Romance Real

Clara Alves · Capítulo 6 de 38

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Romance Real

Capítulo 5

A mão que segurava a folha tremeu. Olhei para o desenho nela, três bonecos de palito na frente de uma casinha, de mãos dadas, e uma colagem de letras no topo: “Feliz Dia dos Pais”.

Antes que meu pai pudesse atender, desliguei o telefone e rasguei o papel.

5

I don’t know where I’m going, but I’m finding my way “Midnight memories”

Ninguém comentou nada sobre o hospital durante o café da manhã seguinte.

Eu tinha ido dormir antes que eles voltassem, mas senti que o clima da casa estava pesado quando Lauren me acordou com uma expressão cansada.

Georgia e ela se sentaram à mesa em silêncio, o que para Georgia podia até ser comum, mas para Lauriane definitivamente não era. Roberto estava com aquela mesma postura alegre e tranquilona de sempre. Evitando conflitos.

Talvez porque eu estivesse de saco cheio, ou porque não tivesse dormido direito, depois de alguns minutos de silêncio, simplesmente soltei: — Então, ninguém vai me contar o que aconteceu ontem, não? Pensei que éramos todos uma grande e bela família feliz.

— Não aconteceu nada, sweetie. A Georgia só teve um mal-estar.

Ao meu lado, Georgia fez um barulho estranho. Algo entre uma bufada e uma risada irônica. Pensei que ia começar uma discussão com a mãe, mas apenas revirou os olhos e ficou calada.

Ao que parecia, Georgia adotava a filosofia de Roberto.

Lauriane, no entanto, era muito estourada. Assim como eu.

O pensamento me provocou um calafrio.

— Foi só um mal-estar, dear — insistiu, apesar de a filha não ter dito uma palavra sequer. — Você não ouviu o que o médico disse?

— Claro que ouvi — Georgia respondeu entredentes.

— O que o médico disse? — perguntei ao mesmo tempo.

— Não te interessa — resmungou, baixinho.

Quase ri ao perceber que tinha acabado de receber uma resposta atravessada da minha irmãzinha. Que grande vitória!

Claro que só serviu de combustível para mim, que já contava com uma bela mistura de mágoa, raiva e frustração.

— Como assim, dear? Isso é jeito de falar com sua irmã? —

Era como se, a cada palavra, as barreiras do pudor fossem derrubadas, me permitindo falar mais e mais. — Eu só tô preocupada com você. Se nem um médico é capaz de imaginar o que poderia provocar um simples mal-estar, que calhou de ser logo depois de a paciente chegar tarde em casa, então realmente deve ser uma coisa muito grave.

Foi naquele momento que algo terrível aconteceu: Lauren concordou comigo.

— Viu, darling? Era o que eu estava falando. Até a Dayana acha isso.

— Ah, pronto! — Georgia levantou de repente, fazendo a cadeira arrastar para trás com um barulho irritante. — Agora a Dayana é a autoridade aqui. Já que vocês duas sabem taaaanto sobre o meu corpo, eu tô muito mais tranquila.

— Georgia, querida, se acalme. — Roberto estendeu a mão para ela, pedindo que se sentasse. — Você tem que entender que a gente fica sem saber o que fazer se os médicos dizem que não há nada com que se preocupar. Mas a gente pode procurar outro médico e tentar outro diagnóstico, não precisamos brigar assim.

— Eu adoraria entender, Roberto, mas é muito difícil quando estou sentindo dor no corpo inteiro e ninguém parece acreditar em mim.

Pude ver a tristeza nos olhos dele quando ela o chamou pelo nome. Era como se Georgia soubesse que aquilo o atingiria e estivesse fazendo de propósito. Mesmo assim, ele não se deixou abalar.

— A gente vai dar um jeito, minha filha, eu prometo.

Ele abriu um sorriso tranquilizador para ela, o que pareceu deixá-la ainda mais irritada. O meu sangue também quase ferveu ao ouvi-lo chamá-la de minha filha. Era muita cara de pau dele fazer aquilo na minha frente.

Senti uma certa alegria amargurada quando Georgia gritou: —

NÃO FALA ASSIM COMIGO! EU NÃO SOU SUA FILHA!

Ela apontou para mim com raiva. O terrier descansando embaixo da mesa deu um pulo com o susto.

— SUA FILHA TÁ AQUI, Ó! APARENTEMENTE LOUCA PELA SUA ATENÇÃO.

Sem dar chance para que ninguém mais dissesse qualquer coisa, ela saiu pisando duro e subiu com tanta raiva que senti o chão vibrar. Lá em cima, bateu a porta do quarto com força e soltou um grito de frustração. Depois disso, a casa ficou em silêncio.

Lauren e Roberto olharam para mim.

Encarei meu colo, pensando no que poderia dizer para fugir daquela situação.

— Você precisava ter perguntado? — ele indagou, cansado.

— Ué, eu só queria ter uma conversa em família — falei, dando de ombros tranquilamente. — Construir laços, sabe?

Pensei que era para isso que tinham me mandado morar com o homem que me abandonou.

Roberto suspirou, e senti que Lauren estava prestes a dizer alguma coisa que com certeza me deixaria irritada — tipo me lembrar que a mudança para Londres tinha sido sugestão minha para começo de conversa. Por isso, eu a cortei logo.

— Peço perdão se eu disse a coisa errada. Prometo que vou ficar calada de agora em diante em qualquer conversa familiar em que minha opinião não seja requisitada.

