Romance Real

Clara Alves · Capítulo 25 de 38

Páginas do PDF

Romance Real

Capítulo 24

Ela desligou e eu continuei sentada no mesmo lugar, numa lanchonete próxima à famosa barraca de Marechal, matando o restante da batata sozinha. Eu nem gosto tanto de batata frita assim , pensei, irritada, jogando uma batata de volta no saco.

À medida que a noite caía e minha mãe não chegava, comecei a ficar preocupada. Liguei para ela de novo e de novo, até que enfim alguém atendeu.

Mas não era minha mãe.

24

‘Cause I’m on my knees and, baby, I’m bleeding And it kills me that you’re not around “Half the world away”

Diana não tentara entrar em contato comigo nenhuma vez desde a briga, e o clima em casa estava ainda pior do que no dia da minha chegada. Sair para trabalhar era um alívio enorme, mas só quando eu conseguia não esbarrar em Rose. Não que fosse tão frequente, porque, considerando O Escândalo Real, ela passava mais tempo fora do que no escritório.

O rosto do antigo affair do príncipe Arthur se tornara conhecido, então é claro que os funcionários da Grocery Sugary não paravam de fofocar. Eu evitava ao máximo sair do estoque, porque cada comentário me afundava ainda mais na tristeza.

Queria mandar mensagem para Diana, perguntar como ela estava diante de toda aquela exposição, mas não conseguia.

Mágoa e culpa se entrelaçavam dentro de mim como uma bola de neve crescendo ladeira abaixo, e a cada dia que passava eu me sentia mais e mais frustrada comigo mesma e com o mundo.

Eu era uma bomba-relógio.

Também não estava falando com Georgia. Eu estava com raiva, mas também me sentia mal. As dores dela tinham piorado desde a briga.

A culpa pesava em meus ombros na saída do trabalho na sexta-feira seguinte.

Eu me surpreendi ao dar de cara com o Ford Focus prateado do meu pai.

Custei a acreditar que era ele, até que o vidro do carona deslizou para baixo e Roberto se inclinou sobre o banco.

— Vim te buscar — ele informou, como se não fosse óbvio.

— Por quê? — perguntei, mas entrei no carro, batendo a porta com um pouco mais de força que o recomendado, e coloquei o cinto.

Ele ignorou minha pergunta.

— E aí, como foi o trabalho? — Parecia relaxado, mas eu ainda não o tinha desculpado pela última discussão.

— Normal — respondi, curta e grossa.

— Lauren e eu estamos vendo um professor de inglês pra te ajudar na conversação, vamos ver se conseguimos agora pra julho, pra você começar a escola já mais segura — continuou, naquele mesmo tom ameno de sempre.

Permaneci em silêncio, olhando pela janela. Eu havia andado poucas vezes de carro em Londres, então ainda não tinha me acostumado muito bem com a mão inglesa. Me assustava toda vez que Roberto ia fazer uma curva e pegava a mão “errada”, especialmente quando tinha outro carro vindo.

— Sei que parece difícil entender o inglês daqui no começo —

ele insistiu, e talvez eu tivesse notado um traço de hesitação antes de ele falar novamente, como se estivesse se forçando a manter a conversa —, mas logo você vai estar entendendo tudo sem nem se dar conta. Ainda mais trabalhando. Você é jovem, é inteligente.

— Uhum.

— Eu nunca fiz muita questão de aprender, mesmo morando aqui há tanto tempo. — Ele se remexeu no banco e ligou a seta.

Me preparei para a curva. — A gente fica meio acomodado, acaba se envolvendo muito com a comunidade brasileira na hora de pedir ajuda e os empregadores não fazem muita questão de que você saiba falar, só que saiba o que fazer e que faça direito.

Então é fácil não ver o tempo passar. Mesmo assim, eu consegui aprender o suficiente pra me virar.

— Você… — Parei de falar. Roberto se voltou para mim, assustado, e rapidamente olhou de novo para a rua. Quase me arrependi de ter aberto a boca, mas a curiosidade falou mais alto.

— Você não teve medo? De vir pra um país diferente, sozinho?

