Romance Real

Clara Alves · Capítulo 5 de 38

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Romance Real

Capítulo 4

Desabei no assento macio do sofá de um jeito nada nobre, apoiando o vaso no braço lateral.

— Aff. Espero que descubram um filho perdido pra eu casar antes que a gente se mude pra Inglaterra. Será que o papai consegue me apresentar à rainha?

Minha mãe deu uma risadinha fraca e voltou a olhar para a televisão.

Na época eu ainda não sabia, mas a Inglaterra não estava mais nos nossos planos.

4

I was stumbling, looking in the dark With an empty heart “Home”

Quanto tempo esperar para mandar mensagem para uma garota? Será que na mesma noite era rápido demais? Ou eu deveria fazer o que tinha vontade e não me preocupar com isso?

Eu tinha zero experiência em namoros, ou mesmo em ficadas, especialmente com garotas. Minha única relação (se é que poderia chamar assim) havia sido com um garoto da escola, por quem passei meses nutrindo sentimentos até ele ao menos prestar atenção em mim. E, quando finalmente alguma coisa começou a rolar, ele jamais admitia para ninguém e precisávamos ficar escondidos. Minhas amigas disseram que ele tinha vergonha de mim e que eu deveria terminar tudo o quanto antes — mas foi muito difícil me convencer de que não deveria aceitar migalhas quando a outra opção era continuar sozinha.

O destino acabara decidindo por mim: seis meses depois, minha mãe morreu e tudo na minha vida desandou. Eu já não me importava mais com nada, muito menos com um garoto que tinha vergonha de mim.

Era o tipo de dúvida que eu tiraria com Emilly, minha melhor amiga. Ela sabia lidar com garotas — e muito bem. Emi já ficara com mais garotas do que eu conseguiria imaginar, e era ótima com conselhos amorosos.

Mas eu não falava com Emi desde o velório da minha mãe.

Nem com ela nem com nenhum dos meus amigos que ficaram no Brasil. Não tinha coragem de encará-los depois do acontecido.

Morria de medo de ver o julgamento em seus olhares.

Por isso, em vez de mandar mensagem para Emi, apenas pensei no que ela faria. Quase escutei minha amiga falando: A

vida é curta demais pra ter medo de mandar um simples oi.

Então peguei o celular no bolso e digitei: hey, it’s Dayana.

Meu dedo pairou sobre a tela, tenso.

A porta do meu quarto se escancarou de repente e, no susto, toquei em enviar.

— Dayana! — Lauren gritou. — Por onde você andou?

Ficamos tão worried!

Fiquei olhando a mensagem enviada, com o coração quase pulando pela boca. Então me virei para minha madrasta. Puta merda.

— Você não sabe bater, não? — perguntei, irritada.

Lauren levou a mão à cintura.

— E você não tem a phone pra avisar que vai demorar a voltar? Não viu our calls?

Um sorrisinho quase se esgueirou pela minha boca, mas mantive a expressão impassível e dei de ombros.

— Eu tenho que dar satisfação de tudo que faço?

Lauren apertou a ponte do nariz, como se tentasse controlar a irritação. Eu devia ter um talento especial para tirá-la do sério.

Ela respirou fundo.

— Vem jantar — falou com a voz grave.

Soltei um xingamento bem feio assim que ela saiu.

Minha vó dizia que eu era boca suja demais para o meu próprio bem, mas o que eu podia fazer? Foi assim que minha mãe me criou. Ela dizia que era melhor xingar do que guardar tudo dentro de si.

Dei uma última olhada na mensagem para Diana, mas só havia um tracinho, indicando que ela ainda nem recebera a mensagem, então larguei o aparelho na cama e fui até a cozinha.

Roberto e Georgia vieram logo atrás. Minha irmãzinha sentou ao meu lado, quieta, e meu pai de frente para mim.

— Lauren disse que você saiu hoje — comentou Roberto, parecendo tranquilo enquanto montava seu prato. — Conheceu um pouco da cidade?

Minha madrasta o fuzilou com o olhar. Com certeza não era aquilo que ela esperava ao contar para ele sobre minha fuga.

Mas esperava o que então? Era apenas meu segundo dia de

convivência com Roberto, e eu já tinha entendido que ele odiava conflitos. Não à toa estava agindo como se estivesse tudo bem entre nós. Acho que era assim que ele tentava apaziguar os ânimos exaltados: fingindo que nada tinha acontecido. Pelo que eu podia perceber, meu pai era adepto da filosofia de deixar o tempo resolver tudo.

O problema era que já havia passado tempo demais para que as coisas se resolvessem sozinhas. E, na verdade, só tinham piorado. Mas é claro que eu não seria a primeira a levantar o assunto.

O mínimo que eu merecia depois daqueles anos todos era que ele quisesse resolver as coisas entre nós. Se ele não quisesse, eu também não faria questão.

Ao mesmo tempo, eu não conseguia simplesmente sentar à mesa e bater um papo descontraído com ele. Havia muita coisa entalada na minha garganta.

— Sim — respondi, seca, pegando um pouco da salada de cenoura e repolho.

À mesa, também havia uma panela com carne grelhada.

