Romance Real

Clara Alves · Capítulo 24 de 38

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Romance Real

Capítulo 23

Mas então o celular de Diana recebeu uma notificação.

E, de repente, tudo desmoronou.

 

Verdade chocante sobre duque de York enfim é revelada!

Fontes informam que príncipe Arthur teve uma filha ilegítima por Chloe Ward

Os boatos sobre a separação do casal mais queridinho da Inglaterra estavam nos deixando de cabelo em pé. Mas agora a verdade foi revelada — e é mais bombástica do que imaginávamos!

Segundo uma fonte confiável, descobrimos que a mulher misteriosa com quem o príncipe vinha se encontrando era ninguém menos do que um antigo affair. E o mais chocante de tudo: os dois tiveram uma filha juntos!

Ao que tudo indica, Arthur e a brasileira Rosane Lima se conheceram em 2004, na faculdade, e tiveram um romance de verão. As noites de amor entre os pombinhos geraram uma descendente, da qual, até este ano, nem ele sabia!

E, ao que parece, nem a adolescente, fruto desse amor-relâmpago.

A brasileira escondeu de pai e filha a importante informação de que ele tinha uma primogênita, e que ela era filha do príncipe da Inglaterra.

Por quê? Só nos cabe especular…

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23

Does it ever drive you crazy Just how fast the night changes?

Everything that you’ve ever dreamed of Disappearing when you wake up “Night changes”

Diana encarou o celular com uma expressão horrorizada.

— Bloody bollocks bastard! — soltou, e na minha cabeça traduzi o xingamento como eita preula, porque me soou mais digno da realeza.

Me inclinei na direção dela.

— O que foi? — perguntei, curiosa.

Ela virou o celular, e em um segundo fiquei com a mesma expressão horrorizada. Antes mesmo de ler a chamada (“Verdade chocante sobre o duque de York enfim é revelada!”), meu olhar se fixou numa foto de Diana e Rose, estampada logo abaixo. Era uma foto de paparazzo, então a qualidade não era das melhores, e as duas estavam bem distantes. Mas não havia dúvida de que eram elas.

— Caralho de asa — xinguei, com muito menos graciosidade.

Encarei Diana, chocada. — Mas… como?

— Eu não sei! — retrucou, com um tom agudo.

Ela puxou o celular de volta e começou a fazer uma ligação.

— O que houve? Como isso vazou? — perguntou em inglês, assim que a pessoa atendeu. Supus que fosse Rose. — Não, eu não sei! Não sei quem poderia ter vazado. Não, eu não… — ela ergueu o olhar rapidamente para mim — … não contei pra ninguém.

Sua voz parecia à beira do pânico. Levou a mão à boca, roendo a unha, e por fim falou: — Eu tô indo pra casa, calma.

Vou pegar um táxi. Já já tô aí.

Ela desligou o telefone e me encarou, desolada. Comecei a juntar as coisas do piquenique com pressa, enfiando a comida de qualquer jeito na bolsa térmica.

— Não se preocupa, vai dar tudo certo — fui falando, enquanto arrumava tudo. — Não dá pra ver que é você na foto, isso não vai te afetar. E a família real é ótima em jogar tudo pra debaixo do tapete.

— Day… — ela chamou com a voz fraca. — Você não… não contou pra ninguém, né?

Eu parei com o pote de frutas a meio caminho da bolsa.

— Eu não tô te acusando — ela se apressou em dizer. Mas estava, sim. — É só que… todo mundo do palácio que sabia assinou um non-disclosure agreement. Se eles revelarem a história, vão ter que pagar uma multa bem alta e, além deles…

eu só contei pra você. Não sei, por acaso você não deixou escapar, ou… alguém pode ter ouvido uma conversa nossa?

Continuei paralisada.

Meus piores temores enfim estavam se tornando realidade. Eu havia contado à Georgia, e a história tinha vazado pra imprensa.

Logo mais estaria em todos os jornais e revistas. Mas Georgia não teria contado a ninguém… Teria? Eu confiava nela.

Só que Diana também havia confiado em mim. E eu tinha repassado seu segredo.

Será que eu tinha feito merda?

— Day, você não contou pra ninguém, né? — Diana repetiu, mais incisiva.

Engoli em seco.

— Só pra minha irmã — confessei, baixinho, e ela arregalou os olhos.

— Day! — Ela levantou num salto, atraindo alguns olhares ao redor. — Não acredito! Eu confiei em você.

Levantei junto.

