Romance Real

Clara Alves · Capítulo 33 de 38

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Romance Real

Capítulo 32

chance para Roberto. Georgia era a única questão pendente. E, enquanto ouvia sua justificativa, eu percebia que não conseguia sentir raiva dela. Tentei procurar dentro de mim a fúria que me movera nos meses anteriores, mas tinha desaparecido. Eu não queria mais brigar.

Deixei escapar o ar pelo nariz com força e sentei na cama.

— Tudo bem.

Georgia secou o nariz com as costas da mão.

— Tudo… bem?

Dei de ombros.

— Tudo bem — repeti. — Eu entendo. Eu tô cansada, não quero brigar de novo. Deixei minhas questões pra trás no Brasil, e eu só… só quero recomeçar.

— Então você me… perdoa? — perguntou, cautelosa.

— Não posso dizer que vai ser fácil confiar em você de novo, mas — eu cocei a nuca — acho que é isso que significa ter uma irmã, né? Minhas amigas viviam se engalfinhando com as irmãs e sempre reclamavam.

Abri um sorriso cansado, e Georgia retribuiu.

Ela secou os olhos e encarou o chão, traçando desenhos no carpete escuro.

— Obrigada, Day. Por não desistir de mim também.

32

Only half a blue sky Kinda there but not quite I’m walking around with just one shoe I’m half a heart without you “Half a heart”

Quando acordei no dia seguinte ainda era cedo. Tão cedo que a casa estava silenciosa. Peguei um copo de água e fui para o quintal, para sentar na namoradeira que havia descoberto semanas antes. Ruffles ergueu a cabeça da casinha de madeira quando me viu e veio correndo para ficar comigo.

As vendas da turnê da One Direction estavam para começar, e eu não podia me dar ao luxo de perder a hora.

Fiquei ali, aproveitando o silêncio do subúrbio e ouvindo os passarinhos cantando, com o notebook no colo, dando F5

freneticamente na página da nova produtora dos meninos. A calmaria da manhã parecia um presente. E ficou ainda mais saborosa quando completei a compra do meu ingresso. Depois de sete anos, eu finalmente veria meu grupo favorito ao vivo de novo!

Perdi a noção do tempo imaginando aquele dia, até minha atenção ser atraída por um barulho na cozinha. Lauren devia ter acordado.

Ela veio aos fundos alguns segundos depois.

— Bom dia, sweetie! Nem percebi que você estava aí. — Ela sentou ao meu lado e deu um tapinha na minha perna. — Não conseguiu dormir?

— Por incrível que pareça, dormi muito bem. Tava comprando o ingresso do show que te falei. Inclusive — estendi o cartão que tinha em mãos e baixei o tom de voz —, obrigada. Eu prometo que vou pagar.

Lauren sorriu, sabendo bem que eu não tinha como prometer aquilo, visto que estava desempregada. Mesmo assim, ela tinha se oferecido para comprar o ingresso para mim sem que meu pai soubesse. Eu não tinha parado de falar sobre o show, mas sabia que seria cara de pau demais pedir ajuda do meu pai depois da minha fuga usando o cartão de emergência.

— E como foi lá no Brasil?

— Foi difícil… — respondi com sinceridade. — Mas foi bom matar a saudade.

Ela deu um sorrisinho e baixou a cabeça.

— Sinto muito pelo que eu disse — ela murmurou, encabulada.

— Você não merecia que eu tivesse jogado a culpa em você, e nada no mundo me isenta dessa responsabilidade. — Ela apertou minha mão. — Sei que nunca fui sua pessoa favorita, mas quero que você saiba que estou aqui de braços abertos para te receber, para que se sinta em casa. Não vai ser a mesma coisa que a sua casa lá no Brasil, é claro, e eu nunca vou substituir a sua mãe, mas gostaria que você me permitisse cuidar de você.

Era a primeira vez que eu ouvia Lauren dar um discurso inteiro sem dizer uma só palavra em inglês. Era a maior prova de sua seriedade. Dei um sorriso acanhado.

— Eu também devo desculpas a você. Antes mesmo de te conhecer, eu já te julgava. Caçoei de você, do seu jeito, te dei apelido… — Lauren fez uma careta, e eu mordi o lábio, me refreando. — Enfim, joguei a culpa do abandono do meu pai em você e, quando cheguei aqui, já vim com uma mala de pedras pronta pra descontar a raiva em você. E sei que não foi justo.

Lauren apertou minha mão.

— É normal que você tenha se sentido assim, e em parte eu fico feliz por ter recebido essa culpa. Desse jeito, a sua relação com seu pai pôde ser preservada, em parte. Talvez, se você tivesse nutrido mais raiva dele, fosse mais difícil dar essa segunda chance. — Lauren suspirou, e eu pensei em todas as vezes que a julgara mal, antes de tudo. Eu tinha sido tão boba.

Ela nunca tentara me afastar do meu pai, afinal. Pelo contrário.

— Não apoio o que seu pai fez com vocês e sempre tentei

incentivá-lo a ser mais presente. Quando a gente se conheceu, ele já não estava bem com a sua mãe, mas dei todo o meu apoio para que ele tentasse manter a família unida. Mas quando eu percebi que o relacionamento dos dois não tinha mais jeito…

Bom, não tem nada pior do que uma família despedaçada que tenta se manter unida pelo “bem” dos filhos. Eu sei disso, porque cresci num lar assim. Eu sentia que às vezes seu pai se culpava, que sentia que nada do que ele lhe desse poderia compensar a falta, mas ainda assim era a obrigação dele como pai. E eu fiz o que pude pra manter essa ligação, por menor que fosse, porque foi o que sempre esperei do pai da Georgia. Ainda espero que um dia ele se arrependa e tente conhecer a filha incrível que teve.

