Romance Real

Clara Alves · Capítulo 9 de 38

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Romance Real

Capítulo 8

— Só porque você não me viu com ninguém não quer dizer que não estive com ninguém. — Minha mãe arqueou as sobrancelhas sugestivamente e as primas abafaram uma nova onda de risadas.

— Eu não estou falando dessas safadezas que vocês fazem hoje em dia. Tô falando de um companheiro pra ficar com você, te ajudar a criar a Dayana, dar um irmãozinho a ela.

Minha mãe quase cuspiu a cerveja.

— Mãe! Deus me livre ter outro filho nessa idade.

Minha vó a ignorou.

— Eu aposto que a Day adoraria ter um irmão ou uma irmãzinha, não é, Day?

Todos os olhares se voltaram para mim. Encolhi os ombros, me sentindo pressionada.

— Ah. Uma irmã seria legal, eu acho. Mas só se ela fosse da minha idade. Eu não aguentaria um bebê chorão no meu ouvido, não.

Foi a vez da minha vó revirar os olhos, traída.

— Talvez a gente possa arranjar uma máquina do tempo pra eu te dar uma irmã, Day.

— Mãe, pelo amor de Deus, se a gente tivesse uma máquina do tempo teríamos muitas coisas melhores pra fazer do que te arranjar mais dor de cabeça. Já basta eu.

A casa explodiu em risos, e nem minha vó se segurou, resignada. Minha mãe piscou para mim, cheia de cumplicidade.

8

Maybe it’s the way she walked Straight into my heart and stole it Through the doors and past the guards Just like she already owned it “Best song ever”

Grocery store.

Segundo o Google, significava mercearia, mercadinho.

Adicionei o termo novo ao meu vocabulário enquanto encarava a loja à minha frente. A arquitetura era simples, o primeiro andar tinha uma vitrine toda de vidro, que me permitia ver a loja pequena e com detalhes em azul. Parecia ter saído diretamente de um dos filmes ambientados no interior da Inglaterra que eu adorava ver. O segundo andar era de tijolinhos brancos, com janelas altas entrecortando a fronte, persianas escondendo o que tinha lá dentro.

Mais cedo, eu havia recebido uma mensagem de Diana com a localização da mercearia me pedindo para encontrá-la ali. Era o endereço de uma ruazinha residencial ao sul de Londres, abaixo do Tâmisa, pelo que vira no GPS depois de sair do metrô.

Diana dissera que finalmente ia me apresentar à mãe —

imaginei que significasse que elas haviam feito as pazes, ou pelo menos dado uma trégua. Então escolhi a roupa mais formal que trouxera na mala, mas não tinha certeza de que era o suficiente: apenas um mom jeans, uma blusa preta de meia manga e um coturno também preto. Ao arrumar a mala, nem havia passado pela minha cabeça ir a uma entrevista de emprego. Mas, quanto mais eu pensava na ideia, mais me parecia certa. Trabalhar me ajudaria a depender menos de Roberto e me daria liberdade, uma chance de sair daquela casa o quanto antes e ainda um tempo longe de Lauren. Era perfeito.

Pigarreei, alisando a roupa e mudando para o modo profissional. Desliguei a playlist da One Direction que viera ouvindo o caminho inteiro para me acalmar, guardei os fones na bolsa e entrei. Assim que cruzei a porta, hesitei, olhando ao redor à procura de Diana. À esquerda, havia três caixas administrados por mulheres, à espera de clientes. À direita, caixas de autoatendimento ocupavam o restante da extensão.

— Posso ajudá-la? — uma das caixas mais próximas perguntou em inglês, com uma voz bondosa apesar da expressão cansada ao me ver com o olhar perdido.

— Oi — cumprimentei também em inglês, tímida. — Estou procurando a Diana.

O sotaque da mulher era tão forte que não entendi um “a” da resposta. Mas ela apontou para um corredor mais à direita, que dava para o que parecia uma área administrativa, então só agradeci e fui para lá.