— Eu sei, eu não fiz por mal, eu juro. — Meu tom era quase uma súplica. Peguei suas mãos, tentando fazer com que olhasse para mim. — Ela sabia das minhas desconfianças, e acabou me pressionando. Mas não pode ter sido ela, Diana, o que ela ia ganhar com isso?

— Dinheiro? — cuspiu, transtornada. — Fama? Poder dizer às pessoas que a “irmã” — ela fez aspas com o dedo — dela estava saindo com a filha bastarda do príncipe? Meu Deus, como eu fui burra! Eu devia ter desconfiado quando te vi no palácio. Mas, em vez disso, contei a verdade toda pra você ir correndo divulgar pro mundo!

Eu recuei, largando suas mãos de súbito, e terminei de enfiar meus pertences na bolsa térmica de qualquer jeito.

— Agora que você descobriu que é da realeza, vai começar a achar que qualquer um é interesseiro e quer colocar o seu na reta por um minuto de fama? — Ainda tive a decência de baixar a voz. — Nunca pensei que alguém poderia mudar tão rápido.

Comecei a andar em direção à saída do parque.

— Por que você está tão ofendida? — Ela vinha atrás de mim.

— Pensei que odiasse todo mundo naquela casa.

Virei tão rápido que Diana quase esbarrou em mim.

— Acha que eu contaria seu segredo pra alguém que eu odeio? Você pensa tão mal assim de mim também?

Ela pareceu assustada com a minha explosão.

— Claro que não, eu…

— Tudo bem, eu sei que errei — interrompi. Uma raiva como eu nunca havia sentido antes, nem mesmo nas discussões com meu pai, parecia se espalhar por cada partícula do meu corpo. —

Eu peço desculpas, de verdade. Sei que você me pediu segredo, e eu deveria ter cumprido a promessa. Mas você não hesitou nem um segundo antes de me acusar e acusar minha irmã, quando um monte de gente naquele lugar adora vazar fofoca e ser fonte anônima nos jornais. Então quer saber? Talvez seja hora de aceitar sua nova realidade e se misturar às pessoas de mesmo naipe. Assim você não precisa se preocupar com quem é interesseiro.

Dizendo isso, eu saí em direção ao metrô, puta da vida.

Quando cheguei em casa, a raiva tinha se transformado em frustração, e a frustração me levou aos prantos. Tentei entrar no quarto o mais rápido que pude, mas Lauren tinha olhos de águia

e, antes mesmo que eu chegasse à cama, ela já foi abrindo a porta.

— O que aconteceu, sweetie? — perguntou, cheia de preocupação. Larguei as bolsas no chão e fui correndo para a cama, sem responder. — Você e sua garota brigaram?

Meu estômago embrulhou só de ouvir sua garota.

Eu tinha ferrado com tudo. Destruí a melhor coisa que havia acontecido comigo desde a morte da minha mãe. De novo. Era tudo culpa minha, de novo.

— Me deixa em paz, Lauren! — gritei, me jogando de bruços e pegando o travesseiro para cobrir a cabeça, como se pudesse me isolar do mundo.

Eu queria fechar os olhos e rebobinar minha vida. Voltar para aquele dia, seis meses antes, e refazer tudo. Salvar minha mãe.

Abraçá-la forte. E nunca mais sair de perto dela.

A cama afundou quando Lauren sentou ao meu lado e acariciou minhas costas, enquanto eu chorava de soluçar. Ela não disse mais nada, mas ficou ali, me confortando por vários minutos, até que a porta se abriu de novo.

— Day, o que aconteceu? — Era a voz de Georgia.

Levantei de repente, sobressaltando Lauren, e encarei Georgia.

Não sei o que deu em mim. Eu a havia defendido para Diana e sabia que ela não tinha motivos para revelar nada, mas, por algum motivo, minha mente voou para o que ela tinha dito mais cedo, sobre sentir inveja de mim.

— Você contou pra alguém? — perguntei em tom acusatório.

— Dayana, sweetie, se acalme — Lauren tentou dizer.

— O quê? — Georgia demorou um segundo para entender do que eu estava falando. Então seu rosto se encheu de compreensão. Em seguida, sua expressão se contorceu de culpa, e eu soube. Eu soube. — Eu… eu… — ela gaguejou.

— Meu Deus, foi você! Você contou. Você contou mesmo.

As acusações que Diana tinha jogado na minha cara me vieram à mente, e eu me senti a pior pessoa do mundo. Porque eu entendia exatamente o que ela tinha sentido. E era horrível.

