Romance Real

Clara Alves · Capítulo 32 de 38

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Romance Real

Capítulo 31

NASCIMENTO E EDUCAÇÃO

Nasceu em Brighton, na costa sul da Inglaterra. Estudou na White Rose Primary and Middle School. Com dezesseis anos completos, começará o segundo ano do ensino médio em setembro.

31

I know your heart’s been broken But don’t you give up I’ll be there, yeah, I know it To fix you with love “Stand up”

Era estranho voltar voluntariamente.

Ao aterrissar no Heathrow, minha sensação era muito diferente da primeira vez. Uma mistura de medo e empolgação diante das novas possibilidades.

Roberto voltara mais cedo, porque precisava trabalhar. Ele tinha conseguido adiantar algumas folgas, mas não podia ficar mais do que três dias no Brasil. Afinal, precisaria trabalhar muito para compensar o rombo que eu tinha deixado em sua conta bancária. Passagens em cima da hora já não eram muito baratas, ainda por cima duas… Eu devia me sentir culpada, mas ele bem que merecia. Era o mínimo, depois de tantos anos sem me dar apoio financeiro.

Aproveitei que já estava no Brasil para matar a saudade das minhas amigas, dos meus avós e da minha cidade, e estendi a viagem até a semana seguinte. No fim de semana, meus avós fizeram um churrasco no play do prédio e prepararam todas as comidas que eu amava, chamaram todos os meus antigos amigos e eu me diverti tanto que quase desisti de ir para Londres. Enquanto caminhava pelo terminal do aeroporto, as lembranças do Brasil eram como uma lembrancinha de viagem guardada no coração.

Segui em direção à porta do desembarque, onde meu pai me aguardava de carro. No meio do caminho, porém, minha atenção foi atraída para a vitrine de uma livraria. Junto de várias capas noticiando o reencontro da One Direction, uma revista tinha a foto

de Diana. Meu coração acelerou por um segundo, e eu comprei a revista antes de encontrar Roberto.

A família real tinha enfim oficializado o anúncio: o mundo inteiro sabia quem era Diana Rose Lima, filha do príncipe Arthur, o duque de York.

A minha garota não era mais tão minha.

Lauren e Georgia me aguardavam na porta de casa, como naquele primeiro dia. Ruffles estava sentado aos pés delas, abanando o rabinho. Quando me viu, veio correndo na minha direção, latindo e pulando como se estivesse muito feliz em me ver.

— Oi, garoto! Que saudade eu senti de você. — Me agachei para coçar as orelhas e fazer carinho em Ruffles, enquanto ele pulava e me lambia.

— Sweetie, estou tão feliz que você voltou! — Lauren abriu os braços para mim quando levantei, e, surpreendendo a mim mesma, retribuí o abraço com intensidade. — Eu preparei um almoço especial pra você. — Ela se afastou e bateu palmas, empolgada. — Liguei para o seus grandparents, e eles me contaram que você ama lasanha de abobrinha!

Ela seguiu para o interior da casa e meu pai foi arrastando minha mala atrás dela.

Georgia e eu ficamos para trás.

— Oi — ela cumprimentou, parecendo envergonhada.

— Oi — retribuí, olhando para o chão. — Você tá melhor?

— Tô, sim. Parece que é fibro mesmo, ao que tudo indica.

— Putz, sério? E agora?

— Bom, o médico me passou um remédio pra lidar com as crises por enquanto, mas aparentemente o melhor tratamento é atividade física, tipo ioga, pilates e tal. E procurar um psiquiatra também.

— Caramba. Mas que bom que enfim descobriram o que é, né?

— Pois é.

Nós duas ficamos em silêncio.

— Georgia, eu… — comecei a dizer.

— Day… — ela disse ao mesmo tempo.

A gente se calou, rindo, sem graça.

Foi ela quem voltou a falar primeiro: — Eu queria conversar com você depois, pode ser?

— Claro, eu também queria falar com você.

Então, depois do jantar, Georgia veio até meu quarto, que estava exatamente como eu o deixara.

Assim que ela fechou a porta, deixou escapar um suspiro.

— Day, eu estou muito arrependida, muito mesmo — se adiantou em dizer, como se quisesse arrancar aquilo de dentro de si o mais rápido possível. Começou a andar de um lado para o outro, completamente afobada. — Quando eu soube que você vinha, fiquei muito abalada. Não por você, mas porque a sua presença me lembrava algo que eu não tinha. O meu próprio pai.

O Roberto sempre foi um padrasto incrível pra mim, mas você sabe que não é a mesma coisa. — Ela passou a mão pelos cachos. — Quando eu soube que você vinha e quando vi o Roberto todo animado e ansioso com a sua vinda, senti uma vontade absurda de procurar meu pai, de saber se ele se arrependia de ter me abandonado, sabe? Então fui atrás dele. A minha mãe nem sabe disso, e espero que nunca saiba. Mas eu fui. Fui, fiquei cara a cara com ele e perguntei se ele se arrependia. — Ela parou e olhou para mim. — E ele disse que não.