Fiz uma mesura formal, debochada, e fui para o meu quarto.

Lá dentro, me escondi debaixo do cobertor quentinho, com os olhos apertados e o fone nos ouvidos tocando a minha playlist de músicas tristes, tentando acreditar que, quando os abrisse novamente, estaria de volta à minha casa, com minha mãe fazendo cafuné na minha cabeça enquanto assistíamos à novela juntas.

Quase senti o cheiro de alho que não saía das mãos dela depois de passar o dia inteiro fazendo comida para as marmitas congeladas que vendia. Quase vi seus olhos pretos e carinhosos, que pareciam dizer muito mais do que a boca, me lançando um olhar de reprovação. Quase ouvi sua voz doce, mas firme, me passando um sermão: Foi assim que eu te criei, Dayana? Pra ficar dando show na casa dos outros e não enfrentar nenhum problema de cabeça erguida? Pra se isolar do mundo e esquecer que você tem uma vida inteira cheia pela frente? Eu não eduquei filha minha pra ser medrosa, não.

Arregalei os olhos quando a imagem se tornou real demais e encontrei apenas a escuridão embaixo do edredom. Pisquei, atordoada, sentindo os olhos marejarem involuntariamente. Era duro ver o rosto dela, mesmo na imaginação. Era duro até mesmo me lembrar de sua voz.

Eu queria tanto que ela estivesse comigo.

Mas ela não estava.

E era minha culpa.

O barulho de uma notificação no celular me impediu de desenterrar pensamentos que eu tinha guardado a sete chaves.

Dei um pulo, a mão voando para o aparelho com tanta rapidez que quase me embolei no edredom e rolei da cama.

Sequei os olhos com as costas das mãos e desbloqueei o celular.

O nome de Diana dançava na frente dos meus olhos.

Hi there!

Desculpa não ter respondido ontem, eu trabalho no turno da noite, cheguei em casa supercansada tranquilo! imagino que deve ser cansativo trabalhar de noite aqui pode trabalhar antes dos 18, ou você já é maior de idade mesmo com essa carinha?

Haha! Tenho 16

É a idade mínima pra ter um National Insurance number Por quê? Tá querendo trabalhar?

não tinha pensado nisso, mas agora que você deu a ideia…

talvez eu queira?

Foi como se, de repente, uma luzinha se acendesse em minha cabeça.

Meu acordo com meus avós tinha sido ficar com Roberto até o fim do ensino médio. Depois, eu poderia escolher se voltava ou ficava. Mas, fosse na Inglaterra ou no Brasil, a verdade é que eu não tinha mais um lar. Ainda estava muito magoada com meus avós por nem terem lutado por mim, e a culpa me impedia de voltar. E meu pai… Bom, meu pai tinha me abandonado e não parecia fazer questão de reconciliação.

O que eu faria depois que a escola acabasse? Essa era a pergunta que eu mais tinha feito a mim mesma desde a decisão da mudança.

E de repente… foi como se eu visse uma luz no fim do túnel.

Se eu começasse a trabalhar e juntar dinheiro, poderia me tornar independente mais rápido e viver sem a interferência de ninguém.

Era perfeito.

Como se fosse um sinal da minha mãe.

Meu celular notificou uma nova mensagem.

Feliz em ser útil :) Quer ajuda? Posso te explicar como funcionam as coisas aqui E talvez eu saiba de uma vaga…

Preciso confirmar jura??? meu deus, você é um anjo que caiu do céu?

ou melhor, da grade do palácio?

Anjo caído combina comigo Tá livre hoje, aliás?

É meu dia de folga Posso te levar a um lugar mais legal que esses palácios mixurucas Minha boca se abriu numa gargalhada, porque ela tinha escrito

“mixurucas” em português. Era uma das minhas palavras preferidas. Nenhuma expressão inglesa seria capaz de traduzir o significado. Mordi o lábio, tentando não ficar tão empolgada, mas era difícil.

Meu coração estava acelerado, como se eu tivesse me transportado para o dia anterior — de mãos dadas com ela, correndo pelas ruas de Londres, fugindo de um perigo oculto.

Eu não sabia nada sobre Diana e era apenas a segunda vez que nos falávamos, mas conversar com ela me fazia sentir viva.

E eu não me sentia viva desde que minha mãe tinha morrido.

Talvez fosse por isso — e porque estava curiosa sobre aquela garota — que, depois de perguntar que horas? , entrei num perfil de fofocas da realeza pela primeira vez em muito tempo e comecei a me atualizar das novidades.

Se Diana realmente tivesse alguma coisa a ver com aquela família, aí, sim, as coisas iam ficar ainda mais interessantes.

 

Problemas no paraíso?

Outra fonte confirma traição do príncipe Arthur por Chloe Ward

As coisas não andam muito boas para os dois pombinhos reais. Depois de boatos sobre traição (leia aqui), outra fonte confirmou a infidelidade do sucessor do trono. “No sábado, Arthur e Tanya se reuniram no palácio da rainha para discutir uma possível separação”, contou a fonte.

Outra testemunha informou que, no domingo, a mesma mulher flagrada com o príncipe na corrida de Ascot foi vista sendo conduzida ao escritório da rainha.

Fora dos muros do palácio, a população está doida para saber: será que Arthur vai seguir os passos da mãe e se separar da duquesa?