Romance Real
Capítulo 20
Apertei suas mãos, retribuindo a empolgação como se eu não tivesse acabado de ter a maior briga com meu pai.
— Presta bem atenção, Georgia — falei, baixinho. — Você não pode contar isso pra ninguém, tá? Pelo amor de Deus. Não pode contar pra sua mãe, nem pro Roberto, nem pra sua melhor amiga.
Georgia arregalou os olhos.
— É tão sério assim?
Eu assenti.
E então contei tudo.
20
Maybe if we face up to this We can make it through this Closer, maybe we’ll be closer “Same mistakes”
— Há quanto tempo você está encarando esse celular aí, sweetie? — perguntou Lauren, me espiando pela porta da cozinha, com um sorriso conciliador.
Eu estava sentada na namoradeira do quintal, nos fundos da casa, abraçando meu próprio corpo. O sol brilhava desde cedo, mas ali, na sombra, o vento arrepiava meus braços. Ruffles brincava na grama com os passarinhos que ousavam pousar no chão. Eu tinha conseguido evitar Roberto durante o café da manhã, mas as paredes nuas do meu quarto começavam a me deixar inquieta e eu estava com medo demais de acabar esbarrando com ele para ficar na sala. Portanto, acabei me refugiando no jardim pela primeira vez desde que chegara em Londres.
Nunca tinha morado em casa, nunca tivera nem uma varanda e não estava acostumada a ter um espaço tão amplo e aberto para relaxar. Era gostoso sair do ambiente claustrofóbico do quarto, ouvir o barulho dos pássaros. A casa de Roberto ficava num bairro residencial tranquilo, e quase não dava para ouvir carros passando na rua. Lá em casa, no Brasil, era barulheira de ônibus o dia inteiro.
Olhei para Lauren, bloqueando a tela.
— Eu não tô encarando o celular — neguei com menos convicção do que desejava.
Ainda não havia recebido nenhuma notícia de Diana. Fiquei me perguntando se ela tinha acabado de castigo também. Era a segunda vez que fugia do palácio, e a mãe dela não parecera
muito tolerante durante a conversa que entreouvi. O que era ridículo; era ela quem tinha mentido, para começo de conversa.
Mandei um tá tudo bem? por mensagem, em parte porque estava preocupada, mas também porque me sentia um pouco culpada por ter contado seu segredo, mesmo que só para Georgia. Sentia como se, a qualquer instante, um alerta grande e vermelho fosse surgir sobre a minha cabeça, com os dizeres QUEBRADORA DE PROMESSAS em letras garrafais.
Por desencargo de consciência, entrei nos sites e perfis de fofocas, mas não havia nenhuma nota sobre uma filha ilegítima do príncipe Arthur. Nem mesmo novidades sobre o boato de traição. Era ridículo como os tabloides não tinham escrúpulos.
Qualquer suspeita virava capa de revista.
Sem mensagem nem notícias vazadas, fiquei ali, só esperando. E encarando o celular.
— É o boy de ontem? — Lauren perguntou, sentando ao meu lado na namoradeira da varanda.
Eu ainda não tinha muita certeza de que podia confiar aquele assunto a Lauren. Ela tentara acalmar meu pai no dia anterior, mas será que tinha sido apenas porque ficou assustada com a reação exagerada dele, ou porque não achava mesmo que tinha sido tão grave?
— Não é nada. Eu só tô aproveitando a brisa da manhã. — A desculpa soou falsa até para os meus ouvidos.
Ela me olhou desconfiada.
— Você pode confiar em mim, sweetie. — Tocou minha mão, num gesto de intimidade. — Prometo que não conto pro seu pai.
Ele se exaltou ontem, eu sei. Sure, você não precisava ter mentido, e ele estava certo quando disse que podia ter acontecido alguma coisa, mas eu entendo sua desconfiança. E
confio que você não faria nada imprudente.
Olhei para ela. Lauren estava com um sorriso cheio de expectativa. Meus pensamentos foram parar em minha mãe.
Tivemos poucas conversas daquele tipo, e eu não tive oportunidade de contar a ela que era bi. Estava com Heitor antes da morte dela e usei isso como desculpa para esconder a verdade.
Havia tantas coisas que eu gostaria de ter contado a ela.
Respirei fundo.
— É… uma garota, na verdade — falei, hesitante.
— Oh. — Lauren não tentou esconder a surpresa. Pestanejou, assimilando a informação. — Ok. No problem. Não temos preconceito nesta casa. You love who you love.
Lauren apertou minha mão, e eu me senti estranhamente grata. Dava para ver que ela não estava cem por cento confortável com a conversa, mas sua reação foi muito melhor do que eu esperava.
— Era com ela que você estava ontem?
Eu assenti.
— Ok — ela repetiu, lentamente. — E vocês… vocês estão…
sabe… — ela fez um gesto indecifrável com as mãos — … se protegendo?
Arregalei os olhos.
— Lauren! — exclamei, ruborizando.
