Romance Real

Clara Alves · Capítulo 4 de 38

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Romance Real

Capítulo 3

Hmmm, Inglaterra. Era longe, mas eles tinham reis e rainhas, príncipes e princesas. Eu queria muito ver uma princesa, e podia convidar meus amigos para irem me visitar.

Torci para que minha mãe topasse.

3

I wanna reach out for you, I wanna break these walls I speak a different language, but I still hear your call “Diana”

Londres nunca foi um sonho só meu.

O filme favorito da minha mãe era Um lugar chamado Notting Hill (ela tinha até a fita VHS, que funcionava apenas como enfeite, claro, mas era exibida com orgulho no rack da sala) e já tínhamos visto tantas vezes que eu sabia as falas de cor. Eu não gostava tanto assim do filme: era velho, com um roteiro um tanto esquisito, e o Hugh Grant me irritava com aquele jeito desengonçado; mas eu amava o cenário de Londres tanto quanto ela.

Além disso, nós duas éramos obcecadas por notícias da família real, e não apenas a atual. Víamos todo tipo de filme e série, histórico e contemporâneo, sobre a realeza britânica, e estávamos sempre acompanhando as notícias e escândalos. Os eventos reais eram especiais lá em casa. Fazíamos fish and chips e passávamos o dia inteiro sentadas na frente da televisão assistindo à transmissão ao vivo. Eu mal me entendia por gente quando fui matriculada no inglês e me formei no cursinho antes mesmo de começar o ensino médio.

Também não era à toa que eu me chamava Dayana. Claro, eu preferia que minha mãe não tivesse abrasileirado o nome da rainha — que na época ainda era princesa —, mas ela dizia que a mudança me dava um charme único. Lady Day, era como costumava me chamar.

Depois que ela e meu pai se separaram, minha mãe passou por um período de fossa, que incluía odiar tudo que tinha a ver com a Inglaterra. Não podíamos nem falar palavras em inglês.

Tive que passar a chamar shopping de centro comercial, hambúrguer de sanduíche e até e-mail virou correio eletrônico.

Não podíamos ver filmes, nem séries em inglês — nem as americanas. Passamos por uma longa fase de novelas brasileiras, mexicanas e até coreanas. E ai de quem ouvisse uma música inglesa! Ela quase jogou fora seus preciosos álbuns autografados do Oasis.

Então um dia, depois de assistir um filme espanhol sobre superação chato pra caramba (mas que a fez chorar horrores), ela decidiu que a fossa tinha acabado e que não ia deixar de lado as coisas de que sempre gostara por causa de um “covarde bundão”. E fui liberada para gostar da Inglaterra de novo.

Ainda bem. Caso contrário, nunca teria conhecido a One Direction, e minha vida seria um grande vazio.

Desde a morte dela, porém, eu não tivera coragem de procurar mais nenhuma notícia sobre o país. Não havia nem assistido à coroação de Lady Di — rainha Diana —, após a morte do rei Oliver. Acompanhar aquelas coisas doía, porque qualquer detalhezinho me lembrava demais da minha mãe.

Mas ali, depois de sair a esmo da casa do meu pai, depois de mais um dia me sentindo oprimida, indesejada e abandonada, eu de repente me vi pegando o metrô em direção ao lugar que tantas vezes minha mãe e eu sonhamos em visitar.

O palácio de Buckingham.

A arquitetura antiga, sólida, se erguia diante de mim com esplendor, como era de esperar. Da praça à frente do palácio, onde ficava o monumento em homenagem à rainha Victoria, eu podia ver toda a extensão retangular com seus três andares, protegida por grades pretas e pelos tradicionais guardas de farda vermelha e chapéu peludo e comprido. Eu sabia que a praça era rodeada pelas árvores do St. James Park. Seguindo pela via oposta, eu encontraria a residência real da era Tudor. Mas meu olhar estava hipnotizado pela construção à minha frente. Senti um calafrio de empolgação repentina. Era começo de junho, o que significava que o palácio não estava aberto para visitas, porque a rainha ainda não tinha saído de férias.

Será que eu conseguiria um vislumbre da Rainha Pop algum dia? Diana sempre fora um ícone no mundo todo, desde que era princesa. Não apenas por sua elegância despojada, moderna demais para os costumes da realeza britânica, mas também por seus posicionamentos. Quando começaram os boatos de que o príncipe Andrew, seu primogênito, era gay, Diana foi a primeira da Casa Real a apoiar o filho. Declarara aos jornais que não via motivos para tanto fuzuê em torno da sexualidade de Andrew e que achava ultrajante perguntarem o que ela achava sobre isso ou se ela se incomodaria. Por que se incomodaria? O filho continuava a ser a mesma pessoa, independente da orientação sexual. Um mês depois, quando Andrew de fato se assumira gay, ela estava do lado dele, segurando sua mão.

