Romance Real
Capítulo 17
Fui ao céu e voltei. Só Emi e Lara sabiam, mas tinha sido a primeira vez que eu fiquei com alguém. Era tão bom saber que o beijo não só tinha sido incrível para mim, como ele também tinha gostado e quis mais.
Na terça, porém, quando fui falar com ele na sala, Heitor me deu um passa-fora. Mais tarde, no intervalo, ele me levou para um corredor deserto de novo e voltou a me beijar.
Eu não estava entendendo nada.
“É que os caras vão ficar falando, acho que vai estragar essa coisa legal que a gente tem”, se justificou ele, quando perguntei sobre a grosseria.
Quando contei para Emi e Lara, elas não viram com bons olhos.
— Sei não, Day, isso tá muito esquisito — Lara falou, pensativa. — Só guarda segredo assim quem tem algo do que se envergonhar. E ai dele se tiver vergonha de você, vai levar um murro entre as pernas.
— O que tem a ver o cu com as calças, Lara? — Dei uma risada, menosprezando a ideia, ainda que já tivesse pensado a mesma coisa. — Para de falar bobagem.
Por que ele ficaria comigo se tinha vergonha, afinal? E que mal tinha guardar segredo? Todo mundo tinha segredos.
Isso não significava nada.
17
Now I’m climbing the walls But you don’t notice at all That I’m going out of my mind All day and all night “One thing”
No dia seguinte, Rose nem apareceu na loja.
Minha mente não parava de divagar durante o trabalho, olhando as horas no relógio de pulso, no computador do estoque, no relógio de parede. Quando me sentava, as pernas balançavam involuntariamente, e meu estômago parecia o triângulo das Bermudas: tudo que eu comia sumia misteriosamente.
Assim que deu seis horas, fui desesperada trocar de roupa e nem me despedi direito dos outros funcionários antes de sair correndo para o metrô. Peguei a linha que levava à estação Green Park, onde ficava o palácio, e entrei no trem.
Meu celular apitou com uma mensagem de Georgia.
Já tá indo?
s dou notícias Ela tinha sugerido ir comigo, claro. Também estava morta de curiosidade. Mas, no fim, tinha achado que, por conta das dores, só iria atrapalhar, e acabou ficando em casa para me dar cobertura. Eu disse para Lauren e Roberto que tinha aceitado cobrir o turno da noite de uma colega, mas meu pai se oferecera para me buscar. Tanta hora para agir como pai, e ele tinha que escolher justo aquela?
Portanto, o plano era: Sondar o palácio e ver se eu encontraria Rose ou Diana chegando. Enrolar por lá até o suposto horário do fim do expediente. Voltar à mercearia para pegar a carona do meu pai.
Quando anunciaram a estação Green Park, levantei e segui para a porta do vagão lotado. Era hora do rush. Subi com o fluxo, ainda um pouco perdida com a quantidade de escadas que ziguezagueavam pelo subterrâneo, tendo que olhar as placas para me localizar.
Assim que me vi longe daquelas paredes claustrofóbicas, o vento típico de Londres me acertou em cheio.
Fui até a frente do palácio para espiar a entrada. Olhei o relógio. Eram quase sete. O estandarte da rainha estava erguido, indicando que ela estava em casa. Talvez Rose já tivesse chegado? Os britânicos eram conhecidos pela pontualidade.
Será que ela chegaria de carro? Ou entraria a pé? Por uma porta dos fundos?
Saquei o celular do bolso e mandei uma mensagem para Georgia.
tô aqui esperando tudo bem por aí?
Georgia tinha ficado encarregada de me dar notícias de casa, caso meu pai resolvesse sair mais cedo.
Me recostei aos pés do monumento da rainha Victoria e esperei.
Mesmo depois das sete, ninguém apareceu.
Uma sensação esquisita começou a tomar conta de mim.
O que eu esperava conseguir ali?
E se eu descobrisse que Rose era mesmo a amante secreta do príncipe, o que aquilo mudaria? O que eu faria com a informação?
De repente, me senti ridícula.
