Romance Real

Clara Alves · Capítulo 28 de 38

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Romance Real

Capítulo 27

— Tá tudo bem?

Eu assenti, mecanicamente.

Uma amiga da minha mãe entrou na capela e parou à minha frente.

— Era tão nova! Tanta vida pela frente — a mulher dizia, chorando tanto que parecia da família. Deu tapinhas nas minhas costas e olhou para Emi com um sorriso contido. —

Ainda bem que você tem amigos queridos pra te apoiar, eles vão ser muito importantes nesse momento. — Ela olhou ao redor. — Seu namorado não está com você?

Eu desviei o olhar, me sentindo exposta.

Era como se ela tivesse acabado de gritar para a capela inteira que eu estava ali, sozinha, abandonada pelo garoto por quem havia colocado a vida da minha mãe em risco.

— Ele vai chegar em breve — Emi respondeu por mim, e a amiga da minha mãe se foi.

Senti o olhar de Emi penetrar em minha nuca.

Será que ela também achava que a culpa era minha?

27

You and me were raised in the same part of town Got these scars on the same ground Remember how we used to kick around just wasting time?

“A.M.”

— O quê?! Você teve um rolo com a filha do príncipe da Inglaterra? Emi se apoiou nos cotovelos e ergueu os óculos escuros para me encarar. Os olhos se estreitaram para se proteger da luz solar, e ela olhava para mim, deitada na canga, como se tivesse nascido outra cabeça no meu pescoço. Sua pele clara já estava rosada da exposição ao sol.

— É, mas acabou. — Engoli o nó que se formou em minha garganta e fechei os olhos de novo para evitar seu olhar. Apertei as mãos, agarrando um punhado da areia da praia da Barra. —

Deu tudo errado. Londres foi uma bosta grande e melequenta.

— Eca, Dayana — Lara reclamou, do meu outro lado. Diferente de mim e de Emi, ela pegava cor rápido. A pele negra clara já tinha adquirido um bronzeado uniforme. — Sem analogias com cocô. Foco aqui. Rebobina essa história.

— É, conta tudo do começo, porque eu nem sabia que você curtia meninas.

Abri um dos olhos de novo, espiando Emi. Sua expressão exalava expectativa. Nenhum rastro de julgamento à vista.

Ergui o tronco, me sentando sobre a canga.

Uma onda especialmente grande quebrou ao longe. Água salgada salpicou meu corpo com o vento. Era inverno no Brasil, então o sol não estava tão forte. Mas eu nunca tinha gostado do verão mesmo. O tempo estava perfeito, e ir à praia realmente

tinha me trazido um pouco de paz. Era um programa tipicamente brasileiro, tipicamente carioca. Pisar na areia me trouxera uma sensação de estabilidade. Como se a terra de repente voltasse à rotação certa.

Era uma segunda-feira de julho, então a praia não estava tão cheia quanto no verão, mas também não tão vazia porque era período de férias escolares. Já passava das onze, e as barracas se amontoavam no horizonte, me impedindo de ver o fim da orla.

Um ambulante carregando um saco de biscoitos Globo no ombro direito e um galão de alumínio no esquerdo gritou: — Olha o mate, olha o ma-tê!

Emi e Lara se ergueram também, abandonando a missão de pegar uma corzinha para esperar pela minha história.

Suspirei.

— Eu descobri que gostava de meninas há três anos, com a…

Angélica. — Olhei para Emi de canto de olho. Ela e Angélica se detestavam por conta de uma rixa boba no grêmio estudantil.

— A Angélica? — Ela fez uma careta.

— Em minha defesa, foi antes de vocês concorrerem à presidência do grêmio. Foi quando ela foi transferida pra escola.

Eu fiquei meio encantada e isso me fez repensar minha sexualidade.

— E por que você não contou pra gente? — Lara perguntou, mas seu tom era leve, bem diferente do normal. Como se tentasse deixar bem explícito que não era uma acusação.

— Por que mais seria? Eu tava me cagando de medo.

Elas abriram a boca para protestar, mas eu já sabia o que iam dizer.

— Eu sei que não faz sentido. Eu sei que vocês não iam me julgar. Mas eu tremia toda só de pensar em contar.

