Romance Real

Clara Alves · Capítulo 23 de 38

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Romance Real

Capítulo 22

And somehow you kicked all my walls in So, baby, say you’ll always keep me Truly, madly, crazy, deeply in love with you “Truly, madly, deeply”

— Quer dizer então que você contou pra sua madrasta sobre mim? Eu sou oficial agora? — Diana levou a mão ao peito, emocionada. — Que honra!

Peguei o suco de caixinha e tomei um gole, tentando esconder um sorriso bobo.

Estávamos sentadas lado a lado sobre uma toalha vermelha que eu havia surrupiado da gaveta da cozinha, enquanto à nossa frente se estendia uma variedade de comidinhas: suco de caixinha, garrafinhas de cappuccinos, um potinho com frutas vermelhas — todas as berries possíveis e intraduzíveis —, uma caixa dos donuts de Rico, o confeiteiro da Grocery Sugary, que, ao me ver escolhendo, me perturbara até eu confessar que tinha um encontro, decidindo assim caprichar no pedido (uma das rosquinhas tinha até confeitos de coraçõezinhos), e dois sanduíches na baguete com peito de frango e salada, que eu fizera na noite anterior, depois que todo mundo tinha ido dormir.

Pelo celular de Diana, uma playlist que ela montara tocava

“About you”, da Fletcher, baixinho. Eu tinha conhecido a cantora por indicação dela e andava viciada. A playlist também incluía One Direction, claro.

— Infelizmente isso aqui não é o banquete real que você merece, mas até que dá pro gasto, né?

Diana semicerrou os olhos e ficou me encarando. Comprimi os lábios para conter a risada.

— Engraçadinha.

Talvez eu tivesse sido um pouco contagiada por Georgia.

— E aí, você e sua mãe conversaram? — Puxei um guardanapo para pegar o sanduíche. — Você disse que ela te deu um ultimato ontem.

Diana suspirou enquanto beliscava um mirtilo. Ou era um cranberry? Eu sempre me confundia com aquelas frutas.

— Yeah. A gente conversou.

Seu olhar se dirigiu à paisagem à nossa frente. Primeiro, vinha a grama descampada do Primrose Hill, cheia de outros grupos e casais curtindo o tempo limpo; em seguida, árvores ladeavam as trilhas; e, mais adiante, prédios se estendiam por cima das copas verdes e floridas, sob o céu azul. Era uma vista de tirar o fôlego.

— Ela me explicou um pouco do que aconteceu, mas não é fácil.

— Vindo de uma história que envolve a família real, não imagino que seja.

Diana deu um sorriso resignado.

— Ela disse que eles se conheceram at St. Andrews University, in Scotland.

Parecia estar se esforçando para continuar contando a história em português, então a interrompi.

— Pode falar em inglês, eu acompanho — sugeri, prestativa.

Ela balançou a cabeça.

— Acho que é mais seguro em português mesmo. — Ela respirou fundo antes de continuar. — Um amigo da minha mãe conheceu o Arthur num pub através de outro amigo, e aí eles passaram a fazer parte do mesmo círculo social. Não sei os detalhes , como passaram de amigos to something more, mas acho que não importa muito, né? Eles se curtiram, ficaram, me conceberam. — Ela ergueu a sobrancelha, como se ficasse nervosa só de pensar naquilo. — E aí… — Eu prendi a respiração, cheia de expectativa. — Bom, a realeza aconteceu.

— Ameaçaram sua mãe? — perguntei, ainda mastigando um pedaço do sanduíche.

— Uma universitária bolsista, filha de imigrantes, não era exatamente a esposa que o rei Oliver sonhava pro neto dele.

— Ele chamou sua mãe pra conversar e entregou um envelope cheio de dinheiro pra ela ir embora?

A ideia tirou uma gargalhada de Diana.

— Não em pessoa, claro. O rei nunca lidaria com esse tipo de coisa diretamente. — Ela fez um gesto de desdém, como se entendesse do assunto. — Mas foi mais ou menos isso.

— Mas como o rei descobriu que sua mãe estava grávida, se nem seu pai sabia? — Aquela história tinha tantas camadas que eu ficava confusa só de pensar.

— Não acho que ele tenha intervindo por causa da gravidez, e sim porque as coisas estavam ficando sérias, a ponto de os jornais estarem começando a falar da namorada do príncipe.

Com o Andrew tendo se assumido gay, o Arthur era meio que “a esperança” do rei. — Diana revirou os olhos. — Então o velho se meteu antes que a história explodisse. A minha mãe gostava do Arthur, mas não o suficiente para se meter naquela confusão.

