Romance Real
Capítulo 16
Mais tarde, minha mãe veio até meu quarto e se sentou na ponta da minha cama.
— Você sabe que pode me contar, né? Se tiver gostando de alguém. Quem quer que seja.
— Mãe, eu sei — resmunguei, envergonhada. — É só um garoto da escola que eu acho bonito, não é nada de mais.
— Tem certeza? — pressionou, séria.
Meu coração acelerou. O que ela queria dizer com aquilo?
— Claro, mãe. O nome dele é Heitor.
Ela hesitou.
— Muito bem. Então agora já temos um nome pro seu aniversário.
— Como assim?
Ela levantou da cama e começou a bater palma.
— Com quem será… Com quem será… Com quem será que a Dayana vai casar?
— Mãe!
16
Spaces between us Keep getting deeper It’s harder to reach her
“Spaces”
Quando saí do trabalho, minha mente estava um turbilhão. Eu não parava de pensar em Diana e na conversa da mercearia.
Cada peça nova que eu achava sobre ela fazia menos sentido naquele quebra-cabeça.
O que, de fato, sabia sobre Diana?
Que era linda.
Que beijava bem.
Que tinha dezesseis anos, trabalhava numa cafeteria nos turnos da tarde e era viciada em ver filmes de qualidade duvidosa. Que amava bandas das quais eu nunca ouvira falar.
Que a mãe era brasileira e gerente da mercearia onde eu trabalhava. Sabia que ela e a mãe andavam brigando e que, por algum motivo misterioso, ela havia pulado a grade do palácio de Buckingham num domingo à tarde.
E se… o segredo de Diana tivesse a ver com os boatos de traição do príncipe Arthur?!
Arregalei os olhos.
Afinal, por que elas teriam que ir ao palácio no dia seguinte?
Por que Rose seria tão taxativa quanto à presença de Diana?
Será que… Rose era a tal amante secreta do príncipe?
A cada nova suposição eu ficava mais atordoada.
Seria possível? Ela me parecia uma pessoa tão correta e centrada, era difícil acreditar que se envolveria com um homem casado de maneira tão pública! E Arthur! Eu sempre tinha achado o casal real tão lindo — Tanya e Arthur me fizeram acreditar em contos de fadas por muito tempo.
Mas eu já sabia que não podia confiar em homens.
Meu pai era a prova disso.
Aparentemente, Diana não concordava muito com a situação.
E era por isso que as duas andavam brigando, certo? E a conversa de hoje… dava a entender que ela estava sendo forçada a fazer algo.
Será que Rose não era a mãezona que eu imaginava?
Será que era, na verdade, uma vigarista?
Será que estava tentando se infiltrar no palácio e tirar dinheiro da família real através de Arthur para melhorar de vida, mas Diana não queria fazer parte disso?
Eu balancei a cabeça, tentando me recompor. Londres tinha finalmente me deixado bem doida das ideias. É claro que Rose não era amante do príncipe da Inglaterra, nem uma vigarista.
Com certeza havia alguma explicação lógica em que eu não pensara ainda.
Mesmo assim, todas aquelas questões fervilhavam na minha cabeça enquanto eu seguia para o metrô. Num ímpeto, saquei o celular e digitei uma mensagem para Diana.
ei, tá tudo bem?
você não tava com uma cara muito boa mais cedo Será que ela ia perceber que eu tinha ouvido a conversa? Comecei a roer distraidamente a unha enquanto aguardava sua resposta. Diana começou a digitar, mas a mensagem demorou a sair. Fiquei observando o “digitando…” sumir e reaparecer várias vezes até que o aparelho vibrou.
Ah, coisa da minha mãe Ainda não estamos nos melhores termos achei que vocês tinham feito as pazes A gente tinha, mas hoje brigamos de novo Fiquei encarando o celular, pensando em como responder.
que droga!
bom, se precisar conversar saiba que estou aqui Obrigada 😊
O status de on-line abaixo de seu nome sumiu. Balancei a perna, nervosa.
Não podia negar que estava curiosa, mas não tinha como forçá-la a contar, né? O que eu poderia fazer? Perguntar e revelar que entreouvira a conversa?
Estava tão cansada e de cabeça tão cheia que, quando cheguei em casa, só queria cair na cama e apagar. Mas, quando abri a porta do quarto, dei de cara com Georgia deitada lá, folheando meu livro de cabeceira, Everything Leads To You, que eu trouxera do Brasil para enfim desencalhar da estante e treinar meu reading.
— Que saco, tô começando a repensar esse negócio de me dar bem com você — falei, largando a bolsa no chão e, em seguida, meu próprio corpo.
— Ihh, tá de ovo virado? — ela perguntou, se inclinando sobre a beirada da cama para me olhar no chão.
— Não, tá tudo ótimo — respondi, irritada.