Como devia ter sido para ele se mudar para um lugar do outro lado do oceano, com um idioma diferente, sem conhecer

ninguém, sem ter nenhum apoio? Eu estava muito mais amparada do que meu pai estivera quando se mudou, e mesmo assim era assustador. Ele devia ter ficado com o cu na mão.

— Tive, claro! Mas eu também tinha medo de ficar no Brasil. —

Ele olhou de esguelha para mim. Será que estava analisando o que deveria ou não me contar? — O Brasil começou a entrar numa recessão braba em 2008, e eu fui demitido de uma empresa muito boa no ano seguinte. Nenhuma empresa estava contratando, em todo lugar a ordem era corte, corte, corte.

Trabalhei uns bons anos na OdontoCorp, então recebi uma boa rescisão. E aí um amigo da sua tia Mara tinha vindo pra cá um ano antes e tava se dando bem. Mesmo a crise tendo afetado a Europa também, pra quem é imigrante não falta trabalho. Os cortes são mais de empregos formais. Eu precisava decidir logo, senão o dinheiro da rescisão ia acabar com todos os… gastos. —

Ele fez uma pausa, pigarreou. Eu e minha mãe éramos os gastos. — E aí eu resolvi arriscar. E… bom… — Ergueu os braços, como se dissesse “aqui estamos”.

E valeu a pena? , pensei, com os olhos marejados. Valeu a pena abandonar tudo para viver essa vida?

Em vez disso, engoli o choro e perguntei: — Por que você veio me buscar?

Ele ficou igualmente assustado com a mudança brusca de assunto.

— Eu, hmm… eu e Lauren pensamos em levar vocês para comer fora. — Ele pigarreou. — Acho que estamos precisando de um momento família, né?

Ah. Eles queriam uma trégua entre mim e Georgia.

Cruzei os braços, com medo de voltar a vê-la, enquanto ele fazia mais uma curva e diminuía a velocidade para estacionar.

Roberto me guiou até uma lanchonete bem anos cinquenta, com garçonetes vestidas de pinup e garçons com topetes à la Elvis Presley, todos de patins. Havia um jukebox recostado na parede e os bancos eram de couro vermelho com detalhes em alumínio, como assentos de carros antigos.

Em condições normais, eu teria amado.

Seria um ótimo lugar para ir com Diana: conhecer o tipo de hambúrguer favorito dela; se comia batata com milk-shake ou preferia refrigerante mesmo (ou suco, talvez? Parando para pensar, eu nunca a tinha visto beber refrigerante); escolher músicas no jukebox uma para a outra.

Afastei o pensamento, tentando não ficar ainda mais deprimida. Georgia e Lauren já estavam lá, sentadas em uma das cabines no fundo do restaurante. Georgia mexia no celular e nem ergueu o rosto quando cheguei. Voltei a cruzar os braços e virei a cara.

Um Elvis de topete loiro veio nos atender e eu me demorei no cardápio, desejando fazer uma cabaninha com o livreto e sumir.

Quando ele voltou para o balcão, o silêncio reinou por alguns segundos.

Então Lauren entrou no pior assunto possível: — Absolutely outrageous! Uma filha de dezesseis anos nunca divulgada. — Ela comentava sobre O Escândalo Real, alheia ao meu desconforto.

Pelo visto, a filha não tinha explicado nossa briga. Devia estar com vergonha da merda que fizera.

Georgia espiou por entre os cílios, ainda de cabeça baixa.

— Será que ele não sabia mesmo? — Lauren estalou os dedos. — Aposto que pagaram a ela pra se afastar.

Fechei os olhos, respirando fundo para conter minha irritação.

Em uma mísera semana, a voz de Lauriane voltara a me irritar profundamente.

Os hambúrgueres levaram uma eternidade para chegar, mas, quando o Elvis loiro se aproximou da nossa mesa com uma bandeja, eu quase o beijei de alívio. A comida nos deu alguns segundos de paz.

— Georgia — meu pai chamou de repente, algum tempo depois. Talvez eu tenha visto uma troca de olhares entre ele e a esposa. Georgia ergueu a cabeça, indiferente. — Você viu sobre o professor de inglês que te pedi? Com o pessoal da escola?

— Não. Ninguém me respondeu ainda. Estão de férias, lembra? — Ela voltou a se concentrar no sanduíche, estranhamente intocado.