Eu estava nervosa; nunca tinha trabalhado antes — a não ser que ajudar minha mãe a preparar as marmitas contasse como trabalho — e, apesar de Rose ser brasileira, o que me tranquilizava um pouco, não fazia ideia do tipo de perguntas que ela poderia fazer. E se eu fosse um fiasco, e ela preferisse alguém mais experiente? Além disso, por mais que meu inglês fosse razoável, não estava sendo fácil decifrar o sotaque britânico. E trabalhar numa mercearia implicaria lidar diretamente com o público, certo?

Quando virei à direita, me embrenhando ainda mais na área administrativa, cheia de salas separadas por paredes divisórias com janelas de acrílico, trombei com alguém e, na pressa de me afastar, tropecei no meu próprio pé e comecei a cair. A mão da pessoa me segurou pelo braço, me impedindo de me estabacar, e quando virei o rosto dei de cara com Diana e aquele sorriso maravilhoso.

Por um segundo meu olhar parou nas sardas em formato de constelação acima do seu lábio. Meu Deus, como ela era linda…

E que mico eu tinha acabado de pagar!

Com o rosto queimando, eu me empertiguei.

— Oi. Hi — cumprimentei, desconcertada.

Me virei completamente para ela, cruzando as mãos às costas para tentar parecer confiante. Sua presença me deixava ainda mais nervosa. Talvez fosse porque ela tinha uma beleza magnética, que não me permitia desviar o olhar.

— Oi — Diana repetiu, em português, de um jeito que me fez querer abraçá-la. — Tá pronta pra conhecer minha mãe?

— Tô achando tudo um pouco rápido demais. A gente só saiu uma vez, sabe…

Ela deu uma gargalhada.

— Com isso não precisa se preocupar, já tenho planos para o nosso próximo date — completou com uma piscadela.

Por um segundo, meu coração acelerou demais. Com date ela quis mesmo dizer encontro, do jeito que a gente falava lá no Brasil, ou eu tinha entendido errado? Por que ela foi falar logo aquela parte em inglês?

Eu ainda não tinha pensado de verdade para onde nossa relação estava indo. Não tinha experiência em flertar com garotas, não sabia em que momento deveríamos perguntar: então você gosta de meninas ou só estamos saindo como amigas? Eu tinha me entendido como bissexual fazia pouco tempo, e quase todos os meus interesses amorosos até então foram platônicos. Quando Emi me contava suas histórias com garotas, tudo sempre parecia tão fácil. Eu achava que a gente simplesmente soubesse.

Mas não era bem assim que funcionava.

— Vamos? — perguntou Diana, me tirando do devaneio, e percebi que eu tinha ficado para trás.

Deixei as dúvidas de lado e corri para alcançá-la.

— Você e sua mãe fizeram as pazes? — perguntei, tentando quebrar o silêncio constrangedor.

Ela deu um sorriso resignado.

— Não exatamente, mas… estamos evitando falar do assunto proibido por enquanto.

A curiosidade provocou uma coceirinha em meu peito. Será que o assunto proibido tinha a ver com a fuga dela do palácio de Buckingham? Será que a mãe havia descoberto que ela tinha aprontado e a briga tinha sido por isso?

Mas parte de mim também ficou feliz em ouvir aquilo: ela tinha enfrentado o desentendimento com a mãe para me ajudar. Meu peito inflou de uma alegria desmedida. Tive que morder o lábio para conter o sorriso.

— Mas o que importa hoje é você — ela disse, parando em frente a uma porta bege, como as outras, mas com uma placa que dizia Manager. Gerente. — Good luck — desejou, baixinho, antes de bater.

A mãe de Diana pediu que entrássemos, a voz calma, mas forte e confiante. A porta se abriu, revelando uma escrivaninha cheia de papelada, atrás da qual uma mulher estava sentada, com cabelos pretos amarrados num coquinho baixo. Ao nos ver, ela tirou os óculos de aro redondo, levantou e contornou a mesa.

Era alta e esbelta, tinha quadril largo e vestia um daqueles looks formais despojados, que só ficavam bem em algumas pessoas.

— Mãe, essa é a Dayana — Diana me apresentou em inglês, a mão aberta com a palma para cima apontada para mim. Ela foi cordial, mas dava para ver que havia certo distanciamento no tom. — Dayana, essa é a minha mãe, Rosane, gerente da Grocery Sugary.