— É a Diana?
Hesitei.
Não tinha intenção de contar nada à Georgia, mas… talvez ela pudesse me ajudar a descobrir o que fazer. Ou, pelo menos, a parar de viajar na maionese.
Então contei tudo.
Quando falei sobre o que Rose dissera a Diana mais cedo, Georgia deu um pulo na cama, ficando de quatro, boquiaberta.
— Puta que pariu, Dayana!
— Shhh — pedi, gesticulando para que ela falasse mais baixo.
Contar para Georgia era uma coisa, mas eu não queria Lauren no meu pé. Ela tinha cara de ser a vizinha fofoqueira do bairro. —
Fala baixo!
— Puta que pariu! — exclamou de novo, baixando o tom de voz. — Dayana, você tá saindo com a filha da suposta amante do príncipe Arthur! Que babado!
Revirei os olhos, mas acabei rindo. Com a Georgia falando assim, em voz alta, a possibilidade parecia mesmo absurda.
— Eu nem sei se é isso. E será que dá pra confiar nesses sites de fofoca? Essa história toda tá muito mal contada. Por que o Arthur levaria a amante dele pra dentro do palácio da mãe?
Talvez Rose só esteja fazendo algum trabalho pra família real.
Algo relacionado ao bufê de um evento? E a Diana não quer trabalhar nisso, por isso está relutando.
Conforme fui falando, a justificativa foi parecendo mais e mais plausível. É. É verdade. Podia não ser nada do que eu estava pensando.
— E por que ela não te contaria sobre isso?
Refleti um pouco.
— Contrato de confidencialidade?
Georgia torceu a boca.
— Sei não, muito esquisito.
Ela voltou a deitar, e nós duas ficamos em silêncio, pensando nas possibilidades.
Por fim, meu estômago roncou e eu me levantei, dando de ombros para encerrar a conversa e sairmos do quarto para jantar.
— Bom, não tem nada que eu possa fazer, exceto esperar. E
comer, porque tô morrendo de fome.
Partimos para a cozinha, de onde vinha um cheiro maravilhoso. Espiei as panelas, esperando encontrar a janta de sempre: arroz, feijão enlatado, legumes e carne. Em vez disso, me surpreendi com uma panela de pressão elétrica em cima da pia, de onde vinha o inconfundível aroma de milho, e um prato de vidro coberto por um pano de prato em cima de uma panela no fogão.
— Isso é cuscuz? — perguntei, chocada, e tentei olhar o que havia debaixo do pano, mas Lauren deu um tapinha na minha mão.
— Sai daí, vai atrapalhar o cozimento — ela ralhou, mas estava rindo, então nem levei a sério. Já estava espiando uma terceira panela, cheia de bananas cozidas. Meus pratos preferidos para um cafezinho da tarde. — Deixa de ser curiosa, sweetie, e vai sentar.
— O que é isso tudo?
— Fui ao mercado brasileiro hoje e achei que podíamos fazer um lanchinho tradicional, com as coisas de que você gosta, pra matar a saudade do Brasil.
Fiquei emocionada.
— Como você sabia que eu gostava dessas coisas?
— Falei com seus avós. — Lauren deu de ombros, como se não fosse nada de mais.
Mas era gigante.
Antes que desse por mim, já estava abraçando minha madrasta.
— Você é a melhor, Lauren.
Ela me deu tapinhas no braço, desconcertada.
— Não foi nada, sweetie. Agora vá lavar as mãos e sentar.
Quando me virei, Georgia nos observava com um olhar curioso. Eu sabia que a cena tinha sido atípica, mas o que podia fazer? Lauren estava me conquistando com comida. Ela era boa.
Encolhi os ombros, envergonhada, e sentei ao lado de Georgia.
Ficamos em silêncio por um tempo — bom, Georgia e eu ficamos, enquanto Lauren tagarelava sobre tudo que havia comprado no mercado. Até que Georgia se inclinou na minha direção.
Eu me sobressaltei, estranhando o movimento súbito.
— Acho que tive uma ideia pra gente descobrir o que tá rolando com a sua garota.
A julgar pelo sorriso esperto que se abria em seu rosto, eu não tinha certeza de que ia gostar da ideia.
— Você não acha meio esquisito que ele queira esconder que vocês tão ficando? — perguntou Emi, num canto do colégio, durante o intervalo.
No último fim de semana, eu, Emi e Lara tínhamos ido a uma reuniãozinha na casa de um colega de turma. E lá, durante uma brincadeira de verdade ou consequência, eu tinha ficado pela primeira vez com Heitor, o garoto de quem eu gostava desde o início do ano. Era horrível que tivéssemos ficado por causa de uma brincadeira, eu sabia.
Mas foi assim que consegui que ele olhasse para mim.
No dia seguinte, na escola, ele me puxou para um canto e me beijou de novo.