Romance Real

Clara Alves · Capítulo 20 de 38

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Romance Real

Capítulo 19

Diana abriu um sorriso e me beijou.

Foi então que eu me dei conta.

Eu estava apaixonada pela filha perdida do príncipe da Inglaterra.

 

Mais uma reunião a portas fechadas no palácio de Buckingham!

por Chloe Ward

A família real não é lá muito discreta quando se trata de reuniões familiares e encontros políticos. Pelo contrário: a ordem da casa é que todos os eventos reais sejam um grande espetáculo. Mas o palácio anda bem movimentado ultimamente — e ninguém sabe exatamente o motivo.

Os boatos dizem que a situação entre Tanya Parekh e o príncipe Arthur está cada vez mais tensa, e que a mulher misteriosa com quem o duque de York vem se encontrando compareceu novamente ao palácio na última quinta.

Enquanto a assessoria real não faz um pronunciamento, só nos cabe especular: será que em breve veremos mais um divórcio real?

19

So many words we’re not saying Don’t wanna wait til it’s gone.

“Strong”

— Você tem ideia de quão irresponsável sua atitude foi, Dayana?

— A voz grossa do meu pai ecoou pela casa. Seu rosto estava vermelho, as veias pulsando no pescoço. Ele andava de um lado para o outro na sala, parecendo bravo de verdade pela primeira vez desde que eu chegara.

Eu estava sentada no sofá, ouvindo o sermão de cabeça erguida. Tinha errado, sim. Não tinha percebido o tempo passar até acenderem as luzes da London Eye e dos edifícios que ladeavam o Tâmisa. O efeito era lindíssimo — o reflexo dos edifícios acesos à margem do rio, brilhando em tons de amarelo, laranja, azul e vermelho na água escura, sob o céu violeta, era como uma pintura em aquarela. Lembrava a vista noturna da lagoa Rodrigo de Freitas na época do Natal, a árvore montada no meio da água trazendo uma alegria multicolorida. Mas o susto que eu tinha levado me impediu de aproveitar a paisagem.

Na hora que me tocara, saquei o celular da bolsa, assustada, e encontrei um monte de ligações perdidas e mensagens não lidas.

Já passava das nove, o horário que eu havia combinado de encontrar meu pai na mercearia.

Enquanto Diana e eu corríamos para o metrô, eu ia olhando as mensagens de Georgia.

Tudo bem por aí?

Alô?

Garota, nosso pai tá se arrumando Cadê você??????

Dayana ELE TÁ INDO

EU ESPERO QUE VOCÊ ESTEJA A CAMINHO

Fodeu, Dayana Seus colegas de trabalho te deduraram Ele tá desesperado atrás de você Minha mãe ficou me enchendo o saco, acabei falando que você tá com um garoto DESCULPA Pelo amor de Deus, espero que você esteja bem Espero que você não tenha feito nada perigoso Caramba, manda um sinal pelo menos, tô preocupada Quando eu finalmente cheguei em casa, Lauren e Roberto andavam de um lado para o outro na frente de Georgia, sentada no sofá, acuada.

Então, ok. Sei que deixei todo mundo preocupado. Sei que fui imprudente. Mas eu me recusava a baixar a cabeça para o homem que desistira de ser meu pai.

Ao meu lado, porém, Georgia encarava os pés.

— Você acha que só porque não está mais no Brasil pode fazer o que quiser? Que a gente vive aqui num mundo encantado de conto de fadas? Claro que não! — A voz dele aumentou de volume. — Podia ter acontecido alguma coisa! E você, Georgia!

Acobertando essa loucura! Estou decepcionado.

Georgia se encolheu.

— Vocês sabem como eu me senti quando cheguei naquela mercearia e descobri que você tinha saído fazia horas? — ele continuou. — Que você tinha mentido pra mim?

A raiva borbulhou dentro de mim como água fervente. A raiva que tinha ficado adormecida nos últimos dias, enquanto eu começava a me acostumar àquela nova realidade, àquela nova família.

