Romance Real
Capítulo 18
Eu prendi a respiração.
— … mas que ele é o príncipe da Inglaterra.
18
When I close my eyes All the stars align And you are by my side
“Once in a lifetime”
— Ah, para. Tá me tirando, né? — perguntei.
Sorri, hesitante, inclinando a cabeça. Só podia ser uma pegadinha. Não é possível que minhas teorias malucas e desesperadas tivessem algum sentido. Mas Diana apertou os lábios em um meio-sorriso, compreensiva ao meu choque. Não sei se ela tinha entendido o que eu havia falado, mas minha descrença era óbvia no tom de voz.
Diana só ficou olhando para mim, até eu perceber que estava falando seríssimo.
— Mas… Mas… Como?!
Ela ergueu as mãos, as palmas viradas para cima.
— Eu ainda estou tentando entender. — Ela mexeu nos cabelos, soltando ainda mais mechas do coque. — Só sei que minha mãe conheceu o príncipe na faculdade e… bom, eu nasci.
Não entendi muito bem o que rolou depois disso. Ela diz que não queria se meter na confusão da família real, mas acho que está escondendo mais alguma coisa. Por que ela largou a faculdade e fugiu sem contar a ele que estava grávida? Se não queria ter nada a ver com eles, por que mudou de ideia logo agora? Por que revelar tudo, pedir teste de DNA? A minha cabeça tá uma confusão só, mas confesso que ainda estou tentando, principalmente, assimilar o fato de que meu pai está vivo e minha mãe mentiu pra mim a vida toda.
— A voz adquiriu certa histeria, e eu apertei ainda mais sua mão num gesto quase involuntário.
— Ela não tinha o direito de esconder isso de mim!
Dava para ver a desolação em seus olhos. As lágrimas se acumularam até transbordarem, e Diana baixou a cabeça para esconder o choro. Tentou secar o rosto com ferocidade, mas as lágrimas continuavam caindo.
Senti
uma
ligação
intensa
entre
nós,
como
se
compartilhássemos a mesma dor. Ambas tínhamos perdido o pai e precisávamos lidar com sua volta repentina. Eu estava tendo que viver com o luto da morte da minha mãe; ela, da imagem que tinha do pai até pouco tempo atrás. Não era a mesma coisa, claro, mas havia algo quebrado dentro de nós duas. Quando eu estava com Diana, não era exatamente como se me sentisse inteira; eu não seria tão clichê. Mas a gente se ajudava a juntar os caquinhos e se sentir normal, apesar dos remendos.
Percebi que havíamos nos encontrado no momento em que uma mais precisava da outra.
Apertei a mão dela, chamando sua atenção, e nossos olhares se cruzaram por um breve momento.
Fica tranquila, tá tudo bem. Eu tô aqui.
Eu a senti relaxar, e ela voltou a olhar para o Tâmisa.
— E hoje? O que aconteceu? — ousei perguntar. Não queria parecer interessada demais, mas, depois de ouvir uma história dessa, era impossível.
— Hoje era a confirmação de tudo. O resultado do teste de paternidade.
— E deu… — hesitei — … positivo?
Ela pressionou os lábios num sorriso curto de novo.
— Claro.
— Caralho. E agora? — perguntei, baixinho.
Ela deu de ombros.
— Não sei, não fiquei pra saber os detalhes. Mas eu não quero nada disso, sabe? Essa vida não é para mim. Eu não quero que ninguém descubra. Nem preciso do dinheiro dele, apesar de entender que ele tem essa obrigação por lei e que minha mãe merece a contribuição depois de ter me sustentado a vida inteira.
Ela não fez a filha sozinha, afinal, apesar de ser culpa dela que ele não tenha sido participativo. Mas… Sei lá. — Diana suspirou.
— Eu só queria um pai, sabe? Eu só queria não ter passado
minha vida acreditando que meu pai estava morto, pra dezesseis anos depois descobrir que ele estava bem vivo, morando num palácio. Eu não sei lidar com isso.
— Eu entendo melhor do que gostaria — digo, para tentar confortá-la. — Quero dizer, a parte de, de repente, ter um pai de novo. Não de ser filha do… príncipe da Inglaterra. — Dei um sorrisinho, e ela acabou rindo um pouquinho também. — Não vou te dizer que vai ser fácil, mas pelo menos ele está sendo receptivo… Isso talvez signifique que ele queira assumir a responsabilidade de pai. Não dá pra recuperar o tempo perdido, mas vocês podem ter um futuro. No meu caso, já é um pouco mais complicado…
Diana arqueou a sobrancelha. Ela sempre dizia que eu estava sendo cabeça-dura em relação ao meu pai. Mas, bom, o assunto no momento não era eu, então ignorei a insinuação.
— E eu entendo a mágoa que você deve estar da sua mãe, mas a gente sabe como são essas coisas da realeza. O rei Oliver sempre foi supertradicional e conservador. Talvez ela estivesse com medo de acontecer algo? — acrescentei, baixando o tom.
Diana assentiu.
— É, pode ser. — Ela hesitou e olhou para mim. — Acho que nem preciso dizer, mas, pelo amor de Deus, Day, isso não pode sair daqui. Você precisa prometer que não vai contar a ninguém.
Isso é segredo de Estado! Literalmente. — A brincadeirinha fez eu me encantar ainda mais por ela. Como se já não estivesse completamente rendida. — Eu nem deveria ter te contado.
— Fica tranquila, minha boca é um túmulo. — Simulei passar um zíper nos lábios. — Mas por que você me contou? Acho que é um consenso que eu não merecia.
— O que você disse antes, sobre confiar em você também…
Você estava certa. E eu confio. Mesmo depois da loucura de hoje, tem alguma coisa em você que me faz confiar. Sei que isso soa um pouco bobo, mas sabe quando você se dá tão bem com alguém que parece que vocês sempre se conheceram?
Eu sabia, porque era exatamente o mesmo que eu sentia.
— A gente tem uma expressão pra isso em português, mas não sei se a tradução faria jus.
Diana inclinou a cabeça.
— Qual?
— Nosso santo bateu. É tipo… our saints match. — O riso brincou em meus lábios. — Eu sinto o mesmo com você.
Cheguei em Londres sem esperança em nada… Foi legal encontrar alguém com quem eu pudesse conversar e rir e ser eu mesma, sabe? Não sabia que poderia me sentir bem assim de novo depois da morte da minha mãe.
— Entendo perfeitamente. Eu estava me sentindo tão…
perdida naquele dia. Quando descobri a verdade. Senti que minha vida era uma mentira, que eu não sabia mais quem eu era.
E aí você apareceu.
Meu coração acelerou. A solidão dos últimos meses era como uma lembrança antiga. Talvez Diana fosse um anjo que minha mãe enviara para minha vida.
Ela tocou uma mecha do meu cabelo que escorregara do rabo de cavalo e a colocou atrás da orelha, os olhos verdes me encarando com intensidade. Assim, tão de perto, pude notar que a borda de sua íris era um tom mais escuro do que a cor que a preenchia. O coque se desprendera do topo da cabeça, os cabelos alaranjados desgrenhados com o vento, e eu também senti um impulso de deslizar a mão por entre seus fios para colocá-los no lugar.
O olhar de Diana percorreu meu rosto, como se estudando minha pele marrom, minhas bochechas cheias, meus olhos escuros, e eu mordi o lábio de nervosismo. Com o gesto, o olhar dela se voltou para minha boca, e foi como se de repente todo o sangue do meu corpo evaporasse.