Romance Real
Capítulo 30
Eu respirei fundo, fungando. Solucei enquanto ele secava as lágrimas do meu rosto.
Olhei para ele, que era quase um estranho para mim, apesar de tão parecido comigo. Contei as pintas em suas bochechas.
Notei que alguns cabelos brancos destoavam dos fios escuros.
Analisei as íris castanhas, úmidas e cheias de expectativa.
Por fim, assenti devagar.
— Tudo bem. Acho que posso fazer isso.
Um sorriso surgiu em seu rosto, e era como se eu me encarasse num espelho. Como duas pessoas poderiam ser tão parecidas, mesmo vivendo a maior parte da vida separadas?
Ainda era um mistério para mim.
Um mistério que, por enquanto, eu estava disposta a desvendar — mas me reservava o direito de mudar de ideia.
— Você sabe que vai ficar de castigo por ter usado meu cartão, né? — ele disse, baixinho, como se para quebrar o gelo.
Abri um sorriso sem graça.
— Talvez eu deva repensar essa história de segunda chance.
Ele deu uma gargalhada.
30
If you’re lost, just look for me You’ll find me in the region of the summer stars The fact that we can sit right here and say goodbye Means we’ve already won “Walking in the wind”
No dia seguinte à chegada de Roberto, recriei o grupo que antigamente tinha com Emi e Lara e mandei uma mensagem.
vocês estavam certas, eu sou uma cabeça-dura. acho que não era segredo pra ninguém, né? a diana me dizia isso o tempo todo…
enfim, desculpa por ter gritado com vocês e por ter me afastado e por não ter dado valor à nossa amizade. tudo tem sido tão difícil desde que minha mãe morreu, e eu não consigo parar de pensar que, se eu não tivesse aceitado as migalhas do heitor, se eu não estivesse com ele naquele dia, se eu não tivesse pedido ajuda pra minha mãe, talvez ela ainda estivesse viva. eu sei que não é minha culpa, que foi um acidente. mas os “se” continuam voltando à minha cabeça, e é difícil lidar com todos esses sentimentos sem surtar.
eu prometo que vou tentar não descontar minha frustração em vocês. só…
desculpa!
eu tô indo visitar ela agora, se vcs quiserem ir também amo vocês ❤
Quando desliguei a tela, ergui o rosto e vi Roberto me encarando.
— Vamos? — chamou, com um gesto de cabeça.
Nós descemos de elevador e pegamos o Uber juntos em direção ao cemitério. Eu não tinha voltado lá depois do enterro; primeiro, porque sabia que não era lá que minha mãe estava; segundo,
porque eu não tinha coragem. Mas o túmulo era um símbolo. Era um lugar onde chorar, conversar com ela e despejar meus sentimentos.
Então achei que era hora de fazer uma visita.
Sempre sentira medo de cemitérios — me lembravam filmes sobrenaturais e histórias de terror. Nunca tinha perdido ninguém próximo o suficiente para ter a experiência de visitar um, até a morte da minha mãe. Mas, no enterro, eu estava destruída demais para formar uma opinião.
No dia da visita, enquanto cruzava as lápides em direção à dela, tudo só me parecia muito melancólico. Frases gravadas abaixo de datas de nascimento e morte, flores murchas e outras muito vivas sobre os túmulos, visitantes errantes chorando a morte de entes queridos. Ali era o lugar mais triste do planeta. E era naquele lugar triste que minha mãe estava.
Quando paramos à frente do túmulo dela, tive que respirar fundo antes de olhar para sua foto sorridente, emoldurada em um pequeno porta-retratos oval.
ASSIM DEUS O QUIS: FUI AO ENCONTRO DO SENHOR, dizia a frase genérica na lápide, provavelmente escolhida pela minha vó. Eu não lembrava muito bem. Todos aqueles dias tinham ficado confusos e embaçados, como um sonho do qual não se consegue lembrar quando acordada.
Será mesmo que Deus quis levá-la? Eu nunca saberia.
