Romance Real

Clara Alves · Capítulo 12 de 38

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Romance Real

Capítulo 11

Mordendo o lábio, olhei para a mensagem não enviada no meu celular.

Apaguei.

conhece o Tabernacle?

Meu crush em Angélica acabou quando entramos no ensino médio. Vieram as férias, trocamos de turma, ela começou a namorar um garoto do segundo ano, e aí tudo desapareceu como num passe de mágica.

E então veio o Heitor.

Foi um certo alívio até, não ter mais que esconder meu interesse amoroso. Eu não era de mentir para minhas amigas, e sabia que não tinha motivos para isso. Elas jamais me julgariam.

Mas, ainda assim, parte de mim sentia medo. E se Emi achasse que eu só queria entrar no vale por modinha? E se Lara achasse que era uma fase? E se elas me apoiassem e me motivassem a me assumir, e eu tivesse que contar para minha mãe?

Eram dúvidas infundadas, eu sabia. Mas não estava pronta para ter que brigar por algo que ainda nem entendia muito bem.

Então fiquei calada.

11

So I built you a house from a broken home “Where do broken hearts go”

Quando voltei da mercearia pela segunda vez na semana, decidi que tinha chegado a hora de contar a Lauren sobre o emprego.

Eu tinha dito que ia passear por Londres todas as vezes, então minha madrasta não fez muitas perguntas, apenas exigências: não demore, avise se houver imprevistos, atenda o telefone. Mas não daria para esconder quando tivesse que ir todos os dias à mercearia.

Além disso, eu não queria esconder.

Então, enquanto eu, ela e Georgia colocávamos a mesa do almoço, acabei contando a verdade.

As reações não foram nada do que eu esperava.

Georgia arqueou a sobrancelha e disse: — Olha, taí uma coisa que eu não esperava: que você fosse do tipo trabalhadora.

Lauren ignorou a filha e, virando com uma panela na mão para colocar na mesa, falou: — Eu acho ótimo! Trabalhar ensina a ter responsibility e ajuda a treinar seu English.

Era impressão minha ou ela tinha acabado de me dar uma indireta bem passivo-agressiva sobre responsabilidade?

— Era isso que eu tava pensando. Sobre treinar o inglês —

acrescentei. Porque eu já era responsável, e muito. — Andei pensando em aproveitar o salário pra procurar também um professor para me ajudar na conversação. Não queria chegar na escola sem entender direito o que os professores falam.

— Nonsense — cortou Lauren na mesma hora, e eu estava pronta para contra-argumentar quando ela continuou: — Deixe que seu pai e eu resolvemos a questão do English tutor. É

mesmo uma boa ideia, mas guarde o dinheiro to yourself. Tem muitas coisas legais aqui, você vai amar fazer compras em Londres! Inclusive agora temos mais uma desculpa pras nossas comprinhas! — Ela bateu palmas, empolgada.

Mais tarde, durante o jantar, ela contou ao Roberto sobre o emprego e a ideia de estudar inglês. Notei que a mão dele segurando o garfo parou a meio caminho da boca, enquanto assimilava a esposa dizer que eles deveriam arcar com esse custo. Realmente, certas coisas nunca mudavam. Roberto continuava muito mão de vaca, mesmo que eu agora morasse debaixo do seu teto.

— Sim, sim — concordou ele, depois de uma discreta cotovelada de Lauren. — Deixa com a gente, não precisa se preocupar.

— Obrigada — murmurei, ocupando a boca com uma garfada do bolo de carne delicioso de Lauren.

Ela deu uma piscadela para mim, e senti uma onda de gratidão.

Alguns minutos depois, enquanto meu pai e eu lavávamos e guardávamos a louça, ele enfim me parabenizou.

— Você vai se dar bem, Londres tem muitas oportunidades boas, se você souber aproveitar — comentou, esfregando um prato com a luva de borracha antes de colocar no escorredor. —

Eu não soube muito bem.

Ele não emendou, mas eu conhecia mais ou menos sua situação no país: não falava quase nada de inglês, não tinha certificação superior. Tinha conseguido a cidadania graças ao casamento com Lauren, mas não se integrara ao país.

Era muito estranho estar ali, conversando com ele como se não fôssemos dois desconhecidos que moravam juntos. Olhei para nossas mãos, a dele coberta pela luva de borracha, a minha segurando o pano de prato, ambas apoiadas na bancada da pia.

A pele dos nossos braços tinha quase o mesmo tom marrom-claro. Lá no Brasil, eu vivia ouvindo dos meus avós o quanto era parecida com Roberto. Fisicamente, nos trejeitos, até no jeito de dormir, com uma das pernas dobrada. E, apesar de ser obrigada a concordar quando olhava para ele, nada daquilo importava.

Qualquer sentimento de proximidade era embaçado pela mágoa por nunca ter tido aquela oportunidade enquanto crescia.

Talvez eu devesse encarar como um intercâmbio em Londres, em que ele fosse o pai da família que me acolhera, e estava tentando fazer eu me sentir em casa, mas sem a responsabilidade emocional que um pai de verdade deveria ter.

Acreditar nessa versão seria muito menos doloroso.

Enquanto o observava lavar a louça, com seus olhos castanhos grandes e alegres iguais aos meus, me perguntei se um dia eu conseguiria fazer as perguntas que realmente desejava.