Rose esticou a mão fina de dedos longos para me cumprimentar. Eu me aprumei ainda mais e a apertei.

— Nice to meet you — falei, odiando o sotaque que saiu.

Ela abriu um sorriso simpático, e os olhos se contraíram numa linha fina, quase como se estivessem fechados, enrugando nas pontas.

Rose não parecia muito com a filha. Diana tinha a pele bem mais clara, era um pouco mais alta e seu porte era menos esguio, mais sólido. Enquanto a filha tinha olhos verdes, a mãe me observava com íris castanho-escuras. A primeira tinha um nariz mais arrebitado, a ponta sobressalente; a segunda, um nariz mais reto e alongado.

Mas os olhos de ambas tinham o mesmo desenho, erguidos na ponta, como um delineado natural. Também tinham ombros largos e retos, que deixavam a postura naturalmente elegante. E

o sorriso. Rose tinha a mesma arcada superior elevada, com os dentes frontais grandes, e o formato dos lábios era praticamente

idêntico. O sorriso dela transmitia a mesma bondade e sinceridade que eu via no de Diana.

— Pode me chamar de Rose — respondeu em português, soltando minha mão e me conduzindo até a cadeira à frente da mesa. — A Diana disse que você é brasileira.

— Espero você ali fora — sussurrou Diana atrás de mim, antes de sair da sala.

Olhei por cima do ombro, vendo-a sair pela sala, antes de me sentar.

— Que legal encontrar uma conterrânea aqui — continuou Rose, se acomodando de frente para mim. — Eu nasci no Brasil, mas vim pra Inglaterra um pouco mais nova que você, então não conheço muitos brasileiros. Mesmo assim é tão bom encontrar gente da nossa terra, né? Dá uma sensação de conforto.

— Foi exatamente o que senti quando soube que a Diana falava português — comentei com um sorriso, lembrando da alegria que me inundara ao ouvir minha língua materna naquela cidade nova. — Cheguei a Londres tem uma semana, então ainda tô tentando me adaptar a tudo.

— A Diana disse que você veio morar com seu pai?

Eu me remexi, desconfortável, e assenti.

— E ele mora aqui há muito tempo?

— Dez anos.

— Entendi. — Ela acenou com a cabeça e cruzou as pernas, sem se estender no assunto. Percebi que tinha deixado as amenidades de lado e entrado no modo entrevista de emprego.

— E você tem quantos anos?

— Dezessete.

— E por que está procurando trabalho, Dayana?

Desviei o olhar daquele rosto carismático dela e encarei o chão enquanto respirava fundo. Falar da minha vida pessoal era sempre muito difícil, mas, se eu quisesse aquele emprego, precisava demonstrar a Rose o quão disposta estava a conquistá-lo.

— Tive que vir morar com o meu pai depois que minha mãe morreu — um bolo subiu pela minha garganta, mas me forcei a engolir em seco e continuar —, e só posso entrar na escola em

setembro, no começo do ano letivo. Então, achei que seria bom arrumar um trabalho que me ajudasse a praticar inglês e, ao mesmo tempo, me permitisse juntar um dinheiro para não sobrecarregar meu pai.

Não pegaria bem dizer que queria juntar uma grana para fugir da minha madrasta o mais rápido possível, então tentei seguir com uma parte da verdade.

— Entendo bem como é. Depender dos pais quando a gente convive é uma coisa, né? Mas quando a pessoa é mais distante causa mesmo um estranhamento. Eu passei a sentir isso depois que fui morar sozinha. Evitava sempre pedir dinheiro pros meus pais. Não parecia certo…

Ela deu uma risadinha, e eu a acompanhei. Rose tinha um sotaque fofo, em muito impregnado com o britânico, mas eu suspeitava que fosse do Nordeste pelo jeito cantado de emendar as frases. Ela falava devagar, como se não usasse o português havia muito tempo e estivesse tentando se acostumar novamente. Ainda assim, era uma mulher com muita desenvoltura. Tinha presença, sem precisar se exaltar.