Os rumores diziam que o marido da princesa, Edward Mitchell, não tinha ficado nada satisfeito — assim como seu pai, o rei Oliver. Uns meses depois, ela se separara do marido e ameaçara romper com a família real. Como filha única, um rompimento daqueles implicaria a quebra da linha de sucessão da família.

Então o rei Oliver tinha resolvido tudo com doações a instituições LGBTQIAP+ e declarando que a Casa Real era contra qualquer tipo de discriminação.

Diana era realmente incrível.

Minha mãe ficaria louca de empolgação se soubesse onde eu estava.

O pensamento me atingiu como uma flecha, e meu estômago deu uma cambalhota. Afastei a lembrança e comecei a contornar o palácio.

No fone de ouvido, minha playlist da One Direction mudou de

“Infinity” para “Diana”. Os acordes pesados abafaram as batidas aceleradas do meu coração enquanto eu seguia pela grade do palácio em direção à rua lateral. A tarde já chegava ao fim, mas o dia ainda estava claro. Pelo que eu sabia, até o solstício, a tendência era os dias durarem cada vez mais, até oito, nove da noite. No dia anterior, o sol se pusera depois das sete.

Mesmo assim, o movimento nas proximidades não era grande.

A maioria dos turistas se concentrava na praça em frente à entrada principal do palácio. Não havia comércio nos arredores,

apenas prédios que eu não sabia para que serviam, no mesmo estilo arquitetônico do palácio — antigo, imponente, todos cor de creme, claros e limpos. Um prédio em obras se erguia na esquina seguinte. Na calçada por onde eu caminhava, uma faixa presa nas grades do palácio indicava que a Queen’s Gallery estava temporariamente fechada.

Um movimento atrás das grades me chamou a atenção no mesmo instante em que “Diana” parou de tocar: ligação de vídeo dos meus avós. Eu tinha falado com eles rapidamente na noite anterior, mas continuava sendo horrível ter que encarar os dois.

A viagem tinha sido ideia minha, mas eu ainda me sentia traída por eles terem me despachado tão fácil. Eles eram a única família de verdade que me restava e, mesmo assim, não pensaram duas vezes antes de me mandarem para a casa do meu pai.

A mágoa me fez ignorar a chamada.

E a culpa me corroeu logo em seguida. Você merecia ser despachada desse jeito, uma vozinha disse na minha cabeça.

Quando a chamada sumiu da tela, reparei que havia várias mensagens e ligações de Lauren e Roberto. Ignorei também. Dei play na música e guardei o celular no bolso, mas, antes que pudesse voltar a andar, a faixa ao meu lado começou a balançar perigosamente, como num vendaval. Só que não estava ventando.

Olhei para cima a tempo de ver um vulto pulando a grade à minha direita, bem na minha direção. Caí no chão, e nós rolamos pela calçada numa confusão de pernas e braços e cabelos. O

fone de ouvido desplugou do celular e a música parou novamente.

Abri a boca com a intenção de gritar um belo xingamento, mas mal comecei a falar e alguém atrás de mim tapou minha boca.

Naquele momento, minha cabeça somou um mais um e chegou num alarmante dois. Eu era tão azarada que tinha dado de cara com um assaltante no meu primeiro dia em Londres! Fugindo do palácio real!

O que eu faço? Será que ele está armado? Ai, meu Deus! Será que vai me matar por ter testemunhado a fuga?

Minha mãe sempre me ensinou a não reagir a assaltos, mas, na hora do “vamos ver”, não tem racionalidade que funcione.

Comecei a me contorcer, o som esganiçado de um grito abafado pela pele macia da mão do assaltante. A pessoa saiu de cima de mim, me permitindo virar. De repente percebi que, na verdade, o assaltante era uma garota.

Uma garota bem jovem.

E muito bonita.

— Sinto muito. Sinto muito mesmo — disse em inglês. — Não tinha te visto aí. Não precisa gritar…

Ela continuou a falar, mas eu já não estava mais prestando atenção.

A garota era bem alta, ou talvez fosse impressão porque eu estava caída no chão. Seus cabelos ruivos estavam parcialmente presos: o tombo havia soltado metade do penteado, e os fios acobreados emolduravam o lado direito do rosto até pouco abaixo do queixo. Ela era esguia e tinha um ar meio rebelde, o olhar de quem estava pronta para começar uma briga. Mas, a julgar pelas roupas, estava longe de ser uma bad girl; usava um vestido cinza engomado de manga comprida que batia no joelho e sapatos de saltinho. Aliás, reparando bem, a roupa toda era desconfortável demais para a manobra arriscada que ela acabara de fazer.

