Romance Real
Capítulo 9
O aroma cítrico me atingiu antes de ela entrar no meu campo de visão. Ergui a cabeça, ansiosa, bem a tempo de ver Angélica passar pela minha carteira em direção ao fundão.
Meu coração acelerou. Tive que me conter para não virar a cabeça para acompanhar.
Era quase fim do primeiro semestre do nono ano, e, apesar de a maioria dos meus colegas continuar a mesma, ela era um rosto novo. No primeiro dia de aula, Angélica chegara com a blusa do uniforme e uma calça jeans simples, em vez da calça de malha que todos usávamos. Entrou na sala tão cheia de confiança — como se fosse dona da escola, e não uma aluna nova que não conhecia ninguém —
que eu não tive opção senão ficar encantada.
No começo, me convenci de que eu apenas a achava bonita. Normal. Ela era mesmo bonita. Estilosa também, e tinha um charme natural, imponente. Eu só estava admirada.
Talvez com um pouco de inveja?
Mas ela dominou meus pensamentos todos os dias desde então.
Comecei a ficar obcecada, nunca a perdia de vista. Eu pensava nela ao acordar e antes de dormir. Rabiscava seu nome escondido no meu caderno. Suspirava quando a via no pátio da escola. Reconhecia seu cheiro antes mesmo de vê-la.
Quando percebi, já não era mais uma simples admiração.
9
There’s something happening here I hope you feel what I’m feeling too “Girl almighty”
Eu não sabia exatamente como Lauren e Roberto iam reagir à ideia de eu trabalhar, então no sábado, quando cheguei em casa, decidi não contar a eles. É claro que eu teria que contar em algum momento, mas ainda não estava pronta para arriscar a alegria que sentia.
Lauren e Georgia estavam na cozinha, preparando alguma coisa juntas, inclinadas sobre um copo medidor, uma segurando a base e observando as marcações, a outra despejando farinha de trigo. Ruffles estava enroscado ao pé delas, suspirando, em um sono restaurador. Quando terminaram de encher o copo, a farinha foi colocada em uma cumbuca, e então foi a vez do açúcar. Elas trocaram um sorrisinho empolgado, como mãe e filha de comercial de margarina. Um nojo. Pareciam ter feito as pazes.
Uma ponta de inveja provocou uma comichão em meu peito.
Eu e minha mãe éramos exatamente assim: cozinhávamos juntas, nos divertíamos experimentando receitas e curtíamos as noites de domingo preparando as entregas de marmitas da semana. Eu admitia que, incontáveis vezes, me irritara em ter que gastar parte do fim de semana trabalhando com ela. Às vezes brigávamos, e ela dizia que eu não precisava ajudá-la, que ela daria conta de tudo. Então eu marchava para o meu quarto, gritando um “ótimo!” grosseiro e ia assistir alguma coisa para abafar a raiva. Quando ia dormir e percebia que ela ainda estava lá, se matando de trabalhar, a fúria amansava, e eu saía do quarto furtivamente para ajudá-la a terminar.
Eu achava que ainda teríamos tantos anos pela frente, brigando e fazendo as pazes. Agora me arrependia de não ter sido uma filha melhor.
Tentei seguir para o quarto silenciosamente, mas Lauren me flagrou.
— Hey, sweetie! — chamou, toda sorrisos.
Apesar de sempre ter achado Lauren falsa, estava começando a acreditar que aquele era mesmo seu jeito meio doido e de bem com a vida. Ainda que trocássemos hostilidades a cada vírgula, ela continuava lá com um sorriso alegre para mim no dia seguinte, como se já tivesse esquecido nossas desavenças.
— Georgia e eu estávamos agorinha mesmo comentando sobre a summer sale, que vai começar semana que vem. Você deve estar precisando comprar umas roupas, né? Fazer uma mudança dessas nunca é bom pro guarda-roupa.
Enquanto Lauren tagarelava, Georgia e eu nos entreolhamos, segurando o riso. Ela tinha plena consciência de que a mãe às vezes extrapolava no falatório. Deu de ombros, como se dissesse
“mas o que posso fazer?”.
Eu me aproximei do batente da cozinha, tentando espiar o que faziam.