Então ela só aceitou o dinheiro, abandonou a faculdade e fugiu pra Brighton.

— E por que ela decidiu vir para Londres?

Diana deu de ombros.

— Ela recebeu a proposta para trabalhar aqui e, como tinha desistido da universidade, era uma proposta muito boa. Ela cresceu na Grocery Sugary com o suor do seu trabalho, conseguiu completar o ensino superior graças à loja. Fora que já fazia muito tempo. Ela achou que era seguro vir para a capital.

— Mas e o dinheiro que ela recebeu? — Eu sentia como se estivesse interrogando Diana, mas era mais forte do que eu.

Aquela história toda era tão… maluca.

— Ela guardou numa poupança para mim.

— E por que contar a verdade agora?

— Porque o rei Oliver morreu.

Eu me endireitei e fiquei calada por um tempo, assimilando aquelas informações, imaginando como tudo devia ter sido difícil para Rose.

— Então o Arthur não sabia mesmo de você?

Ela negou com a cabeça.

— Menos mal, né? E ele não recusou te conhecer nem fazer o teste de paternidade.

— Não, pelo contrário, ele foi bem… thoughtful. Atencioso, acho? — Um brilho alegre iluminou os olhos de Diana. Eu podia imaginar a sensação. Era tudo que esperara do meu próprio pai.

— Ainda é muito esquisito, parece que eu tô sonhando, sabe?

Não é exatamente um sonho bom, só não parece verdade. Quer dizer, eu tô aqui conversando com você sobre o príncipe — ela baixou a voz — ser meu pai?! Parece que de repente minha vida virou the bloody Princess Diaries.

Eu dei um sorriso, e Diana retribuiu. Eu a sentia mais leve depois de conversar com a mãe, como se enfim estivesse aceitando a nova realidade. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, toda a sombra, a hesitação, o medo em seus olhos estavam desaparecendo. Eu não sabia se ela estava pronta para fazer parte da realeza — mesmo que daquele jeito torto que filhos ilegítimos fazem, recebendo muita atenção da mídia, mas não sendo realmente incluído na família —, mas dava para ver que estava feliz. Feliz por ter descoberto que seu pai estava vivo.

Que ele tinha intenção de cumprir seu papel de pai, ainda que as coisas não fossem tão convencionais quanto ela gostaria.

Ela esticou os braços às costas, apoiando as mãos na grama, e voltou a admirar a vista. Usava um short de alfaiataria e blusa de botão levinha, bem confortável. Ela era sempre tão bonita, mas naquele momento parecia brilhar. Sabe quando se está num shopping de rico e as pessoas estão vestindo short, camiseta e chinelo, mas você sabe que cada uma daquelas peças deve ter custado mais do que a sua mãe ganha em um ano? Era aquela aura que ela me passava.

Naquele momento, Diana me pareceu distante de mim e do meu mundo. Como alguém da realeza.

Ela me flagrou, e o encanto se quebrou.

— O que foi? — perguntou, envergonhada.

Eu peguei uma framboesa e estendi o garfo para ela.

— Estava pensando em como você se encaixaria bem nas fotos oficiais de família.

Ela deu uma risada alta e sentou novamente, batendo as palmas para limpar as mãos antes de aceitar o garfo.

— Sabe uma coisa que me deixou curiosa? — perguntei, comendo uma framboesa. Ela ergueu a sobrancelha. — Por que sua mãe escolheu te chamar de Diana, apesar de tudo que aconteceu?

Diana deu um sorrisinho.

— Minha mãe é obcecada pela Diana Ross.

Eu dei uma gargalhada.

— O quê? É sério? Não foi por causa da rainha?

— Ela ama mesmo a Diana Ross, é um saco às vezes, de tanto que ela escuta. — Diana riu, depois encolheu os ombros. —

Mas ela também me disse que, uns meses depois de ter fugido pra Brighton, recebeu uma ligação da princesa se desculpando por tudo o que aconteceu e por ter demorado tanto a ligar. Disse que às vezes o rei agia tão… on the quiet… que nem ela ficava sabendo. Também disse que, se minha mãe quisesse voltar para a universidade na Escócia, ela mesma resolveria tudo. Minha mãe recusou e nunca mencionou que tinha engravidado, mas acho que ela sempre guardou uma admiração pela princesa por causa disso. Então talvez também tenha sido por causa dela, sim.

Eu pestanejei, admirada, o respeito pela rainha crescendo ainda mais.

— Uau, ela é incrível mesmo.

— Pois é, dá pra acreditar que ela é minha avó?

Arregalei os olhos, me empertigando.

