Romance Real
Capítulo 14
— Eu mesmo nunca fui, mas tenho muita vontade — contou, dando uma mordida no sanduíche. — Dizem que o melhor horário é no pôr do sol. Talvez quando o verão acabar fique mais
fácil de vir. — Ele tomou um gole do suco. — Mas você vai ver que a vista daqui não deixa a desejar.
Ele estava certo.
Era um domingo ensolarado — fazia mais sol em Londres do que eu imaginara, apesar do vento constante — e os raios refletiam nas águas escuras do Tâmisa emitindo um brilho estonteante. As construções à beira-rio eram todas baixas, quase da mesma altura, permitindo que o céu azul sem nuvens nos envolvesse como uma abóbada gigante. Roberto se ofereceu para tirar fotos minhas e eu posei, sem graça, em meio à incrível paisagem londrina.
Em seguida, mandei as fotos para Diana. Ela respondeu pouco tempo depois.
Londres nunca foi tão bonita Voltei a me sentir nas nuvens.
Quando o sol começou a baixar, se escondendo por entre as construções, me apoiei na mureta para admirar a cidade, embasbacada com toda a beleza.
Um sentimento aterrorizante tomou conta dos meus pensamentos por um milésimo de segundo.
Eu me senti em casa.
14
Just one touch and I was a believer Every kiss, it gets a little sweeter It’s getting better, keeps getting better all the time, girl
“They don’t know about us”
Depois do passeio de domingo, dei uma trégua para o meu pai. A raiva que parecia viver constantemente dentro de mim já não dava mais as caras com tanta frequência, e eu achei que poderia me permitir pelo menos uma semana de paz.
Além disso, minha primeira semana oficial na mercearia foi suficientemente exaustiva. O trabalho em si era bem automático, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Tive que fazer todas as tarefas com a atenção redobrada, tentando não cometer nenhum erro, e provavelmente levava muito mais tempo do que Lily.
Sabia que era normal para quem estava começando, e a própria Lily me dissera para não ficar nervosa e respeitar meu tempo de aprendizado. Também tinha deixado seu telefone, caso eu precisasse tirar alguma dúvida. Ainda assim, eu estava nervosa. Queria conseguir. Queria mostrar que era capaz.
Por isso, quando a semana terminou, meu corpo estava moído.
Minha intenção era dormir o sábado inteiro (e talvez o domingo também), mas na sexta à noite Diana me mandou uma mensagem.
Como está minha pequena trabalhadora?
Meu corpo todo formigou só por ela ter dito minha. Eu era uma trouxa emocionada.
exausta moída destruída Isso significa que você não está disposta a um passeio amanhã?
Meu corpo inteiro dizia: isso mesmo, vou passar o fim de semana inteiro largada na cama. Mas meus dedos responderam: pra você eu tô sempre disposta No dia seguinte, de manhã cedo, lá estava eu, indo encontrar Diana. Ela me esperava nas catracas da estação perto da casa de Roberto, e abriu um de seus sorrisos maravilhosos assim que me viu. Eu me derreti todinha quando nossas mãos se entrelaçaram.
— Morning — ela desejou, já me guiando em direção ao subsolo. — Você está com cara de quem não queria ter levantado da cama.
— Dá pra perceber? — Apoiei a cabeça no seu ombro enquanto descíamos as escadas rolantes, fechando os olhos por um segundo. — Eu tô acabada. Me acorda quando a gente chegar.
— Ei! — Ela deu tapinhas gentis no meu rosto, fingindo me acordar. — Você disse que estava sempre disposta pra mim!
Eu me endireitei, abrindo o maior sorriso que consegui.
— Eu tô ótima. Sem sono nenhum.
Dava para sentir a cara amassada e os olhos inchados me desmentindo.
— Se você quiser, a gente pode voltar, não tem problema —
ela disse, solidária. Mas havia algo em seu tom que me deixou alerta. — A nossa ida ao Princess Park Manor fica pra outro dia.
Arregalei os olhos.
— Quê? Princess Park?
Diana conteve um sorriso, mordendo o lábio inferior.
Princess Park foi onde os integrantes da One Direction moraram no começo da banda.
— É… Pensei que fosse gostar de ver o lugar onde seus queridinhos moraram. Depois, ia te levar numa sorveteria chamada Milkshake City.
Puta merda!
A sorveteria que a 1D frequentava! Tinha até um milk-shake em homenagem a eles!
Diana finalmente tinha toda a minha atenção. Virei completamente para ela e pulei empolgada quando chegamos ao fim da escada.
— Ai, meu Deus, ai, meu Deus! Eu não acredito! — exclamei, animada, e Diana gargalhou da minha reação. Segurei o rosto dela e a beijei ali mesmo, no meio do corredor do metrô. Ela deu um tapinha na minha mão, mas não parecia irritada. — Meu Deus, você é perfeita!
— É o que dizem — comentou, convencida, mas eu nem caí na pilha.
Estava surtando demais com a perspectiva de ir ao lugar mais icônico da história da One Direction.
Passei o trajeto inteiro contando para Diana minhas histórias com a banda. Fomos compartilhando o fone de ouvido, escutando minha playlist, enquanto eu falava sobre como tinha conhecido o grupo, o show que eles fizeram no Brasil e a emoção que sentira ao vê-los ao vivo. Eu ainda era criança na época, mas tinha sorte de ter uma mãe rendida por grupos britânicos que entendia exatamente meu surto para ver meus artistas favoritos. Eu, Emilly e Lara tínhamos ido ao show no Parque dos Atletas com a minha mãe, e definitivamente tinha sido um dos melhores dias da minha vida.
Meu peito se apertou ao pensar nas minhas melhores amigas.
Enquanto caminhava com Diana pelas ruas de Coppetts, admirando as casas pelo trajeto, me permiti pensar nelas pela primeira vez em muito tempo. Como será que estavam? As duas surtariam se soubessem onde eu estava.
— Por que você ficou com essa cara de repente? — Diana inclinou a cabeça, analisando meu rosto.
Impressionante como ela já conseguia decifrar minhas mudanças de humor.
Afastei os pensamentos e abri um sorriso para ela, recuperando a compostura.
— Estava me perguntando se ia demorar muito para acabar esse hiato.
Diana me empurrou, me fazendo cambalear para o lado. Nós duas rimos.
— Para de se iludir, Dayana!
— Você não deveria me apoiar e me dizer para acreditar nos meus sonhos? — perguntei, com uma falsa indignação.
— Eu sou mais do tipo realista.
Revirei os olhos.
— Você ainda vai pagar essa língua.
Ela franziu a testa.
— Isso é uma expressão brasileira? — perguntou, confusa.
Ela ficava tão fofa quando tentava entender meu português.
Uma ruga se formava na testa, e ela fazia um bico, destacando a constelação de sardinhas. As bochechas coradas pelo sol e pela caminhada pareciam me convidar a deslizar a mão pela pele branca e salpicada, traçar os pontos como se fossem um mapa a ser desvendado e…
… Merda, eu estava rendida por aquela garota.
Por todos os seus pequenos detalhes.
Sem nem responder, segurei seu rosto novamente, como tinha feito no metrô. Quando nossas bocas se tocaram, ela entreabriu os lábios. Me segurou pela cintura e me puxou, e escorreguei os dedos pela pele suada até emaranhá-los nos fios ruivos, com tamanha avidez que Diana riu contra minha boca.