Romance Real
Capítulo 6
And I’m joining up the dots With the freckles on your cheeks And it all makes sense to me “Little things”
Encontrei Diana na estação de Camden Town.
O metrô de Londres não era dos mais simples. Para uma carioquíssima como eu, acostumada única e exclusivamente com as duas linhas que não cruzavam nem um terço da cidade e eram paralelas durante várias estações, me entender com os diversos sobe e desce e troca-troca do underground era quase questão de Enem. Para chegar ao palácio de Buckingham no dia anterior, eu levara o dobro do tempo que o GPS tinha me informado.
Ainda bem que existia GPS.
Foi grudada nele com ainda mais atenção que fui ao encontro de Diana.
Eu a avistei perto das roletas, com uma calça de moletom preta e um cropped combinando. Parecia bem mais à vontade do que no dia anterior, quando fugira do palácio. Ao me ver, abriu um sorriso que fez meu estômago se revirar.
Devia ser proibido alguém ser tão bonita assim.
— A gente não teve muita oportunidade de conversar ontem —
falou enquanto começávamos a andar. Ela não mencionou que a falta de oportunidade era porque estávamos fugindo de guardas do palácio. — Você está em Londres há muito tempo?
Ela dizia as frases com a lentidão de quem estava aprendendo uma nova língua, mas de um jeito muito fofo.
— Três dias.
Diana arregalou os olhos, e eu mesma me surpreendi que ainda fizesse tão pouco tempo. Parecia que tantas coisas tinham
acontecido.
— Veio passear?
— Morar. Vim morar com meu… pai. — Hesitei, mas ainda não estava pronta para tocar no assunto, então emendei: — Quer dizer que esse é o point dos jovens britânicos? — A frase soou como algo que minha mãe teria dito, bancando a jovem, e dei uma risadinha.
Diana franziu a testa, provavelmente não entendendo o que eu quis dizer.
— Aqui é o ponto de encontro dos jovens? — reformulei a frase quando paramos à entrada do Camden Market.
Mais cedo, eu tinha pesquisado sobre o lugar e descoberto que era tipo a Saara britânica, o famoso lugar do centro do Rio onde se reuniam centenas de camelôs vendendo produtos de qualidade duvidosa e muito abaixo do preço normal.
Camden Market era, ao contrário da Saara, cercado por muros.
Lá dentro, havia uma infinidade de lojinhas de todos os tipos, como uma grande feira: de barracas de roupas a lembrancinhas de Londres, de quadros e espelhos a placas de decoração, dava para encontrar tudo. Minha mãe teria amado. Toda vez que viajávamos, ela fazia questão de comprar lembrancinhas do lugar, mesmo que estivéssemos a uma hora de casa. Eu tinha trazido toda a coleção dela para Londres, um de seus muitos pertences dos quais não conseguira me desfazer. Admirando Camden, eu tive certeza de que precisava levar algo dali. Ela podia não estar presente fisicamente, mas sempre estaria comigo, em todos os lugares a que eu fosse.
Antes que eu enlouquecesse com as lojinhas, Diana me levou para um corredor, onde comecei a sentir uma mistura de aromas maravilhosos. Cheiro de comida.
Meu estômago roncou, quase um rugido de felicidade, e Diana abriu um sorrisinho. Ela tinha os dentes da arcada superior ligeiramente projetados para a frente e os dois do meio eram maiores que os demais, e só naquele momento reparei isso.
Seus lábios finos se abriram tanto que a covinha apareceu na bochecha direita. Sardas minúsculas salpicavam o rosto inteiro e algumas maiores se concentravam na região que ia desde o topo
das bochechas até os olhos. No vinco do lábio superior, quatro delas se destacavam, solitárias, e curiosamente me lembravam da constelação Cruzeiro do Sul.
Assim que percebi que a estava encarando, desviei o olhar para o chão, envergonhada. Ai, meu cu! Ela devia achar que eu estava encarando sua boca.
Bem, eu estava.
