu anjinho! — minha vó exclamou assim que aceitei a chamada.
Arrisquei um sorriso. Bater de frente com Roberto era uma coisa, mas com meus avós eu não tinha coragem.
— Oi, vó. Tudo bem por aí?
Pela tela do celular, via metade do rosto dela, do nariz para cima. Eu tivera que ensiná-la a fazer ligação de vídeo umas cinco vezes quando ainda estava no Brasil, porque ela vivia esquecendo. Mandar mensagens pelo WhatsApp já era um sacrifício. Além disso, eu andava sem ânimo nenhum para mostrar minha cara, então só tínhamos nos falado por chamada de voz até então.
— Ah, Dayana! Tirando a saudade, está tudo bem, sim! — Ela sempre dava a mesma resposta. Será que, no fundo, se sentia um pouquinho arrependida? Eu torcia para que sim. — Fiquei com saudade de ver seu rostinho e pedi pra filha da Neide me ajudar a ligar.
A filha de uns vinte e poucos anos da Neide, nossa vizinha, apareceu atrás da minha vó, por cima de sua cabeça.
— Oi, Day! Como estão as coisas aí? Muito frio?
— Tá tudo ótimo, Cris — menti. — Senti muito frio nos primeiros dias, mas acho que tô começando a me acostumar. O
verão tá chegando aqui.
— Ah, é verdade! Aí é tudo trocado, né? — Ela vestia um cardigã azul-marinho. — Aqui o inverno resolveu chegar mais cedo. Acredita que o tempo virou totalmente depois que você foi embora?
— É o Rio chorando por mim — brinquei, meio falando sério.
Ela deu uma risadinha, e minha vó sorriu.
— Com certeza o Rio não é mais o mesmo sem você —
concordou minha vó, com uma expressão triste. — Mas essa cidade cinza aí deve estar iluminada pela sua presença.
— E como você tá, vó? Tá se cuidando?
— Estou, sim, minha filha. Não precisa se preocupar. — Ela abanou a mão num gesto de desdém, e o celular balançou junto.
— Pode deixar que eu tô cuidando da dona Sônia, Day —
garantiu Cris.
— Eu só quero que você se preocupe consigo mesma aí — continuou minha vó —, em aprender muito e viver feliz com seu pai.
Eu quase gargalhei com o pedido. É, aí a coisa ficava um pouco mais difícil.
— Claro, vó — concordei vagamente, fugindo do assunto. — E
o vô? Tá tudo bem com ele?
— Está, sim! — Ela virou o rosto, a câmera quase grudando em sua bochecha, e berrou: — Ô Tião! Vem cá, Tião! — Minha vó abriu um sorriso antes de virar a câmera para meu vô. —
Aqui, diz oi para sua neta.
— Oi, minha borboletinha — ele cumprimentou ao aparecer na tela, muito mais calmo e sereno do que ela.
Com seu jeitão calado, trocou meia dúzia de palavras comigo antes de se afastar lentamente. Minha vó disse mais algumas frases de encorajamento antes de desligar.
Quando a tela se apagou, eu caí na cama, frustrada.
Era o fim da minha primeira semana em Londres e, sinceramente, a única coisa boa que acontecera até então tinha sido conhecer Diana. Depois do encontro na segunda, vínhamos nos falando por mensagem direto. Eu continuava acompanhando as notícias dos jornais, por curiosidade, mas ninguém havia comentado sobre uma certa garota ruiva pulando as grades do
palácio. No momento, os holofotes ainda estavam voltados principalmente para o novo reinado e os primeiros decretos de Diana como rainha. Os tabloides não paravam de falar sobre a recente ordem de revisão da política de diversidade racial, étnica e de orientação sexual da Casa Real Britânica. Apesar de toda a confusão com a saída do armário do príncipe Andrew, o rei Oliver tinha seguido ignorando todas aquelas pautas. Mas a rainha Diana, não; ela chegara escancarando a porta. A realeza britânica não podia continuar fechando os olhos para aqueles debates, ela tinha declarado. Já havia passado — e muito — da hora.