Emi assentiu. Ela entendia melhor do que ninguém.

— Não posso dizer que entendo — Lara falou —, mas fico feliz que esteja contando agora. Você sabe que a gente te ama do mesmo jeito, né?

Eu me inclinei na direção dela.

— Isso quer dizer que você me perdoou por ter ido embora sem dar notícias? — Pestanejei para ela, com uma expressão

inocente.

Lara empurrou minha cabeça.

— Ainda não.

Joguei um beijo para ela e me endireitei.

O cheiro de camarão frito me deu água na boca e outro ambulante passou anunciando: — Sanduíche natural!

Esperei até que ele se afastasse para continuar: — Bom, aí foi isso. Eu percebi que era bi por causa dela, mas depois veio o Heitor e eu preferi guardar a informação pra mim mesma.

— Eu sou muito mais a Angélica do que o Heitor — Emi anunciou, o que significava muito vindo dela.

— Eu sei que fiz besteira ficando com o Heitor, ok? — Fiz uma careta de dor. Falar de Heitor sempre provocava pontadas em meu peito. Por tudo que ele me fizera passar. — Não sou tão sem-noção assim.

— Tá bom, mas chega de Heitor — Emi reclamou, e eu sabia que não estava falando aquilo só pela curiosidade da fofoca. Ela me conhecia melhor do que ninguém. — Conta da princesa.

— Ela não é princesa. Não tem direito ao título sendo filha ilegítima.

— Dayana, você sabe que isso não é o mais importante, né?

— Lara cruzou os braços.

Bufei. Não queria relembrar minha história com Diana, mas, já que tinha começado, Emi e Lara nunca me deixariam em paz.

Então, como se estivesse arrancando um band-aid, contei tudo de uma vez, sem nem mesmo parar para respirar. Quando terminei, Lara e Emi ficaram em silêncio por um tempo.

— E aí ela te culpou por ter vazado o segredo que você prometeu que não vazaria e você só foi embora? — Lara indagou, enfim. — Não mandou nem uma mensagem pedindo desculpas? Uma segunda chance?

— Claro que não. — Cruzei os braços, fechando a cara. — Ela nem quis me ouvir.

Bom, eu tinha mandado uma mensagem. Antes de ir embora.

Mas aí já era tarde demais. Diana não queria mais saber de mim.

— Mas, tipo, você sabe que ela devia estar apavorada com a repercussão da matéria, né? Fora que você foi mesmo uma

cuzona. — Lara, como sempre, era cirúrgica em seus apontamentos e não passava pano nem mesmo para a melhor amiga.

Eu tinha tido muito tempo para refletir e minha maior certeza era que havia errado muito com Diana. Mesmo depois de dizer que a entendia, que havia me identificado com ela, com sua dor, eu não fora solidária no momento em que ela mais precisou de mim. Não fora forte por ela, não segurara sua mão para trazê-la à realidade. Não fora digna de sua confiança.

Por não aguentar ouvir as acusações, eu tinha simplesmente fugido. Era o que melhor sabia fazer.

Talvez tudo aquilo significasse mesmo que eu não a merecia.

Emi assentiu, e por um momento pensei que tivesse ouvido meus pensamentos.

— A gente brinca que queria ser herdeira, mas imagina como deve ser passar a vida inteira no anonimato e de repente ter um monte de jornalista na sua porta, vazando uma história que você ainda nem digeriu direito? — Emi era mais gentil do que Lara, mas a acusação em sua voz tinha o mesmo propósito. As duas estavam contra mim. — Contando pro mundo inteiro que você tem um pai, e ele é da realeza, quando você passou a vida inteira achando que ele tinha morrido?

Olhei para as duas.

— Mas vocês acham que eu estava errada em discutir com ela? Quer dizer, ela me acusou sem nem pensar duas vezes. —

Eu queria me agarrar àquela justificativa porca com todas as minhas forças.

— Não, assim, não errada… — Emi tentou, cheia de dedos. —

Mas sabemos que você tem certa tendência explosiva e impulsiva. E uma grande dificuldade de pedir desculpas.