Pensei no que Georgia havia me contado na noite anterior e desviei o olhar. Lauren parecia esperançosa com aquela possibilidade, e eu sentia pena dela. E de Georgia. Mas talvez fosse melhor ter aquele choque de realidade do que viver com uma expectativa que nunca seria suprida.

Ela expirou fundo e se empertigou, mais enérgica.

— Mas você é jovem e ainda vai sentir raiva, vai amar, vai odiar, e por aí vai. E tudo bem, contanto que você seja fiel aos seus sentimentos. Right? — E com isso percebi que o papo sério havia acabado. Ela deu outro tapinha na minha perna. — Vou preparar some coffee pra gente. Shall we go?

Assenti e fui ajudá-la na cozinha. Antes que entrasse de volta em casa, porém, Lauren se virou.

— Que apelido era esse que você me dava?

Dei um sorriso sem graça.

— Melhor a gente ir fazer o café — disfarcei, contornando-a e saindo rapidinho dali.

Depois do café da manhã, meu pai subiu para o quarto, e nós três sentamos na sala para ver TV. Foi então que Lauren resolveu que era a hora ideal de me atualizar do Escândalo Real.

— Você perdeu tudo, sweetie! Não param de sair fofocas e mais fofocas — disse, empolgada.

Fui escorregando no sofá enquanto uma matéria mostrava imagens de Rose e Diana sendo perseguidas por câmeras e microfones.

— Mãe… — Georgia advertiu, envergonhada com o falatório da mãe.

— O que foi? — ela reclamou, totalmente alheia ao nosso desconforto. E prosseguiu contando sobre a declaração real de que o príncipe tivera uma filha na época da faculdade mas só ficara sabendo agora. — Os boatos diziam que o rei Oliver pagara pra elas sumirem. — Ela balançou a cabeça. — Tsc, tsc, essas pessoas da realeza acham que tudo se resolve com dinheiro. A mulher está certíssima em voltar e reivindicar o que é dela por direito. E olha como a menina é linda! Uma verdadeira princesa.

A tela foi preenchida por uma imagem de Diana sorrindo, e eu me senti caindo no abismo.

Até o momento, ainda não tinha parado para refletir sobre Diana. Eu havia ficado com raiva dela por me acusar, e de mim mesma por ter quebrado minha promessa; mas, depois que toda a minha raiva evaporou, eu só me sentia triste.

Tínhamos vivido uma história incrível juntas e nos apoiado no momento em que mais precisamos uma da outra. Ela tinha sido minha âncora quando meu navio deslizava diretamente para o olho da tempestade. Eu devia a ela todos os meus melhores momentos após a morte da minha mãe.

Mas ali, olhando para o rosto dela na televisão, Diana parecia tão distante. Eu queria ir atrás dela e pedir desculpas e implorar pelo seu perdão, mas era como se aquela tela à minha frente determinasse o nosso fim. Como eu poderia querer me envolver com a filha do príncipe da Inglaterra?

Era ousadia demais até para mim.

E Lauren estava certa: ela era mesmo uma verdadeira princesa. Ao que parecia, os boatos de que Tanya e Arthur estavam se separando haviam sido desmentidos, e a família real havia organizado um evento no palácio de Buckingham. Seria a primeira vez que Diana apareceria em público oficialmente, e não flagrada por paparazzi. Trajava um vestido preto simples de alça

— eu podia imaginá-la brigando com os conselheiros reais, recusando as roupas extravagantes e bregas típicas da realeza

— e o cabelo ruivo estava solto na altura do ombro, sem nenhum penteado ou acessório. Ainda assim, era como se ela brilhasse.

Quando ela sorriu, sem graça, o Cruzeiro do Sul reluziu como estrelas de verdade.

Suspirei, entristecida.

— Você deveria ir lá — Georgia disse, me sobressaltando.

Me empertiguei e olhei para ela.

— Quê? — foi Lauren quem perguntou, também olhando para a filha.

Georgia a ignorou.

— Se vai ficar com essa cara aí de bunda, por que não vai pedir desculpas e tentar reconquistar a garota?

— Wait a minute — Lauren pediu, erguendo as duas mãos. — Essa é a sua garota? — Ela apontou para a televisão, chocada.

Estreitei os olhos para Georgia, como se dissesse muito obrigada. Ela sorriu sem graça e deu de ombros.

— E aí? — insistiu.

Virei o rosto.

— É claro que eu não vou lá. Eu nem vou conseguir entrar.

— Vai ficar aberto pra imprensa até as dez, ó. — Ela apontou para a televisão. — Dá seus pulos, você consegue.

— Eu posso só mandar uma mensagem.

Georgia desdenhou da opção com a mão.

— Uma briga dessas exige grandes gestos de reconciliação.

Olhei de novo para a jornalista que cobria o evento na televisão.

— Será que alguma de vocês duas pode me responder?

— Depois eu te explico, mãe — Georgia disse, segurando-a pelo braço. — Você não acha que a Dayana deveria ir atrás da garota dela?

— Of course! — Lauren disse, exaltada. Parecia mais empolgada com o fato de “a minha garota” ser a famosa filha de Arthur do que de fato com a minha reconciliação.

Mas tudo bem.

Mordi o lábio.

— Eu devia?

— O máximo que vai acontecer é você não encontrar ela. —