Meu pai se agachou sobre o túmulo e disse algumas palavras, baixinho. Fechou os olhos, pousando a mão sobre a parte cimentada. Quão estranho devia ser pensar que a ex-mulher, a mulher que havia abandonado, estava morta?
Depois de alguns segundos, ele se ergueu, secou os olhos e segurou meu ombro.
— Vou esperar você na entrada.
Eu o observei se afastar, antes de me virar de volta.
Fiquei encarando o túmulo, pensando no que dizer, antes de puxar da bolsa um pedaço de cartolina que eu decorara no dia anterior e arrancar a proteção da fita banana colada atrás.
Posicionei a cartolina na lápide, logo acima da frase escolhida pela minha vó, e me afastei para ler: I WILL KEEP YOU, DAY AND NIGHT, HERE UNTIL THE DAY I DIE. I’LL BE LIVING ONE LIFE FOR THE TWO OF US.
Era um trecho da letra de “Two of us”, que o Louis havia escrito para a mãe dele, depois que ela morreu. Eu nunca mais tinha conseguido ouvir a música desde que tudo aconteceu, mas me parecera um presente melhor para trazer do que flores.
— Bem mais a nossa cara agora, não é, mãe? — perguntei, baixinho, retorcendo as mãos. Era tão estranho estar ali, falando sozinha com seu túmulo. — Viu só a bagunça que você deixou quando se foi, dona Patrícia? Você imaginava que veria seu ex-marido vindo te visitar? Pois é, e agora eu moro com ele. Quem diria, né? — Me recostei, olhando para o céu azul e límpido. Um pombo passou voando por cima de mim. — Foi estranho, no começo. Mas depois eu comecei a me sentir estranhamente acolhida naquela casa. E sabe a Lauriane? Até que ela é legal.
Gostaria que vocês pudessem se conhecer… — Pensei no temperamento intempestivo de Lauren. — Se bem que talvez vocês não se dessem tão bem assim. E tem a Georgia também. Lembra que eu falava que queria ter uma irmã da minha idade? Agora eu tenho…
Olhei para os pés, riscando o chão de terra com o tênis preto. O
silêncio era sepulcral. Literalmente.
— E eu fui pra Londres, você acredita? Visitei os lugares que sempre sonhamos em visitar e também me apaixonei. — Meu peito formigou com a frase. Eu nunca tinha dito aquilo em voz alta. —
Não tive a oportunidade de te contar antes, mas eu sou bi, mãe. E
a Diana, a garota por quem eu me apaixonei, é incrível. E aparentemente, uma quase-princesa. — Soltei uma risadinha fraca e fechei os olhos. — Pena que eu deixei ela ir embora. Agora todo mundo sabe que ela é filha do príncipe, e eu confesso que não sei muito bem o que fazer para conquistar ela de volta. Talvez, no meio da nobreza, ela conheça pessoas mais inteligentes e engraçadas do que eu. Mais bonitas eu acho meio difícil, mas vai que…? —
Apoiei a mão sobre o túmulo, tentando sentir alguma coisa, qualquer coisa. Um sinal, uma resposta. — Queria tanto ouvir sua voz, mãe. Queria que você me abraçasse e dissesse que vai ficar tudo bem. Que me desse algum dos seus conselhos inteligentes e engraçadinhos. — As lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto.
— Por que você tinha que ir embora assim, tão de repente? Sem nem me dar chance de dizer as coisas que eu precisava dizer? Que
eu te amo, que você era meu maior exemplo, que eu tinha um orgulho danado da mulher que você era. Eu queria tanto dizer tudo isso pra você…
Passos sobre folhas ressecadas me fizeram olhar para trás.
— Você sabe que não precisava dizer nada disso, né? — Emi perguntou, se aproximando de mim. Ela estava com os cabelos pretos e lisos presos em uma trança caída por cima do ombro. Lara vinha logo atrás. — Sua mãe sempre soube. Ela sempre teve o maior orgulho de você. Eu queria que minha mãe olhasse pra mim com um terço do brilho que sua mãe sempre tinha no rosto.