— Foi por ciúmes? Inveja? Raiva? — Aquelas pareciam opções muito mais plausíveis do que dinheiro ou fama. — Você pode ter fingido muito bem que gosta de mim, mas eu sei que não está feliz com a minha vinda. Eu sei que tirei a paz da casa e que vocês eram muito mais felizes antes.

— Sweetie, pare com isso. — Lauren deu um tapinha conciliador na minha perna. — Nós estamos muito felizes em recebê-la.

— Ah, para de falar merda! — gritei, empurrando a mão dela.

— Não fala assim com a minha mãe! — Ela puxou meu braço.

— Tá na hora de você acordar pra vida e parar de ser tão mimada! Sim, você chegou e destruiu a paz da minha família, e mesmo assim todos nós fizemos o possível e o impossível para te receber de braços abertos e fazer você se sentir em casa.

Talvez, se você tivesse enxergado o quanto é privilegiada, nada disso teria acontecido!

— Ah, agora a culpa de você ser uma fofoqueira é minha?

— Bom, se você não tá feliz, VOLTA PRO BRASIL!

— Sai do meu quarto! — gritei, num tom tão agudo que incomodou até meus ouvidos.

Ela nem olhou duas vezes para mim.

Lauren ficou perdidinha, sem entender o que estava acontecendo. Mas, no fim, foi atrás da filha. Quando ela fechou a porta, me largando sozinha com a minha culpa, eu desabei no chão, chorando como tinha chorado naquele dia, seis meses atrás.

Eu não conseguia parar de chorar.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu discava o número da minha mãe.

— Oi, Lady Day! Tava pensando em você agori… — ela foi dizendo, sem nem me dar tempo de falar. Eu funguei, e ela parou. — Tá tudo bem?

— Mãe — minha voz tremeu, e eu sabia que só a deixaria mais preocupada, mas não conseguia controlar —, vem me buscar?

Um barulho do outro lado da linha me indicou que ela tinha acabado de largar tudo que estava fazendo para vir me socorrer. Uma chave tilintou.

— Onde você tá? O que aconteceu?

— Vou te mandar a localização por mensagem.

— Você não tinha ido no cinema com o Heitor? — O

alarme do carro soou.

— Eu ia, mas aí não tinha mais ingresso pro filme que a gente queria ver e acabamos vindo comer a batata de Marechal e… — Eu comecei a chorar de novo ao lembrar. —

Só vem me buscar, mãe.

A verdade é que eu estava com vergonha de contar o que realmente tinha acontecido.

Heitor e eu estávamos comendo nosso lanche e tínhamos visto os amigos dele chegando. E aí…

“Heitor?”, eles gritaram de repente, nos sobressaltando.

Eu vira o exato momento em que os olhos de Heitor se arregalaram. O exato momento em que foram dos amigos para mim. E então ele levantara, tão assustado que a cadeira caiu para trás.

Os amigos dele, seu trio do colégio, dois garotos altos, magros e brancos demais, como louva-a-deus, e outro baixinho e gordo, pararam à nossa mesa.

“O que tu tá fazendo aqui, cara?”, um dos louva-a-deus perguntara, olhando para mim com curiosidade.

Eles nem me cumprimentaram. Era como se eu fosse invisível.

Eu me sentira encolher de repente.

“Nada”, respondera ele, rápido demais. “Só tinha essa mesa vaga, daí pedi pra sentar aqui.”

Ele dera um tapinha na mesa.

“Valeu, hein”, dissera simplesmente e se afastara com os amigos.

A vergonha tinha me dominado como um tsunâmi. Girando na cadeira, eu quisera xingar Heitor de tudo quanto era nome, mas não saíra nada da minha boca.

Antes de sumir de vista, eu ainda ouvira um dos amigos dizer: “Coé, cara, levei um susto. Por um segundo achei que tu tava saindo com a gordinha da escola.”

Ao que Heitor respondera, rindo: “Tá doido, maluco? Ela não faz meu tipo, não. Deve fazer do Bolinha aí, ó.”

As lágrimas vieram feito um rio após a quebra de uma barragem. Emi e Lara estavam certas. Sempre estiveram. Eu só nunca quisera enxergar. Eu me sentia um lixo, pior que um cocô de cavalo.

Tinha chorado tanto que uma das atendentes viera perguntar se estava tudo bem.

Quando me acalmei o suficiente, liguei para minha mãe. E

as lágrimas voltaram tudo de novo.

— Tá bom, tô indo — minha mãe disse ao telefone, desesperada. — Me espera dentro de alguma loja ou algum restaurante.

— Tá.