Romance Real

Clara Alves · Capítulo 11 de 38

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Romance Real

Capítulo 10

Ela fechou a porta do quarto, me deixando sozinha e frustrada. Peguei o celular do chão e joguei a coberta por cima da cabeça.

Mas é claro que a culpa não me deixou ler mais nada direito, e acabei levantando da cama, bufando irritada, e marchando em direção à cozinha.

De qualquer forma, se tinha alguma coisa capaz de me distrair naquele momento, com certeza era cozinhar com minha mãe. Não tinha nada melhor no mundo.

10

We made a start Be it a false one, I know Baby, I don’t want to feel alone “18”

O trabalho de estoquista era menos complicado do que eu havia esperado. Na segunda-feira, quando fui à mercearia para o treinamento, Lily me mostrou tudo o que utilizava no trabalho, uma máquina que contabilizava o estoque pelo código de barras, onde ficavam as etiquetas dos produtos e — uma das coisas mais legais — uma espécie de escada elétrica que me levava às prateleiras mais altas com um simples botão. Também me explicou como fazer pedidos caso os números em estoque estivessem no vermelho, armazenar determinados produtos especiais e usar o sistema para verificar o que precisava ser reposto nas prateleiras da loja. Não era um trabalho difícil e Lily foi superatenciosa, fazendo tudo muito mais lentamente do que deveria. Mas era bastante informação, e acabei decidindo voltar mais algumas vezes na semana para continuar treinando.

Daquela vez, Diana não apareceu — ela estava trabalhando no turno da tarde algumas vezes por semana —, mas me mandou mensagem desejando boa sorte, e, quando cheguei em casa, mandou outra, perguntando como tinha sido.

estou levemente desesperada pelo tanto de coisa que preciso gravar, mas tudo bem vai dar certo hahaha Tenho certeza de que você vai se sair bem!

Te indiquei pra vaga porque você me pareceu sagaz 😉

te salvando dos seus perseguidores, você quer dizer?

Exatamente, haha Não consegui evitar a alfinetada, mas ela nem deu bola. Será que um dia eu seria digna de saber seu segredo? Aquilo quase me corroía de curiosidade. Então evitava pensar.

Depois do café no sábado, não tínhamos falado mais em sair.

Talvez fosse minha vez de tomar uma atitude? Nossos dois primeiros encontros tinham sido sugestão dela.

Mordi o lábio, me recostando na cama, ainda com a roupa da rua.

quando é sua próxima folga?

No fim de semana Tem algo em mente?

Abri um sorriso involuntário, me sentindo boba com a mensagem. Era aquele sentimento gostoso de conhecer alguém, de ser correspondida. Fiz uma dancinha na cama e comecei a digitar a resposta.

pior que não hahaha mas vou pensar em alguma coisa Mas, antes que eu pudesse enviar, Georgia entrou no quarto.

Escondi o celular embaixo de mim, sobressaltada.

— Caralho, Georgia! — reclamei, levando a mão ao peito. — E

a minha privacidade?

— Privacidade? Não existe nesta casa.

Ela bufou e se jogou na cama aos meus pés. Nossa relação andava funcionando à base de implicâncias e alfinetadas, mas de um jeito bom. Ela então arqueou a sobrancelha.

— Por que você escondeu o celular? — perguntou.

Sem sentir, o escondi ainda mais. Óbvio que Georgia percebeu.

Ela abriu um sorrisinho malicioso.

— Hmmm, eu ia bem te perguntar que sumiços misteriosos eram esses, mas acho que agora temos uma resposta: tem crush

na jogada.

Senti meu rosto esquentar.

— Não tem crush nenhum. Só tava conversando com uma col… — Eu me interrompi. Quase dissera “colega de trabalho”, mas ainda não tinha contado para ninguém sobre o emprego. —

… garota… que eu conheci — concluí, por fim.

Falar de garotas costumava calar a boca da maioria das pessoas. Era um jogo baixo, eu sabia, mas não era culpa minha se a maioria das pessoas ainda tinha ideias heteronormativas tão enraizadas.

— Uma garota que você conheceu, hmmm… — Ela subiu e desceu a sobrancelha, cheia de intenções, e quase senti meu ombro afundar em frustração por não tê-la enganado.

Por outro lado, era bom saber que Georgia encarava aquilo com tanta naturalidade. Eu não tinha parado muito para pensar sobre a questão da minha sexualidade no novo ambiente, até porque havia questões mais urgentes, como um pai que me abandonou e uma madrasta falsiane — que, ok, não parecia mais tão falsiane assim.

Mas, de alguma forma, ter a aceitação de Georgia me fez sorrir.

— Ela é britânica?

Assenti, relaxando a postura defensiva. Tirei o celular de debaixo do corpo.

— E como tá seu inglês? Vocês conseguem se comunicar bem?

Fiz uma careta.

— É, meu vocabulário é bom, até. Sou formada em inglês, tive que fazer o IELTS pro ensino médio. Meu sotaque é que é um cu.

Fora que eu aprendi o inglês americano, então ainda tem a dificuldade de entender o sotaque daqui. — Soltei um muxoxo. —

Minha sorte é que a mãe dela é brasileira também, então ela fala português. Tenho um pouco de inveja. Mesmo não sendo fluente, ela não tem vergonha de falar, de misturar o inglês e o português.

— Não que você saiba, né? Ninguém sai por aí anunciando suas inseguranças.

Ergui as sobrancelhas, surpresa. Não tinha pensado por aquele lado.

— É verdade…

— Mas pode deixar que vou fazer você perder essa insegurança rapidinho. In a flash. — Ela estalou os dedos. —

Only English from now on.

— Para com isso — reclamei, rindo.

— English, please!

— Chata! — Mostrei a língua para ela.

— Bom, vamos começar treinando este fim de semana. —

Georgia bateu palmas. — Vocês duas estão intimadas a comparecer ao Tabernacle, no sábado, às seis.

— O que é isso?

— O santuário dos jogos.

Franzi a testa. Ela suspirou, como se não tivesse paciência nenhuma com quem está começando, mas dava para ver o ar divertido em sua expressão.

— Uma lanchonete bem legal com jogos de tabuleiro e fliperama. Eu costumo ir lá com meus amigos e vim aqui te convidar. — Ela apontou o dedo para mim.

— E quem disse que eu quero ir? — perguntei, só para não perder o hábito.

Georgia revirou os olhos.

— Você sabe o significado de intimar?

Dei um empurrão em seu braço, implicante, mas, mesmo rindo, ela fez cara de sofrimento.

— Ai… — Massageou o braço.

Meus olhos se arregalaram.

— Meu Deus, desculpa! — pedi, desesperada. — Não sabia que você ainda tava sentindo dor.

Ela fez uma careta.

— Ela meio que não vai embora, mas tem vezes que fica pior.

Mas relaxa, não tem problema — acrescentou, vendo minha expressão de pânico, e levantou, já rindo. — Não esquece de convidar sua amiga pra sábado. Your girl friend — emendou, rindo, porque “amiga” em inglês soava muito como “namorada”.

Jogando um beijinho, Georgia virou e foi embora.