— Ela te amava muito, Day — Lara reforçou. — E aposto que, se estivesse aqui, ia te dar um puxão de orelha por ficar se culpando pela morte dela. — Ela me abraçou de lado, se recostando ao túmulo junto a mim. — Se você quer que ela tenha orgulho de você, a melhor coisa que pode fazer é ser feliz.
Emi veio para o meu outro lado.
— E nunca mais ignorar a gente — acrescentou.
— E ir atrás da sua garota.
Emi assentiu com veemência.
— É verdade, ir atrás da sua garota é a cereja do bolo.
Eu abracei Lara, o choro voltando tudo de novo.
— Eu amo tanto vocês. Senti tanta saudade…
Emi me abraçou por trás, e nós três choramos juntas. De luto, de saudade, de amor. Eu tinha uma sorte danada de tê-las na minha vida. Como pudera ficar tanto tempo sem falar com elas? E como voltaria para Londres e as deixaria para trás de novo?
— A gente vai conversar por vídeo o tempo todo — Emi disse, quando contei sobre minha decisão.
— E você vai trabalhar pra ganhar em libra e pagar nossa passagem pra te visitar — completou Lara. — Até porque…
precisamos estar lá no fim do ano.
Tanto Emi quanto eu viramos para ela.
— Por quê? — perguntamos em uníssono.
Lara abriu um sorriso maroto.
— Vocês não estão sabendo?
Nós fizemos que não, e o sorriso de Lara aumentou ainda mais.
Então começou a mexer no celular.
Até que enfim virou a tela para nós.
— Puta que pariu! — exclamei, assim que vi o tuíte.
Então comecei a gritar. Descontroladamente.
— Meu Deus, meu Deus, meu Deus! — não parava de repetir.
Emi e Lara se juntaram a mim, e começamos a pular de empolgação no meio do cemitério.
— Eu não tô acreditando! — choramingou Emi, emocionada.
— Meu Deus, amigas, eu esperei tanto por esse momento! Eu preciso ir para Londres, Dayana, dá seu jeito.
— Eu preciso de vocês duas lá comigo, pelo amor de Deus. Vai ser incrível!
Emi deu um pulinho enquanto seguíamos até a saída do cemitério.
— Ai, imagina nós três em Londres! No show da One Direction!
Indo aos pubs! — Ela arregalou os olhos e me sacudiu pelos ombros. — Indo aos bailes reais.
Eu revirei os olhos.
— Vai sonhando.
Mas, por dentro, fiquei pensando: será que a Diana me perdoaria? Será que eu conseguiria meu final feliz?
Afastei o pensamento, porque duvidava muito que a resposta fosse sim.
A nova Lady Di
Revista Stars
Diana Rose Lima pode não ter direito ao trono, nem ser considerada da realeza ainda, mas já está sendo chamada por aí de nova Lady Di.
Digna da beleza da rainha Diana, a jovem de dezesseis é reservada, mas tem um ar um tanto rebelde. Constantemente flagrada de jaqueta de couro e se escondendo dos paparazzi que tentam vislumbrar um pedacinho da sua rotina, a impressão é que Diana foi jogada no meio do furacão. Seu aparente desinteresse pela realeza e por todos os benefícios de ser filha do segundo na sucessão do trono é o que mais fez aumentar sua popularidade. Jovens do mundo inteiro estão fascinados por cada detalhe da vida da ruiva de olhos claros.
Segundo o Google, “Diana filha de Arthur”, “jovem Lady Diana” e “Diana Lima”
estão entre os termos mais pesquisados da semana. Afinal, não é o sonho de garotas do mundo inteiro tornarem-se princesas? Não só pela coroa, ou as roupas elegantes, ou o felizes para sempre, mas também pela garantia de ter o mundo na palma da mão?
Diana Rose Lima foi a sortuda da vez — e não dá a mínima.
Diana Rose Lima
Diana Rose Lima (Brighton, 26 de setembro de 2004) é a primeira filha de Arthur Henry Oliver George, duque de York, e da comerciária brasileira Rosane Lima de Oliveira. Até os dezesseis anos, não sabia que fazia parte da realeza. Em julho, sua origem foi anunciada através de uma declaração oficial assinada pela rainha Diana I.