Será que era minha necessidade de respostas que me levara até ali? Ou talvez…
Não.
Eu merecia saber.
Diana não podia ficar brincando comigo daquele jeito e me deixar no escuro. Se ela não queria me contar, eu ia descobrir sozinha.
Querendo fugir das perguntas que rondavam minha cabeça, resolvi contornar o palácio, procurando brechas nos muros. Não
que eu fosse invadir. Queria apenas observar, tentar descobrir alguma coisa. Algum vislumbre de uma janela? Uma conversa entre funcionários reais?
Fui seguindo a grade, observando as paredes antigas de Buckingham. Quantos anos devia ter o lugar? Séculos, provavelmente. Mesmo assim, as paredes eram sólidas e a pintura, impecável. Muitos lugares de Londres eram assim. Eu me surpreendia com o estado da cidade. Todas as ruas eram muito limpas e os prédios antigos, bem conservados. Gostaria que o centro histórico do Rio fosse igual.
Pensar no Rio me fez sentir saudade. Das praias, da vista do Cristo sempre que eu cruzava o túnel Rebouças no sentido Zona Sul, de reclamar do calor, até da geosmina na água. O sabor da água de Londres também não era lá essas maravilhas, apesar da qualidade supostamente alta do tratamento. Lembrei do meu quarto, tão meu, tão aconchegante, e do cheirinho dos meus avós quando os abraçava de manhã.
A caminhada me levou a um trecho mal iluminado, onde a grade terminava e dava lugar a muros fortificados. O exato local onde eu tinha encontrado Diana pela primeira vez. Parei e olhei para trás, percebendo que, de tão absorta em pensamentos, não tinha feito a busca pelos terrenos.
Antes que eu pudesse recomeçar a andar, porém, um barulho de passos correndo chamou minha atenção. Olhei para a grade, a faixa do museu tapando minha visão do interior, e vi os pés de alguém um segundo antes de a pessoa subir pela grade.
Ah, não, de novo, não.
Tudo aconteceu rápido demais.
Tentei me afastar em tempo, mas, pela segunda vez, caíram bem em cima de mim, e rolei no chão, numa confusão de pés e mãos.
Quando
abri
os
olhos,
o
coração
batendo
desesperadamente, dei de cara com um cabelo ruivo e sedoso fazendo cócegas em meu nariz e um rosto branco e cheio de sardas — logo acima da boca, a constelação Cruzeiro do Sul.
Diana me encarou, embasbacada.
— Dayana?!
Eita, porra… Que déjà-vu!
Abri a boca, sem emitir som algum, e fechei de novo quando percebi que não ia sair nada. Porque como diabos eu ia explicar o que estava fazendo ali? A ficha do que eu havia feito caiu com tudo. Caramba, eu tinha entreouvido a conversa dela com a mãe e decidido bisbilhotar. Que coisa feia, Dayana.
Antes que ela pudesse me perguntar que merda eu estava fazendo ali, ouvimos passos apressados ao longe. Assustada, Diana ergueu a cabeça e olhou para dentro do palácio. Levantou rápido, e eu pensei que ia sair correndo e me deixar ali, estatelada — eu bem que merecia.
Em vez disso, estendeu a mão e me ajudou a levantar.
— Vamos. Temos que ir — foi tudo o que disse, e começou a correr.
Sua mão não soltou a minha. Fomos correndo, o mais silenciosamente possível, beirando o muro do palácio. Quando nos aproximamos do sinal, ela me puxou para a outra calçada e seguimos pela rua transversal do mesmo jeito que tínhamos feito da primeira vez.
Eu a observei de esguelha. Ela usava um traje social despojado, nada a ver com seu estilo. Calça preta de brim. Uma blusa de botão branca, que estava suja em vários pontos, para dentro da calça. O cabelo num coque.
A única coisa que combinava com ela era o coturno preto, quebrando o visual formal.
Quando ergueu novamente o olhar para mim, nos entreolhamos em silêncio. Ela devia estar confusa com minha presença ali, talvez irritada com a intromissão. Mas nada na expressão denunciava o que se passava em sua cabeça.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, trombei com alguém e quase tropecei. Diana desacelerou para que eu pudesse voltar a me equilibrar e continuar a fuga. Ao passar, olhei para o homem alto que ficara para trás, tão branco que tinha as bochechas rosadas.