Demonstrava força, sem precisar ser rígida. Sabia como prender minha atenção com o jeito de falar, com aquele sorriso fácil e um tom bondoso, como uma mãe falaria com um filho obediente.

Talvez Lauren devesse aprender um pouco com ela.

Seus olhos grandes pareciam enxergar no fundo da alma. A tez bronzeada, um pouco mais clara que a minha, parecia brilhar.

Seu rosto era bem delineado, elegante.

Por fim, depois do que pareceu uma eternidade, Rose entrelaçou os dedos e pousou as mãos no colo.

— Não sei se a Diana te explicou alguma coisa, mas a nossa estoquista vai começar um curso de verão agora e, até setembro, não poderá vir no turno da tarde. É um pouco complicado para a gente contratar outra pessoa para poucas horas de trabalho, por isso a Diana achou que seria legal te colocar no lugar de Lily até ela voltar. É um trabalho bem manual, de ficar tabelando os produtos e contabilizando o estoque, e vamos te ensinar a usar todos os equipamentos, mas é preciso ter bastante concentração e agilidade ao mesmo tempo. Pagamos por hora aqui. São

quatro libras e vinte centavos por hora para menores de dezoito.

O que você acha? Te interessa?

Eu pisquei, atordoada com o tanto de informação e mais ainda porque… ela já estava me contratando? Era isso mesmo?

— Claro, parece ótimo! — Minha voz atingiu um tom mais agudo do que o normal, tamanha minha empolgação, mas Rose não pareceu se importar. Pelo contrário.

— Ficou surpresa? — perguntou, divertida.

— Um pouquinho — admiti, encolhendo os ombros.

Rose deu uma risadinha.

— Eu sei bem as dificuldades que a gente enfrenta morando num país estrangeiro. Mesmo vivendo aqui desde o fundamental e tendo passaporte europeu, não foi fácil encontrar quem me desse oportunidade. E tudo porque eu era brasileira. Fico feliz em poder oferecer isso para outros imigrantes hoje em dia.

Ela abriu um sorriso cheio de empatia, e me vi totalmente apaixonada pela mulher incrível que Rose era. Tal mãe, tal filha, afinal.

Ela deu um tapinha na própria coxa, meio que encerrando o assunto, e começou a levantar.

— O que você acha de vir aqui na segunda de manhã para conhecer a Lily, então? Semana que vem ela ainda vai estar full-time, mas você já traz seus documentos pra gente acertar tudo, e ela vai começando o treinamento e a te passar as coisas aos poucos.

— Seria perfeito! — respondi, animada, levantando também.

Rose riu.

— Se você trabalhar com essa empolgação, tenho certeza de que logo vai ser uma ótima estoquista. Lily que fique de olho aberto — disse com uma piscadela.

Quando saímos, Diana estava sentada no banco bem em frente à porta, mexendo no celular. Abriu um sorrisinho só para mim, sem jamais encarar a mãe, e veio para o meu lado enquanto Rose me levava para a frente da loja.

— Tentei convencer Diana a trabalhar aqui, mas ela disse que seria nepotismo — Rose comentou, rindo ao olhar para a filha.

Não parecia haver mágoa ou raiva em seu tom; pelo contrário.

Ela soava maternal, daquele jeito que mães fazem quando estão tentando se reconciliar com os filhos.

Diana permaneceu calada.

Quando chegamos à loja, Rose me apresentou a alguns funcionários enquanto me contava sua história: era gerente fazia dois anos. Tinha começado como faxineira e foi subindo na empresa conforme mostrava seu potencial para ser uma boa líder, apesar de todas as dificuldades que enfrentara como estrangeira. A história inspiradora me animou. Eu ainda não sabia exatamente o que queria fazer quando saísse da escola, mas precisaria pensar no assunto em breve. E ver que Rose também viveu suas incertezas me fazia acreditar que eu poderia encontrar algo de que gostasse também, ainda que demorasse.

Quem sabe a Grocery Sugary não fosse minha luz no fim do túnel?

