Romance Real

Clara Alves · Capítulo 14 de 38

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Romance Real

Capítulo 13

Uma funcionária de uma loja de conveniência próxima ao palácio de Buckingham afirmou ter visto uma jovem estranha rondando o palácio nos últimos dias.

“No domingo, quando estava saindo do meu turno, ouvi uma gritaria e vi duas garotas correndo enquanto seguranças de terno corriam atrás”, informou a funcionária. “Mas foi tudo muito rápido, só pude notar que uma delas era ruiva.” A vaga descrição se assemelha à de uma jovem que, segundo novas testemunhas, compareceu ao palácio no último sábado.

O desenrolar dessa novela real está ficando cada vez mais interessante.

Quem será a mulher misteriosa que encantou nosso príncipe? E qual a sua relação com a jovem delinquente que foi perseguida pelos seguranças do palácio?

13

If we could only have this life For one more day If we could only turn back time “Moments”

Eu estava nas nuvens.

Toda vez que fechava os olhos, lembrava do nosso beijo. Toda vez que respirava, lembrava de Diana. Da voz. Dos olhos verdes.

Da constelação de sardas acima de sua boca.

Era domingo, então estava liberada para dormir até mais tarde.

Mesmo assim, tinha acordado cedo e ficara me revirando na cama, repassando a noite anterior mais vezes do que era saudável.

Quando comecei a ouvir barulho na cozinha, levantei, saltitante, e fui ajudar Lauren a preparar o café da manhã. Eu devia estar com um sorriso bobo no rosto, porque ela logo comentou: — Alguém acordou de bom humor.

Sorri, incapaz de me conter.

— Hmmm… isso tá uma delícia — cheguei a falar quando dei uma mordida na panqueca que ela fizera.

Lauren ergueu a sobrancelha, surpresa com o elogio. O que, é claro, foi a deixa perfeita para dar início a seu falatório habitual.

Eu já estava até me acostumando.

— Você acompanha as histórias da família real, sweetie? —

perguntou de repente. — Georgia e eu somos obcecadas por eles. It’s all so fascinating! — Ela pegou mais uma panqueca. —

A gente foi ver o royal wedding do príncipe Arthur com Tanya Parekh e foi simplesmente sensacional. Amazing! Nós temos que te levar no próximo evento real, você vai amar!

Lauren desembestou a contar as histórias da família real, enquanto eu adoçava o café e continuava a me deliciar com a

panqueca.

— E quando a rainha Di foi coroada também fomos lá ver!

Fomos até na procissão do velório do rei Oliver. Que ele descanse em paz — prosseguiu. Era engraçado como Lauren não precisava de nenhum incentivo para continuar falando. — Of course, não conseguimos ver nada muito de perto, mas ainda é very exciting. Aquela família é uma graça, e eu amo como a Diana e os filhos deram uma sacudida nas estruturas da monarquia. Uma rainha divorciada! Um príncipe herdeiro gay! O

segundo filho casado com uma indiana! Mas agora com esses boatos sobre a separação do Arthur e da Tanya… Ficamos arrasadas.

Parei com o garfo no ar.

— Mas é verdade mesmo? — Não resisti em perguntar. —

Achei que fosse só fofoca maldosa.

— No começo, também achei. Mas a Chloe Ward, que é meio stalker da família real, é sempre a primeira a dar os furos. Ela tem cantado essa pedra há um tempo já. Maybe it’s nothing. Me dói acreditar. — Ela balançou a cabeça, como se a separação fosse de alguém da própria família. — Mas outros tabloides têm começado a prestar atenção também. Não duvido que em breve essa bomba estoure.

Meu queixo caiu.

— Caralho de asa.

Lauren franziu a testa para o palavrão, mas fui salva de uma bronca com a chegada do meu pai à cozinha.

— Bom dia — cumprimentou, todo sorridente, puxando a cadeira para sentar. — Animadas com o nosso passeio?

Olhei para ele, confusa.

— Oh, darling — Lauren disse, pousando a mão no ombro de Roberto. — Eu nem falei nada com a Dayana, porque a Georgia não amanheceu muito bem. — Ela se virou para mim. — Seu pai e eu pensamos em levar vocês para um passeio pela cidade hoje, mas a Georgia nem está conseguindo levantar da cama.

Uma ruga de preocupação se formou na minha testa. Georgia parecera tão bem na noite anterior… Ela não largara do meu pé na volta do Tabernacle, me enchendo o saco até eu contar o que

acontecera com Diana. Quase não tinha me deixado dormir de tantas perguntas.

— O que ela tem? — perguntei, esquecendo o beijo, a separação do meu casal favorito e todo o resto.

Lauren se apressou em balançar as mãos, minimizando o problema.

— Nada de mais, não como naquele dia, mas achamos melhor ela ficar em casa repousando. — Então sua expressão se iluminou, como se acabasse de ter uma ideia. Bateu com força no ombro de Roberto, que fez uma careta. — Já sei, darling, por que você e Dayana não vão sozinhos? Eu posso ficar aqui com a Georgia. — Ela pode ter ficado empolgada, mas senti meu humor azedar. — É bom que vocês podem ter um momento de father and daughter. Vocês quase não tiveram oportunidade de conversar desde que a Day chegou.

Minha simpatia com Lauren foi para o ralo no mesmo instante e senti vontade de esganá-la. Mas Roberto pareceu achar a ideia genial.

— Claro! Vai ser ótimo. O que acha, Dayana?

Olhei para ele, com um sorriso amarelo.

E eu lá tinha escolha?