Mas ela não precisava saber disso.
Quando achei que havia se passado tempo suficiente para o momento constrangedor ter se dissipado, voltei a levantar o rosto. Em vez de fingir que nada tinha acontecido, Diana continuava a me observar, a sobrancelha arqueada, o sorriso ainda mais largo. Era quase como se estivesse debochando de mim.
Merda.
O que aquilo queria dizer? Será que ela gostava de mim? Ou só estava achando graça eu não conseguir disfarçar nem um pouco que estava a fim dela?
Olhei para a frente.
— Let’s go? — perguntei, exibindo meu sotaque ruim e fugindo do seu olhar.
Diana assentiu, com uma expressão quase convencida. Tive vontade de socar aquela carinha bonita e depois sair correndo, mas fiz a egípcia e ignorei.
Diana logo me alcançou e começou a apontar para as barracas, dizendo o lugar de origem das comidas.
— India. Japan. China. Taiwan…
Parei em cada uma delas para admirar. Não sabia nem por onde começar a escolher. Se havia uma coisa que eu gostava mais que comer comida boa era provar novas comidas. Claro que podia acabar sendo terrível, mas eu não era muito seletiva.
Em geral, gostava de quase tudo que provava.
Por fim, acabei escolhendo uma barraca de comida tailandesa e pedi um pad thai delicioso, que era basicamente macarrão com camarão e vegetais — e muita pimenta! —, além de um espetinho de porco com molho de amendoim, que eu amei na primeira mordida. Diana comprou um yakisoba de legumes na
barraca chinesa ao lado. Ela me contou que Camden era um de seus lugares favoritos e que já tinha provado quase todas as comidas dali.
Senti uma vontade louca de torná-lo meu lugar favorito também. Com ela.
Sentamos em uma área aberta com mesinhas de concreto e conversamos sobre tudo e nada, enquanto apreciávamos a comida. Falamos sobre música — ela gostava de indie, grunge e folk — e sobre nossas coisas favoritas no Brasil e na Inglaterra, sem nunca chegar a pontos importantes, como sua fuga do palácio ou minha mudança para Londres. Eu não sei se ela sentia que aquele era um assunto delicado, tanto quanto eu supunha que seu segredo fosse, mas era óbvio que entendíamos uma à outra como ninguém.
Meu olhar passeava pelas pessoas, pelas barracas, então pelas lojinhas que havia em todo canto, e voltava para as pessoas, de diversas nacionalidades, passeando pelo mercado a céu aberto. De vez em quando, eu percebia Diana me observando, como se quisesse saber minhas reações.
Será que ela estava tão curiosa sobre mim quanto eu sobre ela? Queria saber mais sobre a garota sem noção do perigo que havia ajudado uma fugitiva do palácio da rainha?
Quando terminamos, Diana me levou pelos corredores quase labirínticos, e nos embrenhamos no mercado, olhando todas as barracas possíveis. Encontrei uma lojinha de acessórios meio hippie e perdi um bom tempo admirando colares e experimentando anéis. Saí de lá sem comprar nada —
infelizmente, não porque sou controlada; eu só ainda não tinha ideia de como lidaria com a questão financeira. Roberto e Lauren tinham decidido me dar uma mesada de cinquenta libras, para que eu pudesse sair e ser um pouco independente. Também me informaram sobre um cartão de crédito de emergência que ficava guardado na primeira gaveta do rack da sala. Era tentador ver o cartão com a senha dançando à minha frente, e a vontade que eu tinha era de extorquir de Roberto tudo o que ele não pagara à minha mãe nos últimos dez anos. Mas eu precisava ser estratégica. E se eu fizesse uma besteira e Roberto decidisse
esconder o cartão e suspender a mesada? Antes de cometer imprudências, eu precisava testar o terreno.
Foi só quando parei na barraca seguinte que decidi fazer minha primeira compra. A barraca de lembrancinhas era a mais barata de todas que eu tinha visto até ali e, de cara, meu olhar bateu num globo de neve de Londres, um dos tipos de enfeite preferidos da minha mãe. A base era preta e, dentro, havia o nosso palácio de Buckingham.
