Romance Real

Clara Alves · Capítulo 27 de 38

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Romance Real

Capítulo 26

A cada minuto.

Meu mundo havia sido destruído.

Minha mãe estava morta.

Por minha culpa.

O pensamento rastejou como uma cobra dentro de mim.

Assustador.

Sufocante.

Venenoso.

E eu caía, sem conseguir me proteger da inevitável mordida fatal.

26

Don’t forget where you belong, home If you ever feel alone, don’t You were never on your own “Don’t forget where you belong”

Um alarme tocou na cabine, me despertando do sono inquieto.

— Atenção, tripulação, preparar para a aterrissagem —

anunciou o piloto pelo alto-falante.

Um solavanco fez meu estômago afundar à medida que o avião perdia altitude. Eu me remexi, desconfortável, no assento entre dois passageiros. Infelizmente, comprar passagem em cima da hora me impedira de garantir a poltrona no corredor e eu tinha sido obrigada a prender o xixi na maior parte da viagem. A exaustão emocional me fizera passar mais da metade do voo dormindo, e, no restante do tempo, vi filmes tristes que me permitissem chorar sem receber olhares tortos dos vizinhos.

Finalmente, com a tela à minha frente travada nas instruções de pouso, eu começava a assimilar o que tinha feito.

Puta merda.

Eu estava voltando para o Brasil.

Eu tinha esperado todo mundo ir dormir antes de pegar o cartão de emergência guardado na gaveta da sala e comprar passagem para o primeiro voo para o Brasil no dia seguinte. Eu tinha arrumado uma mala com as coisas mais essenciais — não daria para levar tudo de volta porque comprara a passagem mais econômica e porque teria mais chances de o barulho despertar alguém. Esperara até quase amanhecer e chamara um Uber também com o cartão de emergência, indo embora o mais silenciosamente que conseguira.

É

claro

que

eu

tinha

consciência

da

tamanha

irresponsabilidade do que fizera — bem pior do que mentir que ia

trabalhar e desaparecer por algumas horinhas sem avisar —, mas tinha sido mais forte do que eu. Eu simplesmente não conseguiria ficar mais um segundo naquele país. Deixara um bilhete para Roberto e Lauren preso na porta do quarto, pedindo desculpas por ter atrapalhado a vida deles e pelo uso do cartão e prometendo que pagaria minha dívida (como, eu não sabia, com a libra custando tão caro; mas eu daria um jeito), e deixara junto o peso em meu peito, que parecia querer me esmagar.

As luzes do Rio de Janeiro brilhavam lá fora, e senti certa emoção com a visão noturna da minha cidade. Quando o avião quicou na pista de pouso, a descarga de adrenalina quase me fez chorar de novo. Levantei para pegar a mala no bagageiro antes mesmo de estacionarmos no terminal. Eu só queria chegar em casa, abraçar meus avós e passar o restante da semana encolhida na cama, tentando esquecer todas as pessoas que eu tinha decepcionado.

Sabia que não seria fácil, considerando que estava prestes a ver a decepção no rosto deles. Mas, contanto que estivessem comigo, eu aguentaria. Eu perdoaria o fato de terem me despachado sem pensar duas vezes, se eles não tentassem me mandar de volta.

Era por isso que eu estava quase comendo o sabugo da unha quando toquei a campainha do apartamento. Eu ainda tinha a chave, mas achava que talvez fosse assustá-los menos se me vissem parada na porta, e não perambulando pela casa como uma assombração. Mesmo que nada pudesse preparar meus avós para abrir a porta de casa e dar de cara com a neta que haviam mandado para a Inglaterra.

E nada poderia ter me preparado para ver meus avós à minha frente de novo, depois de um mês de altos e baixos.

— Dayana? — perguntou minha vó, franzindo a testa e ajeitando os óculos, como se estivesse vendo uma miragem. Ela olhou para trás. — Tião! Tião! — chamou, a voz subindo uma oitava.

Quando meu vô parou atrás da minha vó, tão chocado quanto ela, eu larguei minhas coisas no chão, abracei eles e chorei.

No dia seguinte, acordei sentindo o corpo moído e triturado.

Demorei a abrir os olhos, com medo de descobrir que eu tinha sonhado e, na verdade, nunca tivera coragem de voltar ao Brasil.

Mas o cheiro do amaciante que minha vó usava infestava meu nariz, e lá fora o barulho dos ônibus, tão alto que era como se fossem entrar em casa, e as buzinas irritantes de motoristas sem-noção invadiam meus ouvidos. Um carro com alto-falante passou anunciando “compro geladeira velha, ar-condicionado velho, fogão velho”. Quase ri, de tão aliviada, e achei que seria seguro despertar.