— Depois vamos sentar e ver direitinho do que você está precisando, para a gente planejar quais as melhores lojas pra te levar. But, of course, Primark first! Você vai amar a loja, é simplesmente huge. Mas… hm… — Ela me analisou, como se medisse meu corpo, e eu me retesei, me sentindo exposta. —
Não tenho certeza se tem roupa pro seu tamanho. Talvez…
A diversão acabou de repente, como uma bolha sendo estourada. Meu sangue ferveu, e eu nem a deixei terminar.
Respirei fundo, tentando não criar mais uma confusão, e apenas virei as costas para ela e fui para o quarto.
Eu era feliz com meu corpo. Quer dizer, não vou dizer que nunca me sentia insegura e indesejada por não ter o corpo padrão; seria mentira. Já tinha tentado fazer dieta, correr pelas ruas do bairro todos os dias e ficar sem comer — até perceber que eu estava lutando contra quem eu era e tentando mudar por imposição dos outros. Era gorda desde criança e não me incomodava. Contudo, de tanto ouvir as pessoas dizerem que eu precisava emagrecer, de as outras crianças me chamarem de baleia, de adultos dizerem que minha mãe tinha que parar de me dar besteira para comer, de chorar no provador de lojas de departamento porque as roupas de que eu gostava não cabiam em mim — depois de tudo isso, comecei a acreditar que havia algo de errado comigo.
Mas minha alimentação em casa sempre tinha sido muito saudável. Minha mãe era quase uma chef de comida natureba, por isso começara a fazer marmita congelada. Eu também era uma das melhores alunas em educação física e sempre ia bem nos esportes. Nem mesmo a clássica justificativa de “só estou falando isso pro seu bem, você precisa pensar na sua saúde”
valeria para a minha situação — se bem que não valeria para nenhuma situação, na real.
Eu era gorda porque sim. E não tinha nada errado nisso.
Quando minha mãe começara a perceber o quanto a pressão dos outros estava me afetando, me fez enxergar que as taxas dos meus exames de sangue significavam mais que o número da balança e do meu manequim. Que o meu corpo era o meu corpo: mais do que um simples padrão de beleza, era meu lar, e eu precisava sempre lembrar o quanto ele era importante simplesmente por existir e guardar minhas vivências e memórias.
Desde então, eu tive lá meus altos e baixos, mas, toda vez que a insegurança batia à porta, eu fazia questão de mandar à merda.
Por isso, não admitia que olhassem para mim como Lauren havia olhado.
— Dayana? Sweetie, você tá me escutando? — ela ainda chamou, mas fechei a porta para abafar sua voz.
Antes que eu sequer chegasse à cama, a porta se abriu novamente. — Dayana, que falta de educação é essa, me dar as costas enquanto estou falando?
Lauriane parecia prestes a soltar fogo pela boca. Ela podia esquecer rápido nossas desavenças, mas também não levava
desaforo para casa. Eu sentia um calafrio só de pensar no quanto éramos parecidas.
— Era melhor sair calada do que dizer o que eu estava pensando — retruquei, petulante, mas a porteira tinha sido aberta. — Estou muito bem com meu corpo, não vou ficar ouvindo crítica dos outros.
Lauren pareceu exasperada.
— Dayana, eu não estava criticando seu corpo! — Ela suspirou. — Me desculpa, não acho que tenha nada de errado com seu peso. Você é beautiful do seu jeitinho. Eu só não queria te levar a uma loja onde você se sentisse desconfortável por não ter roupa do seu tamanho. Sinto muito mesmo.
Ops.
Corei, percebendo que tinha acabado de cometer um pequeno equívoco.
— Look, sweetie. — A voz dela estava mais calma, até gentil.
— A gente entende que você está passando por some hard times. Minha mãe, que Deus a tenha, também já se foi e não foi fácil passar pelo luto. But this attitude não vai ajudar. Não adianta nada sair dando coice no mundo, estamos todos fazendo nosso melhor pra que você se sinta bem e em casa. Mas você precisa parar de ficar tanto na defensiva. Help me help you.
Ela estendeu a mão, como se me oferecesse uma chance.
Eu sabia que a única pessoa a quem devia direcionar minha raiva era meu pai. Tinha sido ele quem nos abandonou. Ele que foi embora prometendo nos buscar quando estivesse com tudo acertado, para vivermos uma “vida melhor” na Europa, e acabou conhecendo Lauren, pedindo o divórcio e, no fim das contas, vivendo sua “vida melhor” com outra família. Mas já era difícil controlar a raiva que eu sentia a todo momento, quanto mais controlar para quem eu iria direcioná-la.
