Romance Real
Capítulo 29
Quanto tempo havia passado desde o velório? Desde o dia em que abaixaram seu caixão num buraco na terra, um buraco igual ao que havia em meu peito, e a enterraram para sempre naquele lugar escuro, sozinha?
Horas? Dias? Semanas?
Eu não saberia dizer.
Talvez a vida fosse ser assim dali em diante. Um eterno vazio. A sensação de que as coisas nunca mais estariam no lugar certo. Era assim que os adultos se sentiam o tempo todo?
Era assustador.
Eu queria continuar para sempre encolhida naquele canto.
Mas minhas costas doíam, minhas pernas formigavam, o mundo me chamava lá fora.
Então dei o primeiro passo de volta à vida.
29
There’s a lightning in your eyes, I can’t deny Then there’s me inside a sinking boat, running out of time Without you, I’ll never make it out alive But I know, yes I know, we’ll be alright “Ready to run”
De todas as surpresas que eu esperava ter na volta ao Brasil, a visita do meu pai não era uma delas.
Mas, quando abri a porta do apartamento na noite seguinte, lá estava ele, em carne e osso. Daquela vez, não havia rosto sorridente e falsos cumprimentos. Ele ficou ali parado com as mãos nos bolsos, sem graça.
— Oi, filhota — disse, por fim, enquanto eu o encarava, perplexa.
Um sentimento inexplicável invadiu meu peito. Era a primeira vez que ele me chamava de filhota desde que tinha ido embora, dez anos antes.
Eu pigarreei, despertando do transe, e me afastei para que ele pudesse entrar.
Meus avós não demonstraram surpresa com a chegada dele.
— Quanto tempo, Roberto. — Meu vô estendeu a mão num cumprimento tenso.
Ele nunca tinha perdoado meu pai por ter abandonado minha mãe.
Já minha vó continuava a vê-lo como seu genrinho querido.
— Deve estar cansado, né, Beto? — ela disse, toda atenciosa.
— Tô esquentando a janta. Aceita um café enquanto isso? Ou chá? Acho que chá é típico dos britânicos, né? — Ela deu uma risadinha, e eu vi meu vô lançar um olhar enviesado.
— Pode ser um café, Sônia. Você não sabe a saudade que eu tô do seu cafezinho.
— É pra já! — Ela saiu apressada para a cozinha, puxando meu vô junto, para nos deixar a sós.
Um silêncio constrangedor se estendeu pela sala.
— Hmm… — comecei, arrastando o pé pelo chão. — Pode sentar, se quiser.
Puxei uma cadeira à mesa quando ele sentou no sofá.
— A Georgia tá melhor?
Ele assentiu.
— Ela e a Lauren queriam vir, mas ela tem vários exames esta semana, pra confirmar a suspeita da fibromialgia.
Eu duvidava muito. Lauren e Georgia deviam me odiar depois de tudo.
Eu me remexi, desconfortável, lembrando da conversa que havia entreouvido. Roberto parecia estar pensando a mesma coisa.
— Você ouviu a minha conversa com a Lauren, não foi?
Desviei o olhar, mexendo num fiapo solto do assento da cadeira.
— Como você sabe?
— Pelo bilhete que você deixou. “Desculpa por ter estragado a paz da família perfeita.” — Eu corei ao ouvir minha própria frase sendo dita em voz alta. — Não acha que exagerou um pouquinho?
Respirei fundo, tentando manter o temperamento controlado, mas a raiva nem chegou a vir. Eu estava cansada. Tudo o que restava em meu peito era uma sensação de estranhamento.
Como um bebê vindo ao mundo — tudo era novo e diferente.
Desconhecido.
— Acho que eu tinha esse direito — falei simplesmente.
Ele assentiu.
— Acho que sim. — Roberto olhou para as mãos, entrelaçadas no colo. — Sinto muito que você tenha ouvido aquilo. Espero que saiba que a Lauren não pensa assim de verdade. Ela só estava preocupada com a Georgia e acabou falando besteira.
— Eu sei — admiti, baixinho.
— A nossa casa está aberta pra você. Nós queremos que você volte. Eu balancei a cabeça.
— Não acho que eu possa voltar.
— Por que não?
Eu o encarei e, pela primeira vez, senti que tínhamos uma abertura. Que poderíamos falar do grande tabu que estava sempre entre nós.
— Porque eu não consigo perdoar você — confessei, a voz saindo num fiapo. Era tão esquisito poder dizer em voz alta tudo o que passara dez anos pensando. — Na verdade, nem sei se você se arrepende. Você nunca veio conversar comigo. Nunca veio me contar seu lado da história. — Eu hesitei, me preparando para a verdadeira confissão. — Você sabe como foi quando descobri que nós não íamos mais pra Inglaterra porque você tinha arranjado outra família? Sabe como eu me senti quando liguei pra você e ouvi a Georgia te chamar de pai? — Minha voz tremeu um pouco. — Eu me senti traída. Me senti abandonada. E
tinha sido mesmo. Você nem queria saber de mim, como eu estava crescendo. Não veio me visitar uma vez sequer. Um dia eu tinha um pai, e de repente não tinha mais. — Mordi o lábio quando uma lágrima escorreu. — E aí quando minha mãe morreu, meu mundo desmoronou. E eu lembro de pensar “por que ela? Por que não o Roberto?”.
