Romance Real
Capítulo 21
Olhei para minha mãe no corredor da sala. Ela ergueu a sobrancelha para mim. “Lauriane?”, perguntou, sem emitir som. Eu revirei os olhos e assenti.
— Ah, não sei, Lauren. A grana anda meio curta, sabe como é — alfinetei.
Se dependesse de mim, eu não ia era nunca. Pelo menos, não para a casa deles. Imagina a loucura que devia ser!
— Claro, claro — ela concordou, sem graça.
— Mas me conta, do que você precisa? — Roberto voltou à chamada.
Eu respirei fundo, olhei para minha mãe de novo, e ela acenou com a cabeça, me incentivando.
— Ah, é que… — “Eu preciso muito de um computador novo pra estudar, será que você pode me ajudar?” Por que era tão difícil dizer? — Eu só queria saber como estão as coisas.
Murchei com minha própria falta de coragem.
Minha mãe fez biquinho. “Quer que eu peça?”, fez com a boca de novo. Assenti, e ela largou os papéis que tinha em mãos e veio para o meu lado.
Eu esperei meu pai terminar de falar.
— Então tá bom, pai. Vou passar pra minha mãe, ela quer falar com você.
Estendi o telefone para ela, sentindo os olhos marejarem.
Por que era tão difícil pedir as coisas para o meu próprio pai? Por que ele tinha que ter ido embora?
21
I’ve got scars, even though they can’t always be seen And pain gets hard, but now you’re here and I don’t feel a thing “If I could fly”
Com o castigo de Roberto, eu não poderia ver Diana durante o resto da semana.
Mas ela me respondeu quando eu estava entrando no trabalho, no dia seguinte à Grande Descoberta.
Tive mais uma discussão com a minha mãe quando cheguei, claro Acabei esquecendo de mandar mensagem pra saber se tava tudo bem, desculpa relaxa, você tá com a cabeça cheia é compreensível E por aí?
Ficou tudo bem?
Eu não queria perturbá-la com meus problemas, então apenas disse: tudo sob controle Você tá livre mais tarde?
hmm, talvez eu esteja de castigo e tenha hora pra voltar pra casa até o fim da semana…
Ela mandou uma carinha confusa.
Você não disse que tava tudo sob controle?
sim, sob controle do meu pai Dayana!!
Mandei um emoji dando de ombros.
Continuamos a trocar mensagem nos dias seguintes e eu fiquei feliz em saber que realmente tínhamos superado aquela coisa toda de não conversar. Mas percebi que Diana evitava falar sobre O Escândalo Real, como ela mesma chamara. Quando precisava desabafar, ela me ligava, como se não quisesse deixar nenhum registro. Será que sua vida seria assim a partir dali?
Para sempre tentando não ser descoberta?
No instante que Roberto anunciou o fim oficial do castigo, no sábado de manhã — acompanhado de um discurso sobre ele ter pegado leve e prometendo não ser tão bonzinho da próxima vez, mas que perdeu toda a força por ele ter gaguejado, incapaz de sustentar a pose de durão —, mandei uma mensagem para Diana pedindo que ela me encontrasse na estação Chalk Farm às três da tarde.
Sem poder sair, tinha passado os últimos dias planejando o nosso encontro seguinte. Tinha várias ideias — ir à London Eye, um restaurante bacana, andar de pedalinho —, mas no fim acabara decidindo pelo bom e velho piquenique. Toda sexta eu recebia o salário semanal, que tinha um cheiro excepcionalmente bom, mas sabia que, se quisesse guardar dinheiro para minha futura independência, não podia esbanjar. Já tinha gastado demais nos últimos encontros. Por isso, aproveitei meu desconto de funcionária para comprar alguns itens para o passeio, e guardei o restante do dinheiro enrolado num elástico na minha gaveta de calcinhas.
Enquanto eu me arrumava, depois do almoço, Georgia veio ao meu quarto e se jogou na cama. Aquilo estava virando um hábito.
— Vai sair com a sua princesa? — perguntou, me fazendo congelar.
Nos encaramos, e eu tive que morder o lábio para conter a risada.