— Sorry! — pedi, sem parar de correr, com uma expressão arrependida enquanto ele me encarava com irritação.
Voltei a olhar para a frente, e Diana acelerou o passo.
À medida que nos embrenhávamos pelo labirinto de ruelas, nos afastando do palácio, a cidade começou a ganhar vida.
Executivos com terninhos engomados conversavam aliviados enquanto saíam das empresas — talvez indo para um pub para relaxar. Garotas um pouco mais velhas que Diana e eu caminhavam juntas, todas arrumadas e rindo alto; uma delas tinha a pele laranja de bronzeamento artificial, e outra usava um salto impossivelmente alto. Tivemos que desacelerar para desviar dos grupos e continuar a fuga, às vezes pulando do meio-fio para a beira da rua.
Eu estava quase sem fôlego quando avistei a torre do Big Ben e, pouco tempo depois, o rio Tâmisa, largo e reluzente, como naquele domingo em que vim com meu pai. Respirava com dificuldade e sentia as pernas doloridas; não praticava atividade física desde o começo do ano. Tinha perdido todo o meu condicionamento.
Quando chegamos à Westminster Bridge, Diana desacelerou até que voltássemos a um passo calmo e ritmado. Estávamos longe o suficiente. Ela soltou minha mão, e meu coração se comprimiu em uma bolinha minúscula. Mas ainda não tínhamos parado de andar, então fiquei calada.
Olhei para Diana de esguelha e percebi que ela me observava com a testa franzida, os olhos semicerrados. Gotas de suor escorriam por suas têmporas, molhando os fios que tinham se desprendido do coque perfeito e emolduravam seu rosto.
O peito dela subia e descia rápido, com esforço.
Eu me senti acuada sob seu olhar e desviei o rosto. Será que ela estava com raiva de mim?
Passamos pela London Eye lotada, a fila se estendendo tanto que eu perdia o final de vista. Seguimos na direção de uma ponte ladeada por estruturas brancas em formato de pirâmide. O trem passou por cima da nossa cabeça quando cruzamos a Hungerford Bridge.
O céu já adquirira um tom mais pálido quando paramos. Diana se recostou à margem do Tâmisa, apoiando o cotovelo na grade que dividia a calçada da água turva lá embaixo. Ao nosso redor, algumas pessoas caminhavam, passeando ou se exercitando
sob a brisa que vinha do rio, e outras aproveitavam os últimos resquícios de sol, deitadas em bancos de cimento. A movimentação maior ficara para trás, junto com os pontos turísticos mais famosos da cidade.
Ninguém prestava atenção em nós.
Eu olhei para ela.
— Desculpa — pedi, antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
Diana me encarou, intrigada.
— Que diabos você tá fazendo aqui?
Me encolhi com seu tom irritado.
— Não pode ter sido só uma coincidência. De novo.
— Eu ouvi você conversando com sua mãe — confessei, também em inglês, em respeito. Ou talvez porque fosse mais fácil dizer a verdade em outra língua. — Sobre vir ao… — olhei ao redor e baixei a voz — … palácio. — Pigarreei, me empertigando. — Eu não deveria ter vindo, eu sei. Foi totalmente invasivo da minha parte. Mas… você não pode me culpar por estar curiosa depois daquela conversa. Lembra como a gente se conheceu? O que você queria que eu fizesse?
— Eu queria que você confiasse em mim! Você podia ter conversado comigo, me dito que estava preocupada que eu fosse uma criminosa ou sei lá o quê.
— E você iria me contar?
— Talvez não. Provavelmente não. — Ela assentiu, muito certa do que dizia. — Mas é isso, então? Já que eu não ia contar, você resolveu bisbilhotar? Você está sempre falando sobre como é difícil viver com a família do seu pai, que ninguém respeita sua privacidade. Mas, uau, olha aqui você fazendo o mesmo! — Ela riu sem achar graça, o deboche escorrendo por suas palavras.