Lembrei que meu pai pretendia fazer um churrasco para

“comemorar” minha chegada. Pelo visto, eu não tinha comparecido à minha própria festa de boas-vindas, mas nem assim ele havia se irritado. Fiquei ainda mais magoada ao lembrar.

— Fui visitar o lugar que minha mãe sonhava em conhecer —

complementei.

Meu pai pigarreou, desconfortável, e baixou o rosto para o prato. Lauren não ousou me repreender, e eu levei uma garfada à boca, aproveitando a salada com muito mais satisfação. Senti um prazer perverso com o clima tenso na mesa.

O silêncio não durou muito. Lauriane logo começou a falar bobagens com meu pai, tentando deixar para trás o mal-estar que eu provocara. Fiquei em silêncio, ignorando sua tagarelice e me concentrando no barulho dos talheres nos pratos e nos latidos que Ruffles soltava de vez em quando nos fundos da casa.

Quando ergui a cabeça para pegar o copo de água, percebi que Georgia estava muito parada ao meu lado. Olhei para seu rosto, e mais uma vez ela estava com aquele aspecto adoentado, como se estivesse fraca.

— Georgia, dear, está tudo bem? — perguntou Lauren, antes que eu pudesse dizer alguma coisa.

A garota balançou a cabeça lentamente.

— O que você está sentindo? — perguntou a mãe.

— É aquela dor de novo. Só que mais forte, me deixou meio enjoada.

Suor brotava da testa dela.

A farra devia ter sido boa mesmo. Até agora seu mal-estar não havia melhorado.

— Acho que vou vomitar.

O rosto de Georgia se contorceu de dor conforme ela andava muito lentamente em direção ao banheiro.

Lauren levantou depressa para ajudar. Roberto foi atrás. Pela cara de preocupação deles, não pareciam ter considerado nem por um segundo que Georgia estivesse de ressaca.

A primeira vez que eu tinha enchido a cara, acabei indo dormir na casa de Emilly, para que minha mãe não desconfiasse. Mas a ressaca tinha sido de matar e fora impossível esconder o efeito mesmo no dia seguinte, porque eu não aguentava ficar um segundo em pé sem enjoar. Nunca mais tinha sentido vontade de beber depois daquilo. Deus me livre, que experiência ruim.

Aparentemente, Lauren e Roberto eram bem mais ingênuos que minha mãe. Poucos minutos depois, começaram um corre-corre atrás de bolsa, casacos e chave do carro. Meu pai foi correndo para o segundo andar, e Lauren levou Georgia, parecendo prestes a desmaiar, até a porta. Ruffles, percebendo a confusão na casa pelo vidro da porta do quintal, latiu ainda mais alto.

Quando mãe e filha já estavam quase na calçada, Roberto desceu, pegou a chave do carro na mesinha de entrada e veio em minha direção, apressado.

— Dayana, vamos levar a Georgia para o hospital. Por favor, nos espere aqui.

Assenti, atordoada demais para responder.

— Obrigado. Vejo você mais tarde.

Ele pareceu indeciso por um momento, se deveria me abraçar, beijar ou apenas ir embora. Percebi quando hesitou, e então, por fim, se aproximou e deu um tapinha desajeitado em minha cabeça. Em seguida, foi embora, correndo como se a vida dele estivesse em risco.

O silêncio caiu sobre a casa.

Por um momento, fiquei apenas sem reação, olhando para a porta.

Então, pouco a pouco, a sensação de solidão foi me corroendo por dentro.

Eu deveria estar feliz, não? Era bom estar sozinha em casa —

Lauren não conseguia ficar um segundo quieta e sua voz irritante era como uma música chiclete insuportável na minha cabeça.

Mas a solidão…

A solidão era pior.

A salada de repolho perdeu o sabor, e eu comecei a tirar a mesa, levando as panelas de volta ao fogão e empilhando os pratos na pia de qualquer jeito. Abri a porta do quintal para deixar Ruffles entrar e me fazer companhia, mas o traidor saiu correndo para a porta de entrada e ficou lá, choramingando à procura dos donos.

Então botei uma playlist para tocar bem alto enquanto lavava a louça, tentando abafar os pensamentos incômodos.

Por fim, quando acabei de arrumar a cozinha, me joguei na cama, ansiosa por uma certa resposta.

Mas não havia nenhuma notificação no celular.

Mal percebi que amassava a folha numa das mãos enquanto apertava os números no telefone fixo com a outra.

Ao longe, ainda ouvia o barulho do chuveiro ligado. A agenda da minha mãe estava aberta na mesinha do corredor, a letra R no topo da página.

Quando a ligação completou, uma voz fina atendeu em inglês.

— Hello ? — disse a menina, com um forte sotaque britânico.

Segurei o telefone com mais força.

— Oi — falei, tímida. — Aqui é a Dayana. Eu posso falar com meu pai?

A menina nem respondeu. Apenas largou o telefone em cima de algum lugar, provocando um barulho alto no meu ouvido, e gritou ao fundo:

— Dad !

Eu podia não saber muito de inglês ainda, mas entendia bem o que significava “dad”.

Pai.