— Ah, me poupe! E você? — berrei em resposta, tremendo de fúria ao ouvir aquela ladainha. — Acha que só porque estou aqui agora, debaixo do seu teto, significa que você é meu pai de novo? Onde você estava quando eu ficava doente e minha mãe tinha que passar a noite cuidando de mim? Onde você estava

quando ela virava a noite cozinhando marmita para nos sustentar sozinha? ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO ELA MORREU?

Eu pensei que, como da primeira vez, ele ia recuar. Fiquei esperando que ficasse tenso, que gaguejasse. Talvez eu tivesse subestimado sua raiva, porque a veia em seu pescoço só pulsou mais forte e ele estufou o peito, se impondo: — Não importa o que aconteceu no passado. Você está sob minha responsabilidade agora e vai ter que obedecer às minhas regras!

Lauren deu um passo na direção de Roberto, levando a mão ao seu ombro. Até ela parecia assustada. Ao nosso pé, Ruffles começou a latir, perturbado.

— Darling, se acalme. — Parecia que eu tinha caído na toca do coelho da Alice e estava vendo tudo invertido. Roberto irritado, Lauren tentando amenizar a situação. — As meninas erraram, mas o importante é que a Dayana está bem.

— Mas podia não estar!

— Não importa o que aconteceu no passado?! — perguntei, incrédula, ignorando a tentativa de Lauren de apaziguamento. —

Talvez você tenha vivido muito bem até agora sem a gente, mas não faz ideia de quantas vezes eu precisei de você! Onde estava sua “preocupação” — fiz aspas com o dedo, para afrontar — nos últimos dez anos?

Parecia que, quanto mais raiva eu jogava na cara dele, mais irritado Roberto ficava. E quanto mais ele expurgava a raiva, mais irracional eu me tornava.

— Você também não sabe nada do que vivi até agora! — ele retrucou.

— Se você não tivesse nos abandonado, talvez eu soubesse!

Ele respirou fundo.

— Chega de discussão. Você tá de castigo. E você também! —

falou para Georgia. — E você, para de latir! — berrou para o cachorro, que choramingou acuado.

— O quê?! — Georgia perguntou, abismada.

— Ah, pelo amor de Deus… — falei ao mesmo tempo.

— Se reclamarem vão ficar sem celular também — ele cortou.

— Vão já pro quarto! Sem conversinha!

— Eu já ia mesmo, não aguento olhar mais um segundo pra sua cara!

Saí pisando duro e bati a porta com força, mas a raiva não passou. A vontade que eu tinha era de quebrar tudo que estava ao meu alcance, mas uma voz na minha consciência — que parecia muito com a da minha mãe — me dizia que aquilo só iria piorar as coisas e, no fim das contas, eu só sairia perdendo.

Me joguei na cama, agarrando o travesseiro, e as lágrimas começaram a cair. Eu não conseguia acreditar que, quando finalmente conseguira dizer algumas das coisas entaladas em minha garganta, Roberto tivera a ousadia de ficar irritado. Havia imaginado aquela cena tantas vezes na minha cabeça — mas, em quase todas, ele chorava e me pedia perdão. Às vezes eu aceitava, às vezes não. Quando estava me sentindo particularmente deprimida, eu o imaginava dizendo friamente que não se arrependia de nada do que tinha feito e que só me aceitara de volta porque tinha sido obrigado, de um jeito ou de outro.

Mas nunca, nunca imaginei que ele sentiria raiva!

Que direito ele achava que tinha de jogar na minha cara que eu também não sabia o que ele tinha passado?

Ah! Eu imaginava muito bem: conhecera uma nova mulher, arrumara uma família nova e menos problemática para substituir a velha, que tinha ficado para trás, tinha uma qualidade de vida suficientemente boa.

Ele estava louco se pensava que eu ia me compadecer da sua suposta vida difícil.

Uma batida leve na porta interrompeu a espiral de pensamentos revoltados em que eu me encontrava.

— Eu vou conversar com ele, Day, não se preocupa. — Ouvi a voz de Lauren, abafada, do outro lado da porta. — Ele só ficou preocupado, mas vai se acalmar, prometo.

Não respondi. Os passos dela se afastaram e um silêncio tomou a casa. Meu choro copioso, de raiva, de tristeza, de luto, era o único som. Chorei até meu corpo ficar seco.

