Romance Real

Clara Alves · Capítulo 2 de 38

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Romance Real

Capítulo 1

“Arthur tem andado muito estranho. Ele sai furtivamente do palácio, é flagrado em lugares incomuns para a família real, e na semana passada todos ouviram uma discussão exaltada entre ele e a duquesa”, revelou uma fonte próxima ao casal.

Sabemos que não são apenas os plebeus que sofrem com infidelidade. Pelo contrário: os relacionamentos reais são marcados por polêmicas, sendo a mais conhecida a traição do falecido rei Oliver à sua então esposa, rainha-mãe Daisy.

Mas a história do príncipe Arthur com Tanya Parekh tem sido vendida como um conto de fadas da vida real desde que assumiram o relacionamento. Será que as badaladas da meia-noite estão prestes a transformar nosso príncipe em um sapo?

1

And I’ll be gone, gone tonight The ground beneath my feet is open wide “Story of my life”

As turbinas do avião soaram mais agressivas no momento em que a luzinha se acendeu acima da minha cabeça. Tentei espiar pela janela, mas a persiana estava quase completamente abaixada e o passageiro ao lado, dormindo. Como alguém consegue dormir com o barulho e a tremedeira do avião servindo de lembrete constante de que estamos a quilômetros de altitude?

Era uma incógnita para mim.

Eu já tinha ouvido minha vó contar várias histórias de suas viagens de avião no século passado, e tudo sempre parecera glamoroso.

Não tinha nada de glamoroso em andar de avião.

A poltrona era apertada demais, e eu tinha passado boa parte do trajeto com a barriga quase esmagada pelo cinto de segurança curto até uma aeromoça perceber meu incômodo e me oferecer um extensor. Sério, por que não avisam para as pessoas gordas já no começo da viagem que existe um extensor?

Eu tinha escolhido a poltrona do corredor porque ficara com medo de atrapalhar as pessoas na hora de levantar — sou uma maria-mijona, era óbvio que ia acontecer. Só havia esquecido que, sentada na ponta, as pessoas me atrapalhariam. Além disso, o banheiro era minúsculo e eu mal conseguia me equilibrar meio agachada sobre a privada, tentando evitar que o xixi escorresse pela perna.

Quando as rodas tocaram o chão, fazendo o avião inteiro quicar, as malas dançarem no compartimento superior e meu

coração quase ir à boca, tudo em que eu conseguia pensar era chegar em casa e tomar um banho.

O problema era que eu não estava indo para casa. E não voltaria para casa por um bom tempo.

Me forcei a empurrar o pensamento para o Arquivo Mental de Coisas Em Que Não Posso Pensar Para Não Surtar e puxei minha mochila do bagageiro enquanto esperava a fila de passageiros no corredor começar a se mexer. Esperei sentada, óbvio, por mais que o dorminhoco da janela e a mulher entre nós

— que passara tanto tempo da viagem digitando no notebook que eu ainda conseguia ouvir o tec tec — já estivessem de pé, apoiados na poltrona da frente, como se qualquer segundo que economizassem fosse poupar dez anos de vida.

Eu deveria aproveitar o momento para tirar o celular do modo avião e avisar meus avós que tinha chegado bem. Eles deviam estar ansiosos, à espera de notícias. Mas nem tirei o aparelho da mochila. Ainda não conseguia falar com eles.

Quando a fila ao meu lado começou a andar, em vez de tentar me espremer por entre os passageiros, esperei até que o corredor ficasse livre para levantar. Podia sentir dois pares de olhos me fuzilando.

Eu mesma não estava com nenhuma pressa de sair do avião.

Por pior que as últimas doze horas tivessem sido, sabia que ainda eram muito melhores do que o que me aguardava lá fora.

Infelizmente, quando a fila diminuiu, não tive escolha a não ser seguir os últimos passageiros em direção à escada de alumínio que me levava à pista de pouso, onde teríamos que pegar um micro-ônibus. Naquele momento, enregelada pelo vento frio daquela cidade cinzenta mesmo no fim da primavera, fui tomada por uma constatação chocante.

Eu odiava Londres.

Nunca, em toda a minha vida, pensei que diria aquilo. Mas…

para tudo tem uma primeira vez, não é?

E, veja bem, sempre amei a Inglaterra e desde que me tornei fã da One Direction, conhecer o país virou o meu maior sonho (eu sei, sou um clichê ambulante — também amo tomar café na Starbucks e usar coque frouxo enquanto leio fanfics). Eu amava

o frio. Amava o fato de que a cidade tinha um café a cada esquina. Toda vez que pensava em ir para Londres, meu peito formigava de empolgação. E, mesmo que a One Direction estivesse num hiato interminável, eu ainda podia sonhar com um comeback emocionante sendo anunciado coincidentemente no período da minha visita, com um daqueles shows enormes em Wembley e, quem sabe, até um meet & greet. Se tivesse sorte, poderia esbarrar com Harry e Louis, meus preferidos do grupo, andando por aí!

Mas a cidade tinha passado a representar minha nova vida.