A garota estendeu a mão, me oferecendo ajuda, e eu franzi a testa. Ela era mesmo uma ladra, afinal? Educada daquele jeito?

Se não era, por que estava fugindo do palácio, pulando a grade desesperada como o diabo foge da cruz?

Queria perguntar tudo aquilo para ela, mas de repente passos apressados se aproximaram de nós. A garota arregalou os olhos, amedrontada. Olhei para trás a tempo de ver, por entre as grades, dois homens de terno saindo do palácio e correndo para a rua. Pelo olhar assustado dela, imaginei quem eles estavam procurando.

Então, sem pensar, segurei sua mão.

— Ai, meu caralho, corre! — gritei em português mesmo, antes de sair em disparada pela calçada.

A garota nem hesitou em me acompanhar. Os fones desplugados do celular balançavam para fora do meu casaco, silenciosos.

Atravessamos a rua assim que o movimento de carros cessou por um instante, entramos em uma via transversal e sumimos de vista. Esbarramos em várias pessoas, mas não havia tempo para pedir desculpas.

Enquanto corríamos, a garota olhou para mim.

— Você é brasileira? — perguntou em português, e eu fiquei tão surpresa que parei de repente, e, de mãos dadas, nós duas quase caímos.

Coméquié?

— Você fala português?

Ela com certeza não era brasileira, ou portuguesa, ou qualquer outra nacionalidade que tivesse o português como língua principal; ou, se fosse, não crescera no país. Sua pergunta veio carregada com o sotaque inglês: vuxê ê brazilera? Mas ela no mínimo dominava a língua.

Isso é que era coincidência!

Fiquei encarando a garota, ainda meio chocada, e fui engolida de repente pelas íris verdes e brilhantes que retribuíam meu olhar. Fiquei muito consciente de que ainda estávamos de mãos dadas e que seus dedos finos e compridos tinham se entrelaçado aos meus. Meu rosto esquentou na hora, e um sorriso brincou nos lábios finos dela.

Antes que pudesse responder, ela olhou para trás de mim e apertou minha mão.

— Depois explico — respondeu, voltando para o inglês.

Olhei para trás também e vi que os homens de terno estavam em nosso encalço. Apertei o passo, sem saber muito bem para onde ia, mas ela nos guiou, virando em tantas esquinas e becos que me perdi. Nós nos misturamos às pessoas, atravessamos avenidas. Vi um ônibus vermelho de dois andares cortar a rua e me senti momentaneamente em choque: era o clássico ônibus londrino.

De repente, estávamos em uma rua larga e movimentada. O

letreiro de uma Starbucks me chamou a atenção. Olhei para trás

de novo, me certificando de que a dupla ainda não tinha virado a esquina, e puxei a garota para dentro da cafeteria. Nós nos embrenhamos em direção ao fundo da loja, até o caixa, para nos disfarçar entre os clientes.

Ou talvez porque eu quisesse aproveitar a oportunidade para conhecer melhor aquela garota.

Entramos na fila, tentando ao mesmo tempo recuperar o fôlego e nos esconder de quem olhasse pela vidraça. Espiei disfarçadamente a rua, mas esbarrei com o olhar da garota no meio do caminho. Nós rimos, cheias de cumplicidade, como se nos conhecêssemos havia anos.

Quando já estávamos com os copos descartáveis em mãos, sentadas a uma mesa num canto escondido, enfim falei: —

Então…

Ao que ela respondeu: — So…

Um sorriso se embrenhou em minha boca, e eu bebi um gole do meu chai latte para disfarçar. Ela tinha uma voz rouca, meio grave, daquelas que vão no fundo da alma e reverberam dentro da gente. Continuava a me perscrutar com seus olhos verdes.

— Você fala inglês? — foi a primeira pergunta que fez.

Eu estava esperando mais um Por que você me ajudou? , mas assim foi melhor. À outra pergunta, eu não saberia o que responder.

Balancei a mão, insegura, num gesto que indicava mais ou menos.

— E você fala português.

Ela imitou meu gesto com a mão.

— Minha mãe é brasileira — explicou, tomando um gole de matchá gelado. — Aprendi português quando era criança, mas só consigo praticar com a minha mãe. É uma língua difícil.

Ela falava com um sotaque bonitinho, misturando os idiomas, mas, diferente de Lauren, que parecia achar que estava abalando com aquele jeito tosco de falar, dava para ver que a garota só usava o inglês quando não sabia dizer alguma coisa.

— É mesmo, até pra gente, às vezes. — Então, me lembrando que ainda não tínhamos feito as apresentações, acrescentei: —

Meu nome é Dayana, aliás.

— Bloody hell! — respondeu, surpresa, e eu fiquei na dúvida se tinha cometido alguma gafe. — O meu também!

