Romance Real
Capítulo 25
— Ah, sim. — Ele se calou, e flagrei abertamente os olhares autoritários de Lauriane. — Será que tem alguma forma de a gente entrar em contato com eles mais rápido?
Ela deu de ombros.
— E será que… — Roberto tentou continuar, mas Georgia levantou de um salto, dizendo: — Vou ao banheiro. — Seu rosto se contorceu em uma careta de dor, e eu tive um impulso de perguntar se ela precisava de ajuda.
Mas me contive.
Pelo menos até o segundo seguinte, quando ela pisou fora da cabine e simplesmente desmaiou.
25
You gotta help me, I’m losing my mind Keep getting the feeling you wanna leave this all behind “History”
Fibromialgia.
Aquela era a suspeita do médico que havia atendido Georgia na emergência.
Fazia sentido. Uma síndrome caracterizada por dor generalizada e sensibilidade no corpo, cuja causa ainda era desconhecida. Eu só tinha ouvido falar na doença porque Lady Gaga havia cancelado a participação no Rock in Rio por conta disso. Mas não conhecia ninguém que tivesse, nem nunca havia pesquisado sobre o assunto.
Até então.
— Por que você não falou que a dor estava tão forte assim? —
perguntei a Georgia, no dia seguinte.
Ela acabara passando a noite no hospital, tomando soro na veia, porque não vinha nem conseguindo comer direito. Voltara para casa de manhã e só conseguira subir para o quarto porque estava dopada de analgésico.
Georgia tinha sido uma escrota comigo, mas eu não queria que ela ficasse doente. Ela estava encolhida na cama, voltada para a parede. Fiquei sentada na cadeira da escrivaninha do quarto dela, me sentindo péssima. Ainda que estivéssemos brigadas, eu devia ter notado alguma coisa.
— Eu falei. Vocês acharam que eu estava exagerando — disse com o tom ríspido.
Ela se calou, e eu fiquei tentando encontrar o que dizer. Ela estava certa, é claro. Mesmo acreditando nela, todos nós tínhamos menosprezado a intensidade do que dizia sentir.
Georgia tinha reagido muito mal à suspeita da fibromialgia, especialmente porque não tinha cura. Havia chorado sem parar, mesmo que o médico insistisse que ainda era apenas uma suspeita. No fundo, ela devia saber que o diagnóstico era muito provável.
Ela teria que fazer uma bateria de exames para descartar outras doenças. Aparentemente, ainda não existia nada que comprovasse a fibromialgia de imediato. Se o diagnóstico fosse confirmado, algumas opções para amenizar as dores eram atividades físicas, um possível acompanhamento psiquiátrico, talvez algum analgésico.
— Só me deixa em paz, Dayana — Georgia pediu depois de um tempo. — Eu quero ficar sozinha.
— E eu tenho que te obedecer por quê? — perguntei, brincando com a alavanca da cadeira, abaixando o assento até o final. — É pra isso que servem irmãs postiças.
Ela virou para mim, com o olhar irritado, que perdeu eficácia com a careta de dor que tomou conta do seu rosto.
— Me poupa, tá? Só vai embora. Eu não quero falar com você.
Baixei a cabeça, desolada.
— Desculpa — pedi, baixinho, mesmo que tivesse sido ela quem me ferrou.
Saí antes que a deixasse ainda mais irritada.
Fechei a porta do quarto devagar e suspirei, me encostando à madeira atrás de mim. Eu queria tanto apagar os últimos dias, voltar a como as coisas estavam antes de sábado. Queria esquecer que Georgia traíra minha confiança, que eu traíra a confiança de Diana, que tudo estava uma merda colossal.
Comecei a descer, suspirando, mas a voz alta de Lauriane me fez parar.
— Não sei o que vou fazer se confirmarem essa doença, darling, não aguento ficar vendo minha filha assim. I can’t bear it.
— Lauren parecia cansada, mesmo com a voz abafada pela porta fechada do quarto. — Estou arrependida de não ter me esforçado mais para encontrar o problema. Ela devia estar sofrendo tanto!
— Para com isso, amor, você não tem culpa. — Mas o tom do meu pai soava igualmente preocupado. — Nenhum de nós conhecia essa doença, e nenhum dos médicos que procuramos antes nos alertou sobre isso. Como a gente ia saber? Mas vamos dar um jeito. Sempre damos, não é? — Por mais motivador que o discurso fosse, o desânimo parecia estar vencendo aquela batalha dentro dele.
— Não concordo, Roberto. Acho que fui negligente com ela. Eu deveria ter prestado mais atenção. — Dava para perceber que ela andava de um lado para o outro. — E depois da mudança da Dayana… Deu pra ver que ela estava tendo mais crises, eu sabia disso, mas fechei os olhos. Esse estresse todo talvez esteja piorando a saúde dela.
Senti meu coração dar um solavanco. Lauren estava… me culpando?
— O que você quer que eu faça, Lauren? — perguntou meu pai, demonstrando uma leve irritação. — Sei que não é fácil lidar com a Dayana, mas ela também não tá num momento bom. Eu não podia fechar as portas para ela. Ela é minha filha.
Eu quase sorri com a resposta do meu pai. Mas estava chocada demais para isso.
Lauren bufou.
— Claro que não, Dayana precisava da gente. É claro que não recusaríamos. Só foi um bad timing. Justo quando a Georgia começou a ficar mal, a Dayana veio. Esses ataques de raiva dela, as dores de Georgia piorando. Só foi demais.
Overwhelming. Eu estou exausta. — A voz de Lauren falhava, como se ela estivesse prestes a chorar.
— Eu sei, amor, mas a gente vai encontrar uma solução, fica tranquila — falou meu pai, com um tom mais calmo.
Ouvi passos dentro do quarto, e os dois ficaram em silêncio.
Antes que eles acabassem saindo e me pegando ali, desci correndo na ponta dos pés, tentando não fazer barulho naquela casa infernal, que rangia a cada passo que se dava.
Mas acho que eles estavam ocupados demais com a família da qual eu não fazia parte para lembrar que eu também morava ali.
Para serem cuidadosos ao falarem de mim.
Talvez não se importassem de verdade. Eu tinha deixado todo mundo exausto, não era mesmo?
Eu deveria estar feliz que a fachada da família perfeita tivesse caído antes que eu pudesse me apegar. Eles estavam começando a se embrenhar nos meus sentimentos, me deixando à vontade. Logo logo, eu teria me sentido em casa.
Mas eu não estava em casa.
Aquilo não era um lar.
Em um lar as pessoas não te acusavam de fazer sua irmã postiça ficar doente.
Em um lar as pessoas te aceitavam, não por pena, mas porque queriam te acolher.
Em um lar as pessoas te amavam.
Aquilo não era um lar.
Eu sempre soubera. Mas a ilusão às vezes era mais fácil de aceitar do que a realidade. Era fácil me acostumar com aquilo quando eu não tinha mais nada.
As lágrimas transbordaram sem que eu tivesse chance de contê-las e algo se partiu dentro de mim. Eu queria tanto ligar para Diana e me refugiar no abraço dela. Mas nem aquilo eu tinha mais. Toda a vida que eu havia construído com tanta dificuldade naquele lugar distante se estilhaçou, como se feita de porcelana.
Eu me senti sufocada de repente naquela casa, naquela cidade, naquele país.
Mas o que eu podia fazer? Fugir?
A ideia se acendeu como uma lâmpada em minha mente.
Era como se eu estivesse em queda livre.
A cada hora.