Romance Real
Capítulo 28
Ela tinha morrido.
Não havia consolo para a morte de uma mãe.
Como poderia haver? Se a pessoa que melhor poderia me consolar era ela?
28
Who’s that shadow holding me hostage?
I’ve been here for days Who’s this whisper telling me that I’m never gonna get away?
“Stockholm syndrome”
Tentei ser o mais discreta possível ao chegar em casa. Não queria que meus avós me vissem chorando, não queria que me perguntassem o que tinha acontecido. Eu só queria ficar em paz.
— Dayana? — minha vó chamou ao me ver passar pela sala.
Eu não respondi, e ela veio atrás de mim. — Dayana? Dayana, me responda!
Me joguei na cama, afundando o rosto no travesseiro. O celular não parava de vibrar no bolso, mas eu não queria falar com ninguém. Havia um nó em minha garganta e o rombo em meu peito se tornara um buraco negro, me sugando inteira. Era como se eu tivesse voltado no tempo, àquelas semanas terríveis após a morte da minha mãe.
Minha vó acariciou minhas costas enquanto meu vô se juntava a nós no quarto.
— Dayana, eu preciso que você fale com a gente. Sei que as coisas não têm sido fáceis, mas você não pode continuar assim.
— Ela esperou, mas eu só continuei chorando. — Estamos muito preocupados com você.
Uma risada cruel escapou pela minha boca.
— Desculpa por estragar a tranquilidade de vocês voltando pra cá — falei, cheia de veneno, toda a raiva que eu sentia fumegando por cada poro do meu corpo. Não era raiva deles, não exatamente. Era de mim mesma. — Sei que vocês estavam felizes por terem me despachado pra Londres.
— Dayana, é claro que não! Meu coração só faz doer desde que você se foi. Mas a gente sabia o quanto tudo estava sendo difícil pra você, ainda mais tendo que cuidar de dois velhos.
Quando você sugeriu ficar com seu pai… pensamos que seria bom para você se reconectar com ele. Você teria uma vida nova pela frente em Londres, num lugar diferente, longe das memórias dolorosas da Patrícia.
Virei o rosto para ela, ainda deitada de bruços.
— Não importa onde eu esteja, vó — cuspi —, nunca vou esquecer minha mãe. Muito menos que ela morreu por minha culpa.
Os dois se entreolharam, horrorizados.
Meu vô se ajoelhou ao meu lado, fazendo carinho em meus cabelos como ele fazia quando eu dormia na casa deles, ainda criança, e acordava assustada de um pesadelo.
— De onde você tirou essa ideia absurda, minha borboletinha?
— perguntou, com a voz suave. — É claro que a morte dela não foi sua culpa.
— Claro que foi! — Voltei a abrir o berreiro, consumida demais pela tristeza e pela raiva. Os sentimentos espiralavam dentro de mim como um furacão, arrancando do peito todas as coisas boas que eu ainda conseguia sentir. Tudo estava sendo destruído.
Tudo. Eu me sentia sufocada e percebi que não importava mais onde estivesse. No Rio ou em Londres, aqueles sentimentos continuariam a me perseguir. Não havia escapatória. Não havia como fugir do que eu sentia. Quanto mais errante eu me tornasse, mais vidas seriam estragadas pela minha raiva. — Ela estava indo me buscar quando… qu-quando sofreu o acidente.
— Solucei. — Ela morreu preocupada comigo! Sem saber que eu estava bem, sem saber que eu só estava envergonhada.
Os soluços se tornaram ainda mais fortes.
— Não foi sua culpa, Day. Nada do que aconteceu foi sua culpa. — Minha vó me abraçou, desesperada, e eu a agarrei pelos ombros, fechando os olhos, tentando me ancorar nela. — A morte da Patrícia foi uma fatalidade que poderia ter acontecido a qualquer momento, mesmo que ela não estivesse indo te buscar.
A culpa foi do motorista que avançou o sinal. Ela sempre foi uma
mulher prudente, você sabe disso. Mesmo preocupada, era responsável e sabia o que estava fazendo. Sua mãe te amava.
Ela te amava muito.
Eu estava tão cansada. Tão cansada de me sentir sem chão.
Meu vô acariciou minha bochecha, me fazendo abrir os olhos.