Eu podia não conseguir fazer as perguntas importantes, mas estava finalmente preparada para extorquir de Roberto todo o dinheiro que ele devia da minha criação. Por isso, no sábado seguinte, quando entramos na seção plus size que acabamos encontrando na Primark, com um sorriso perverso, eu me livrei de qualquer resquício de culpa e de todos os ensinamentos da minha mãe sobre escolher roupas com o melhor custo-benefício.

Eu estava pronta para fazer a festa!

Claro que Lauren também estava pronta para me impedir.

— Ok, then, nosso ponto de encontro é no caixa. — Lauriane assumiu o controle da situação. Eu quase tinha esquecido que era ela quem administrava o dinheiro da família. Não era ela afinal que ficava cochichando no telefone, sempre que eu tentava pedir ajuda financeira ao meu pai? — Vocês podem pegar o quiserem, mas tenham juízo, não queremos levar seu pai à falência, right, girls?

Talvez eu quisesse…

— E por motivos óbvios, a Day tem um limite maior —

continuou, e Georgia torceu o nariz —, mas vamos com calma. A Primark não vai a lugar nenhum . Prioridades, ok, sweetie?

Assenti, feito um cachorrinho. Eu acabava de ser comprada, subornada e manipulada. E não estava nem aí.

Olhei para meu pai, notando o quanto parecia igualmente empolgado. Ele tinha passado a viagem inteira até a loja falando

maravilhas de Londres, como se estivesse ansioso para me fazer gostar da cidade, o que seria até bonitinho, não fosse aquela história toda de ter me abandonado quando eu tinha apenas seis anos.

Depois que nos liberaram, comecei do começo. Olhei todas as araras rapidamente, fazendo uma análise geral, então peguei algumas calças e blusas e fui para o provador descobrir qual era meu tamanho na loja. A numeração de lá era completamente diferente da que eu estava acostumada.

Quando vesti a primeira calça, meu celular começou a tocar.

Era uma chamada de vídeo da minha vó. Ela estava ficando boa nisso.

Ou não.

Quando atendi, a câmera estava voltada para sua orelha, emoldurada pelos fios grisalhos.

— Vó? Cadê você? — perguntei, divertida.

— Day? — chamou, meio gritando. — Estou aqui, está ouvindo?

— Vó, você fez uma ligação de vídeo. Só tô vendo a sua orelha!

Ela afastou o telefone do ouvido e encarou a tela. Ao me ver, seu rosto se iluminou num sorriso.

— Oi, meu amor! — cumprimentou, com os olhos brilhando.

Parecia que não me via fazia uma vida, mas a última ligação tinha sido só umas doze horas antes. Ela aproximou o celular dos olhos e o sorriso sumiu da tela. — Como vai minha netinha?

— Sua netinha está muito feliz nesse momento, provando roupas. — Apontei a câmera para as peças amontoadas no banco. — Sua netinha is very happy.

— Ai, que maravilha, minha filha! — Os olhos dela brilhavam de empolgação. — Estou tão feliz por te ver assim! Isso significa que as coisas por aí andam boas, certo?

— Ah, vó. Ainda é meio estranho, mas… até que tá tudo bem.

— Mas faz pouco tempo que você chegou. Eu não tenho dúvida de que as coisas vão melhorar cada vez mais. Vocês só precisam se acostumar um com o outro, como família. — Ela parecia estar dizendo aquilo para se convencer. — Estou muito

orgulhosa de você, Day. Me dá uma paz saber que minha neta está bem. Eu sei que, no fundo, você não ficou feliz com a decisão que seu vô e eu tomamos, mas espero que saiba que a gente fez isso para o seu bem.

Eu hesitei, um pouco chocada, porque era a primeira vez que minha vó admitia saber como eu me sentia.

Senti um sabor amargo na boca.

— Sei… — foi tudo o que falei, a animação sumindo completamente. — Vó, a ligação aqui dentro tá meio ruim, vou ter que desligar, tá? Beijo.

Antes que ela pudesse responder, toquei o ícone vermelho.

Fiquei encarando o espelho à minha frente por alguns segundos, até que a cortina do provador foi parcialmente aberta.

Dei um pulo, virando para o rosto sorridente de Georgia e espalmando as mãos na frente do corpo, apesar de estar completamente vestida. Ela estava escondida pela cortina do provador.

— Garota! Você gosta de me assustar, hein? — reclamei, mas relaxei ao perceber que não era ninguém estranho.

Ela me ignorou.

— E aí, achou seu tamanho? O modelo ficou bom?

Olhei para minhas pernas e dei uma dançadinha no lugar.

— Até que não ficou ruim.

Georgia revirou os olhos.

— Você não dá o braço a torcer, né? — Ela abriu o restante da cortina, me mostrando um vestido xadrez amarelo bem justo às suas muitas curvas. — O que acha? — perguntou, dando uma voltinha.

— Lindo! — falei, sincera. — Onde achou esse? Será que tem pro meu tamanho?

— Ah, não. Agora vai querer comprar roupa igual? Daqui a pouco a gente tá saindo por aí que nem gêmeas.

— Enfia no cu essa merda, então — reclamei, mas não estava irritada de verdade. — Só achei que poderia ficar bonito em mim…

Ela bufou.

— Você quer é ficar bonita pra sua garota, né?

Quando comecei a protestar, ela me interrompeu: — Tá bom, vai, eu deixo você ficar mais bonita que eu pra conquistar a crush hoje. Depois vou lá pegar pra você.

E foi saindo sem nem me deixar responder.

Aquele com certeza era o dia mais feliz da minha vida.