Uma hora depois, estávamos sentados no tradicional ônibus vermelho de dois andares. Roberto preferira ir de transporte público, não apenas para evitar os gastos de gasolina e estacionamento, mas também para deixar o carro com Lauren, caso precisassem ir ao hospital. Ele contou que, apesar de a esposa não gostar muito de dirigir, ela tinha habilitação e poderia pegar o carro em alguma emergência.

Também contou que tinham comprado aquele carro recentemente, depois de muito tempo andando numa lata-velha.

Contou que tinha sido difícil ganhar dinheiro no começo, ainda mais com os reflexos da crise de 2009, mas que de pouquinho em pouquinho eles foram juntando para pagar o financiamento da casa onde moravam e comprar o carro.

Ele contou muitas coisas que eu não estava a fim de ouvir.

Parecia estar se justificando pelo fato de nunca ter dado nenhum apoio a mim e à minha mãe. O que ele não entendia de verdade é que nunca tinha sido só questão de dinheiro.

Enquanto ele continuava a verborragia despreocupada, eu saquei o celular.

SOS

me salva Diana não demorou nem cinco minutos para responder.

É tão ruim assim ficar sozinha com seu pai?

não é ruim é péssimo Apesar da resposta, espiei Roberto pelo canto do olho, temendo que ele acabasse lendo minhas mensagens. Mas ele ainda estava contando sobre a vez que o carro velho o deixara na mão e ele não tinha nem dinheiro nem o passe para pegar um ônibus e tivera que andar duas horas até em casa.

Escondi um pouco mais o celular quando vi Diana digitando.

Hahaha!

Por mais que eu entenda muito bem sua resistência Também acho que não adianta muito Você pode só ignorar e viver com essa raiva que não vai fazer bem pra nenhum dos dois Ou pode dar uma chance pra ele hmmm vamo voltar praquela parte em que a gente se beija e não fala sobre coisas que eu não quero ouvir?

Você é muito cabeça-dura!!!

Eu posso concordar com a parte do beijo Mas mesmo assim vou dizer coisas que você não quer ouvir Apertei os lábios para evitar um sorriso. Tive que respirar fundo, a vontade de sair correndo dali e ir encontrar Diana e beijá-la de novo travando uma batalha feroz dentro de mim.

Antes que eu respondesse a ela, notei que meu pai havia se calado. Ergui o rosto, com medo de que ele tivesse visto alguma coisa, mas Roberto observava a rua. Será que tinha terminado o que dizia?

Percebendo que eu o observava, ele se virou com um sorriso sem graça.

— Desculpa o falatório sem fim, às vezes eu acabo falando demais. A Georgia sempre briga comigo.

Claro que briga. Ela tem intimidade de filha para fazer isso.

Eu me surpreendi com minha amargura. Não tinha mais raiva de Georgia, mas ainda invejava que ela tivesse tido oportunidade de ser uma filha para o meu pai. E, à medida que nossa relação se fortalecia, eu ficava ainda mais furiosa com meu pai por ter me privado de tanta coisa.

Não se tratava apenas de ele ter ido embora e arranjado outra vida. Ele tinha sumido, não tinha sido o pai de que eu precisava, não tinha me dado nem a oportunidade de fazer parte da nova família.

Encolhi os ombros, sem saber o que responder.

Diferente de Lauren, que não tinha muita noção, Roberto se calou, respeitando meu desejo de ficar em silêncio. Mas olhou para a rua com uma expressão tão desolada que acabei ficando com pena.

Argh, que saco.

Guardei o celular no bolso, a empolgação de conversar com Diana já perdida, e afundei no banco. Enquanto observava a paisagem, porém, comecei a relaxar. Andar de metrô era certamente muito mais rápido e prático, mas havia algo de mágico no passeio de ônibus, mesmo que o aquecedor ligado no máximo deixasse o ar tão abafado que o cheiro de suor empesteasse o ambiente. Meu peito formigava com uma leve felicidade de estar ali, no segundo andar, como sempre me imaginara, vendo a arquitetura antiga de Londres passar pelos meus olhos — casas, lojas, empresas, todas abrigadas naquele estilo clássico e imponente típico da cidade. Eu me sentia como no videoclipe de “LDN”, da Lily Allen, vendo uma Londres cor-de-rosa.

Quando saltamos, reconheci de cara onde estávamos.

Atrás de mim, o Big Ben se estendia para o céu, o clássico relógio indicando três da tarde. À frente, a ponte de Westminster cortava o Tâmisa em direção à London Eye.

Roberto me guiou para aquela direção.

— Aonde estamos indo? — perguntei, enfim quebrando o silêncio.

— Tá vendo aquela mureta ali, antes da roda-gigante? — Ele apontou. — Tem umas lanchonetes e as pessoas vêm aqui para caminhar, dar uma volta, relaxar vendo a paisagem. Pensei que você poderia gostar.

Eu me senti estranhamente comovida pela consideração.

Quando chegamos ao outro lado da ponte, acabamos decidindo por um lanche no McDonald’s. Roberto e eu escolhemos a mesma coisa: um McChicken, com suco de uva e batata frita. Fazia séculos que eu não comia no McDonald’s, mas não dava para resistir. Levamos as sacolas de papel para o lado de fora. A mureta que dava para o rio estava praticamente toda ocupada por grupos de amigos apoiados com copinhos de cerveja, conversando distraídos. Procuramos um espaço onde nos recostar, esperando vagar algum lugar nos bancos de madeira.

Dali, dava para ver o Parlamento e o Big Ben, com toda a sua pomposidade. À minha direita, uma fila enorme se formava na frente da London Eye. Já era alta temporada, então a região fervia de turistas e locais. A roda-gigante era tão alta que eu tinha que inclinar o pescoço para trás para conseguir ver o topo. As cabines de vidro estavam todas cheias. Roberto me explicou que tentou comprar ingressos na internet para aquele domingo, mas já estavam esgotados.