Era engraçado que eu tivesse conhecido Diana justo lá, da maneira mais inusitada possível.
Espiei-a pelo canto do olho, enquanto ela olhava uma prateleira de chaveiros. Os cabelos ruivos brilhavam sob o reflexo dos espelhos pendurados no teto. Quando saímos da loja, ela segurou minha mão, decidida, para me guiar a algum lugar.
Passamos por artistas de rua, alguns tocando instrumentos que me fizeram acompanhar o ritmo com a cabeça, até que, por fim, paramos em um espaço mais amplo, cheio de barracas de doces e mais mesinhas de concreto.
— Senta aqui — ela disse, apontando para uma mesa vazia.
— Já volto.
E foi andando meio apressada, enquanto eu observava suas costas magras até perdê-la de vista.
O lugar não estava muito cheio, mas tinha bastante movimento para uma segunda-feira. Pessoas não paravam de entrar pelo corredor de onde viéramos. Algumas procuravam bancos livres, outras iam direto para as barracas de lanche, comiam em pé e voltavam a seus passeios. Um homem de pele escura e tatuagens no braço tocava um violão preto e estiloso, cheio de adesivos de bandas, e entoava as notas finais de uma música do Ed Sheeran com sua voz rouca. Depois emendou em “Hero”, do Family of the Year. Transeuntes jogaram moedas e seguiram seus caminhos quando a música acabou, e ele agradeceu ao pequeno público que se mantinha fiel ao redor dele antes de começar os acordes de uma música que eu conhecia muito bem.
“Canyon Moon”, do Harry Styles. Sorri, fechando os olhos para aproveitar o momento, movimentando a perna direita no ritmo e cantando junto.
Só voltei a abrir os olhos quando a música estava quase no fim. Meu olhar se fixou no artista talentoso, que cantava com um sorriso lindo, e só depois reparei em Diana, parada a alguns metros de mim, segurando dois potinhos. Ela devia estar ali havia pouco tempo, mas eu morri de vergonha mesmo assim. Sorriu para mim, toda fofa, e ergueu as mãos para mostrar o que tinha comprado: um copinho com churros e outro com calda de chocolate. Meus olhos brilharam de empolgação quando ela se sentou ao meu lado e estendeu o copo para mim. Peguei um dos churros, mergulhei no chocolate e comecei a comer.
— Isso é comum no Brasil, né?
Ela disse “né?” de um jeito tão fofo que eu quis apertar suas bochechas.
— É, mas o nosso costuma vir com recheio por dentro.
Normalmente de doce de leite.
— Dulce de leche — repetiu em voz alta. Eu gargalhei com o sotaque, e Diana sorriu. — Então… Gostou do passeio?
— Pra caralho! Muito, muito obrigada por me trazer aqui, de verdade. — Mordi um pedaço do churro e decidi fazer uma confissão. — Meus primeiros dias em Londres não andam sendo dos melhores.
— Por que não? — perguntou, e vi seu olhar se encher de interesse.
Talvez finalmente fôssemos falar das coisas importantes.
— Eu fui obrigada a vir porque… — desviei o olhar, hesitante.
Por que era tão difícil dizer em voz alta? — … minha mãe morreu. E eu não tinha com quem ficar.
Era parcialmente verdade.
— Sinto muito.
O rosto dela se encheu de pesar.
Eu respirei fundo.
— Não me dou muito bem com meu pai, então não tem sido, assim, um passeio no paraíso.
— É por isso que você quer trabalhar?
— É. Acho que pode ser bom ter uma reserva. Nunca se sabe.
Ela franziu a testa para a expressão. Eu busquei a tradução na cabeça.
— You never know.
— Pode parecer estranho, mas eu entendo perfeitamente.