Tudo, desde os mínimos detalhes da minha rotina até as coisas mais importantes, tinha ficado para trás, no Brasil: meus amigos, minha escola, meus avós, minha mãe. Ou, mais precisamente, a memória da minha mãe. O sofá onde nos deitávamos para ver novela. O canto da mesa ao qual ela sempre se sentava para falar com os clientes e catalogar as encomendas. Sua cama, para onde tantas vezes fugi quando não conseguia dormir. Tudo o que me fazia lembrar dela… ficara para trás junto à vida que eu amava.

A pior de todas as coisas ruins na minha mudança para Londres, porém, era o homenzinho irritante que acenava para mim por trás das portas deslizantes do desembarque: Roberto, meu pai.

Apesar de fazer mais de dez anos que eu não o via, era impossível confundir. Roberto tinha os mesmos trejeitos exagerados que eu, nossos cabelos castanhos, encaracolados e grossos só diferiam na altura — os dele, mais curtos; os meus, no ombro —, e o sorriso que ele me dava era o mesmo que eu veria num espelho.

Não que eu sentisse vontade de sorrir naquele momento.

Ele não se importou com isso quando parei ao seu lado, empurrando o carrinho com as minhas malas.

— Uau, Dayana! Olha como você cresceu! — Roberto me segurou pelos ombros para me admirar. Como se o que eu me tornara fosse mérito seu. — Caramba, nem acredito que você tá aqui!!

Ele parecia tão empolgado que todas as suas frases terminavam assim! Cheias de pontos de exclamação!

Aquele saco de chorume falso parecia ter esquecido que havia abandonado minha mãe e a mim dez anos antes para ganhar a vida no exterior. O que significava que, aos dezessete anos, eu já tinha passado mais tempo sem nem ver a cara desse homem do que com ele.

É claro que ele não tinha sumido por completo — minha mãe nunca teria deixado que levasse sua vidinha boa na Europa enquanto ela penava para criar uma filha sozinha. Ele mandava dinheiro quando as coisas não estavam “difíceis demais” e ligava em datas comemorativas, tipo meu aniversário e Natal.

Mas só.

Pois é.

Nada como o amor paterno.

Uma pequena parte de mim se sentia vingada por ele estar sendo obrigado a cumprir a função de pai depois de tanta negligência. Mas a parte maior estava consumida pela dor de todas as perdas que eu continuava sofrendo. Como eu conseguiria morar com aquele homem e olhar para a cara dele todos os dias pelos próximos anos? O homem que tinha me abandonado quando eu ainda era criança e arranjado uma nova família no exterior? O homem que me encarava sorridente no aeroporto, como se fôssemos pai e filha de verdade, e não dois desconhecidos?

Sem corresponder à empolgação, trinquei a mandíbula e apertei a barra do carrinho com mais força.

— Pois é, nem eu acredito que tô aqui — retruquei, entredentes, mas ele não ouviu o amargor na minha voz, ou fingiu não ouvir, pois apenas pegou a alça da minha mochila, segurou a barra do carrinho e me levou na direção do estacionamento, falando sem parar sobre quanto estava animado por me ver e ansioso para me apresentar Londres.

Caramba, era assim, então? Depois de dez anos de abandono, ele não tinha nada para dizer? Um pedido de desculpas? Um

“sinto muito por tudo o que aconteceu”? “Sua mãe morreu, mas estou ao seu lado agora”?

Todas aquelas questões começaram a borbulhar dentro de mim como se eu fosse um poço sem fundo de fúria e ódio. Eu queria virar um vulcão e expelir a raiva para todo lado, sem me importar com quem ia atingir. Tenho orgulho de dizer que consegui me conter. Pelo menos até o carro estacionar em uma rua residencial, na frente de uma casinha branca geminada com a porta aberta.

Foi então que dei de cara com duas mulheres sorridentes —

mãe e filha paradas no hall de entrada, me encarando cheias de expectativa fingida, como se fôssemos uma grande família feliz.

Como se eu estivesse indo passar férias em Londres.

— Oiii, sweetie.

Mal subi os degraus e a voz estridente de Lauren me atingiu e fui puxada para um abraço. Sem me soltar, ela me levou para dentro, a filha em nosso encalço sem dizer uma palavra.

— Que bom que você chegou! Estamos tão excited de receber você! Você vai amar London!

Roberto veio arrastando minhas malas pesadas atrás de nós.

Do quintal nos fundos da casa, um latido anunciava a presença ilustre do Ruffles, provavelmente o único ser daquela casa com quem eu me daria bem. Já tinha visto o terrier escocês em algumas das (raríssimas) chamadas de vídeo e meu pai falava dele vez ou outra, mas eu havia esquecido completamente da sua existência enquanto me afundava em autocomiseração pela perspectiva da mudança.

— Esse é seu quarto.

Roberto colocou as malas no cômodo ao lado da sala, mas eu nem tive chance de segui-lo para me refugiar ali, porque continuava presa no braço de Lauren, tendo que ouvir sua tagarelice sobre como Londres era perfeita.