Roberto voltou a olhar para as mãos, mas percebi que seus olhos estavam marejados.
— Eu queria que vocês tivessem uma vida boa — ele começou a dizer, e eu prendi a respiração. — Nunca tive a intenção de deixar vocês duas pra trás, a sua mãe sabia disso. Eu queria juntar dinheiro suficiente pra levar vocês. Conseguir um bom trabalho, uma casa pra morar. Mas arranjar emprego foi mais difícil do que eu imaginava, e eu comecei a achar que o problema era comigo. Todos os amigos que fiz lá estavam conseguindo alguma coisa, e eu… eu fui ficando pra trás. — Ele pigarreou quando sua voz fraquejou. — Não consegui levar vocês, mas não queria voltar como um fracassado. Só que eu me sentia muito sozinho. Pedi que sua mãe juntasse dinheiro e fosse pra lá assim
que conseguisse, mas ela começou a ficar receosa. Eu não a culpo. Nunca passei segurança pra ela, e com o tempo comecei a ligar cada vez menos, temendo que ela sentisse o medo na minha voz. E aí um dia ela me ligou e disse que não ia mais.
Que, se eu quisesse continuar com a nossa família, eu deveria voltar pro Brasil. Depois disso… — Roberto respirou fundo. — Eu comecei a beber muito. Não sabia o que fazer. Estava desempregado, sem dinheiro pra voltar, longe da minha família. E
aí um dia eu saí pra beber e acabei provocando um acidente. Fui parar na Corte britânica e tive que pedir ajuda pra uns amigos brasileiros. Foi assim que conheci a Lauren. O primo dela é advogado, e ele aceitou me representar. Logo depois, ela me ajudou a conseguir um trabalho fixo. E eu acabei ficando. Eu não queria voltar.
Engoli em seco, mas a saliva ficou presa na garganta. Sentia como se alguém comprimisse meu coração.
— Eu… eu entendo que você e minha mãe não tenham dado certo — falei, fungando. — Mas isso não justifica você ter sumido da minha vida.
Roberto balançou a cabeça.
— Eu sei que não. Não estou dizendo nada disso pra me justificar. Só quero que você saiba que eu nunca deixei de pensar em você, nem um segundo da minha vida. Mas fui um covarde.
— As lágrimas escorriam abertamente pelo rosto dele. — Não queria que você e sua mãe vissem o que me tornei, não queria ser esse tipo de pai. E você era tão pequena, era muito difícil falar com você, e ainda não existia essa tecnologia toda de videochamada. Eu não estive do seu lado quando você precisava de mim e, pra aguentar a culpa, comecei a dizer a mim mesmo que era melhor assim. Que você não precisava de um pai como eu. — Ele deixou escapar um soluço, e eu baixei o rosto para lutar contra as lágrimas. Ouvir aquilo tudo era muito mais difícil do que eu havia imaginado. — Foi por isso que, quando casei com a Lauren, tentei ser o melhor pai que eu podia pra Georgia.
Acho que foi minha forma de compensar. — Roberto ergueu os olhos cheios de lágrimas para mim. — Eu não tô pedindo que você me perdoe. Só não quero que pense que não foi amada. Eu
te amo muito, nunca deixei de amar. Mas eu também sou humano. Não sou perfeito, e é difícil entender que, quando você se torna pai, as suas atitudes podem impactar tanto a vida de alguém, de um ser tão pequeno como você era. E eu fiz, na época, o que pensava que fosse o melhor. Depois, com a Lauren e a Georgia, é que comecei a perceber o quanto eu estava errado. Mas aí eu já não sabia mais como consertar. A Lauren sempre me lembrava de ligar e, quando você me pedia alguma coisa, ela me ajudava a escolher o melhor que eu pudesse dar.
Eu fui covarde. Tão covarde que, quando você foi pra lá, eu não sabia mais como agir. E disso eu me arrependo muito. Me dói muito que você não tenha se sentido amada. Porque em nenhum momento você deixou de ser.
Eu não disfarçava mais o choro, e mal notei quando Roberto se aproximou. Ele se agachou ao meu lado e segurou minhas mãos.
— Eu entendo, entendo de verdade — falei, tentando controlar as lágrimas. — Mas não sei se consigo perdoar. Não é tão fácil assim.
— Eu não tô pedindo perdão. Só queria uma chance de tentar ser um pai melhor. De te dar tudo o que não dei nos últimos anos. — Ele levou uma das mãos ao meu rosto. — Você me dá essa chance? Volta comigo pra Londres?