Tenho tido alguns problemas familiares também, minha mãe e eu andamos brigando demais. Trabalhar me ajuda a relaxar. — Ela mordeu o churro, e o canto da boca ficou sujo de chocolate. —
Mas, bem, se você veio morar com seu pai, ele deve ter pedido seu resident permit. Se você tiver o BRP, o National Insurance number vai estar atrás.
Fiquei confusa com tantos nomes e siglas. Diana riu.
— É um pouco confuso no começo, mas você vai aprender tudo.
— Você disse que talvez saiba de uma vaga?
— Sim… — Ela contraiu os lábios e percebi que havia algum problema. — Mas pra isso preciso te apresentar a minha mãe.
— Ah!
Ela deu um sorriso sem graça.
— E vocês ainda não estão bem o suficiente pra isso —
deduzi.
Diana assentiu. Senti um impulso de limpar o chocolate no canto da sua boca, mas me contive e levei os dedos ao meu próprio lábio.
— Tem alguma coisa a ver com o que te encontrei fazendo ontem?
Ela deu um sorrisinho torto, fazendo a covinha aparecer.
— Talvez .
Dei risada de sua resposta evasiva.
Não tinha descoberto nada durante minha pesquisa nos sites da realeza, exceto um boato de traição do príncipe Arthur (chocante, eu sei!). Considerando que ele tinha idade para ser pai de Diana, acho que eu podia descartar a participação dela naquela história. Até porque eu me recusava a acreditar que fosse verdade. Arthur e Tanya sempre foram meu casal-modelo.
Era impressionante como os dois haviam lutado para trazer pautas relevantes para dentro da realeza, muitas vezes indo contra o avô, que era o típico velho rico conservador. E sabemos como é difícil romper com anos de ideias retrógradas — ainda
mais considerando que em pleno século XXI o Reino Unido ainda vive uma monarquia.
Mas, além daquele rumor ultrajante, não havia nenhuma novidade. O que significava que provavelmente era uma história bem menos importante do que eu esperava — Diana devia ser amiga do cocheiro do primo de quinto grau do príncipe Arthur e entrara escondida no palácio, ou algo assim.
Ela comeu o último pedaço do churro e limpou a boca com um guardanapo antes de se levantar.
— Vamos? — chamou, como se tentasse fugir do assunto.
Fiquei observando o sorriso esperto que ainda brincava em seus lábios, como se pudesse encontrar a resposta para minha curiosidade em seu rosto.
Por fim, me levantei, resignada.
Eu aceitaria alguns segredos, contanto que pudesse continuar a receber todos aqueles sorrisos que ela me dava.
— Emi — chamei de repente, quando o filme começou a passar uma sequência de cenas românticas do casal com música ao fundo —, como você descobriu que era lésbica?
Da ponta do sofá em L, Emi olhou para mim. Lara, entre nós duas, continuava com o olhar fixo na TV. Estávamos na casa de Lara, fazendo nossa tradicional sessão pipoca dos fins de semana. O filme da vez era Todo dia.
— Sei lá, amiga. Eu acho que sempre soube? Eu vivia querendo brincar de dar selinho na Lara quando a gente era mais nova. Uma pena que ela nunca me deu bola.
Sem nem se virar para a gente, Lara mostrou a língua para Emi.
— Eu toda ingênua querendo brincar de casinha e a Emi querendo me dar beijo na boca.
Emi empurrou Lara, revirando os olhos.
— Mas você acha que dá pra se descobrir mais velha?
Que nem a Rhiannon. — Apontei o dedo para a tela, indicando a protagonista do filme, que se apaixona por A, uma pessoa que acorda cada dia em um corpo diferente e, consequentemente, cada dia com um gênero diferente.
— Claro. A gente vive numa sociedade heteronormativa.
Acho que é comum que algumas pessoas não consigam se identificar antes, ou fiquem se enganando, ou não saibam reconhecer os sentimentos. Ainda mais se for uma sexualidade monodissidente. Deve ser bem mais fácil acreditar que está confundindo as coisas.