Eu tinha falado com Lauren algumas vezes ao telefone. Minha mãe e eu ríamos do seu jeito afetado, misturando inglês e português, e zombávamos do tom falso em sua voz toda vez que ela conversava comigo como se fôssemos melhores amigas.

Como se eu não ouvisse os seus sussurros intrometidos do outro lado da linha quando meu pai pegava o telefone para perguntar

se eu estava precisando de alguma coisa. Materialmente falando, é claro, pois essa era a única coisa que ele podia me oferecer.

Por causa dessa falsidade óbvia, a piada interna lá em casa era chamar Lauren de Lauriane.

Eu deveria estar me divertindo por conhecer Lauren pessoalmente. Deveria estar contendo uma gargalhada com seu discurso sem fim. Deveria estar anotando mentalmente todas as coisas que poderia contar para minha mãe no telefone mais tarde para que ríssemos mais um pouco.

Mas não fiz nada disso.

Primeiro, é claro, porque não estava achando a menor graça.

Segundo, porque não haveria ligações para minha mãe mais tarde — nem nunca mais.

Então ninguém pode me culpar por ter explodido de repente, quando Lauren virou uma metralhadora de bosta insensível e começou a falar sobre as viagens que estava planejando para a gente, inclusive para a Eurodisney.

— Será que dá para você calar a boca?! — gritei tão alto que senti minha garganta arranhar.

Me contorci para me soltar do seu braço e fiquei de frente para ela.

Meu pai tinha acabado de voltar à sala, e o barulho de seus passos cessou, junto a qualquer outro ruído dentro da casa. Até os latidos do Ruffles pararam, e o cômodo ficou muito silencioso.

Todos me encararam com surpresa por um segundo.

— Não quero ir pra Disney! Não quero morar em Londres! Não quero nada dessa merda de família!

Quase bati o pé ao final, tamanha minha frustração, mas não queria parecer uma garotinha mimada, então me contive.

— Dayana, olha como você fala com a Lauren! — meu pai interrompeu, sério pela primeira vez desde que o encontrei no aeroporto.

Virei e dei de cara com sua expressão severa. Seu olhar era intimidador, mas nem isso foi capaz de me parar.

— Eu falo do jeito que eu quiser! Quem você pensa que é pra mandar em mim? Você não tem moral nenhuma pra querer me educar. — Vi o exato momento em que ele fraquejou. Sua

postura deixou de ser tão ameaçadora; seu olhar dardejava de mim para Lauren, e então para Georgia, sua enteada, que permanecia calada vendo toda a discussão com as sobrancelhas arqueadas. Ele abriu a boca para responder, mas a fechou antes de falar qualquer coisa. E aquilo me deu mais força para continuar: — Você abandonou a gente, sumiu da minha vida, nunca quis saber droga nenhuma da própria filha e, agora que eu fui o-bri-ga-da — falei bem pausadamente — a vir pra cá, quer dar uma de pai? Me poupe!

— Eu… Você não… — ele gaguejou.

Antes que qualquer um de nós dois conseguisse continuar, Lauren nos interrompeu: — Não vamos admitir esse tipo de comportamento nesta casa, Dayana.

Ela estava com um olhar sério e a voz dura. Seu pulso firme era idêntico ao da minha mãe. Mas aquilo era como uma imitação barata da pessoa que eu mais amava no mundo. Da pessoa que não estava mais presente na minha vida. Talvez por isso, ao contrário do que qualquer um poderia esperar, eu gargalhei. Gargalhei alto e forte, a ponto de lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas. Cheguei a me curvar de tanto rir, segurando a barriga já dolorida.

Aos poucos, o riso morreu nos meus lábios e as lágrimas cessaram. Em vez de responder, apenas olhei Lauren de cima a baixo e me virei para Roberto.

— Então é isso? A família toda vai se juntar contra a intrusa aqui?

— Dayana, não vamos conversar sobre isso agora — ele pediu, frustrado.

Eu não soube decifrar a expressão em seu rosto. Parecia mágoa, mas isso era impossível: ele não tinha o direito de se sentir magoado. Minha mãe e eu, sim.

Ele, não.

Nunca.

Como eu não queria continuar encarando a dor em seu rosto, saí pisando duro em direção ao meu novo quarto e fechei a porta com tanta força que as paredes tremeram. Minhas pernas

estavam bambas, como se eu estivesse de volta ao avião, a quilômetros de altitude — alto demais para pisar em terra firme.

O barulho da chave tilintando ao ritmo dos nossos passos era como música para os meus ouvidos. Minha mãe e eu seguíamos pelo corredor em direção ao quarto. Eu ia pulando na frente, animada e sorridente, e me virava toda hora, dizendo: — Anda logo!

Lá atrás, meu pai vinha carregando todas as malas, enquanto seguíamos livres, como se fôssemos duas madames. É claro que minha mãe tinha feito alguma gracinha para que ele se oferecesse para levar tudo, mas eu estava empolgada demais para prestar atenção.