Quando virou as costas, eu entrei em pânico.
Diana estava certa. Claro que estava. No momento em que ela olhara para mim com aqueles olhos verdes assustados, depois de fugir do palácio, eu soube exatamente quão errada estava. E
tinha plena consciência do que estava fazendo: eu estava me sabotando. Tudo ia tão bem que eu comecei a meter os pés pelas mãos.
Desesperada, segurei o braço dela, impedindo-a de ir embora.
— Desculpa. — Eu a soltei e uni as mãos em súplica, sem nunca desviar o olhar. — Desculpa, desculpa, desculpa. Eu fiz besteira, sei que fiz. Fiquei com medo, porque você começou a se afastar e eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo na sua vida e, sei lá… Eu só surtei.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Diana deslizou os dedos pelos fios ruivos, refletindo sobre o que fazer, antes de vir até mim, segurar minha mão e me puxar até um banco vazio à margem do rio. Mas ela não sentou. Ficou andando de um lado para o outro, penteando os cabelos com a mão, a expressão conturbada. Meu coração apertou. Quando passou na minha frente de novo, segurei sua mão.
— Desculpa — insisti. — Desculpa mesmo. Eu não preciso saber. Eu confio em você. — Estava sendo sincera. — Só quero que você confie em mim também. Não precisa me contar seu segredo. Só não some se as coisas ficarem ruins. Vai ser muito difícil eu não pensar merda se você se afastar toda vez.
Diana ficou me encarando com os olhos marejados, refletindo sobre minhas palavras. Então suspirou e sentou ao meu lado, sem soltar minha mão. Abriu um sorriso triste e observou nossos dedos entrelaçados. Ficou em silêncio por tanto tempo que achei que não fosse dizer nada.
Até que ela começou, em inglês: — Você me disse que seu pai te abandonou quando você tinha seis anos. Eu me identifiquei um pouco com a sua história, porque nunca nem conheci o meu.
— Ela apertou nossas mãos, como se estivesse tomando coragem para falar. — Minha mãe contava que ele tinha morrido num acidente de carro, mas à medida que fui crescendo a história começou a me parecer muito estranha, sabe? Ela não tinha nenhuma foto com ele, nada para me mostrar. — Sua voz adquiriu um leve tom de frustração. — Tentei procurar por ele algumas vezes, notícias, nota de óbito, qualquer coisa assim, mas nunca encontrei nada.
Uma brisa mais forte soprou do rio, jogando os cabelos no meu rosto, e tive que soltar nossas mãos para puxar um elástico do pulso e fazer um rabo de cavalo. Os fios ao redor do rosto de
Diana ainda estavam úmidos de suor, por causa da corrida. Ela ajeitou uma das mechas que tinha voado para os olhos, e eu voltei a segurar sua mão. Se pudesse, não soltaria nunca mais.
Ela não recuou.
— A gente morava em Brighton e minha mãe raramente me trazia a Londres. Às vezes eu sentia que estávamos fugindo… —
Ela hesitou, a voz embargada ao lembrar de alguma coisa.
— Mas vocês vieram pra cá, afinal — falei, incentivando-a a continuar.
Diana assentiu.
— Sim, mudamos tem dois anos. Minha mãe trabalhava na Grocery Sugary de lá. Na época ela já era subgerente e rolou um processo seletivo interno pra vaga de Londres. Não sei por que decidiu vir de repente, depois de tanto tempo longe, mas ela conseguiu a vaga e nos mudamos. Talvez fosse justamente porque havia se passado tempo o suficiente…
— Pra quê? — perguntei, curiosa.
E o que a família real tem a ver com tudo isso? Não fiz a pergunta em voz alta. Eu ia respeitar quanto Diana quisesse me contar. Minha moral não estava lá essas coisas.
Diana olhou para mim.
— Para tudo ser esquecido. — Ela hesitou por um tempo, como se analisando se deveria continuar, então disse: — No dia que a gente se conheceu, eu estava fugindo porque tinha acabado de descobrir não só que meu pai está vivo…