Dava para ver em seu olhar o quanto aquilo era dolorido para ela. Eu entendia melhor do que ninguém.

— Georgia…

O lábio dela tremeu.

— Ele disse que nunca quis ser pai, que pediu pra minha mãe me tirar, mas ela não quis. Então ele achou que seria melhor sumir da nossa vida do que ser um péssimo pai. O que, ok, é verdade. Mas ouvir aquilo dele… Ele dizer na minha cara que não queria que eu nascesse… Foi tão horrível.

Ela começou a chorar de repente, e as pernas cederam.

Sentada no chão, soluçou baixinho. Eu fui até ela e dei palmadinhas desajeitadas em suas costas.

— Foi depois disso que as dores começaram?

Ela assentiu. Ficou ali, chorando por algum tempo, antes de voltar a falar.

— O médico disse que as dores podem surgir devido a algum trauma ou emoção forte. Eu não falei nada, porque meus pais estavam lá, mas acho que ele pode ter imaginado que havia alguma coisa por trás, por isso pediu que eu procurasse um psiquiatra. — Ela respirou fundo, no meio de um soluço. — Eu tinha um rancinho de você desde antes. Ciúmes, talvez. E

quando você chegou, foi tão difícil pra mim te ver tratando seu pai daquele jeito. Você tinha um pai ali, que te queria, que te amava. E não dava valor. Mas não quero que você pense que eu estava sendo falsa, nem nada. Depois daquela nossa primeira briga, eu realmente passei a te entender melhor, a gostar de você. Nunca pensei em como seria ter uma irmã, mas, à medida que a gente se aproximava, eu fui me sentindo bem por ter você aqui.

“E tava tudo certo. Só que eu vi minha mãe sendo tão boa pra você, mesmo depois de todas as suas malcriações. Eu vi você conhecendo alguém, e depois essa garota descobrindo que era da bloody realeza. E nem era inveja o que eu sentia. Só parecia que você não dava valor pra nada disso, sabe? Então de repente me passou pela cabeça… que você precisava de um chacoalhão para finalmente enxergar as coisas boas que tinha ao seu redor.

As coisas que eu daria tudo para ter. Foi por isso que deixei a história da Diana vazar. Não foi premeditado, mas… Sabe aquela jornalista obcecada pela família real?”

Eu assenti, mesmo sendo uma pergunta retórica.

— Uma amiga minha é sobrinha dela. A Kate, que você conheceu lá no Tabernacle. E naquela manhã, quando você foi pro piquenique e eu fiquei discutindo com a minha mãe, resolvi desabafar com a Kate. E contei tudo. — Georgia levou a mão à testa. — No fundo, eu sabia onde ia dar. Mas quando vi já era tarde. A história já tinha vazado.

Racionalmente, eu me solidarizava com Georgia. Meu peito estava apertado só de pensar como ela devia ter se sentido mal

com as coisas que o pai dissera, em me ver chegar na casa dela, revoltada com o mundo.

Mas caramba.

Levantei, inquieta.

— Eu entendo o que você está dizendo, mas você nem parou pra pensar como eu deveria estar? Você ouviu seu pai dizer que nunca te quis, e isso é uma merda gigante, você deve ter ficado arrasada. Mas, apesar de o Roberto estar me recebendo tão bem agora, ele foi um desconhecido nos últimos dez anos da minha vida. Veio pra Inglaterra dizendo que ia nos dar uma vida melhor e simplesmente nos abandonou. Não apenas nos abandonou, mas se tornou o pai de outra família. Eu entendo que, pra você, ele tenha sido um pai incrível. Mas pra Dayana de seis anos foi como se ele tivesse dito que não queria saber dela também.

Como se ele tivesse desistido de ser meu pai.

— É verdade — Georgia disse, baixinho.

— E aí, eu perdi minha mãe. A mulher que foi meu exemplo, minha guerreira, que me criou sozinha por mais de dez anos. E

fui obrigada a vir morar com esse homem que me abandonou.

Você entende como eu estava confusa? E, bom, ainda estou. Só porque eu aceitei dar uma segunda chance pro Roberto não quer dizer que eu superei tudo. Ainda guardo muito mágoa dele, mas estou disposta a tentar. — Respirei fundo, e foi minha vez de andar de um lado para o outro, tentando lidar com toda aquela confusão dentro de mim. — Mas eu estava superando. Eu tinha conhecido alguém legal, estava começando a me abrir pra vocês, ver você como minha irmã. — Eu olhei para ela, que recomeçou a chorar. — E você estragou tudo.

— Eu sei! — ela disse mais alto. — Me perdoa, Day, por favor.

Sei que não posso desfazer o que fiz, mas só quero que você saiba que as coisas também estão confusas pra mim. Eu também só estou tentando lidar com um dia de cada vez.

Eu sentia como se minha cabeça fosse explodir. Tinha deixado todas as mágoas para trás no Brasil, tinha perdoado a mim mesma e queria fazer as pazes com as pessoas que sofreram com toda a minha confusão. Tinha me reconciliado com as minhas amigas, me aberto com meus avós, dado uma segunda