O clima em casa continuava esquisito, apesar de Roberto estar tentando ao máximo amenizar as coisas com seu jeitão despreocupado. Lauren e Georgia tinham entrado numa espécie de guerra fria — sempre se alfinetando e trocando hostilidades
—, mas pelo menos assim minha madrasta havia parado um pouco de pegar no meu pé.
O que significava que eu tinha passado os últimos quatro dias trancada no quarto, sozinha. Ainda tinha três meses até o início das aulas, mas aproveitei a calmaria para começar a treinar meu inglês. Além de assistir séries e filmes com legenda em inglês, eu treinava com Diana.
Deveria estar feliz por ser deixada em paz, mas a verdade é que a cada dia que passava eu me sentia mais solitária.
Olhei ao redor do quarto, observando as paredes ainda nuas e os móveis velhos. Nada naquela casa parecia um lar. Eu sabia que, sem a minha mãe, qualquer lugar seria frio e sem cor, mas ali em Londres tudo ficava mil vezes pior.
Depois do que pareceram horas, alguém bateu à porta.
Bloqueei o celular, fazendo pausar o vídeo que estava vendo no TikTok, e me endireitei, sem querer dar a ninguém o gostinho de me ver triste.
Por uma fresta, Georgia espiou o quarto.
— Que é? — perguntei, ríspida.
— Ih, grossa. — Ela entrou e fechou a porta, então suspirou e relaxou a postura defensiva. — Vim te pedir desculpas — disse, sem rodeios. — Eu me exaltei um pouquinho naquele dia, mas não deveria ter descontado em você.
— Foi a Lauria… — Eu me segurei. Quase tinha deixado escapar o apelido de Lauren na frente da filha dela! Não achava que Georgia ficaria muito feliz, mesmo com a briga recente. — …
Lauren que mandou você vir falar comigo?
Georgia arqueou a sobrancelha. Será que tinha percebido?
— Não. — O tom foi taxativo.
Tudo indicava que ela e a mãe ainda não estavam se falando direito.
— O Roberto então, né? Realmente, eu deveria ter imaginado.
Peguei o celular, ignorando a presença dela. Não me importava com desculpas falsas. Ela tinha deixado bem claro o que achava de mim naquela manhã.
— Ele até veio conversar comigo, mas eu já pretendia falar com você de qualquer forma.
— Sei.
Mantive a expressão descrente, mas algo em meu peito pesou ao ouvir que Roberto havia tentado resolver as coisas com Georgia.
— Olha, eu não sou assim — ela continuou, aumentando o volume da voz enquanto vinha até mim e pegava o celular da minha mão. Cruzei os braços, pronta para protestar, mas ela não me deixou falar. — Não sou estourada, nem grito com as pessoas, muito menos falo qualquer coisa que possa magoar os meus pais. E não é porque eu quero ser a filhinha perfeita. Eu respeito meus pais. A gente tem um bom relacionamento. Às vezes eles me deixam frustrada? Sim. Às vezes a gente briga?
Sim. Como toda família, nenhum de nós é perfeito. — Ela suspirou, chateada. De testa franzida, ela não me encarava mais.
Estava com o olhar perdido no chão. — E essas dores que eu ando sentindo têm me deixado irritada, especialmente quando ninguém acredita em mim. Mas passei de todos os limites, eu sei.
Claro que eu tô, sim, chateada por eles não levarem minha reclamação a sério, mas vamos ser sinceras, né? Boa parte desse estresse todo tem a ver com você.
— Comigo? — indaguei, cínica, com a mão no coração.
Tudo bem, eu sabia que estava sendo insuportável, mas não conseguia resistir.
Ela revirou os olhos, mas preferiu me ignorar.