Meus olhos brilhavam de alegria quando saí da mercearia, meia hora depois, ao lado de Diana. Fui atingida por uma onda de calor, e o sol, que ainda não tinha aparecido antes de eu entrar na loja, brilhava forte no céu. Arregacei a manga o máximo que consegui, o corpo esquentando sob a blusa preta.

Mas nem o calor estragaria minha empolgação. Meu Deus, eu nem podia acreditar que tinha conseguido um trabalho de verdade! Eu poderia sair dançando a noite inteira, ouvindo a melhor música do mundo. Oh, oh, oh-oh. Dava até para ouvir os acordes de “Best song ever” na minha cabeça e meu corpo implorava para seguir o ritmo.

— Você parece feliz — Diana comentou, me espiando com um sorriso.

Sob a claridade vespertina, sua pele parecia ainda mais branca, os cabelos ruivos reluzindo e esvoaçando com a brisa quente.

Um cheiro suave de erva-doce me invadia.

Caminhávamos lado a lado pela calçada, e talvez eu estivesse saltitando um pouco. Aquela felicidade me deu um novo

propósito de vida. Eu estava determinada a ser uma pessoa diferente. Determinada a dominar o inglês, mostrar meu potencial, juntar dinheiro e…

Bom, eu não sabia o que faria depois. Mas, por enquanto, bastava.

— Estou. Muito. — Retribuí o sorriso. — Só tem uma coisa que me faria mais feliz nesse momento: a One Direction anunciar um comeback.

— Ahh, temos uma directioner iludida aqui.

Mostrei a língua para ela.

— Iludida é meu cu. Guarde minhas palavras: a One Direction vai voltar.

Diana soltou uma gargalhada. Eu sentia que ela não entendia metade dos meus xingamentos, e parte da graça era essa. Até porque palavrão é mais uma coisa de feeling: dependendo da entonação, a gente nem precisa traduzir para entender.

— Acho que eu andava me sentindo um pouco sem rumo desde que cheguei, sabe? — retomei o assunto, enfiando as mãos no bolso. — Com toda essa coisa de mudança, vir morar com meu pai depois de dez anos e o caralho a quatro. Tudo isso tava mexendo muito comigo.

Me calei de repente, sentindo que tinha falado demais. Olhei para o lado e a expressão de Diana era confusa, mas também encantada. Mordi o lábio e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. Era estranho como eu me sentia à vontade com Diana, como se derrubasse completamente minhas barreiras quando estava com ela. Às vezes precisava me refrear para não contar tudo.

— Falando em rumo, aonde estamos indo?

Ela apontou uma cafeteria meio rústica logo na esquina.

— Eu falei que já tinha planos.

Com uma risadinha, Diana segurou minha mão e me puxou para o estabelecimento até uma mesa próxima ao janelão de vidro.

— Eu queria te apresentar um café bem londrino, nada dessas coisas de turista que nem Starbucks. — Ela pegou o cardápio e olhou a lista. — Esse lugar é um dos meus achados preferidos.

Venho tanto aqui que acabei descobrindo que posso fazer umas combinações bacanas, tipo…

Dessa vez foi ela que começou a tagarelar na língua nativa, e acabei me perdendo com as opções de bebida da cafeteria. Em vez de interrompê-la, porém, me recostei na cadeira e fiquei observando. Ela estava concentrada no cardápio e os dedos longos e brancos passeavam pelas páginas com rapidez. Uma tatuagem cobria seu punho direito, como uma munhequeira estampada com flores. Meu olhar subiu para o rosto dela. Diana não fazia exatamente meu tipo. Ela era magra e branca demais para o meu gosto. Mas havia alguma coisa nela… Alguma coisa a fazia se destacar. Um charme inegável.

Diana olhou para mim subitamente e arqueou a sobrancelha enquanto me entregava o cardápio. Senti minhas bochechas queimarem por ter sido pega no flagra de novo, como tinha acontecido em Camden Town.

— O que acha? — perguntou, e fiquei constrangida por não fazer ideia do que responder.

— Escolhe o que você acha que eu vou gostar mais — sugeri, me safando do problema.

Ela riu, e eu não sabia se foi porque tinha percebido que não prestei atenção em nada do que ela disse, ou se só estava mesmo entretida.