Mesmo assim, eu sabia que tinha errado. E feio.
Lauren realmente vinha sendo muito paciente comigo, tentando fazer com que eu me sentisse em casa. Claro, ela era uma pessoa difícil de lidar, e às vezes eu só queria dar um murro na cara dela e fazê-la calar a boca, mas pelo menos ela olhava para mim. Ela enxergava minhas dores.
Era muito mais do que eu poderia falar sobre meu pai.
Olhei para a mesa de cabeceira, decorada com uma parte da coleção de lembrancinhas da minha mãe, o globo de neve do palácio de Buckingham se destacando entre um mini-Cristo Redentor e um trenzinho de Tiradentes. Eu sabia exatamente o que ela me diria naquela situação.
Engole esse orgulho, Dayana. Não tem nada de errado em admitir que errou.
Quantas vezes ela já não tinha dito aquilo para mim?
Então larguei a bolsa no chão e, envergonhada, fui até Lauren.
Ignorei sua mão estendida, porque… Bom, não dava para engolir o orgulho todo. Mas Lauren sorriu mesmo assim, satisfeita, e eu a acompanhei de volta à cozinha. Enquanto ela voltava à confecção do que eu imaginava ser um bolo, parei no batente, como costumava fazer com minha mãe. Observei mãe e filha se ajudarem. Parecia não haver espaço para mim ali.
Georgia, porém, percebendo minha presença, se virou para mim.
— Será que você pode pegar mais um ovo ali na geladeira, Day? — pediu, como se eu não tivesse acabado de fazer a maior grosseria com a mãe dela.
Corri até a geladeira, prestativa.
— Vocês, hm… — comecei, sem graça, depois que entreguei o ovo na mão dela — … conhecem alguma loja plus size boa?
Sem ser aquelas só com roupa brega?
— Então — Lauren estalou os dedos, como se estivesse recuperando o fio da meada —, eu ia dizer que tem a Asos Curve, já ouvi falar muito bem dela.
— Na Monki tem umas roupas ótimas também — comentou Georgia, roubando um pedaço do chocolate que ela picotava para derreter. — Dependendo da roupa, eu visto L, que é o G
daqui, e adoro a qualidade deles.
Elas ficaram debatendo a melhor estratégia — dar um pulo na Primark antes para descobrir se tinha tamanhos plus size?
Arriscar e qualquer coisa ir direto para a Monki depois? —, e eu fiquei ouvindo, assentindo, dando pitaco de vez em quando e
sendo prestativa sempre que Lauren ou Georgia me pediam alguma coisa.
O ovo que Georgia me pedira ficou esquecido num canto.
Mais tarde, quando meu pai desceu do quarto e se sentou conosco no sofá para assistir a um filme bobo na Netflix comendo o bolo de cenoura com chocolate que fizemos, tivemos uma noite gostosa e tranquila pela primeira vez desde que eu havia chegado a Londres.
E, mesmo que somente por alguns instantes, fui capaz de deixar a raiva de lado.
Por alguns instantes, foi como se eu fizesse parte daquela família.
Ok, então. Eu estava interessada numa garota.
Fisicamente interessada.
Romanticamente interessada.
Isso significava que eu era lésbica?
Mas e os garotos de quem eu já tinha gostado? Tinha sido fogo de palha? Tinha sido um interesse baseado no que eu achava que a sociedade heteronormativa esperava de mim?
Não, eu não sentia que era isso. Eu tinha mesmo me interessado por eles.
Respirando fundo, peguei o celular na mesinha de cabeceira. Abri o navegador e, por via das dúvidas, entrei no modo privado.
Gosto de meninos e meninas , digitei na busca do Google.
Eu me senti meio idiota fazendo isso. Mas entrei em vários links, um atrás do outro, até me deparar com um termo que me fez hesitar.
Bissexual.
A porta do meu quarto foi aberta na mesma hora.
— Day, vou começar as marmitas — falou minha mãe, toda empolgada, esfregando as mãos uma na outra.
— Mãe! — gritei, deixando o celular cair de susto. — Bate na porta antes de entrar!
— Ihh, já vi que tá estressada. — Ela ergueu as mãos em rendição. — Pode deixar que eu me viro hoje.