Eu me sentia tão sem chão. Tão perdida. Como poderia viver naquela casa por mais dois anos? Como aguentaria olhar para a

cara de Roberto todos os dias depois daquela briga? Não tinha sido a primeira, e definitivamente não seria a última.

Acabei cochilando, e fui despertada, algum tempo depois, por outra batida à porta.

— Day? — Era Georgia. Ela abriu uma fresta. — Posso entrar?

Sentei na cama, esfregando os olhos inchados de tanto chorar.

— Pode.

Ela veio, na ponta dos pés, e sentou na pontinha. Olhei a tela do celular e vi que já eram quase duas da manhã. Ela devia ter esperado os pais irem dormir para se esgueirar até o meu quarto.

— Tá com dor de novo? — perguntei, quando ela fez uma careta ao se remexer.

— Um pouquinho. Eu tava bem nos últimos dias, mas voltei a sentir agora de noite.

— Sério? — Eu franzi a testa. — Será que é psicológico?

Ela revirou os olhos.

— Não é psicológico, eu estou mesmo sentindo dor.

— Não — acenei as mãos —, quis dizer, psicossomático.

Sabe, quando alguma questão emocional afeta fisicamente.

Minha vó, por exemplo, vivia doente depois que… Sabe.

Ela torceu a boca.

— Não sei, não tinha pensado nisso. Eu tentei procurar no Google, mas podem ser quinhentas mil coisas.

— Talvez você deva procurar um psiquiatra, ou aqueles médicos alternativos, sabe? Especialista em dor, reumatologista, quiroprata. Meus avós viviam indo nesses negócios.

Ela inclinou a cabeça.

— Tá me chamando de velha?

Eu dei uma risadinha, a tensão se dissipando.

— Você tá bem? — Georgia perguntou depois de um tempo.

Eu só dei de ombros e ficamos em silêncio enquanto eu despertava do sono nada revigorante. A briga ainda estava bem vívida em minha mente.

— Você podia ter fingido que não sabia de nada — falei, por fim. — Acabou pagando o pato também.

Ela deu uma risadinha, que soou meio perturbadora.

— Não achei que seria justo você ser castigada sozinha, quando fui eu que dei a ideia.

Olhei para Georgia, agradecida pela solidariedade.

— E desculpa — ela continuou, meio triste. — Não paro de pensar que foi uma péssima ideia. Acho que eu só ando meio frustrada, porque parece que essas dores não vão embora nunca, só pioram. Talvez eu estivesse tentando viver através de você… — Ela deu um sorrisinho cabisbaixo. — Mas o que aconteceu afinal? Descobriu mesmo alguma coisa?

Franzi a testa, confusa. A discussão com Roberto tinha varrido completamente os acontecimentos da minha cabeça. À medida que fui lembrando — minha espiada no palácio, a nova fuga com Diana, filha do príncipe… filha do príncipe! —, a adrenalina voltou com tudo.

Hesitei. Diana tinha me pedido para não abrir a boca, e eu entendia o porquê. Aquilo não era brincadeira. Eu finalmente começava a assimilar a gravidade da situação: a porra do príncipe da Inglaterra tem uma filha ilegítima e, segundo as matérias, aquela revelação parecia estar abalando o casamento de Arthur. Se a notícia vazasse, seria um escândalo.

E Diana estaria no olho daquele furacão.

— Eu prometi que não contaria a ninguém — confessei, ainda insegura.

Eu deveria ter mentido e dito que não, não tinha descoberto nada. Mas não estava pensando direito.

Georgia sacudiu minhas mãos e me olhou com cara de cachorro que caiu da mudança.

— Eu sou sua irmã, não sou ninguém. Minha boca está selada.

Ouvir Georgia dizer que era minha irmã me trouxe uma estranha satisfação. Quase sorri. Ela tinha me apoiado naquela loucura, e, sem ela, eu jamais teria descoberto nada. Também ficara do meu lado, assumindo a culpa de ter me ajudado. Ela merecia a verdade, certo? Eu não tinha pedido a Diana confiança mútua?