— Você está sendo educada demais, Emi — Lara retrucou, e virou para mim. Uma faísca de irritação brilhou em seus olhos, e eu me preparei para o que viria. Lara nunca fora de medir palavras. — Você é uma cabeça-dura, Day. Faz as coisas sem pensar duas vezes, sem nunca tentar considerar o outro lado. Foi por isso que você desapareceu depois da morte da sua mãe.

Você nem permitiu que a gente te apoiasse. — Ela passou a mão

pelos cabelos cacheados, jogando de um lado para o outro numa tentativa frustrada de se controlar. — A gente sabe que não foi fácil pra você, que você tava tendo que lidar com muita coisa.

Mas, poxa, nós somos suas melhores amigas. Ou achávamos que éramos, né? E você não apenas parou de falar com a gente, como foi morar em outro país sem dizer uma palavra! — Seus olhos marejaram, e ela secou o rosto com o dorso da mão, enfurecida. — Sabe o quanto foi difícil pra gente? Todo dia eu queria pegar um avião pra ir te encontrar. Não sei se pra te agredir ou pra te consolar. Um nó se formou em minha garganta, e eu levantei, irritada demais para ficar sentada.

— Foi por isso que eu sumi! — Comecei a catar minhas coisas, quase bufando de raiva. Eu ia fugir de novo. Ia fugir porque não conseguia suportar o buraco que havia se aberto em meu peito desde a morte da minha mãe. Eu me sentia inquieta, desolada, como se ficar parada fosse fazer aquele buraco aumentar mais e mais, até me engolir. — Eu não queria lidar com o luto de ninguém. Eu não queria ver ninguém chorando e me dando os pêsames. Eu não queria ninguém me dizendo que não era minha culpa.

A última frase fez Lara recuar.

Eu via, pelo canto do olho, que as pessoas ao redor já começavam a prestar atenção na nossa briga. Queria gritar com elas também, mandar que cuidassem da própria vida, mas Lara falou antes que eu pudesse me exaltar ainda mais.

— Por que alguém diria que foi culpa sua? — perguntou com o cenho franzido. — É óbvio que não foi culpa sua.

— Mas foi! — gritei, lançando a ela um olhar que poderia fazer tudo ao meu redor explodir.

A atenção da praia toda estava finalmente voltada para nós três. Até um ambulante que fazia tatuagens de hena havia parado para observar. Um adolescente atrás de mim gritou: —

Barraco! Barraco! Barraco!

Eu o ignorei, sem desviar o olhar de Lara.

— Foi tudo culpa minha! Se eu não tivesse saído com o Heitor naquele dia… Se eu não tivesse ligado pra ela depois da briga…

— O soluço que deixei escapar veio sem aviso. Levei a mão à boca, sem conseguir completar a frase.

Não importava.

Nada daquilo importava, porque eu não aguentaria ficar mais um segundo naquela praia.

Calcei o chinelo de qualquer jeito, ignorando os olhares curiosos, os assovios inconvenientes, e saí correndo para o ponto de ônibus, jogando areia para trás enquanto Lara e Emi gritavam meu nome.

As mensagens de Lara, Emi e tantos outros amigos não paravam de chegar. As notificações iam se acumulando, fazendo crescer o número em vermelho acima do aplicativo de mensagens.

Mas eu não queria olhar nenhuma delas.

Não queria falar com ninguém, não queria ver a acusação em suas palavras.

Era por isso que estava fugindo de todos, encolhida no canto do quarto da minha mãe — que passaria a ser dos meus avós, porque eles teriam que se mudar para cuidar de mim. Houvera uma conversa, um debate sobre o melhor lugar. A casa deles ou o nosso apartamento. No fim das contas, acharam melhor não me fazer passar por outra grande mudança.

Eu não teria ido mesmo. Não queria sair dali, me afastar das memórias. Não sei se teria forças. Segurando a camisola antiga da minha mãe, presente da avó dela, que ela sempre me emprestava quando eu estava doente, dizendo que era uma camisola mágica e fazia curar qualquer dor, eu me sentia rasgar por dentro. O cheiro dela ainda estava na roupa, a presença ainda era constante naquele quarto. Era como se a qualquer momento ela fosse entrar ali, levar as mãos à cintura e dizer: — Dayana! Eu não mandei você ficar me esperando?

Mas ela não ia.

Ela não ia entrar.