— As coisas têm sido um pouco diferentes desde que soubemos que você vinha, ok? E não tá sendo fácil pra mim dividir a atenção dos meus pais com você ou te ver maltratando as pessoas que eu mais amo. — Também não parecia estar sendo fácil admitir aquilo, mas Georgia continuou: — Enfim, nada disso é justificativa pra eu ter te tratado mal. Entendo que você não tem a mesma relação que eu tenho com eles e que passou por muita coisa lá no Brasil, então não é justo que eu te trate assim. Eu tô realmente arrependida e prometo que vou tentar não deixar isso se repetir.
Pestanejei, sem saber o que dizer, enquanto Georgia me encarava.
Parecia estar sendo realmente sincera. Aquilo me desconcertou. Eu não esperava que ela fosse pedir uma trégua.
Com brigas e implicâncias eu sabia lidar, mas com aquilo?
Olhei para os meus pés, quentinhos dentro de um par de meias de A bela e a fera.
— Tá bem… — eu disse, cautelosa. Um silêncio constrangedor se estendeu pelo quarto. — Hmmm… E você tá melhor?
— Tô, sim.
O rosto dela realmente parecia cheio de vida, diferente dos dias anteriores. Georgia era um palmo mais alta do que eu, mas tinha também um porte largo e grande, com bem mais curvas.
Havia feito um rabo de cavalo no topo da cabeça com uma trança, e eu podia nitidamente imaginá-la como a filha perfeita: estudiosa, popular, amiga de todo mundo. A aluna de ouro.
— Mas manda a real aí, tem certeza que você não tava só de ressaca? — Abri um sorrisinho, e ela revirou os olhos. Mas era a minha forma de estender a bandeira da paz, e Georgia pelo visto sabia disso. — Quer dizer, eu vi você chegando tarde no sábado, não precisa mentir.
— Eu não tô mentindo, eu saí mesmo. Mas nem bebi naquele dia, só fui encontrar uns amigos e descontar um pouquinho da minha frustração com a chegada da minha irmãzinha estourada.
— Ela desabou ao meu lado na cama, confortável demais, e deu um sorrisinho debochado. Revirei os olhos, mas não estava exatamente irritada com o comentário. Ela não estava falando nenhuma mentira, afinal. — Não foi a primeira vez que fiquei daquele jeito, mas tem piorado com o tempo.
— E você não faz nem ideia do que seja?
— A única coisa que sei é que teve um dia que acordei com uma dor absurda no corpo e não conseguia nem levantar.
Falaram que devia ser por causa de alguma atividade que fiz sem me alongar antes e que ia passar logo. Mas aí não passou.
— Ela deu de ombros. — Diminuiu, mas não passou. Tem dias que sinto vontade de vomitar de tanta dor. Já fui em três médicos diferentes, mas, como os exames não apontaram nada, todos disseram que devia ser só exagero meu. Dois disseram que tô querendo chamar atenção. Minha mãe acredita em mim, eu sei, mas acho que às vezes ela fica um pouco frustrada. Como na segunda-feira.
Assenti, sem saber o que dizer.
— Fora que você anda sendo um pé no saco, né, a coitada deve estar por aqui de estresse — ela falou, levando a mão ao topo da testa.
Revirei os olhos e lhe dei um chutinho.
— Sai pra lá, a gente não pode dar um pouquinho de confiança que a pessoa já fica abusada.
Ela gargalhou, levantando da cama.
— É que a conversa tava ficando esquisita sem sua rabugice.
— Ela foi em direção à porta, mas se virou com a mão na maçaneta. — Prefiro assim.
Ela deu uma piscadela, e eu não consegui conter um sorrisinho.
— Minha filha, você não acha que já passou da hora de conhecer alguém novo, não? — minha vó perguntou à mesa do almoço de domingo, depois de ouvir a filha dizer que não queria mais saber de namorar. — Não faz bem para uma mulher ficar sozinha.
Minha mãe me encarou e revirou os olhos discretamente.
Eu abafei uma risadinha.
— É, mãe, você tá certa. Meu coração chega a doer todos os dias quando lembro que tô sozinha.
As primas da minha mãe gargalharam e minha vó estreitou os olhos. — Deixa de ser debochada, Patrícia. Desde que o Roberto foi embora nunca mais te vi com ninguém.