— O que foi? — Ela ergueu as mãos em rendição. — Gravidez não é a única coisa indesejada que sexo sem proteção pode trazer…
— Ai, meu Deus.
— Existem métodos de proteção para relações entre mulheres também, é importante que você saiba…
— Lauren — falei mais alto, o rosto quente de vergonha —, eu sou virgem, fica tranquila!
— Mas essas coisas acontecem sem planejamento —
continuou ela, e eu quis cavar um buraco no chão e me enfiar lá dentro. — Não deixe de se informar. Se você precisar que eu…
— Não, obrigada! Eu vou pesquisar, pode deixar — me apressei em dizer, antes que ela insistisse.
Ela hesitou.
— E você tá encarando esse celular por quê?
Como eu não podia ser totalmente sincera, escolhi parte da verdade.
— Eu só queria saber se está tudo bem por lá. Não sei se ela acabou de castigo também.
Lauren estalou a língua em repreensão.
— Vocês, jovens, precisam aprender a confiar mais na gente.
Adulto não tem sete cabeças, não.
Não pude deixar de rir, e ela acabou rindo junto, num momento improvável de cumplicidade. Quem diria que um dia eu estaria me abrindo para Lauren?
O mundo realmente dá voltas.
— Mom! — a voz de Georgia berrou da sala, testando o terreno.
— Over here!
Georgia apareceu no batente da cozinha.
Ela olhou da mãe para mim e de volta para a mãe, e algo estranho cruzou seu olhar. Será que estava com ciúmes? Por eu estar tendo uma conversa amigável, e a sós, com a mãe dela?
Não era a primeira vez que eu via aquela expressão em seu rosto.
Mas era normal, não era? Eu sempre via as brigas de Emi e Lara com as irmãs, e era uma ciumeira danada.
Mas, como filha única, eu nunca tinha passado por isso.
— Estou pronta — disse ela, em inglês, e percebi que tinha trocado o pijama para um look básico.
Lauren deu um tapinha na minha perna.
— Great talk, sweetie. — Levantou, satisfeita com nossa conversa.
As duas saíram juntas, e eu ouvi a porta de casa bater.
E me surpreendi por me sentir levemente preterida. Caramba, tudo bem que elas só iam ao mercado, mas nem tinham cogitado me convidar para ir junto.
O pensamento me fez arregalar os olhos. Será que eu estava com ciúmes de Lauren? Meu Deus. O que Londres estava fazendo comigo?
Meio emburrada, a visão de Ruffles brincando não me pareceu mais tão agradável, e resolvi voltar ao quarto.
E dei de cara com meu pai.
Ele travou, e eu recuei. Pela primeira vez, Roberto não fingiu que nada tinha acontecido para amenizar o clima.
— Bom dia — cumprimentou, baixinho, evitando olhar nos meus olhos.
— Bom dia — retribuí, contrariada.
Tentei avançar, mas ele se mexeu na mesma hora e impediu minha passagem. Parecia desconfortável. Cruzei os braços e esperei. Que pedisse desculpas? Que continuasse a briga? Que dissesse qualquer coisa?
Ou talvez eu estivesse reunindo coragem. Tinha jogado tanta coisa na cara dele no dia anterior, mas não tivemos exatamente a conversa que eu sempre imaginara. Eu não tinha perguntado nada do que gostaria.
Ele era feliz? Alguma vez sentira saudade da gente? Da ex-mulher? Da ex-família? Da ex-vida? Será que se arrependia de nunca ter olhado para trás?
Ele chegou para o lado, liberando o caminho.
Nenhum de nós disse nada.
Meu coração batia acelerado enquanto o telefone chamava. Tantos anos haviam se passado, mas eu ainda me sentia como aquela mesma garota de sete anos, ligando para o pai, cheia de expectativa, e ouvindo outra menina chamando-o de pai.
O som do fone sendo tirado do gancho me fez prender a respiração. Depois daquela primeira vez, toda ligação para Roberto me fazia suar frio. Sempre ansiosa, sempre com medo de ter que lidar com Georgia ou Lauren.
— Hello? — uma voz aveludada atendeu.
Era Georgia.
Eu apertei o fone com mais força.
— Alô, poderia falar com o Roberto? — pedi em inglês.
— Quem está falando? — ela perguntou, cheia de arrogância.
— É a filha dele.
Ela se afastou para chamá-lo, e eu suspirei com força.
Um minuto depois, Roberto atendeu.
— Oi, Dayana! Como você está, minha filha? — A voz animada de sempre. Como se não tivesse nenhuma preocupação.
— Tudo bem, e com você?
— Melhor agora! — Dava para sentir o sorriso do outro lado da linha. — O que você manda?
— Eu, hm…
— É a Dayana? — alguém perguntou ao fundo.
— É, sim!
— Oi, sweetie — Lauren cumprimentou, com aquele tom falso. — Faz tempo que você não liga! Quando vai vir nos visitar? Estamos esperando você aqui.