— Meu Deus! Eu ainda não tinha parado pra pensar nisso! —

Desabei na toalha vermelha, encarando o céu. — Preciso de um momento para digerir essa informação.

Diana riu e comeu mais algumas frutinhas. Em seguida, pegou o celular e trocou de música.

— Conhece essa? — perguntou, quando os acordes dedilhados de um violão começaram com um estalar de dedos.

Fiz que não com a cabeça e sentei novamente. — Se chama

“Best part”, da H.E.R. Ela me lembra você. You’re the coffee that I

need in the morning. You’re my sunshine in the rain when it’s pouring — cantarolou com a voz grave.

Eu sorri, tocada, enquanto escutava a letra.

Diana deitou no meu colo, e eu comecei a fazer cafuné nela.

Seus cabelos ruivos brilhavam entre meus dedos. A gola da camisa escorregou pelo ombro e eu vislumbrei uma tatuagem de arco-íris em sua clavícula. Passei o dedo pela tatuagem.

— Você se identifica como o quê?

— Pan — ela respondeu, fechando os olhos. — E você?

— Bi. Teve uma época que eu cheguei a me definir como pan.

Mas acabei percebendo que me identificava mais como bi. Acho que gosto de como soa. — Dei um sorrisinho.

Tem muitas informações desencontradas sobre a diferença das duas orientações, mas, com o tempo, acabei entendendo que a bissexualidade não era binarista, como algumas pessoas costumavam dizer. No fim das contas, o mais importante era com qual dos dois termos a pessoa se sentia bem. E “bissexual” se encaixava como uma luva para mim.

— Comigo foi a mesma coisa, só que ao contrário. Na verdade, antes de tudo, achei que era lésbica. Eu sempre me interessei mais por mulheres, mas às vezes sentia atração por pessoas de outros gêneros e acabei me encontrando mais na pansexualidade.

— Você já namorou?

— Uma vez, com uma garota. Mas durou pouco tempo. Acho que era mais… como se diz? A nine-day wonder.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Quando você fica empolgada, mas a empolgação acaba tão rápido quanto surgiu.

— Ahh! A gente chama de fogo de palha.

Sua risada rouca invadiu meus ouvidos.

— Isso mesmo!

— Eu tive a thing com um garoto, ano passado — contei, usando a expressão em inglês, porque não tinha certeza de que ela sabia o que significava “rolo”. — Mas acabou quando minha mãe morreu.

Diana abriu os olhos e me encarou do meu colo.

— Como ela era?

— Minha mãe? — perguntei, e Diana assentiu. Olhei para a frente, observando o grupo mais abaixo na colina, que gargalhava de alguma coisa. — Ela era como uma estrela cadente. Brilhante, forte, impactante. Aquele tipo de pessoa que todo mundo admira.

— Como você, então — complementou, me fazendo sorrir. —

Você deve sentir muita saudade dela.

— Tanta que dói.

— Eu não sei como deve ser perder alguém tão importante, mas eu me sentia um pouco assim em relação ao meu pai. Mas é estranho sentir saudade de alguém que você nunca conheceu. É

diferente, como ter um buraco onde todas as outras pessoas têm carne e osso.

— No meu caso é mais como se alguém tivesse feito um buraco onde antes havia carne e osso.

Ela contorceu a boca, compadecida, e segurou minha mão. Eu analisei as flores tatuadas ao redor do pulso.

— Quantas tatuagens você tem? — perguntei, curiosa, entrelaçando nossos dedos.

As mãos dela eram finas e ossudas e uma pinta se destacava em seu dedo anelar.

— Só essas duas. Na verdade, menores de dezoito não podem fazer tatuagem aqui no Reino Unido. Mas minha mãe e eu fomos comemorar meu aniversário de dezesseis anos na Irlanda, e ela me deu essas duas de presente lá.

— Quando é seu aniversário?

Havia tantas coisas que eu queria perguntar a ela. Tantas coisas que eu ainda queria descobrir. Coisas banais, como sua cor preferida, o sabor de sorvete preferido, que superpoder ela escolheria. E coisas complexas: qual era seu maior sonho; como ela se via no futuro; se ganhasse um milhão de libras, com que gastaria.

Eu queria descobrir quantas pintas ela tinha no corpo, se havia outras constelações em sua pele, se assistir um filme de mãos dadas era tão gostoso quanto parecia, se dividir um prato de

comida era mesmo romântico. Se todas as coisas que hoje eu achava bobas ficariam melhores ao lado dela.

Havia tantas coisas que eu queria perguntar. E, assim como com a minha mãe, eu achei que teria todo o tempo do mundo.