— Ah, para. Tá me zoando?

Foi minha vez de arregalar os olhos, embasbacada.

Minha xará franziu o cenho, provavelmente não entendendo a gíria que eu acabara de usar. Dei uma risada.

— Só estou chocada — expliquei, assustada e um tanto maravilhada com todas essas coincidências numa situação tão incomum. — Mas o seu se escreve como o da rainha?

Ela se remexeu na cadeira, desconfortável.

— Como assim?

Saquei o celular, abri o bloco de notas e escrevi meu nome.

Virei a tela para ela.

— O meu se escreve assim.

— Ah! Não, o meu é… — Ela pegou o celular da minha mão e digitou Diana.

— Igual ao da Rainha Pop — insisti.

Daquela vez, ela compreendeu, mas apenas assentiu.

Talvez não gostasse da família real?

Pensar nisso me fez lembrar de como tínhamos nos conhecido, e não pude evitar redirecionar a conversa para a questão mais importante.

— Por que você estava fugindo?

Tentei parecer casual, mas a curiosidade devia estar transbordando em minhas palavras.

Ela tomou um longo gole do matchá antes de retrucar: — Por que você me ajudou?

E, assim, ela me pegou. Isso eu não sabia responder.

Nós duas sorrimos, compreendendo que ambas as perguntas eram pessoais demais para aquela primeira conversa. Mas também que havia algo ali entre nós, uma ligação que foi formada no momento que peguei sua mão.

Eu não tinha certeza do que havia me impelido a ajudá-la. Não tinha sido o rostinho bonito, embora definitivamente aquilo chamasse minha atenção. Sob a luz amarelada da Starbucks, seus cabelos ruivos pareciam emanar luz própria, e uma covinha na bochecha direita se destacava sob as sardas. Ela era como

um ser místico — uma fada das antigas histórias da Grã-Bretanha.

Talvez ajudá-la tivesse sido minha forma de me rebelar contra Londres.

Uma garota fugindo do palácio da rainha da Inglaterra era o maior ato de insubordinação que eu poderia encontrar. E eu estava bem puta da vida com a Inglaterra no momento.

Nossa troca de olhar foi interrompida pelo som crescente do toque de um celular.

Diana puxou o próprio telefone do bolso, olhou a tela e suspirou.

— Acho que preciso ir.

Ela não parecia muito convencida. A curiosidade formigou em meu peito, mas não perguntei nada. Em vez disso, estendi meu celular para ela.

— Me dá seu número? — pedi, o coração acelerado, me sentindo insegura e nervosa e morrendo de medo de ela recusar.

Diana hesitou.

— Posso te ajudar a treinar português, se você quiser —

insisti.

Se ela hesitar de novo, eu deixo pra lá.

Diana deu uma risadinha e pegou o celular.

— Como é mesmo que vocês falam em português? Promessa é dúvida? — disse, me devolvendo o aparelho enquanto se levantava. Eu pressionei os lábios, tentando não rir do erro dela, e concordei com a cabeça com a maior seriedade. — E obrigada.

Pela ajuda. Eu estava mesmo precisando. — Ela deu um sorriso e pegou o copo de matchá já pela metade. — Text me.

Com um aceno, ela foi embora.

Mordi o lábio, me sentindo estranhamente satisfeita pela primeira vez desde que chegara à cidade.

Encaixei o fone de ouvido de volta no celular e abri o Spotify.

“Diana” estava pausada.

Abri um sorriso.

Talvez Londres não fosse tão ruim assim, afinal.

— Mãe, cadê você? Já vai começar!

Ajeitei a tiara na cabeça enquanto ouvia seus passos se aproximando devagar da sala.

Na televisão, a “Marcha nupcial” começava a tocar. Pulei no sofá, empolgada.

— O que é isso? — minha mãe perguntou, rindo, enquanto observava meu vestuário especialmente escolhido para a ocasião: a transmissão do casamento real do príncipe Arthur e de Tanya Parekh.

Eu usava um macaquinho branco, além da coroa de plástico, e tinha em mãos o vaso de lírios que minha mãe cultivava em casa.

— Tô treinando pro meu casamento real.

Levantei e comecei a andar pela sala bem devagar, como se estivesse entrando na igreja.

Minha mãe pegou uma batatinha na mesa de centro. Seus olhos estavam inchados, mas achei que fosse de sono.

Minha empolgação era tanta que não notei que ela não estava tão animada para a ocasião.

— Acho que não tem ninguém da sua idade na realeza, tem? — comentou, com a voz fraca.

Eu fiz bico.

— Não tem nenhum príncipe da minha idade?

Minha mãe me olhou com aquela expressão de carinho maternal.

— Acho que não, minha princesinha. Só se algum deles tiver um filho perdido por aí.