— Minha borboletinha, nós dois sabemos como você está se sentindo. Perder uma filha é a pior dor que já senti na vida. Pior do que o infarto que sofri. Pior do que o medo de deitar no travesseiro e não acordar. Eu iria em paz, se soubesse que a Patrícia ficaria bem. — Ele suspirou, entristecido. — Mas Deus quis levá-la antes, e só Ele sabe os motivos. E, enquanto viveu, sua mãe te deu todo o amor do mundo, e eu não tenho dúvida de que ela morreu feliz por ter criado uma filha tão linda, tão cheia de vida e com um futuro brilhante. — Ele me segurou pelo queixo quando percebeu que eu estava atenta. — Eu entendo você se sentir culpada, mesmo que não tenha sido sua culpa. Quantas vezes, depois daquele dia, eu não pensei: se eu tivesse vindo visitá-la, se eu não tivesse insistido que ela tirasse a carteira, que ela nunca quis tirar, se eu tivesse sido um pai melhor. Mas pensar nesses “se” não vai trazê-la de volta. — Ele comprimiu os lábios, e eu senti como se aquele fosse seu golpe final. Porque era verdade. No fim das contas, tudo o que eu queria era trazê-la de volta. — A melhor coisa que podemos fazer para nos livrar dessa culpa é viver nossa vida plenamente. Aproveitar cada dia como se fosse o último. Ser fiel aos nossos sentimentos, a quem nós somos. E chorar, sim, mas também sorrir e ser feliz. Porque é isso que ela ia querer se estivesse aqui, não é?
Ele olhou para mim, cheio de expectativa, e eu assenti. Suas palavras pareciam agulhas, costurando o buraco em meu peito.
Eram dolorosas e afiadas, mas faziam a mágica de remendar os retalhos do meu coração. Meu vô voltou a acariciar minha cabeça, me acalentando, me acalmando.
Meus olhos estavam pesados, exaustos, e em algum momento eu acabei dormindo. E sonhei com a minha mãe.
Eu ainda estava deitada na cama, mas algo não estava certo. Havia um brilho diferente no ar, como a imagem de um sonho em um filme. Meu corpo parecia feito de chumbo, e eu me sentia incapaz de me mexer.
Um relógio digital enorme estava pendurado na parede do meu quarto, em frente à cama. Numa fonte pixelada e verde, anunciava a hora.
3:33.
Quando eu era criança, participei de uma festa do pijama com alguns amigos da escola. Antes de irmos dormir, meus colegas começaram a contar histórias de terror. Uma delas dizia que 3:33 era o momento em que os demônios e fantasmas conseguiam atravessar o mundo dos espíritos para o mundo dos humanos e que todas as crianças que acordassem nesse horário estariam amaldiçoadas para sempre.
É claro que me caguei de medo. E, toda vez que acordava de madrugada, ficava tão tensa que não conseguia pregar o olho. Foi em um desses dias que minha mãe acordou para ir ao banheiro e me encontrou encolhida na cama, assustada demais para voltar a dormir.
— Ih, esses seus amigos não sabem de nada. — A voz de mamãe era um eco de uma lembrança distante. Porém, quando olhei para o lado, ali estava ela.
Viva. Sorridente. Ajoelhada ao lado da cama com a mesma aparência de antes de morrer. — Na verdade, 3:33 é a hora dos espíritos de luz. É a hora que eles vêm cuidar do nosso sono e proteger a gente. Normalmente a gente acorda muito nesse horário porque tem muita energia ao nosso redor, sabe? É nessa hora que a gente fica mais sensível. Dizem também que, se alguém estiver pensando ou sonhando com a gente, é mais fácil de a gente sentir nesse horário.
— Será que tem alguém pensando em mim, mamãe? — eu me vi perguntando. — Será que é o papai?
— Eu não tenho dúvida de que seu pai pensa em você o tempo todo. Mas sabe quem mais também pode ser?
— Quem?
— A pessoa que mais te ama neste mundo!
— Quem? Papai do céu?
Minha mãe soltou uma risadinha.
— É, ele também. E eu, bobona. — Ela fez cócegas em mim, me fazendo rir e esquecer meus temores.
O peso que prendia meu corpo de repente se dissipou como fumaça. Eu me contorci na cama, gargalhando com ela, vendo as rugas recentes em seu rosto tão jovem.
Ela sorriu para mim, e a imagem começou a ficar mais nítida, menos irreal.
— Eu estou sempre pensando em você. — A voz dela soou alta em meus ouvidos. — Sempre zelando pela sua felicidade. É tudo que mais me importa. —
O carinho dela fez cócegas como uma pena. — Nunca esqueça que estou aqui
— sua mão pousou acima do meu coração —, sempre com você.
Quando acordei, meus avós ainda estavam comigo, deitados num colchonete improvisado no chão do quarto, como se tivessem medo de me deixar sozinha. Ergui o olhar para a mesa de cabeceira.
Uma lágrima escorreu quando vi que eram 3:33.
E eu me senti em paz pela primeira vez em muito tempo.
Era ela, eu tinha certeza. Minha mãe era a melhor pessoa do mundo em me consolar — onde quer que estivesse.
Eu sabia que não poderia continuar encolhida para sempre no canto do quarto da minha mãe. Mesmo que eu me sentisse sem chão. Mesmo que o mundo parecesse girar ao contrário, me deixando tonta, desequilibrada.
Não dava para continuar ali para sempre.
Então, em algum momento, eu me ergui.