Diana chamou o garçom, um jovem um pouco mais velho do que a gente, todo tatuado, e fez o nosso pedido enquanto eu encarava os dois como se fosse uma ignorante. Quando dois ingleses conversavam, tudo ficava ainda mais difícil de entender.

Depois que o cara saiu, ela cruzou as mãos na mesa e se inclinou na minha direção.

— Por que você estava me olhando daquele jeito?

Se nossas bebidas já tivessem chegado, eu teria me engasgado com a pergunta direta.

— De que jeito? — tentei disfarçar.

— Como se você quisesse desvendar meus segredos mais sombrios?

Arregalei os olhos, boquiaberta.

— Eita, eu não estava te olhando assim!

Diana começou a rir da minha reação, se recostando na cadeira, e eu tentei me recompor.

Bem, pode ser que estivesse, sim. Um pouco.

— Eu só tava curiosa. — Escolhi ser sincera. — A gente não se conheceu de um jeito muito normal, né? Tem uma porrada de coisa que eu não sei sobre você.

Ela me encarou, pensativa.

—Talvez um dia eu te conte. Who knows? Seria um grande voto de confiança. Como vocês dizem? Você vai ter que fazer por merecer.

Mordi o lábio, tentando conter o sorriso, e desviei o olhar para a rua tranquila.

— Muito obrigada por ter me ajudado hoje. De verdade. —

Voltei a olhar para ela, notando que sua expressão tinha se suavizado. Ela me analisava com afabilidade. — E agradeça à sua mãe também. Quando vocês estiverem bem — acrescentei, erguendo a sobrancelha.

Ela deixou escapar uma espécie de bufada pelo nariz.

— É, deu para notar, né? — Diana ficou me olhando. Senti que estava avaliando se eu era digna de confiança. Pareceu ter decidido que sim, pois emendou: — A gente está tendo certo…

disagreement. Descobri que ela mentiu sobre uma coisa importante e acho que ainda não estou pronta para perdoá-la.

Foi sua vez de olhar pela janela. Dava para ver em cada traço do seu rosto o quanto o assunto era doloroso para ela. Uma onda de gratidão me inundou por vê-la confiando em mim. Decidi retribuir a sinceridade.

— Eu entendo totalmente — falei, tentando confortá-la. — Meu pai é uma decepção para mim: me abandonou há dez anos. É

por isso que a mudança tem sido tão ruim. Fui obrigada a vir morar com um homem que é praticamente um estranho pra mim depois da… — respirei fundo; até quando falar daquilo me traria tanta dor?

— … morte da minha mãe. Ele é um estrume que nunca fez nada pela gente, e todo mundo fica agindo como se eu fosse a pior pessoa do mundo por não estar feliz pela oportunidade de vir para Londres e de ter um pai. Mas eu vivi muito bem sem ele até agora.

Senti que minha voz foi ficando exaltada à medida que eu falava e parei para respirar. Aquele assunto ainda me deixava puta da vida.

— Família… — foi tudo o que Diana disse.

Ela tinha consciência de que nenhuma palavra no mundo amenizaria a dor que sentíamos.

Nos encaramos com um sorriso de cumplicidade no rosto. Era como se tivéssemos acabado de compartilhar um segredo que apenas nós duas sabíamos. Como se estivéssemos criando mais um laço.

Naquele momento, o garçom chegou carregando uma bandeja com uma fatia de torta e nossas bebidas. As taças eram de vidro duplo, com um fundo mais arredondado que ia se afunilando no topo. Uma delas tinha uma bebida rosa e aguada, cheia de gelo, que o garçom colocou à frente de Diana. A minha era uma espécie de frappuccino verde com bastante chantilly em cima.

Diana agradeceu ao garçom, sem tirar os olhos de mim.

— Cheers — ela disse, erguendo a taça, como se quisesse brindar.

Eu bati a minha na dela.

— Cheers — repeti, estudando a palavra na boca, e Diana assentiu em aprovação.

A bebida tinha sabor de matchá e me deu uma sensação gostosa.

Ou talvez fosse o sorriso de Diana, que parecia ter a capacidade de mexer com todas as minhas terminações nervosas.