— Boba — reclamei, tacando um vestido em cima dela.
Ela pegou o vestido.
— Esse não. Bota aquela saia de botão que você comprou na Primark.
— É um piquenique, acho que vou ficar meio desconfortável.
Ela refletiu.
— Então o macaquinho preto, aquele que parece um vestido.
Estalei os dedos.
— Boa!
Comecei a fuçar o armário, já quase cheio. Eu ainda não tivera coragem de desfazer as malas, que continuavam abertas no chão do quarto. Mas, à medida que ia me acomodando, as coisas acabavam indo direto para o guarda-roupa quando eu terminava de usar. Minhas roupas, maquiagens, produtos de beleza e de higiene. Reparando bem, as malas já estavam praticamente vazias.
— Estou com inveja — brincou Georgia, enquanto eu me arrumava. — Você chegou tem um mês e já arranjou namorada.
Olhei para ela, que fez biquinho.
— Quer que eu pergunte se ela tem alguém para te apresentar? Tem alguma preferência?
Ela refletiu.
— Gosto de pessoas altas, de preferência não muito magrelas.
O gênero não importa. Contanto que tenha uma coroa na cabeça.
Revirei os olhos.
— Você é muito interesseira. — Mas um sorrisinho continuou no canto dos meus lábios. O gênero não importa era uma bela de uma confissão.
— Qual é a graça de ter uma irmã que namora a filha do príncipe da Inglaterra se ela não vai me apresentar alguém da realeza?
Dei língua para ela.
— É só por isso que você gosta de mim?
— Talvez você seja legal também, mas só um pouquinho. —
Ela deu uma piscadela.
Virei para Georgia, já com o macaquinho preto de alça e um cropped branco de meia manga por baixo.
— E aí, ficou bom?
Ela uniu o indicador e o polegar num círculo, aprovando, e assentiu.
— Perfeita.
Abri um sorriso empolgado e comecei a arrumar a bolsa.
Alguém bateu à porta.
— Georgia, dear, você está aí? — A voz de Lauren atravessou a porta.
— Eu! — Georgia gritou.
Lauren abriu a porta e Ruffles entrou em disparada, rodopiando empolgado atrás do próprio rabo. Ela olhou para a filha, deitada na cama, e então para mim.
— Vai sair, sweetie? — Ela também se sentou na beira da cama.
Me encolhi.
— Achei que o castigo tinha acabado. Eu posso sair, né?
— Claro, claro. — Ela se apressou em dizer. — Só estava perguntando. Você tem um date com sua girl? — Um sorrisinho se abriu em sua boca.
Minhas bochechas esquentaram.
Georgia sentou de repente, com uma careta de dor.
— Você contou pra ela? — perguntou, surpresa. E talvez um pouco irritada.
Lauren se empertigou.
— Qual o problema em me contar? — Ela pareceu ultrajada. —
You know, algumas pessoas confiam em mim.
— Eu confio em você — ela se defendeu, encolhendo os ombros e desviando o olhar. — Só não tenho nada para contar.
— Pois deveria ter. Sua irmã está saindo, curtindo a vida, e você fica aí presa dentro de casa.
Era a primeira vez que Lauren me chamava de “irmã” para Georgia, e eu senti um quentinho no peito.
Georgia fechou a cara.
— É difícil curtir a vida estando com dor o tempo todo.
Lauren soltou um suspiro.
— I know, dear, mas você precisa tentar . Não pode ficar assim pra sempre, vendo a vida passar. Você precisa se esforçar mais.
Com certeza aquela era a coisa errada a dizer, porque o peito de Georgia estufou de irritação. Eu me apressei em acabar de arrumar minha bolsa, peguei a bolsa térmica para levar as comidinhas do piquenique, que tinha separado mais cedo, o tênis
no armário e o celular na mesa de cabeceira o mais rápido que pude.
— Tô indo! Tchau!
— Não volta tarde! — Lauren gritou quando eu já saía do quarto. — E não ignore nossas mensagens!
— Eu preciso me esforçar mais? — ouvi Georgia perguntar, enquanto eu calçava o tênis no hall da entrada.
Saí de casa antes que Lauren pudesse responder.