Esfreguei os olhos inchados de chorar e os abri lentamente. O

teto do meu quarto, branco, com um ventilador de madeira, ocupou minha visão, e eu sorri. Virei para o lado, sentindo que poderia voltar a relaxar.

E dei de cara com Emi e Lara.

Pulei na cama.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei, assustada.

Fui retribuída por um tapa de Emi. Bem forte.

— Sua ingrata, filha da mãe. — Ela continuou a me estapear, muito irritada. Emi tinha olhos proeminentes, mas, quando estava puta da vida, eles se estreitavam tanto que quase não dava para ver a íris escura. — Depois de todos esses anos de amizade, como você pôde ir embora sem falar comigo? Como pôde nos ignorar e fingir que a gente não existia? Eu tô muito magoada com você, Dayana Maria! Muito! — Contrariando o que acabara de dizer, ela se jogou no meu pescoço e me abraçou.

Lara ficou de pé, de braços cruzados. Ela estava com os cachos presos num coque alto, como se estivesse preparada para a luta.

— Sabe o que mais me chateia? — Lara perguntou, de cara fechada. — Você não postava uma foto sequer no Instagram.

Não facilitou nem pra gente te odiar, porque eu só queria saber se tava tudo bem! Precisava ficar ligando pros seus avós pra ter notícias suas.

Eu me encolhi, acuada, mas estava contente com a companhia delas. Sentira saudade das minhas melhores amigas, de ter alguém com quem conversar e desabafar minhas frustrações.

Georgia tinha sido aquela pessoa, por um tempo, mas não era a mesma coisa.

Emi e Lara me conheciam como ninguém.

— O que você tá fazendo aqui, piranha? — Emi questionou, sem nem me deixar respirar. — Você não deveria estar morrendo de frio na terra da rainha?

Só a menção à rainha fez meu estômago embrulhar.

Eu tinha mandado uma mensagem para Diana antes de vir embora, pedindo desculpas por tudo, inclusive por ter deixado a mãe dela na mão. Mas, até então, não havia recebido nenhuma resposta.

Balancei a cabeça, tentando expulsar os pensamentos sobre Diana.

— A terra da rainha é horrível — falei, abaixando a cabeça e temendo chorar de novo. — Eu não quero voltar nunca mais.

— Pobre menininha rica que foi fazer o ensino médio na Inglaterra e não gostou — Lara zombou.

Ergui a cabeça de supetão e encarei sua expressão debochada.

Então, para a minha surpresa, comecei a rir e chorar ao mesmo tempo.

— Eu senti tanta saudade de vocês — choraminguei, abraçando Emi de novo, com ainda mais força.

Lara se juntou a nós, e de repente éramos um emaranhado de cabelos e braços, as três chorando abraçadas, no meu quarto, na minha cama, no meu Brasil.

— Eu sei exatamente do que você precisa pra expulsar esse frio todo dos seus ossos — Lara disse, com um sorrisinho esperto, quando nos separamos.

Retribuí o sorriso, sabendo que ia amar qualquer que fosse a ideia.

O cheiro do café da minha vó preencheu o quarto, e a buzina de uma bicicleta anunciou lá fora que o moço do pão estava passando. Ao longe, minha vó gritou: — Corre lá, Tião! Compra uns pãezinhos pras meninas.

Meu vô saiu correndo, a porta bateu atrás dele, o barulho de passarinhos na janela se misturou à confusão carioca, e eu me

senti feliz.

Era tão bom estar em casa.

Uma depois da outra, as pessoas vinham me abraçar, apertar minha mão, prestar suas condolências. Elas não paravam de dizer que sentiam muito.

Sentiam pelo quê? A culpa tinha sido minha. Eu é que estava sentindo demais.

Se eu tivesse ouvido minhas amigas, se eu tivesse terminado com Heitor, se eu não tivesse aceitado ir comer a batata de Marechal.

Se, se, se.

Eram muitas hipóteses.

A única verdade comprovada era: minha mãe havia sofrido um acidente de carro enquanto ia me buscar depois de eu ter ligado desesperada para ela.

Todo mundo dizia que eu estava sendo forte. Que eu precisava ser forte para cuidar dos meus avós. Mas quem ia cuidar de mim? Como se tentando responder a minha pergunta não verbalizada, Emi veio para o meu lado, pousou a mão nas minhas costas.